Os professores
Anotações de diário:
20 de dezembro de 2006
Uma das piores coisas que pode acontecer com um brasileiro no exterior é um fenômeno chamado: desbrasileiração. Para os indivíduos que realmente têm planos de voltar à patria amada, a desbrasileiração pode trazer sérios danos ao estilo de vida e cotidiano dentro do perímetro verde e amarelo. Claro que se o imigrante em questão quiser passar o resto da sua vida no exterior, a desbrasileiração passa a ser vital e bem-vinda. Os primeiros sintomas de desbrasileiraçãp: parada súbita do ato de furar fila, baixo desempenho com o jeitinho e perda da capacidade de tirar vantagem de tudo. Em alguns casos mais sérios o imigrante pode apresentar mal-funcionamento do dispositivo da malandragem, causando sérios prejuízos financeiros e morais. O ministério da saúde adverte: a perda da malandragem pode ser extremamente danosa e, em alguns casos, irreversível.
Uma coisa que me irrita quando brasileiro se reúne é que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Foi Diego que veio me falar desse tal de Ricardo pela primeira vez.
- O cara é louco. Juro, ele não bate bem.
O sujeito ficou famoso no Oceanic por ser um completo e irremediável cabação! Primeiro de tudo o cara só falta pendurar o passaporte italiano no pescoco, vive dizendo que é europeu e que odeia o Brasil, mas na verdade não fala nada de italiano e talvez nunca tenha sequer ido para a Italia, é so mais um dos tantos descendentes que tem o privilégio de tirar a cidadania. Ricardo é na verdade um paulistinha de São Caetano muito metido à besta, não dá nem pra levar o sujeito a sério. Ele é formado em direito por uma dessas uni-não-sei-das-quantas e vive batendo no peito para falar da profissão. Seu jeito bobo e falastrão acabou virando alvo perfeito para a brasileirada. Todos tiram o maior sarro dele que no fim sempre ameaça chamar a imigração se não pararmos:
- Tô ligado que vocês tão tudo ilegal aqui, eu não tenho problema com nada, tenho passaporte italiano. Tô cagando pra vocês.
O mais engracado é que o palerma não fala nada de inglês. Mas nada mesmo! Outro dia ele entrou no banheiro feminino porque tinha achado que o Women era mais parecido com Homem. Ele é do tipinho que gosta de malhar, usa camisetinha tomara-que-me-comam e passa horas na frente do espelho para ajeitar os cabelos loiros.
Mas não dá pra levar o cara a sério!
Beto é um sujeito muito quieto. Às vezes o vejo na cozinha comendo seu sanduíche lentamente, pensando na vida. Ele é gaúcho de Porto Alegre e deve ter uns 40 anos. Descobri que ele era professor de biologia no Brasil e desistiu da carreira para vir trabalhar como pedreiro na New Zealand. Existem outros 2 professores no Oceanic: Zé Luiz, de historia e Lyard, de filosofia. Este último é mais jovem, está na New Zealand mais para aprender inglês, voltar para o Brasil e continuar a dar aula. Já Zé Luiz é como Beto e está aqui para ficar. Ele trabalha numa oficina mecânica e sustenta esposa e filhos no Brasil.
Outro dia conversei com Zé Luiz. Ele é goaino e está no país há mais de um ano. Disse que infelizmente recebe mais como mecânico na New Zealand do que como professor no Brasil:
- O problema da nossa profissão no Brasil é que ninguém respeita. Ser professor virou profissão de dona de casa, de senhoras casadas com PMs ou comerciantes e que querem fazer um dinheirinho para incrementar a renda no fim do mês. Não tem seriedade, não tem compromisso. Eu realmente gostava de dar aula, acreditava muito na profissão, mas o que você pode fazer quando um moleque vira para você e diz que não quer estudar porque o pai dele que nunca estudou ganha duas vezes mais do que o professor otário dele?
Ver o Brasil de fora é muito estranho. Eu sempre soube que a educação era um problema, mas não sabia que era tanto. Você começa a ver o quanto o resto do mundo tem uma visão maior das coisas e o quanto o brasileiro é alheio à realidade. Estamos na época da informação e sempre que entro na internet para checar os principais sites de notícia do meu país, vejo sempre as mesmas coisas: Big Brother, novela, fofocas. E, se procuro mais a fundo, vejo que a corrupção na política continua, que o povo colocou Clodovil, Maluf e Collor na Câmara e que a violência come solta no país. Ou temos um filtro muito grande para desgraças ou o povo é alienado... muito alienado!
Outro dia Lyard estava conversando com Beto no porão. Estavam debatendo sobre política e de como era vergonhoso o PT ter ganhado de novo. Beto falava algo de ter votado no Lula em 2002 quando Ricardo chegou:
- O quê?! Você votou no Lula?
Os dois deram risada, como disse, não dá pra levar a sério um sujeito como Ricardo.
- Sim, votei no Lula
- Você é muito otario, isso sim! Também, professor, só podia ser petista mesmo. A pior raça é petista e professor. Pra mim, é um bando de vagabundo que fica pedindo aumento sem fazer nada... tinham que matar tudo que é petista e professor. Como se isso lá fosse profissão.
Os dois riram um tanto nervosos.
Mas não dá pra levar Ricardo a sério...
...assim como às vezes não dá pra levar o Brasil a sério.
20 de dezembro de 2006
Uma das piores coisas que pode acontecer com um brasileiro no exterior é um fenômeno chamado: desbrasileiração. Para os indivíduos que realmente têm planos de voltar à patria amada, a desbrasileiração pode trazer sérios danos ao estilo de vida e cotidiano dentro do perímetro verde e amarelo. Claro que se o imigrante em questão quiser passar o resto da sua vida no exterior, a desbrasileiração passa a ser vital e bem-vinda. Os primeiros sintomas de desbrasileiraçãp: parada súbita do ato de furar fila, baixo desempenho com o jeitinho e perda da capacidade de tirar vantagem de tudo. Em alguns casos mais sérios o imigrante pode apresentar mal-funcionamento do dispositivo da malandragem, causando sérios prejuízos financeiros e morais. O ministério da saúde adverte: a perda da malandragem pode ser extremamente danosa e, em alguns casos, irreversível.
Uma coisa que me irrita quando brasileiro se reúne é que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Foi Diego que veio me falar desse tal de Ricardo pela primeira vez.
- O cara é louco. Juro, ele não bate bem.
O sujeito ficou famoso no Oceanic por ser um completo e irremediável cabação! Primeiro de tudo o cara só falta pendurar o passaporte italiano no pescoco, vive dizendo que é europeu e que odeia o Brasil, mas na verdade não fala nada de italiano e talvez nunca tenha sequer ido para a Italia, é so mais um dos tantos descendentes que tem o privilégio de tirar a cidadania. Ricardo é na verdade um paulistinha de São Caetano muito metido à besta, não dá nem pra levar o sujeito a sério. Ele é formado em direito por uma dessas uni-não-sei-das-quantas e vive batendo no peito para falar da profissão. Seu jeito bobo e falastrão acabou virando alvo perfeito para a brasileirada. Todos tiram o maior sarro dele que no fim sempre ameaça chamar a imigração se não pararmos:
- Tô ligado que vocês tão tudo ilegal aqui, eu não tenho problema com nada, tenho passaporte italiano. Tô cagando pra vocês.
O mais engracado é que o palerma não fala nada de inglês. Mas nada mesmo! Outro dia ele entrou no banheiro feminino porque tinha achado que o Women era mais parecido com Homem. Ele é do tipinho que gosta de malhar, usa camisetinha tomara-que-me-comam e passa horas na frente do espelho para ajeitar os cabelos loiros.
Mas não dá pra levar o cara a sério!
Beto é um sujeito muito quieto. Às vezes o vejo na cozinha comendo seu sanduíche lentamente, pensando na vida. Ele é gaúcho de Porto Alegre e deve ter uns 40 anos. Descobri que ele era professor de biologia no Brasil e desistiu da carreira para vir trabalhar como pedreiro na New Zealand. Existem outros 2 professores no Oceanic: Zé Luiz, de historia e Lyard, de filosofia. Este último é mais jovem, está na New Zealand mais para aprender inglês, voltar para o Brasil e continuar a dar aula. Já Zé Luiz é como Beto e está aqui para ficar. Ele trabalha numa oficina mecânica e sustenta esposa e filhos no Brasil.
Outro dia conversei com Zé Luiz. Ele é goaino e está no país há mais de um ano. Disse que infelizmente recebe mais como mecânico na New Zealand do que como professor no Brasil:
- O problema da nossa profissão no Brasil é que ninguém respeita. Ser professor virou profissão de dona de casa, de senhoras casadas com PMs ou comerciantes e que querem fazer um dinheirinho para incrementar a renda no fim do mês. Não tem seriedade, não tem compromisso. Eu realmente gostava de dar aula, acreditava muito na profissão, mas o que você pode fazer quando um moleque vira para você e diz que não quer estudar porque o pai dele que nunca estudou ganha duas vezes mais do que o professor otário dele?
Ver o Brasil de fora é muito estranho. Eu sempre soube que a educação era um problema, mas não sabia que era tanto. Você começa a ver o quanto o resto do mundo tem uma visão maior das coisas e o quanto o brasileiro é alheio à realidade. Estamos na época da informação e sempre que entro na internet para checar os principais sites de notícia do meu país, vejo sempre as mesmas coisas: Big Brother, novela, fofocas. E, se procuro mais a fundo, vejo que a corrupção na política continua, que o povo colocou Clodovil, Maluf e Collor na Câmara e que a violência come solta no país. Ou temos um filtro muito grande para desgraças ou o povo é alienado... muito alienado!
Outro dia Lyard estava conversando com Beto no porão. Estavam debatendo sobre política e de como era vergonhoso o PT ter ganhado de novo. Beto falava algo de ter votado no Lula em 2002 quando Ricardo chegou:
- O quê?! Você votou no Lula?
Os dois deram risada, como disse, não dá pra levar a sério um sujeito como Ricardo.
- Sim, votei no Lula
- Você é muito otario, isso sim! Também, professor, só podia ser petista mesmo. A pior raça é petista e professor. Pra mim, é um bando de vagabundo que fica pedindo aumento sem fazer nada... tinham que matar tudo que é petista e professor. Como se isso lá fosse profissão.
Os dois riram um tanto nervosos.
Mas não dá pra levar Ricardo a sério...
...assim como às vezes não dá pra levar o Brasil a sério.


1 Comments:
Oi Thiago!
Isso que vc falou é bem verdade... tem uns pagando de malandro, tem outros por necessidade, alguns para ganhar experiência e no Brasil, nada mudou e tá ruim pra todo mundo..
Saudades suas
Carolzinha
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Anônimo, at 3/09/2007 04:42:00 PM
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