A Noite Mágica de Natal
Primeiro ceiaram os chilenos. Fizeram uma grande ceia, brindaram e saíram para a rua festejar. Susu, a japonesa, havia me convidado para jantar junto com ela e um outro irlandês que nunca vira na vida, presumi que os brasileiros nao fariam nada de especial e acabei aceitando. Comemos, conversamos e nesse meio tempo os argentinos começaram a ceiar. Eles ligaram o Ipod numas caixas acústicas brancas e encheram o porão com música: Bob Marley, Manu Chao, Jimi Hendrix. Ceiaram com vinho e pernil. Estavam todos bem-arrumados, as garotas maquiadas e perfumadas.
Depois de algumas horas os primeiros brasileiros começaram a chegar. Ricardo apareceu vestindo sua roupinha de Natal, todo penteadinho e de sapatinho novo. Logo depois desceram os baianos, os mineiros, os paulistas e os goianos.
Nesse momento ficaram todos na sala, argentinos, brasileiros e algums moradores como Ash, Robert e Abdu. Francisco, o argentino, perguntou se eu queria fumar com ele e seus camaradas... achei melhor não, afinal era noite de Natal. Mas alguns minutos depois todo mundo ficou bêbado e fumado, resolvi voltar atrás na decisão e procurar o argentino:
- Muy tarde bolhudo, nosotros ya fumamos tudo.
Mas Bida, um brasileiro do Guarujá, disse que tinha um pouco e dividiria comigo se eu arrumasse duas argentina gostosas para fumar junto. Achei a proposta absurda, mas por coincidência, algumas horas depois, duas argentinas lindas chegaram pra mim e perguntaram se eu conhecia algum brasileiro que tinha fumo.
Estávamos indo os quatro, quando Francisco chega e pergunta se pode ir junto:
- Por supuesto huevon!
Mas Bida não gostou da idéia:
- Que cê tá fazendo, mano? Vai quebrar a roda, tamo com duas gata, cê vai bota um mané no meio?
Aí ele virou pro argentino e fez um sinal de negativo com a mão:
- No, no... vaza, vaza!
Não sabia onde enfiar a cara, o filho-da-puta não queria dividir nem um baseado na noite de Natal!? Ainda mais com o argentino que sempre fumava com a gente. Fiquei muito envergonhado. E o argentino muito puto:
- Concha su madre, que brasilero culiado de mierda.
Os dois quase saíram na mão, se xingaram em plena noite de Natal por causa de um baseadinho. Acabei jogando uns panos quentes, dei uma cerveja para Bida e tentei mudar de assunto:
- Muy culiado este brasileiro. Que se cre? pensa que vai culiar com las chicas argentinas. Maricón de mierda!
Bida foi fumar sozinho com as duas garotas, claro que não fui junto. Elas não ouviram a briga, estavam mais adiante e muito chapadas para saber o que se passava em volta. No fim as argentinas voltaram pra sala, beijaram outros argentinos na frente de Bida e ainda olharam para ele rindo. Bida ficou com cara amarrada a noite inteira e foi dormir mais cedo.
Mais tarde os argentinos saíram todos para a balada. Nenhum brasileiro tinha dinheiro para festejar a noite fora, acabaram ficando todos na mesa. Telemar disse que ia pegar um som para tocar umas músicas. Subiu e desceu com um estéreo muito antigo.
Ele e Zé Luíz tentaram ligar.
Os brasileiros sentaram-se na mesa em que os argentinos estavam sentados antes. Robert e Abdu, o maori e o paquistanês, juntaram-se ao grupo. Os dois também não tinham para onde ir na noite de Natal e resolveram sentar-se com os brasileiros. Um pouco mais ao longe Susu e dois amigos japoneses conversavam no sofá em frente a TV.
Telemar e Zé Luíz continuavam a mexer no som tentando ligá-lo.
Abdu sacou uma câmerazinha fotográfica bem velha e perguntou se podia bater uma foto com os brasileiros. Era sua noite de Natal na New Zealand e, muito provavelmente, ele queria ter uma recordação. Os brasileiros se emparelharam ao lado do paquistanês soltando frases como: "ae fedor!", "diga x cheiroso".
Flash!
Telemar e Zé Luíz ainda mexiam no rádio. Levantei para ver se podia ajudar:
- Bah, de quem é esse som?
- É meu uai, achei no lixo aqui perto.
- No lixo, Telemar?
- É ué, tá aí novinho.
Não conseguimos ligar o som. Após alguns segundos desisti de tentar, e me pus a olhar os CDs de Telemar: Mastrus com Leite, Aviões do Forró, Calipso, por alguns segundos rezei para aquele som nunca pegar. O mais estranho para mim, no entanto, era olhar aquela coleção de CD piratas, fazia tanto tempo que não via aquilo.
Telemar continuou a mexer nos botões.
Valtinho sentou-se na ponta da mesa e esbarrou numa sacola:
- Eita nóis... pérai, pérai todo mundo!
Todos olharam para Valtinho:
- Olha aqui o que o Papai Noel deixou pá nóis!
E o baiano jogou na mesa uma sacola cheia de chocolates. A brasileirada toda bateu palma e correu para abrir as embalagens. Um saquinho de confete explodiu enchendo a mesa com o doce colorido. Quase no mesmo instante Telemar conseguiu ligar o som.
Chegou, virou, botou pressão/ Balançou, balançou/ Swing de tremer o chão/ Isso é Calypso
Peguei um papelzinho de chocolate da mesa e li assustado as palavras: made in Argentina. Tentei chamar a atenção do povo:
- Ei, pessoal, acho que esse chocolate é dos argentinos.
Mas ninguém ouviu, o forró comia solto e o chocolate era farto na mesa.
A mulher de Telemar dançava, o povo bebia, e os japoneses tampavam o ouvido do outro lado da sala.
Nisso uma argentina adentra o recinto. Ela olha desconfiada para a mesa, mas prefere não acreditar no que está vendo. Ela segue em direção ao local onde Valtinho estava sentado:
- Sorry... there were some chocolates there, do you know where are they?
- Desculpe...Tinha uns chocolates ali, sabe onde estão?
Todos olharam para mim:
Não disse nada.
É impossível descrever a cara de vergonha com que os brasileiros olharam a argentina. Tava na cara o que tinha acontecido, mas ninguém queria explicar a situação, e ela queria ouvir de nós o triste fim de seus chocolates argentinos. Eu não sabia o que fazer, não sabia onde me enfiar. Talvez coubesse a mim tentar explicar a situação, pelo menos eu acho que era o que todos esperavam. Mas pela primeira vez na vida me senti paralizado pela vergonha. Resolvi ficar quieto sem dizer nada, só olhei para o chão e rezei para que a terra me engolisse.
A pobre argentina chorou, e, para nosso desespero, o fez copiosamente! Nesse meio tempo chegaram outros argentinos e perguntaram o que acontecera:
- Los brasileros comeram todo chocolate que yo trouxera para Jasmin.
Dor... pela primeira vez na vida senti dor de tanta vergonha.
- Ok. Sorry! Sorry very much!
Era Zé Luíz que levantara como um herói e tentara contornar a situação. Ele falou um portunhol misturado com inglês e conseguiu resolver a situação. Disse que tínhamos bebido demais, que perderamos as estribeiras e que pagaríamos pelo prejuízo. O goiano tirou uma nota de 20 dólares da carteira e deu para a garota. Ela limpou as lágrimas, pegou o dinheiro e saiu.
Por alguns segundos o silêncio imperou na sala. Todos estavam tentando entender e assimilar a situação. Foi quando Ricardo soltou:
- Ah, argentinos de merda! Sempre pensam que são melhores que nós.
Alguns concordaram, outros ficaram quietos e Telemar ligou de novo o som:
Deixa a guitarra swingar/Dirim, dirim, dirim, dom/E o som bater no coração/Dim, dim, dom/O toque é bom pra se dançar/Dirim, dirim, dirim, dom/E bata na palma da mão/Dim, dim, dom
Ainda estava paralisado de vergonha no meu lugar. Era algo violento, sentia minha pele pegar fogo e tive muita vergonha de ser brasileiro naquele momento. Mas não tive vergonha pelos meus compatriotas, não, o motivo principal de tanta agonia, sofrimento e desgosto vinha de dentro, literalmente. O que mais doeu era saber que em algum lugar dentro do meu estômago estava a prova do crime...
... e eu ainda podia sentir na boca o gostinho!
Depois de algumas horas os primeiros brasileiros começaram a chegar. Ricardo apareceu vestindo sua roupinha de Natal, todo penteadinho e de sapatinho novo. Logo depois desceram os baianos, os mineiros, os paulistas e os goianos.
Nesse momento ficaram todos na sala, argentinos, brasileiros e algums moradores como Ash, Robert e Abdu. Francisco, o argentino, perguntou se eu queria fumar com ele e seus camaradas... achei melhor não, afinal era noite de Natal. Mas alguns minutos depois todo mundo ficou bêbado e fumado, resolvi voltar atrás na decisão e procurar o argentino:
- Muy tarde bolhudo, nosotros ya fumamos tudo.
Mas Bida, um brasileiro do Guarujá, disse que tinha um pouco e dividiria comigo se eu arrumasse duas argentina gostosas para fumar junto. Achei a proposta absurda, mas por coincidência, algumas horas depois, duas argentinas lindas chegaram pra mim e perguntaram se eu conhecia algum brasileiro que tinha fumo.
Estávamos indo os quatro, quando Francisco chega e pergunta se pode ir junto:
- Por supuesto huevon!
Mas Bida não gostou da idéia:
- Que cê tá fazendo, mano? Vai quebrar a roda, tamo com duas gata, cê vai bota um mané no meio?
Aí ele virou pro argentino e fez um sinal de negativo com a mão:
- No, no... vaza, vaza!
Não sabia onde enfiar a cara, o filho-da-puta não queria dividir nem um baseado na noite de Natal!? Ainda mais com o argentino que sempre fumava com a gente. Fiquei muito envergonhado. E o argentino muito puto:
- Concha su madre, que brasilero culiado de mierda.
Os dois quase saíram na mão, se xingaram em plena noite de Natal por causa de um baseadinho. Acabei jogando uns panos quentes, dei uma cerveja para Bida e tentei mudar de assunto:
- Muy culiado este brasileiro. Que se cre? pensa que vai culiar com las chicas argentinas. Maricón de mierda!
Bida foi fumar sozinho com as duas garotas, claro que não fui junto. Elas não ouviram a briga, estavam mais adiante e muito chapadas para saber o que se passava em volta. No fim as argentinas voltaram pra sala, beijaram outros argentinos na frente de Bida e ainda olharam para ele rindo. Bida ficou com cara amarrada a noite inteira e foi dormir mais cedo.
Mais tarde os argentinos saíram todos para a balada. Nenhum brasileiro tinha dinheiro para festejar a noite fora, acabaram ficando todos na mesa. Telemar disse que ia pegar um som para tocar umas músicas. Subiu e desceu com um estéreo muito antigo.
Ele e Zé Luíz tentaram ligar.
Os brasileiros sentaram-se na mesa em que os argentinos estavam sentados antes. Robert e Abdu, o maori e o paquistanês, juntaram-se ao grupo. Os dois também não tinham para onde ir na noite de Natal e resolveram sentar-se com os brasileiros. Um pouco mais ao longe Susu e dois amigos japoneses conversavam no sofá em frente a TV.
Telemar e Zé Luíz continuavam a mexer no som tentando ligá-lo.
Abdu sacou uma câmerazinha fotográfica bem velha e perguntou se podia bater uma foto com os brasileiros. Era sua noite de Natal na New Zealand e, muito provavelmente, ele queria ter uma recordação. Os brasileiros se emparelharam ao lado do paquistanês soltando frases como: "ae fedor!", "diga x cheiroso".
Flash!
Telemar e Zé Luíz ainda mexiam no rádio. Levantei para ver se podia ajudar:
- Bah, de quem é esse som?
- É meu uai, achei no lixo aqui perto.
- No lixo, Telemar?
- É ué, tá aí novinho.
Não conseguimos ligar o som. Após alguns segundos desisti de tentar, e me pus a olhar os CDs de Telemar: Mastrus com Leite, Aviões do Forró, Calipso, por alguns segundos rezei para aquele som nunca pegar. O mais estranho para mim, no entanto, era olhar aquela coleção de CD piratas, fazia tanto tempo que não via aquilo.
Telemar continuou a mexer nos botões.
Valtinho sentou-se na ponta da mesa e esbarrou numa sacola:
- Eita nóis... pérai, pérai todo mundo!
Todos olharam para Valtinho:
- Olha aqui o que o Papai Noel deixou pá nóis!
E o baiano jogou na mesa uma sacola cheia de chocolates. A brasileirada toda bateu palma e correu para abrir as embalagens. Um saquinho de confete explodiu enchendo a mesa com o doce colorido. Quase no mesmo instante Telemar conseguiu ligar o som.
Chegou, virou, botou pressão/ Balançou, balançou/ Swing de tremer o chão/ Isso é Calypso
Peguei um papelzinho de chocolate da mesa e li assustado as palavras: made in Argentina. Tentei chamar a atenção do povo:
- Ei, pessoal, acho que esse chocolate é dos argentinos.
Mas ninguém ouviu, o forró comia solto e o chocolate era farto na mesa.
A mulher de Telemar dançava, o povo bebia, e os japoneses tampavam o ouvido do outro lado da sala.
Nisso uma argentina adentra o recinto. Ela olha desconfiada para a mesa, mas prefere não acreditar no que está vendo. Ela segue em direção ao local onde Valtinho estava sentado:
- Sorry... there were some chocolates there, do you know where are they?
- Desculpe...Tinha uns chocolates ali, sabe onde estão?
Todos olharam para mim:
Não disse nada.
É impossível descrever a cara de vergonha com que os brasileiros olharam a argentina. Tava na cara o que tinha acontecido, mas ninguém queria explicar a situação, e ela queria ouvir de nós o triste fim de seus chocolates argentinos. Eu não sabia o que fazer, não sabia onde me enfiar. Talvez coubesse a mim tentar explicar a situação, pelo menos eu acho que era o que todos esperavam. Mas pela primeira vez na vida me senti paralizado pela vergonha. Resolvi ficar quieto sem dizer nada, só olhei para o chão e rezei para que a terra me engolisse.
A pobre argentina chorou, e, para nosso desespero, o fez copiosamente! Nesse meio tempo chegaram outros argentinos e perguntaram o que acontecera:
- Los brasileros comeram todo chocolate que yo trouxera para Jasmin.
Dor... pela primeira vez na vida senti dor de tanta vergonha.
- Ok. Sorry! Sorry very much!
Era Zé Luíz que levantara como um herói e tentara contornar a situação. Ele falou um portunhol misturado com inglês e conseguiu resolver a situação. Disse que tínhamos bebido demais, que perderamos as estribeiras e que pagaríamos pelo prejuízo. O goiano tirou uma nota de 20 dólares da carteira e deu para a garota. Ela limpou as lágrimas, pegou o dinheiro e saiu.
Por alguns segundos o silêncio imperou na sala. Todos estavam tentando entender e assimilar a situação. Foi quando Ricardo soltou:
- Ah, argentinos de merda! Sempre pensam que são melhores que nós.
Alguns concordaram, outros ficaram quietos e Telemar ligou de novo o som:
Deixa a guitarra swingar/Dirim, dirim, dirim, dom/E o som bater no coração/Dim, dim, dom/O toque é bom pra se dançar/Dirim, dirim, dirim, dom/E bata na palma da mão/Dim, dim, dom
Ainda estava paralisado de vergonha no meu lugar. Era algo violento, sentia minha pele pegar fogo e tive muita vergonha de ser brasileiro naquele momento. Mas não tive vergonha pelos meus compatriotas, não, o motivo principal de tanta agonia, sofrimento e desgosto vinha de dentro, literalmente. O que mais doeu era saber que em algum lugar dentro do meu estômago estava a prova do crime...
... e eu ainda podia sentir na boca o gostinho!


4 Comments:
Quer dizer que você, meliante por natureza, cometeu um crime na noite de natal, roubando chocolates (deliciosos, diga-se de passagem) da pobre moça portenha? Kkkkkkkkkk
Isso me fez viajar total agora! Vou provar pra vc que eu tô mais louca que o Romário depois de ler esse seu post:
Lembra da TV colosso? Então, lá tinha o Roberval, o ladrão de chocolates .... lembrou? Mas o mais impressionante é que o amigo do Roberval, que eu não lembro o nome, era um cachorro que quando ia contar um caso começava assim: “Lá na Nova Zelandia...”
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk VIAGEM TOTAL!
Tô bem louca! Faz um tempo ae, que eu vou roubar uns chocolates por aki...
Bjo
Rita
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Rita, at 3/20/2007 01:55:00 PM
Thiagão,
sua descrição é muito boa! Parece até que eu também estava lá. Os detalhes são muito bem colocados,sem serem cansativos, me transportei total para a noite de natal na Nova Zelândia! Parabéns! Beijos, Nathalia
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Anônimo, at 3/20/2007 10:27:00 PM
Nossa a Rita ta precisando de vc urgentemente... tv colosso.. volta Thiago... ela ta precisando de vc!!! hauahau!!
Bom escrevi so pra confirmar minha presenca diaria no seu blog viu?!
Keep writing!!!
xox!!
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LLI LLI, at 3/21/2007 03:42:00 PM
mas logo vc, viajante experiente, esperto, foi cair nas ciladas dos brasileiros no exterior.. ó céus!
Carolzinha
PS: vc não pode dizer que eu não avisei..
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Anônimo, at 3/22/2007 05:01:00 PM
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