No submundo de Auckland
Anotações de diário:
23 de dezembro de 2006
Abdu é paquistanês. Ele mora sozinho num dos quartos do Oceanic. O sujeito é mais velho, está na casa dos 50 e trabalha na cidade durante a noite. Abdu não tem amigos, está sempre sozinho, mas sempre cumprimenta todo mundo quando desce para comer sua janta. Ele usa um perfume paquistanês muito forte que os brasileiros deduziram como sendo fedor natural. Abdu sempre sorri educadamente para os brasileiros que tampam o nariz assim que ele passa. "Ê, fedô!" dizem alguns.
Um pouco antes do Natal, Tom partiu para trabalhar na colheita em Napier. Tom era meu melhor amigo na cidade, ele havia insistido um bocado para que eu ficasse por lá durante o Natal e depois ambos viajaríamos pra onde quer que fosse. Mas algo misterioso o fez mudar de idéia e partir antes do planejado. Desconfio que tenha sido porque o ambiente ficava cada vez mais pesado.
Eu deveria ter ido embora, mas queria passar o Natal com os brasileiros. O fim de ano não estava sendo fácil, a saudade aumenta muito nessa época e ficar com meu povo e falar minha língua ajudaria a matar essa carência. No entanto estava sem trabalhar e, fora escrever, não fazia nada durante o dia inteiro. Com o tempo acabei mergulhando no submundo de Auckland.
Cyber Café
Durante o tempo que antecedeu o Natal me dediquei com afinco ao blogue. Todos os dias cruzava a Anzac St. até a Madison St. e chegava ao Knight Brothers, um cyber café nas imediações. Os donos do Knight Brothers eram, é claro, chineses. O atrativo do lugar é o preco: 2 dólares por hora, mas se você comprar um plano pode usar 50 horas por 50 dólares, apenas 1 dólar por hora. O fato é que o Knight Brothers é uma porcaria de lugar. Fica num porão, embaixo de uma cafeteria e cheira a mijo. O banheiro do lugar é inutilizável, se estou escrevendo e preciso urinar tenho que me locomover até o Fat Camel, um bar que fica ao lado. Lá dentro as paredes são todas pichadas e o chão é grudento de tão sujo.
À noite o Knight Brothers é ainda mais assustador, já que nessa hora a internet também funciona como ponto de drogas, vários maoris bem ao estilinho rapper americanos se drogam em frente a turistas assutados e desavisados. Tem um gordão que se deita na cadeira bem ao lado do banheiro, se pica todo e dorme sonhos intranqüilos fazendo um barulho estranho. Misturado ao maoris estão os chineses que passam a noite jogando aquela merda de joquinhos que eles jogam... um tal de Counter-Strike.
O dono da internet é um chinês feio pra caralho, parece que lhe tacaram fogo na cara e apagaram com um martelo. Desconfio que deva ter um acordo secreto entre ele e os traficantes. Os maoris estão sempre lá bagunçando, às vezes tenho que desistir de escrever porque gritam e fazem muita zona. Ao mesmo tempo o chinês não faz nada. Fica calado e finge que nada está acontecendo.
Já as mocinhas são duas chinesinhas. São bonitinhas até e se revesam na recepção. Uma delas tem uma voz irritante, está sempre gritando coisas em chinês, quando ela começa, tenho que tapar o ouvido. Não sei qual é a relação delas com o chinês dono do negócio, mas desconfio que não seja somente negócios. Um dia fui de madrugada para usar a internet, ela funciona 24 horas, e encontrei a grade fechada com um bilhete: "Sorry, CLOSE. open tomorrow 8 am". Me aproximei da grade e uma luz negra iluminou meu rosto. Lá dentro alguns gritos de mulheres e um barulho de chicote davam o tom. Não consegui ver nada, minha visão só conseguiu pegar um chinês que jogava aquelas porcarias de joguinhos de tiro mais ao canto... alheio a tudo o que acontecia a sua volta.
Ash
Dentre os moradores do Oceanic, Ash é o único kiwi. E ele é bem típico: usa um bonézinho preto com a aba reta virada para o lado, bermudão e camisa listrada. Igual a maioria da molecadinha kiwi.
A primeira vez que conversei com Ash foi no porão. Ele veio perguntar se eu queria fumar maconha com ele. Recusei o convite, e ele me ofereceu algumas cervejas. Bebemos no seu quarto, o lugar era uma sujeira, quase pior do que o quarto 37. Ash deu uns pegas e começou a contar sua vida. Ele tinha apenas 22 anos e tinha um filho com uma japonesa pra criar.
Ash não faz o tipo violento, na verdade faz mais o tipinho carente, assustado com o mundo. Ele tenta a todo custo fazer amizades com o pessoal no backpack, mas a barreira da língua e os costumes acabam esbarrando nas suas boas intenções. Ele tem mania de abraçar todo mundo, o que não demorou para ser interpretado pelos brasileiros como um traço de viadagem. No entanto, apesar de toda essa carência, quando criança sua mãe o colocara num internato para crianças violentas.
- I never understand that. I didn't do anything
- Eu nunca entendi isso. Não fiz nada.
Ele começou a falar sobre sua namorada:
- It was very nice, I met her in the street and after we were fucking in her house... I didn't need to do anything, it was very easy.
- Foi muito legal, eu conheci ela na rua e depois estávamos transando na casa dela...Não precisei fazer nada, foi muito fácil.
Ele disse que o filho não foi planejado, mas que ele e a garota faziam sexo sem camisinha de propósito:
- I think she wanted to get pregnant. I don't know why.
- Acho que ela quis ficar grávida. Não sei por quê.
Sua namorada acabou tirando a cidadania neozelandesa e morando em Auckland.
O kiwi perdeu seus últimos 3 empregos, não consegue achar trabalho em lugar nenhum e se mantém com um seguro desemprego de mais ou menos 200 dólares por semana.
Como já escrevi aqui antes, na Nova Zelândia é quase que obrigatório sair de casa após os dezoito anos. Com Ash não foi diferente, sua mãe o tocou pra fora quando completou a maioridade e nunca mais ligou, nem para dar os parabéns no aniversário.
- Fuck, what did you do to your mother?
- Porra, o que você fez pra sua mãe?
- Nothing, man. I swear that I didn't do anything.
- Nada, cara. Juro que não fiz nada.
- Fuck, and she never calls you?
- Caralho, e ela nunca liga pra você?
- I know what you mean... the families here in New Zealand are shit! I heard that you have a good family in South America. Maybe that's why you're so surprise with my mom.
- Te entendo...as famílias aqui na Nova Zelândia são uma merda! Ouvi que você tem uma boa família na América do Sul. Talvez é por isso que você está tão surpreso com minha mãe.
Descemos para a cozinha. Varios latinos falavam em espanhol, alguns me chamaram para conversar. Ash sentou-se em frente a TV. Era assim que esse kiwi levava seus dias: bebendo, fumando e vendo TV: como um estrangeiro na própria terra.
Os expulsos
Primeiro foi um brasileiro chamado William, paulistano da zona Sul, cheio de marra, o sujeito passava boa parte dos seus dias fumando maconha no quarto 34 do Oceanic. Um dia a portuguesa dona do Hotel descobriu e o chamou para conversar.
- Ou você me paga o dobro do aluguel ou eu chamo a polícia.
Wiliam foi extorquido por algumas semanas, até conseguiu negociar e se mudou para outro backpack.
O segundo foi Paul, o inglês. Paul dormia com Ricardo, o paulistinha de São Caetano com passaporte italiano. Ricardo acabou contando para a portuguesa que o inglês queimava um "cigarrinho do capeta" no dormitóio.
Paul foi expulso.
Por útimo foi Brian, o americano. A portuguesa disse que ia trocar meus lençois e queria ir comigo até o quarto para eu dizer qual era a minha cama. Quando ela entrou quase teve um ataque:
- Mas que bagunça!!!! Como alguém pode viver aqui?
Ela perguntou de quem eram as coisas atiradas por todo quarto:
- É do gringo aí.
Brian estava dormindo na cama, e a portuguesa o acordou:
- Brian, wake up! Pack your things and go to my office.
- Brian, acorde! Arrume suas coisas e vai pro meu escritório.
O engraçado é que o americano se levantou ao tiro e começou a arrumar as malas. Ele nem questionou por que estava sendo mandado embora.
Com certeza não era pelo que estava pensando.
23 de dezembro de 2006
Abdu é paquistanês. Ele mora sozinho num dos quartos do Oceanic. O sujeito é mais velho, está na casa dos 50 e trabalha na cidade durante a noite. Abdu não tem amigos, está sempre sozinho, mas sempre cumprimenta todo mundo quando desce para comer sua janta. Ele usa um perfume paquistanês muito forte que os brasileiros deduziram como sendo fedor natural. Abdu sempre sorri educadamente para os brasileiros que tampam o nariz assim que ele passa. "Ê, fedô!" dizem alguns.
Um pouco antes do Natal, Tom partiu para trabalhar na colheita em Napier. Tom era meu melhor amigo na cidade, ele havia insistido um bocado para que eu ficasse por lá durante o Natal e depois ambos viajaríamos pra onde quer que fosse. Mas algo misterioso o fez mudar de idéia e partir antes do planejado. Desconfio que tenha sido porque o ambiente ficava cada vez mais pesado.
Eu deveria ter ido embora, mas queria passar o Natal com os brasileiros. O fim de ano não estava sendo fácil, a saudade aumenta muito nessa época e ficar com meu povo e falar minha língua ajudaria a matar essa carência. No entanto estava sem trabalhar e, fora escrever, não fazia nada durante o dia inteiro. Com o tempo acabei mergulhando no submundo de Auckland.
Cyber Café
Durante o tempo que antecedeu o Natal me dediquei com afinco ao blogue. Todos os dias cruzava a Anzac St. até a Madison St. e chegava ao Knight Brothers, um cyber café nas imediações. Os donos do Knight Brothers eram, é claro, chineses. O atrativo do lugar é o preco: 2 dólares por hora, mas se você comprar um plano pode usar 50 horas por 50 dólares, apenas 1 dólar por hora. O fato é que o Knight Brothers é uma porcaria de lugar. Fica num porão, embaixo de uma cafeteria e cheira a mijo. O banheiro do lugar é inutilizável, se estou escrevendo e preciso urinar tenho que me locomover até o Fat Camel, um bar que fica ao lado. Lá dentro as paredes são todas pichadas e o chão é grudento de tão sujo.
À noite o Knight Brothers é ainda mais assustador, já que nessa hora a internet também funciona como ponto de drogas, vários maoris bem ao estilinho rapper americanos se drogam em frente a turistas assutados e desavisados. Tem um gordão que se deita na cadeira bem ao lado do banheiro, se pica todo e dorme sonhos intranqüilos fazendo um barulho estranho. Misturado ao maoris estão os chineses que passam a noite jogando aquela merda de joquinhos que eles jogam... um tal de Counter-Strike.
O dono da internet é um chinês feio pra caralho, parece que lhe tacaram fogo na cara e apagaram com um martelo. Desconfio que deva ter um acordo secreto entre ele e os traficantes. Os maoris estão sempre lá bagunçando, às vezes tenho que desistir de escrever porque gritam e fazem muita zona. Ao mesmo tempo o chinês não faz nada. Fica calado e finge que nada está acontecendo.
Já as mocinhas são duas chinesinhas. São bonitinhas até e se revesam na recepção. Uma delas tem uma voz irritante, está sempre gritando coisas em chinês, quando ela começa, tenho que tapar o ouvido. Não sei qual é a relação delas com o chinês dono do negócio, mas desconfio que não seja somente negócios. Um dia fui de madrugada para usar a internet, ela funciona 24 horas, e encontrei a grade fechada com um bilhete: "Sorry, CLOSE. open tomorrow 8 am". Me aproximei da grade e uma luz negra iluminou meu rosto. Lá dentro alguns gritos de mulheres e um barulho de chicote davam o tom. Não consegui ver nada, minha visão só conseguiu pegar um chinês que jogava aquelas porcarias de joguinhos de tiro mais ao canto... alheio a tudo o que acontecia a sua volta.
Ash
Dentre os moradores do Oceanic, Ash é o único kiwi. E ele é bem típico: usa um bonézinho preto com a aba reta virada para o lado, bermudão e camisa listrada. Igual a maioria da molecadinha kiwi.
A primeira vez que conversei com Ash foi no porão. Ele veio perguntar se eu queria fumar maconha com ele. Recusei o convite, e ele me ofereceu algumas cervejas. Bebemos no seu quarto, o lugar era uma sujeira, quase pior do que o quarto 37. Ash deu uns pegas e começou a contar sua vida. Ele tinha apenas 22 anos e tinha um filho com uma japonesa pra criar.
Ash não faz o tipo violento, na verdade faz mais o tipinho carente, assustado com o mundo. Ele tenta a todo custo fazer amizades com o pessoal no backpack, mas a barreira da língua e os costumes acabam esbarrando nas suas boas intenções. Ele tem mania de abraçar todo mundo, o que não demorou para ser interpretado pelos brasileiros como um traço de viadagem. No entanto, apesar de toda essa carência, quando criança sua mãe o colocara num internato para crianças violentas.
- I never understand that. I didn't do anything
- Eu nunca entendi isso. Não fiz nada.
Ele começou a falar sobre sua namorada:
- It was very nice, I met her in the street and after we were fucking in her house... I didn't need to do anything, it was very easy.
- Foi muito legal, eu conheci ela na rua e depois estávamos transando na casa dela...Não precisei fazer nada, foi muito fácil.
Ele disse que o filho não foi planejado, mas que ele e a garota faziam sexo sem camisinha de propósito:
- I think she wanted to get pregnant. I don't know why.
- Acho que ela quis ficar grávida. Não sei por quê.
Sua namorada acabou tirando a cidadania neozelandesa e morando em Auckland.
O kiwi perdeu seus últimos 3 empregos, não consegue achar trabalho em lugar nenhum e se mantém com um seguro desemprego de mais ou menos 200 dólares por semana.
Como já escrevi aqui antes, na Nova Zelândia é quase que obrigatório sair de casa após os dezoito anos. Com Ash não foi diferente, sua mãe o tocou pra fora quando completou a maioridade e nunca mais ligou, nem para dar os parabéns no aniversário.
- Fuck, what did you do to your mother?
- Porra, o que você fez pra sua mãe?
- Nothing, man. I swear that I didn't do anything.
- Nada, cara. Juro que não fiz nada.
- Fuck, and she never calls you?
- Caralho, e ela nunca liga pra você?
- I know what you mean... the families here in New Zealand are shit! I heard that you have a good family in South America. Maybe that's why you're so surprise with my mom.
- Te entendo...as famílias aqui na Nova Zelândia são uma merda! Ouvi que você tem uma boa família na América do Sul. Talvez é por isso que você está tão surpreso com minha mãe.
Descemos para a cozinha. Varios latinos falavam em espanhol, alguns me chamaram para conversar. Ash sentou-se em frente a TV. Era assim que esse kiwi levava seus dias: bebendo, fumando e vendo TV: como um estrangeiro na própria terra.
Os expulsos
Primeiro foi um brasileiro chamado William, paulistano da zona Sul, cheio de marra, o sujeito passava boa parte dos seus dias fumando maconha no quarto 34 do Oceanic. Um dia a portuguesa dona do Hotel descobriu e o chamou para conversar.
- Ou você me paga o dobro do aluguel ou eu chamo a polícia.
Wiliam foi extorquido por algumas semanas, até conseguiu negociar e se mudou para outro backpack.
O segundo foi Paul, o inglês. Paul dormia com Ricardo, o paulistinha de São Caetano com passaporte italiano. Ricardo acabou contando para a portuguesa que o inglês queimava um "cigarrinho do capeta" no dormitóio.
Paul foi expulso.
Por útimo foi Brian, o americano. A portuguesa disse que ia trocar meus lençois e queria ir comigo até o quarto para eu dizer qual era a minha cama. Quando ela entrou quase teve um ataque:
- Mas que bagunça!!!! Como alguém pode viver aqui?
Ela perguntou de quem eram as coisas atiradas por todo quarto:
- É do gringo aí.
Brian estava dormindo na cama, e a portuguesa o acordou:
- Brian, wake up! Pack your things and go to my office.
- Brian, acorde! Arrume suas coisas e vai pro meu escritório.
O engraçado é que o americano se levantou ao tiro e começou a arrumar as malas. Ele nem questionou por que estava sendo mandado embora.
Com certeza não era pelo que estava pensando.


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