Na Gringa
Anotaçães de diário
10 de dezembro de 2006
Auckland é uma cidade agitada, muito diferente do que havia visto na New Zealand até então. Atravessei o país de sul a norte e não vi nenhuma linha de pobreza, nenhum gueto, nenhuma favela, nenhuma pichação... A New Zealand parece uma maquete e tem qualquer coisa de conto de fadas, sempre com suas casinhas certinhas, verde, natureza e ovelhas, muitas ovelhas. No entanto em Auckland vi os primeiros mendigos e traços de pobreza. O concreto se estende e cobre todo o verde do país enquanto prédios jogam sombras na cidade. Auckland é como um câncer que vai crescendo rumo ao sul, vai matando tudo e cobrindo a maquete de cinza. Exatamente como o homem vem fazendo no resto do mundo.
João e Tonico eram muito amigos na Bahia, costumavam chamavam um ao outro de irmão. Tonico não tinha muito dinheiro, era um baiano pobre, filho de mãe solteira e solto no mundo. Ao contrário de João, que vinha de boa família e podia comprar de tudo. No entanto o dinheiro nunca atrapalhou a relação dos irmãos. Os dois sempre saíam juntos para as baladas de Trancoso. Quando Tonico não tinha, João fazia questão de colocar dinheiro no bolso do amigo. Nunca cobrava de volta, sabia bem como era a situação .
Foi então que um dia Tonico levantou com essa idéia maluca de ir para o estrangeiro:
- Rapaz, tá doido, é? Fazer o que lá?
Mas não teve santo que o fizesse mudar de pensamento:
- Vou... e vou mesmo!
Tonico acabou escolhendo a Nova Zelândia. Ele conhecera um sujeito que dissera ser um ótimo país para fazer dinheiro. Tonico pegou grana emprestada de todo mundo, João acabou dando a maior parte. Em Janeiro de 2005 Tonico embarcou sozinho para a Nova Zelândia.
Por muito tempo não se teve notícias de Tonico. Alguns disseram que tinha se dado mal, perdera tudo e estava em dificuldade no exterior, outros acreditavam até mesmo que tinha morrido. Foi então que, mais de um ano depois, ele reapareceu. João checava seus e-mails quando encontrou um convite de Tonico o convidando para ser seu amigo no Orkut. O baiano não podia acreditar quando abriu a página de seu irmãozinho. As fotos no seu álbum mostravam um sujeito que vencera na vida: carro, mulheres, praia, surfe, dinheiro... João encheu o peito de orgulho: por fim o moleque se deu bem!
Mas a vida não seguiu seu rumo em Trancoso. Depois que Tonico reapareceu no Orkut, a pequena cidade baiana nunca mais foi a mesma. As garotas só falavam em Tonico, os homens brindavam ao sujeito e os mais velhos o tratavam como herói. João começou a sentir a pressão em casa. Ele não gostava muito de trabalhar, muito menos de estudar; gostava mesmo era de viajar com sua namorada Letícia. Mas o fantasma de seu amigo no exterior tirara seu sossego:
- Filho, tu tem que se espelhar em Tonico. Veja que homem importante ele é hoje. Até quando tu vai levar essa vida sem futuro?
Ao que parecia, Tonico abrira uma empresa na Nova Zelândia, casara-se com uma nativa e morava num ótimo apartamento em Auckland.
Um dia na praia com seu amigo Valtinho, João confessou:
- Rapaz, num to aguetandu naum. Tá um inferno aquela casa. Vou vazar pro exterior.
- Maaaas Rapaaaz tá doido é? Fazer o que lá?
- Oxe, se Tonico deu certo porque eu não posso dá não?
João convidou Valtinho para ir junto. Os dois tinham a mesma idade, na casa dos 20 anos. O problema era que Valtinho tinha um filho para criar em Trancoso, não queria abandonar o moleque assim.
- Tu vai ganha mais grana no exterior que aqui.
- Vô não homi, num saio da Bahia não!
Os pais de João adoraram a idéia.
- Vá mesmo meu filho. E que Ogum ilumine teu caminho.
João contatou seu amigo pelo Orkut e informou que estava de partida para o país. Seu pai lhe deu quatro mil dólares:
- Fio, se precisa de mais não passe necessidade.
Alguns dias antes de embarcar, Valtinho fez a proposta para João:
- Rapaz, to pensando em ir com tu. Tem como me adianta uma grana pra mim?
Em setembro de 2006 os dois partiram rumo à distante Nova Zelandia.
Maria já estava preocupada. Fazia horas que Pedro trancara-se no quarto falando ao telefone. Ela bem sabia o que era. Desde que perdera o emprego na Telemar, empresa onde trabalhara, Pedro botou a cabeça que queria ir para o exterior. Maria não estava muito contente. Não queria deixar Governador Valadares, já ouvira muita história de gente que não dera certo no exterior. Mas Pedro era insistente... e como era!
Ele recém voltara de viagem, tentara entrar no Canadá, mas terminou preso em Porto Rico e deportado para o Brasil. Tudo começara com aquele mesmo telefonema, naquele mesmo quarto. Pedro achara um homem que agenciava viagens para o exterior, um tal de Hector. O sujeito havia oferecido um passaporte português ao mineiro, quatro mil dolóres, mais a postagem. Com o passaporte português Pedro poderia entrar facilmente no Canadá. Ele tinha um amigo lá esperando por ele, o emprego era garantido e a grana parecia ser alta. O passaporte chegou, Pedro embarcou, mas foi descoberto em Porto Rico, na primeira parada. Passou a noite na cadeia, não conseguiu se explicar, não falava inglês , não falava espanhol, só falava mineirês. Os oficiais acabaram liberando o sujeito de volta ao Brasil, não o ficharam nem o entregaram ao governo Brasileiro.
A segunda tentativa era mais radical. Hector se desculpou pelo visto e disse que cobriria o dinheiro com outro plano de viagem. Dessa vez Pedro tentaria entrar nos EUA... pelo México! Estava tudo acertado, tudo planejado, mas Maria, a mulher de Pedro, implorou para ele não ir. Ela havia visto uma matéria no Jornal Nacional na qual os americanos atiravam para matar nos imigrantes que tentavam cruzar a fronteira ilegalmente. Pedro atendeu aos apelos da mulher e desistiu da idéia.
Mas Hector tinha uma outra alternativa: Nova Zelândia! O país era um dos mais fáceis de entrar, não tinha como dar errado, ele só precisaria pagar mais 6 mil dólares para a escola e acomodação, e o emprego era garantido nas lavouras.
Pedro embarcou.
Tonico esperava por João e Valtinho no aeroporto. Os dois amigos se abraçaram e quase choraram de felicidade. Valtinho esperava no canto, ele não conhecia João, e este quando o viu, perguntou:
- Quem é esse aí?
- Esse é Valtinho, meu amigo.
- Rapaz, tu trouxe outro nego contigo? Pra que homi?
João disse que não tinha lugar para Valtinho na casa, e este acabou dormindo num backpack.
Nos primeiros dias João descobriu que Tonico não estava tão bem assim. De fato ele casara com uma kiwi, mas a mulher era horrível de feia; de fato ele abrira uma empresa, mas ela parecia dar mais prejuízo que lucro e de fato ele morava num belo apartamento, mas era alugado e muito mal localizado. Tonico entrara no negócio de pintura, como costumava dizer. Ele contratava uns pintores, sua mulher arrumava algumas casas e ele pegava o dinheiro, não fazia quase nada o sujeito. Não demorou para João e Valtinho começarem a trabalhar com ele. Dos quatro mil reais que o pai de João lhe dera, Tonico tomou três. Foi tirando o dinheiro: cobrando por ajuda, escola e moradia. João deu de bom grado, ainda estava deslumbrado com o exterior e toda a aura de herói imposta ao amigo, mas Valtinho sacou rápido e desfez laços com o sujeito.
- Valtinho, tu tá é loco. Que tu vai faze sozinho aqui sem fala inglês?
- Rapaz, inglês tu aprende. Só num gosto é de sacanagem.
Depois de um mês João trouxe a namorada, Letícia. Os dois dividiam o aluguel com Tonico e a esposa.
Não demorou para que Letícia descobrisse que o preço total do aluguel era 400 dólares, muito estranho já que ela e João juntos pagavam 320. A garota insistiu para João falar com Tonico:
- Vem cá, Tonico, tem algo errado aqui. Porque nós tamo pagando mais?
- Tem nada não, é que minha esposa não paga.
- Tá, mas por quê?
- Rapaz, tu fica quieto que fui eu que te botei aqui. Num reclama muito não.
Letícia tinha odiado Tonico, insistiu para mudar de casa, brigou diversas vezes com João e ameaçou voltar pro Brasil:
- João, não dá pra ver que o sujeito tá nos roubando não? Acorda homi!
Por fim João resolveu mudar e foi falar com Tonico:
- Como assim mudar? Rapaz, tu vai me deixa na mão, é? Fique sabendo que vai ter que me pagar duas semanas de aluguel se quiser sair.
João pagou. Pagou e ainda procurou um flatmate para Tonico. Letícia colocou avisos em toda a cidade, três casais responderam...
Tonico rejeitou todos:
- Pra que isso, rapaz? Tá querendo ficar sem "flatemate"?
- Não gostei deles, não servem para morar comigo.
Acabou que as duas semanas de aluguel venceram, Tonico não arrumou ninguém e fez Joao pagar por mais duas semanas. Muito a contragosto o casal pagou, era melhor do que criar um inimigo. Foi então que um dia João e Letícia passaram na antiga casa para pegar algumas coisas que esqueceram e encontraram Júlio, um outro baiano, vivendo no lugar deles. O mais inacreditável era que Tonico estava cobrando os mesmos 320 de Júlio e embolsando a grana de João.
- Ele acabou de mudar, ia avisar vocês hoje. Vou devolver tua grana do aluguel dessa semana.
Pedro chegou na Nova Zelândia e não havia ninguém para esperá-lo no aeroporto. Sem saber falar inglês, ele pegou um táxi até o backpack onde ficaria. Não existia nada! Nada do que ele comprara existia, não estava matriculado na escola, a acomodação não estava paga. Sem saber o que fazer, Pedro encontrou dois brasileiros na rua e pediu ajuda. Os sujeitos disseram para ele procurar um backpack chamado Oceanic, que ficava ali próximo. Ao que parecia, a dona era portuguesa e o preço dos quartos era bem barato. Após algumas semanas, Pedro não tinha nada no bolso. Acabou pedindo emprego para a portuguesa dona do backpack.
- Não tenho nada, nem pra comer eu tenho dinheiro.
Pedro virou faxineiro e seguranca do local. O salário não era muito bom, mas ele ganhava acomodação de graça. Ele ainda tinha alguma grana nas suas economias, resolveu fazer um último investimento: trouxe a mulher do Brasil. Ela também arrumou uma boca na faxina, moravam no mesmo quartinho minúsculo, dezenas de vezes menor do que o apartamento que moravam em Governador Valadares.
Pedro virou Telemar, apelido que tinha no Brasil e adotou na New Zealand.
Hector desapareceu, não responde mais aos chamados de Telemar, nem e-mails o filho-da-puta não respondia mais.
Mas apesar de toda grana perdida e da atual situação, Telemar respirou aliviado, tirou algumas fotos em frente a Sky Tower com a esposa e jogou na internet.
É... pois é, depois de muita luta o mineiro finalmente estava na tão sonhada gringa.
João e Leticia estavam morando com Valtinho no Oceanic quando a grande briga aconteceu. Ficaram algumas semanas desempregados e passaram por um terrível sufoco - João não queria ligar para casa pedindo dinheiro de jeito nenhum. Letícia ficou sabendo de um lava-carros que contratava vários brasileiros. João acabou indo trabalhar lá, e Leticia descolou outro emprego em outro lava-carros. Valtinho já tinha descolado um emprego com um jovem russo que estava no mesmo negócio de Tonico. João e Letícia começaram a tirar 8 dólares a hora, menos do que o mínimo estipulado por lei. Estavam trabalhando ilegalmente com o visto de turista, mas, mesmo assim, sorriam. Tinham fé que a vida mudaria a partir dali, afinal: estavam na gringa! Foram ao cais de Auckland, vestiram as melhores roupas e bateram várias fotos. Valtinho saíra naquela mesma tarde para gastar dinheiro. Comprara uma calça e uma camisa de marca; chegando no backpack, abriu para mostrar aos amigos:
- Ohh, tá bem, hein? Valtinho
- Pois é, fia, tô na gringa!
10 de dezembro de 2006
Auckland é uma cidade agitada, muito diferente do que havia visto na New Zealand até então. Atravessei o país de sul a norte e não vi nenhuma linha de pobreza, nenhum gueto, nenhuma favela, nenhuma pichação... A New Zealand parece uma maquete e tem qualquer coisa de conto de fadas, sempre com suas casinhas certinhas, verde, natureza e ovelhas, muitas ovelhas. No entanto em Auckland vi os primeiros mendigos e traços de pobreza. O concreto se estende e cobre todo o verde do país enquanto prédios jogam sombras na cidade. Auckland é como um câncer que vai crescendo rumo ao sul, vai matando tudo e cobrindo a maquete de cinza. Exatamente como o homem vem fazendo no resto do mundo.
João e Tonico eram muito amigos na Bahia, costumavam chamavam um ao outro de irmão. Tonico não tinha muito dinheiro, era um baiano pobre, filho de mãe solteira e solto no mundo. Ao contrário de João, que vinha de boa família e podia comprar de tudo. No entanto o dinheiro nunca atrapalhou a relação dos irmãos. Os dois sempre saíam juntos para as baladas de Trancoso. Quando Tonico não tinha, João fazia questão de colocar dinheiro no bolso do amigo. Nunca cobrava de volta, sabia bem como era a situação .
Foi então que um dia Tonico levantou com essa idéia maluca de ir para o estrangeiro:
- Rapaz, tá doido, é? Fazer o que lá?
Mas não teve santo que o fizesse mudar de pensamento:
- Vou... e vou mesmo!
Tonico acabou escolhendo a Nova Zelândia. Ele conhecera um sujeito que dissera ser um ótimo país para fazer dinheiro. Tonico pegou grana emprestada de todo mundo, João acabou dando a maior parte. Em Janeiro de 2005 Tonico embarcou sozinho para a Nova Zelândia.
Por muito tempo não se teve notícias de Tonico. Alguns disseram que tinha se dado mal, perdera tudo e estava em dificuldade no exterior, outros acreditavam até mesmo que tinha morrido. Foi então que, mais de um ano depois, ele reapareceu. João checava seus e-mails quando encontrou um convite de Tonico o convidando para ser seu amigo no Orkut. O baiano não podia acreditar quando abriu a página de seu irmãozinho. As fotos no seu álbum mostravam um sujeito que vencera na vida: carro, mulheres, praia, surfe, dinheiro... João encheu o peito de orgulho: por fim o moleque se deu bem!
Mas a vida não seguiu seu rumo em Trancoso. Depois que Tonico reapareceu no Orkut, a pequena cidade baiana nunca mais foi a mesma. As garotas só falavam em Tonico, os homens brindavam ao sujeito e os mais velhos o tratavam como herói. João começou a sentir a pressão em casa. Ele não gostava muito de trabalhar, muito menos de estudar; gostava mesmo era de viajar com sua namorada Letícia. Mas o fantasma de seu amigo no exterior tirara seu sossego:
- Filho, tu tem que se espelhar em Tonico. Veja que homem importante ele é hoje. Até quando tu vai levar essa vida sem futuro?
Ao que parecia, Tonico abrira uma empresa na Nova Zelândia, casara-se com uma nativa e morava num ótimo apartamento em Auckland.
Um dia na praia com seu amigo Valtinho, João confessou:
- Rapaz, num to aguetandu naum. Tá um inferno aquela casa. Vou vazar pro exterior.
- Maaaas Rapaaaz tá doido é? Fazer o que lá?
- Oxe, se Tonico deu certo porque eu não posso dá não?
João convidou Valtinho para ir junto. Os dois tinham a mesma idade, na casa dos 20 anos. O problema era que Valtinho tinha um filho para criar em Trancoso, não queria abandonar o moleque assim.
- Tu vai ganha mais grana no exterior que aqui.
- Vô não homi, num saio da Bahia não!
Os pais de João adoraram a idéia.
- Vá mesmo meu filho. E que Ogum ilumine teu caminho.
João contatou seu amigo pelo Orkut e informou que estava de partida para o país. Seu pai lhe deu quatro mil dólares:
- Fio, se precisa de mais não passe necessidade.
Alguns dias antes de embarcar, Valtinho fez a proposta para João:
- Rapaz, to pensando em ir com tu. Tem como me adianta uma grana pra mim?
Em setembro de 2006 os dois partiram rumo à distante Nova Zelandia.
Maria já estava preocupada. Fazia horas que Pedro trancara-se no quarto falando ao telefone. Ela bem sabia o que era. Desde que perdera o emprego na Telemar, empresa onde trabalhara, Pedro botou a cabeça que queria ir para o exterior. Maria não estava muito contente. Não queria deixar Governador Valadares, já ouvira muita história de gente que não dera certo no exterior. Mas Pedro era insistente... e como era!
Ele recém voltara de viagem, tentara entrar no Canadá, mas terminou preso em Porto Rico e deportado para o Brasil. Tudo começara com aquele mesmo telefonema, naquele mesmo quarto. Pedro achara um homem que agenciava viagens para o exterior, um tal de Hector. O sujeito havia oferecido um passaporte português ao mineiro, quatro mil dolóres, mais a postagem. Com o passaporte português Pedro poderia entrar facilmente no Canadá. Ele tinha um amigo lá esperando por ele, o emprego era garantido e a grana parecia ser alta. O passaporte chegou, Pedro embarcou, mas foi descoberto em Porto Rico, na primeira parada. Passou a noite na cadeia, não conseguiu se explicar, não falava inglês , não falava espanhol, só falava mineirês. Os oficiais acabaram liberando o sujeito de volta ao Brasil, não o ficharam nem o entregaram ao governo Brasileiro.
A segunda tentativa era mais radical. Hector se desculpou pelo visto e disse que cobriria o dinheiro com outro plano de viagem. Dessa vez Pedro tentaria entrar nos EUA... pelo México! Estava tudo acertado, tudo planejado, mas Maria, a mulher de Pedro, implorou para ele não ir. Ela havia visto uma matéria no Jornal Nacional na qual os americanos atiravam para matar nos imigrantes que tentavam cruzar a fronteira ilegalmente. Pedro atendeu aos apelos da mulher e desistiu da idéia.
Mas Hector tinha uma outra alternativa: Nova Zelândia! O país era um dos mais fáceis de entrar, não tinha como dar errado, ele só precisaria pagar mais 6 mil dólares para a escola e acomodação, e o emprego era garantido nas lavouras.
Pedro embarcou.
Tonico esperava por João e Valtinho no aeroporto. Os dois amigos se abraçaram e quase choraram de felicidade. Valtinho esperava no canto, ele não conhecia João, e este quando o viu, perguntou:
- Quem é esse aí?
- Esse é Valtinho, meu amigo.
- Rapaz, tu trouxe outro nego contigo? Pra que homi?
João disse que não tinha lugar para Valtinho na casa, e este acabou dormindo num backpack.
Nos primeiros dias João descobriu que Tonico não estava tão bem assim. De fato ele casara com uma kiwi, mas a mulher era horrível de feia; de fato ele abrira uma empresa, mas ela parecia dar mais prejuízo que lucro e de fato ele morava num belo apartamento, mas era alugado e muito mal localizado. Tonico entrara no negócio de pintura, como costumava dizer. Ele contratava uns pintores, sua mulher arrumava algumas casas e ele pegava o dinheiro, não fazia quase nada o sujeito. Não demorou para João e Valtinho começarem a trabalhar com ele. Dos quatro mil reais que o pai de João lhe dera, Tonico tomou três. Foi tirando o dinheiro: cobrando por ajuda, escola e moradia. João deu de bom grado, ainda estava deslumbrado com o exterior e toda a aura de herói imposta ao amigo, mas Valtinho sacou rápido e desfez laços com o sujeito.
- Valtinho, tu tá é loco. Que tu vai faze sozinho aqui sem fala inglês?
- Rapaz, inglês tu aprende. Só num gosto é de sacanagem.
Depois de um mês João trouxe a namorada, Letícia. Os dois dividiam o aluguel com Tonico e a esposa.
Não demorou para que Letícia descobrisse que o preço total do aluguel era 400 dólares, muito estranho já que ela e João juntos pagavam 320. A garota insistiu para João falar com Tonico:
- Vem cá, Tonico, tem algo errado aqui. Porque nós tamo pagando mais?
- Tem nada não, é que minha esposa não paga.
- Tá, mas por quê?
- Rapaz, tu fica quieto que fui eu que te botei aqui. Num reclama muito não.
Letícia tinha odiado Tonico, insistiu para mudar de casa, brigou diversas vezes com João e ameaçou voltar pro Brasil:
- João, não dá pra ver que o sujeito tá nos roubando não? Acorda homi!
Por fim João resolveu mudar e foi falar com Tonico:
- Como assim mudar? Rapaz, tu vai me deixa na mão, é? Fique sabendo que vai ter que me pagar duas semanas de aluguel se quiser sair.
João pagou. Pagou e ainda procurou um flatmate para Tonico. Letícia colocou avisos em toda a cidade, três casais responderam...
Tonico rejeitou todos:
- Pra que isso, rapaz? Tá querendo ficar sem "flatemate"?
- Não gostei deles, não servem para morar comigo.
Acabou que as duas semanas de aluguel venceram, Tonico não arrumou ninguém e fez Joao pagar por mais duas semanas. Muito a contragosto o casal pagou, era melhor do que criar um inimigo. Foi então que um dia João e Letícia passaram na antiga casa para pegar algumas coisas que esqueceram e encontraram Júlio, um outro baiano, vivendo no lugar deles. O mais inacreditável era que Tonico estava cobrando os mesmos 320 de Júlio e embolsando a grana de João.
- Ele acabou de mudar, ia avisar vocês hoje. Vou devolver tua grana do aluguel dessa semana.
Pedro chegou na Nova Zelândia e não havia ninguém para esperá-lo no aeroporto. Sem saber falar inglês, ele pegou um táxi até o backpack onde ficaria. Não existia nada! Nada do que ele comprara existia, não estava matriculado na escola, a acomodação não estava paga. Sem saber o que fazer, Pedro encontrou dois brasileiros na rua e pediu ajuda. Os sujeitos disseram para ele procurar um backpack chamado Oceanic, que ficava ali próximo. Ao que parecia, a dona era portuguesa e o preço dos quartos era bem barato. Após algumas semanas, Pedro não tinha nada no bolso. Acabou pedindo emprego para a portuguesa dona do backpack.
- Não tenho nada, nem pra comer eu tenho dinheiro.
Pedro virou faxineiro e seguranca do local. O salário não era muito bom, mas ele ganhava acomodação de graça. Ele ainda tinha alguma grana nas suas economias, resolveu fazer um último investimento: trouxe a mulher do Brasil. Ela também arrumou uma boca na faxina, moravam no mesmo quartinho minúsculo, dezenas de vezes menor do que o apartamento que moravam em Governador Valadares.
Pedro virou Telemar, apelido que tinha no Brasil e adotou na New Zealand.
Hector desapareceu, não responde mais aos chamados de Telemar, nem e-mails o filho-da-puta não respondia mais.
Mas apesar de toda grana perdida e da atual situação, Telemar respirou aliviado, tirou algumas fotos em frente a Sky Tower com a esposa e jogou na internet.
É... pois é, depois de muita luta o mineiro finalmente estava na tão sonhada gringa.
João e Leticia estavam morando com Valtinho no Oceanic quando a grande briga aconteceu. Ficaram algumas semanas desempregados e passaram por um terrível sufoco - João não queria ligar para casa pedindo dinheiro de jeito nenhum. Letícia ficou sabendo de um lava-carros que contratava vários brasileiros. João acabou indo trabalhar lá, e Leticia descolou outro emprego em outro lava-carros. Valtinho já tinha descolado um emprego com um jovem russo que estava no mesmo negócio de Tonico. João e Letícia começaram a tirar 8 dólares a hora, menos do que o mínimo estipulado por lei. Estavam trabalhando ilegalmente com o visto de turista, mas, mesmo assim, sorriam. Tinham fé que a vida mudaria a partir dali, afinal: estavam na gringa! Foram ao cais de Auckland, vestiram as melhores roupas e bateram várias fotos. Valtinho saíra naquela mesma tarde para gastar dinheiro. Comprara uma calça e uma camisa de marca; chegando no backpack, abriu para mostrar aos amigos:
- Ohh, tá bem, hein? Valtinho
- Pois é, fia, tô na gringa!


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