CAIPIRINHA COM KIWI

07 Março 2007

Dentro do Quarto 12

Anotações de diário
18 de dezembro de 2006

Até o Natal na New Zealand é diferente: as ruas não são tão enfeitadas como no Brasil, as propagandas na TV não são tão massacrantes, você não vê Papais Noéis suando em uniformes vermelhos nas ruas e o comércio não parece ter aquela explosão de vendas. Claro que a Coca-Cola continua veiculada em cartazes e propagandas, mas fora isso parece até que o Natal é um feriado religioso... muito estranho.

Quando chegamos o quarto 12 do Oceanic estava limpo. Era um cubículo minúsculo, mas não podemos reclamar que estava sujo. Rodrigo e eu dormimos um curto período sozinhos, logo depois chegou Diego, o sul-mato-grossense. Diego dormiu por três dias seguidos quando chegou, nunca vi isso na minha vida! So pude conversar melhor com sujeito depois que despertou. O garoto contou sua história, disse que havia sido deportado da Inglaterra, que tinha o sonho de conhecer a Europa e que tivera vindo para a New Zealand como segunda opção:
- Bem-vindo ao time rapaz... 90% dos brasileiros que estão aqui são por segunda opção. Esta aqui é a terra dos renegados!
Diego tinha planos de voltar para o Brasil. Ele queria fazer uma grana e voltar para abrir uma empresa de licitação em Mato Grosso do Sul.
- Fazer grana? Aqui? Meu amigo, é melhor você voltar pro Brasil... o milagre econômico ainda não aconteceu aqui.
Mas não demorou para Diego arrumar um emprego de dishwasher. Ele andava bastante com um sujeito de Goiânia, um tal de Luiz. O goiano era mais velho, tinha vindo para tentar fazer grana e sustentar a família no Brasil, mas sempre o via com cara triste pelos corredores. Com certeza não estava sendo bem-sucedido em sua empreitada. Diego acabou pegando o emprego de Luiz, já que o goaino desistiu da Nova Zelândia e voltou para o Brasil.
Diego é um sujeito muito magro. Ele parece que vai quebrar com um leve toque. Às vezes no quarto ele tira a camisa revelando umas tatuagens nos bracinhos mirrados, parece um usuário de crack do Carandiru.
Nos primeiros dias de trabalho ele vinha falar comigo:
- Cara, é muito foda, tenho que lavar umas panelas gigantes no restaurante. Outro dia uma panela caiu na minha cabeça e abriu esse corte aqui, tá vendo? Meu corpo todo dói e o pior: tem dois dias que não sinto meu dedão do pé.
- Mano... isso tudo que você tá falando eu sei como é. A vida na gringa é isso. Vai dizer que você é mais um dos que acreditaram nas fotos do Orkut?

Alguns dias depois que Rodrigo saiu do Oceanic, um novo sujeito mudou para o nosso quarto. Brian, era seu nome. Brian era americano, ou estadounidense, achei engraçado, mas ele não disse o estado quando se apresentou. O sujeito tinha um estilinho meio boy band, cabelinho cortadinho, loirinho, olhos claros, mas era muito... mas muito drogado. Nunca conheci Brian sóbrio, ele chegava no quarto no meio da madrugada, dormia um pouco e saía para se drogar de novo.
O dormitório foi ficando bagunçado à medida que o tempo passava, mas depois que Brian se mudou o caos estava gerado. O americano não tinha o mínimo de higiene, ele deixava tudo atirado, comida, roupa, cuecas. Era um cataclismo. Eu descobri um canto inabitado no quarto e comecei a jogar minhas coisas ali. Roupas suja e limpa iam para o mesmo lugar.
Mas era impossível chamar a atenção de Brian, ele chegava no quarto com os olhos vermelhos sorrindo e dizia com seu sotaque engraçado:
- Muita chapado!
Ele havia tido uma namorada brasileira em Tauranga, ele adorava brasileiros, vestia uma camiseta da seleção que um gaúcho lhe dera e falava algumas palavras em português com sotaque engraçado:
- My brazilian girlfriend, muito gostosa!
Brian deve ter uns 18 ou 20 anos, não mais que isso. É bem molecão. Outro dia entrou no quarto com um envelope que recebera dos EUA. Abriu na minha frente:
- Uhuuu, my mom sent me money!
- Uhuuu, minha mãe me mandou dinheiro!
Ele me mostrou a nota de 100 dólares e disse :
- Do you know what I gonna do with this?
- Sabe o que vou fazer com isso?
- No.
- I'll piss everything.
- Vou mijar tudo.
E saiu correndo do quarto em direção ao bar mais próximo.

Um dia depois de Brian mudar para o quarto, chegou o quarto homem. Um gaúcho. Eu e Diego perguntamos o nome do sujeito, e ele respondeu:
- Meu nome é Truck.
Nunca ficamos sabendo o nome verdadeiro de Truck. O gaúcho tinha um sotaque muito forte, falava cantando e usava gírias incompreensíveis para o pobre sul-mato-grossense:
- Bah, bruxo, que tri essa penta. Tu que é um baita trovador guri.
Diego vinha pra mim desesperado:
- Caraca, mano, não entendo o que o cara fala! Como é que posso querer aprender inglês se nem sei português!
Truck estava morando com uns amigos em outro backpack, mas foi expulso por quebrar uma vidraça na cozinha. Quando o conhecemos, ele estava há apenas dois meses na New Zealand, ele só andava com brasileiro. Toda hora ele tinha uma história nova dos brasucas pra contar:
- Bah, meu, tinha um guri que ficou comendo comida de cachorro por duas semanas porque não sabia ler a embalagem. Que a fuder esses brasa, né?
Truck tinha largado tudo no Brasil para ir para o exterior. Ele aplicara o visto para a Escócia, disse que queria morar num castelo escocês, afastado de todo mundo:
- Nao é que os pau-no-cu me negaram o visto?
Antes de dormirmos, sempre trocávamos uma idéia os três no quarto. O americano às vezes chegava mais cedo e tentava dormir, mas não dávamos muito bola.
- Bah, tinha um guri que começou a namorar uma coreana. Tri feia, a pelega! E o bagua não me fala nada de inglês, nem de coreano nem de nada, é uma negação o sujeito. A guria também não fala nada. Um dia a gente foi comer na baia do sujeito. Ele me vira pra coreana e diz: "Amor, pega uns prato aí pra mim". Em português!!...Bah, que me arriei no sujeito, falando em português com a guria. E o pior, a guria respondeu: "what?" e ele me solta: "ah, então deixa que eu pego".
Uma noite perguntamos porque afinal ele estava aqui. O sujeito era muito bem-humorado, estava sempre contando histórias mas não falava muito sobre esse assunto. Só havia dito que queria ir para um castelo afastado na Escócia.
- Hi, então é por causa de mulher.
- Mais ou menos.
- Sabia! Coração partido?
- Não, eu ia casar.
- E ela te largou.
- Pior.
- O que foi?
- Ela morreu.
Eu e Diego engolimos em seco.
- Foi num acidente de carro... algumas semanas antes do casamento. E pra piorar, depois descobriram que ela estava grávida.
- Putz!
- Pois é... por isso queria tanto ir para um lugar afastado.

3 Comments:

  • Caracaaaaaaaaa e a gente acha que ta fudido na vida.. affffff

    bjus

    By Blogger LLI LLI, at 3/07/2007 05:55:00 AM  

  • aiii
    coitadinho do truck...


    como tu topa com gaúchos!!

    By Anonymous Jéssica Rose, at 3/07/2007 10:08:00 PM  

  • Oi
    fiquei um tempão
    ser ler teu blog, tava de férias
    bahhhh perdi muitaa coisa!!
    Têm até mais fotinhos agora
    Bem, comentário super
    desatualizado:
    Eu também perdi meu celular(perdi
    não, roubaram. Brasil, sabe como é...) Já fazem 4 mêses, mas já nem sinto falta. Eu faria um interurbano pra ti no teu aniversário.

    By Anonymous Jéssica Rose, at 3/08/2007 12:16:00 AM  

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