CAIPIRINHA COM KIWI

27 Fevereiro 2007

Um brasileiro disfarçado

Anotações de diário
04 de dezembro de 2006

Desci para fazer minha janta. Na cozinha dois brasileiros tentavam xavecar uma chilena. Um deles tinha um forte sotaque do litoral de São Paulo, falava cheio de gírias e com um português todo errado. Perguntou pra garota: "Max, eae, tu pega onda?". Ela respondeu sem muita paciência: "I told you, I don't speak portuguese!". O sujeito insistiu, dessa vez falando bem devagarzinho: "Ustede, pega onda?". Ela só balançou a cabeça. "Pega ou num pega?", insistiu ele. Ela não estava querendo ser mal-educada, por isso tentou mais uma vez se comunicar em inglês: "I think it is better if we speak in english.". O surfista parou um pouco, coçou a cabeça, virou pro seu amigo e perguntou: "Que que ela tá falando aí, mano?"

Fazia muito tempo que não encontrava brasileiros. O último, ou última, fora Camila, logo nos primeiros dias em Cristchurch. Posso dizer que fiquei meses sem falar português, não sei se foi bom ou ruim, mas foi muito estranho ouvir de novo depois de tanto tempo. Tudo bem que às vezes ligava para casa ou para alguns amigos no Brasil, mas nada como ouvir, ver e interagir pessoalmente.
Para minha surpresa o backpack estava cheio de brasileiros, mas adotei uma estratégia: não diria para ninguém da onde era, a não ser que me perguntassem.
Rodrigo não demorou para se enturmar com os chilenos e argentinos, eu fiz amizade com Tom e Paul, dois ingleses; andava bastante com esses sujeitos, fato que ajudou a reforçar meu disfarce.
Os brasileiros falavam de monte, estavam sempre gritando no porão, falando alto e soltando palavrões. Eu apenas fazia uma cara de paisagem como se aquela língua fosse um dialeto distante e curioso.
Nunca, nem sequer uma vez, um basileiro me perguntou de onde eu era!
Com o tempo percebi que todos no backpack se misturavam: os ingleses bebiam com os japoneses, os chilenos conversavam com os indianos, os argentinos fumavam com os húngaros, mas os brasileiros faziam tudo entre eles. Era o povo mais isolado do backpack.
A primeira amizade que fiz foi com Tom, um dos ingleses. Tom é um sujeito bacana, tem um forte sotaque britânico, e quando o conheci usava um cachecol vermelho com uma camiseta de mangas curtas. O inglês tem um senso de humor um tanto peculiar para a raça inglesa, meio infantil diria até. Não que seja bobo, mas passa longe da ironia que estávamos acostumados a ver nos britânicos .
Ele me deu um cigarro no dia que nos conhecemos.
Um dos principais motivos das brigas entre mim e Rodrigo era por causa de cigarros. Ele é igualzinho a mim: fuma mas não compra. Não que eu seja miserável, mas é que não me sinto confortável gastando dinheiro com uma coisa que sei que vai me matar. Fumo sem culpa quando alguém me dá.
Lembro que quando mudei para a casa em Hereford St. tive dificuldade para descobrir um fornecedor. Passado alguns meses na Nova Zelândia, criei minhas próprias técnicas: a primeira é procurar alguém que compra tabaco, cigarro feito é muito caro; a segunda é nunca pedir pela primeira vez, você insinua que fuma e finge que esqueceu de comprar, se oferecerem, você pega; a terceira é criar um nível de confiança no qual você não tenha nem que pedir mais: simplesmente possa fumar como se tivessem comprado juntos. É difícil, muito difícil! mas vinha sendo bem-sucedido até então. Primeiro os goianos de Queenstown me davam um monte, depois os cearences que me ameaçaram de morte, depois François e Shon. Enfim, sempre achava um bom samaritano para dividir seu câncer comigo. Mas em Hereford St. estava difícil... ninguém me oferecia! Foi então que um dia, vendo todo mundo fumar na varanda, resolvi dar uma de simpaticão e pedir um:
- Ok, hello, everybody! Is there a good soul that can give a cigarette to this poor guy?
- Ok, olá, pessoal! Tem alguma boa alma que possa dar um cigarro pra este pobre sujeito?
Silêncio...
Depois descobri que Rodrigo queimara a boca, pedira tanto cigarro pras irlandesas que o assunto virara tabu na casa.
Acabei comprando um maço, mas quando coloquei o primeiro cigarro na boca, o chileno chegou pra mim e disse:
- Hey, man... can you give me one?
- Ei, cara...pode me dar um?
Acabamos ficando nessa. Ele comprava, eu fumava; eu comprava, ele fumava. No entanto, nunca brigamos feio por causa disso, na verdade começamos a agir em conjunto: quando ele arrumava um fornecedor, me indicava a boa fonte e vice-versa.

No Oceanic achamos Tom. Encontrei Rodrigo fumando com ele e um indiano do lado de fora. Me aproximei e esperei alguém me oferecer. O inglês tirou um maço de cigarros Balines e estendeu em minha direção, depois disso tentou falar um pouco sobre futebol, mas desistiu quando viu que eu não sabia nada.
O indiano tambem é legal. Prasad, seu nome. Prasad mora no Oceanic há muito tempo, trabalha no Base, uma rede de backpacks chique na New Zealand, e adora brasileiros. Ele bem que tentava se comunicar com os brasucas, mas nunca conseguia.
Mais tarde conheci Paul, um outro inglês, e Gergely, um húngaro de Budapeste, este último não fumava, mas sempre ia nos acompanhar para não perder o papo; os fumódromos são bons lugares para fazer amizades.
Depois de um tempo resolvi fazer um teste. Tinha uma brasileira que parecia ser a mais quietinha. Nunca abria a boca. Ela trabalhava no próprio backpack como cleaner. Resolvi chegar para ela um dia e puxar assunto. Ela arregalou os olhos quando falei em português. Descobri que era mineira, de Governador Valadares, viera para cá com o marido e ambos trabalhavam no backpack sem falar uma palavra de inglês.
O curioso é que depois desse papo rápido os brasileiros pararam de falar na minha frente. No elevador, quando me encontravam, ficavam quietos, pararam de soltar palavrões e falar besteiras sobre os outros na minha frente. Com o passar do tempo alguns passaram a me cumprimentar em português e a puxar papo na cozinha. Meu disfarce caíra. Mas o importante é que a partir daquele momento estava dentro do grupinho com a nacionalidade mais fechada e curiosa. Era membro de uma tribo distante e não catalogada: a excêntrica colônia de brasileiros no exterior!

3 Comments:

  • Thiaguinho, pra colocar aquela foto grande tem que ter o blog beta, vc atualizou o seu??
    Se vc tiver e facinho, so ir em personalizar.

    Bjuss

    By Blogger LLI LLI, at 2/28/2007 06:45:00 PM  

  • Thiagão,
    não anda com brasileiro não!!! Vc vai se ferrar!!! Vai acabar voltando pra prisão> Sobre o Oscar, uma palavra: bosta!!! Depois lê meu blog (http://primeirafila.zip.net). Escrevi sobre o Cronenberg. O Cara é demais!
    Beijos,
    Léo

    By Anonymous Léo, at 2/28/2007 07:04:00 PM  

  • Fonte? Aqui no Brasil você sempre fumava os MEUS cigarros.
    Lembrarei disso quando você voltar.
    Outra coisa, você é muquirana, miserável, mão-de-vaca, sim!

    By Anonymous Kaká, at 3/02/2007 05:21:00 PM  

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