Rápida decisão
No começo é difícil, perder um celular e não repor é como perder parte de si, como um dedo ou uma orelha. A adaptação é difícil, dolorosa.
Foi durante meu aniversário que senti mais falta. No dia 28 de novembro estava embaixo de uma macieira, trabalhando numa fazenda a milhares de quilômetros longe de casa. Não poderia nem ter esperança de algum amigo ligar para dar os parabéns e, de fato, ninguém ligou mesmo.
De manha Rodrigo me sacudiu e disse:
- Feliz compleaños, Thiaguinho!
Logo depois abriu sua garrafa de Fanta, deu um gole e saiu.
Foi a única felicitação que recebi pelo meu aniversário.
Coloquei minha roupa suja e fui trabalhar.
Tinha algo estranho naquele dia. Tanto eu quanto Rodrigo estávamos de saco cheio! Trabalhamos rápido na parte da manhã, fizemos uma pausa para o almoço, calculamos quanto tínhamos ganhado: 25 dólares cada. Voltamos ao trabalho, olhamos para a nova fila de macieiras. Longa, muito longa. Rodrigo disse que ia contar as árvores: 36! Logo depois me deu o celular para fazer a conta: 29 dólares.
Paramos por alguns segundos. Sentei no chão e vi Rodrigo começar a arrancar maçãs e chutar as macieiras com raiva:
- I'm sick of this shit! Let’s go!
- Estou cheio dessa merda! Vamos embora!
- Ok, I'm sick as well.
- Ok, eu também.
Fomos até o carro, pegamos a máquina fotográfica e saímos para bater algumas fotos. Os outros orientais olhavam sem entender nada. Fizemos poses em cima da escada, arrancando maçãs, parecíamos dois turistas em férias.

No caminho de volta passamos pelos chefes:
- We are leaving.
- Estamos saindo.
- What?
- O quê?
- Yes, we are leaving, we didn't like this job. So, we go.
- Sim, estamos saindo, não gostamos do trabalho. Então, nós vamos.
- But, but... what you gonna do?
- Mas, mas...o que você vai fazer?
Tinha qualquer coisa nesse "what you gonna do" que me irritou. Era como se ele dissesse: o que vão fazer? Olhe para vocês, latinos pobres e feios, aqui é seu único lugar, estão loucos, vão sair daqui e passar fome.
Mas não dissemos nada. Rodrigo ainda tentou jogar um "h", dizendo que tinha qualificação em ciências políticas, mas o fazendeiro só olhou com desdém, pronto para explodir em risos quando saíssemos.
Pegamos a estrada de volta para a cidade, deixamos os malasianos na fazenda (eles disseram que não queriam ir embora tão cedo e que depois pegariam uma carona com John Lee).
Na volta Rodrigo parou num restaurante.
- Ok, let’s celebrate your birthday.
- Ok, vamos comemorar seu aniversário.
No começo estranhei, o restaurante era do tipo bem chique e caro - o que esse chileno tá pensando? Mas depois ele me mostrou uma placa na frente que dizia:
Eat for free in your birthday
(Coma de graça no seu aniversário)
- But you have to share my bill.
- Mas você tem que dividir minha conta.
- Fucking Chilean.
- Chileno desgraçado.
Entramos no restaurante com nossas roupas sujas do trabalho. Uma funcionária veio desesperada ao nosso encontro. Por um segundo pensei que ela ia nos tocar dali dizendo não ter restos de comida.
- It's his Bithday, and he wants to eat for free!
- É aniversário dele, e ele quer comer de graça.
A mocinha nos olhou de cima a baixo com desprezo e disse:
- Sorry, but there is some conditions apply. You have to bring three or more people with you. As far I can see you are only in two.
- Desculpe, mas há algumas condições. Vocês têm que trazer três ou mais pessoas. No que posso ver, vocês estão em apenas duas.
- But you should put this in the board outside.
- Mas vocês deveriam colocar isso no aviso lá fora.
- Actually... It IS typed in the board outside!
- Na verdade...ESTÁ digitado no aviso lá fora!
Fomos embora, Rodrigo passou no Pack n' Save e comprou umas cervejas. Tui, a mais barata. Chegando no backpack, tentamos fazer o check-out.
- Sorry, but to get the bond back you have to give us one week notice.
- Desculpe, mas para recuperar o bond vocês têm que nos avisar uma semana antes.
Se saíssemos do backpack no dia seguinte, perderíamos os 90 dólares que colocamos de bond. Uma merda. Oito meses de Nova Zelândia e ainda caindo em golpes de backpackers.
Tentamos argumentar, explicar a situação, chorar, brigar... mas não adiantou.
De duas uma: ou sairíamos e perderíamos a porra do bond ou ligaríamos para John Lee e pediríamos nosso emprego de volta por mais uma semana.
Fomos para o quarto beber.
Porra, 90 dólares! Que merda! Para quem viaja comendo latas de atum puro no almoço 90 dólares é uma puta grana!
Estudamos a situação, olhamos todos os ângulos e bebemos toda a cerveja:
- Ok, fuck the money. We have to go!
- Ok, foda-se a grana. Temos que ir!


2 Comments:
Thiaguinhooooooooo chega logo em 2007!!!!
Bjus
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LLI LLI, at 2/17/2007 05:51:00 PM
Nossa, que mal. Mas, na verdade, eu sempre esqueço os aniversários. Desculpe!
By
Kaká, at 2/22/2007 10:59:00 AM
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