Colegas de trabalho
Aprender inglês é fácil para qualquer falante de idioma latino, as letras são iguais, as raízes têm alguma semelhança, os sons são parecidos. Para os asiáticos, no entanto, é uma tarefa árdua e complicada. Pense num japonês, que tem três tipos diferentes de caracteres e alfabetos, o quanto ele não vai ter de estudar para saber que a letra P tem som de P... decorar todo um novo sistema de códigos, todo um novo jeito de falar, adquirir todo um novo pensamento lingüístico. Eu ainda acho que tem qualquer coisa de psicologia na língua, do tipo: diga-me o que falas que eu te direi quem és. Não imagino como seria minha cabeça se em vez de ter toda latinidade e ginga do português tivesse toda formalidade e quadracidade do mandarim.
É por isso que os asiáticos sempre foram um mistério para mim. Tive vários amigos coreanos, chineses, japoneses e malasianos durante a viagem, mas a conversa nunca flui, o papo nunca se aprofunda. Na maior parte do tempo, temos que tentar descobrir o que estamos falando , trocando sinais, descrevendo palavras, fazendo mímicas, desenhando. Não é todo mundo que tem paciência para isso.
No quinto dia na orchard conversei com um grupinho de coreanos. Tínhamos terminado todas as árvores e esperávamos para saber aonde iríamos depois. Eram três garotos e uma garota. O dia estava quente, eles estavam todos suados e com as camisas envoltas na cabeça para protegerem-se do Sol. Virei para Rodrigo e disse:
- It’s time to make some friends.
- É hora de fazer alguns amigos.
Me aproximei deles e perguntei se tinham fogo, um deles estava fumando. Acendi o cigarro e sentei no chão para ver se conseguia puxar assunto. O mesmo sujeito que me acendeu o cigarro perguntou:
- Where you from?
- De onde é?
- Brazil.
- Ahhh, Brazil! Soccer!
- Ahhh, Brasil! Futebol!
Uma coisa que já me acostumei aqui no exterior é que a palavra Brasil vem sempre, invariavelmente, seguida da palavra: soccer! (ou futebol, em alguns casos). É incrível, no começo me irritava um pouco, mas agora nem dou mais bola.
- Yes... soccer! And you are from North Korea?
- Sim...futebol! E você é da Coréia do Norte?
Eles riram. Acho que o fato de fazer piada com a Coréia do Norte deve ser algo tão recorrente como ligar Brasil a futebol. Eles nem gostam muito de falar sobre esse assunto, mas é sempre a primeira coisa que os estrangeiros perguntam. A primeira vez perguntei inocentemente, mas depois descobri que uma coisa impossível de se encontrar no mundo é um viajante norte-coreano, por isso perguntar para um coreano se ele é da Coréia do Norte é algo tão estúpido quando perguntar para um brasileiro se ele é de Buenos Aires.
- Brazil, big country!
- Brasil, país grande!
- Yes, yes, very big.
- Sim, sim, muito grande.
- Very good soccer.
- Muito bom futebol.
- Yes, yes, very good.
- Sim, sim, muito bom.
- Brazil... big snakes.
- Brasil...cobras grandes.
- Big snakes?
- Cobras grandes?
- Yes, I see pictures, snake, like this, snakes eat bull. Become like this, vely fati hihihihihi
- Sim, vejo fotos, cobra, assim ó, cobras comem bois. Ficam assim ó, muito goidas hihihihihi
- Yes, it's true, we have very big snakes in Brazil.
- Sim, é verdade. Temos cobras muito grandes no Brasil.
Nesse momento todos soltaram um:
- Ohhhhh
- And you do not have fear?
- E você não tem medo?
- No, I always take my snake gun before leaving home
- Não, eu sempre pego minha pistola-de-cobra antes de sair de casa.
- Snake gun... Really?
- Pistola-de-cobra... Sério?
- No, I'm kidding, it's just in the Amazon, very far from where I live.
- Não, estou brincando, é só na Amazônia, muito longe de onde eu moro.
- And you know the Amazon, I mean, you go, you went?
- E você conhece a Amazônia, quero dizer, vai, foi?
Dei uma tragada no cigarro e fiz uma pausa enquanto me olhavam ansiosos.
Dessa eles iam gostar:
- I've lived there for two years.
- Morei lá por dois anos.
- OOOOHHHHHHHH
Parecia que iam bater palmas.
Sorri cheio de orgulho
- Did you see snakes?
- Você viu cobras?
- See? Man, I held snakes!
- Ver? Velho, eu segurava cobras!
- OOOOHHHHHHHH
Estava me sentindo o verdadeiro Crocodilo Dundie, um Indiana Jones da América Latina, mal sabiam os pobres coreanos que vivi em Manaus quando tinha apenas 2 anos e que segurara algumas cobras não-venenosas no Instituto Butantã... mas detalhes, quem precisa deles?
Durante o tempo que trabalhamos na orchard demos carona para dois malasianos. Eles falavam muito pouco inglês e eram assustadores. O primeiro tinha cabelos compridos e a pele bem escura, quando tirava a camisa revelava músculos rasgados e violentos. O sujeito era muito parecido com aqueles que você vê nos filmes do Chuck Norris, geralmente um que entra nas rodas de luta usando tiras cheias de cacos de vidro enroladas nas mãos. O outro era magro, seco, cabelo curto e olhos um tanto vesgos. Ele fumava Port Royal sem filtro e sua visão me lembrava aqueles filmes de guerra sobre o Vietnã, parecia um daqueles guerrilheiros que se escondiam em casamatas.

Íamos todo dia para o trabalho sem conversar, até tentava um pouco, perguntava como era no país deles, quanto tempo estavam aqui, se estavam gostando do passeio. Mas eles não respondiam. Só ficavam ali no banco de trás fumando seus cigarros sem filtro, com caras de mau. Os dois eram uma máquina de trabalhar, arrancavam maçãs e subiam na escada com uma agilidade incrível. Não estavam ali aqui pra brincar!
No primeiro dia voltamos mais cedo, no segundo também, no terceiro a mesma coisa. Você pode sair a hora que quiser do trabalho, eles te pagam por produção, se quiser sair antes azar o seu. Mas no nosso caso, azar o nosso e dos malasianos, que voltavam sempre de carona conosco.
Nos dois primeiros dias eles não disseram nada, iam embora calados. Mas no terceiro dia começaram a conversar em mandarim no banco de trás. Rodrigo parou para abastecer, e eu saí para falar com ele:
- Man, the guys are pissing me off.
- Velho, os caras estão me enchendo.
- Yes, I know, they never talk and today they are talking a lot. Probably, they'll try to kill us.
- Sim, sei, eles nunca falam e hoje estão falando muito. Provavelmente, vão tentar nos matar.
Não tivemos coragem de cobrar a gasolina deles. Por um tempo tive certeza de que na primeira oportunidade que os malasianos tivessem de nos matar, eles o fariam! Deveriam ser assassinos cruéis e violentos. Tínhamos que nos proteger, talvez se fôssemos embora, talvez se atacássemos primeiro...
Mas depois descobri que tenho uma mente um tanto hollywoodiana. Ver aqueles dois malasianos tão parecidos com um dos vilões que Chuck Norris esmaga sem dó nos seus filmes me fez acreditar, de alguma maneira, que eram sujeitos sanguinários sedentos por orelhas alheias para seus colares macabros. No entanto, algumas horas depois de falarem sem parar em mandarim no banco de passageiros, nos dando a certeza de uma morte próxima, encontrei-os na cozinha. Eu tinha descido de chinelo para cozinhar minha janta, e o cabeludo me olhou com os olhos vermelhos e um sorriso que denuncia qualquer maconheiro. Estava muito chapado o filho-da-puta, me abraçou, deu tapinhas nas minhas costas e tentou falar um pouco em inglês.
- Good, very good! Ganja...
- Boa, muito boa! Maconha...
Pronto... Como temer um maconheiro? Descobri que o sujeito não era um carniceiro asiático. Descobri que os inimigos de Chuck Norris são como eu: estrangeiros numa terra distante, longe de amigos, parentes e cultura. Apenas tentando sobreviver. É tão difícil entender certas pessoas, é tão fácil fazer um mau julgamento, é tão simples destruir o que não conhecemos. Quando olhei para aquele sorriso chapado e para aqueles olhos vermelhos, só tive uma certeza: não tenho mais medo dos inimigos do Chuck Norris...
...tenho medo é do próprio!


3 Comments:
Mancada enganar os koreanos (rs).
Você está se mostrando um menino malvado, viu?
Ah! Tem curso de mandarim no Tatuapé...
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Maurício, at 2/08/2007 04:10:00 PM
huahuahuaha é só falar em chuck norris, ele ja socou todos os asiatico do planeta, ai vc assusta eles huahauhauha ei vc volta e me traz uma maça ok abraços
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Frederico, at 2/09/2007 07:25:00 PM
Cara,texto incrível.
Estou lendo seu blog e trocando uma idéia com o Fred no msn. Lembrei nós três na São judas,nos bares, contando histórias, bebendo cerveja e algum pseudo-vinho horroroso. O texto está tão você, tão real. Personalidade no estilo literário, não é fácil, mas está rolando nos seus textos.
Devo confessar que as anotações de diário do texto anterior também estão fodas. Você está com uma maturidade bacana na sua escrita. (aproveita que não elogio sempre, não)
Beijos
Saudades
P.S. Fred, perdi? Culpa das letrinhas que nunca entram de primeira comigo.
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Kaká, at 2/09/2007 07:28:00 PM
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