About Apples
Anotações de diário:
Terceiro dia na orchard. Estou sentado neste momento em minha cama no backpack em Napier. Não consigo me mexer direito, nunca fiquei tão fodido na vida. Minhas mãos estão estragadas: parecem uma lixa. As unhas dos meus polegares parecem que estão podres, tenho um corte entre a carne e a ponta das unhas que proporciona aquela dor chata e ardida quando em contato com a água. Mal consigo segurar a caneta. Putz, lembrei que preciso lavar minhas roupas, desde que saí de Christchurch não lavo minhas roupas! Mas não sei onde é a lavanderia, nem quero procurar agora. Acabei de voltar da cozinha, fiz um esforço homérico para cozinhar minha janta: Noodles com atum. Preparei também um rango para levar amanhã de marmita, nada especial, batata com atum. Consegui achar forças para tomar um banho, mas quando olho para aquele chuveiro tenho minhas dúvidas se vou sair mais limpo do que quando entrei. Merda de chuveiros coletivos, não agüento mais. Quero ter um banheiro limpo... faz tempo que não tenho um banheiro limpo!
Terceiro dia na orchard. Estou sentado neste momento em minha cama no backpack em Napier. Não consigo me mexer direito, nunca fiquei tão fodido na vida. Minhas mãos estão estragadas: parecem uma lixa. As unhas dos meus polegares parecem que estão podres, tenho um corte entre a carne e a ponta das unhas que proporciona aquela dor chata e ardida quando em contato com a água. Mal consigo segurar a caneta. Putz, lembrei que preciso lavar minhas roupas, desde que saí de Christchurch não lavo minhas roupas! Mas não sei onde é a lavanderia, nem quero procurar agora. Acabei de voltar da cozinha, fiz um esforço homérico para cozinhar minha janta: Noodles com atum. Preparei também um rango para levar amanhã de marmita, nada especial, batata com atum. Consegui achar forças para tomar um banho, mas quando olho para aquele chuveiro tenho minhas dúvidas se vou sair mais limpo do que quando entrei. Merda de chuveiros coletivos, não agüento mais. Quero ter um banheiro limpo... faz tempo que não tenho um banheiro limpo!

O trabalho
O serviço na orchard é pago por produção. Sempre escutei falar desses trabalhos por produção, alguns dizem ser bom, outros falam que é uma merda.
Tive que testar para escrever!
O lado bom é que todo dia antes de ir embora você pode calcular as árvores para saber o quanto ganhou. O valor não é fixo, antes de começar um corredor de macieiras o chefe lhe dá o valor de cada árvore. Varia muito, pode tanto ser $0.80 por árvore como pode ser $3.50. Tudo depende do número de maçãs que você vai ter que tirar.
A parte prática do trabalho é uma merda. Você passa 10 horas por dia tirando maçã de árvore... Nem é tanto pelo esforço físico, em três dias seu corpo se acostuma com o peso da escada, você cria músculos e sua bunda fica dura como madeira. O problema é o psicológico! Pense em arrancar maçãs por 10 horas! Sozinho! somente você e você! Passar tanto tempo consigo mesmo é perigoso, descobri que odeio minha companhia, prefiro brigar com os outros do que comigo mesmo.
John Lee não é o chefe, ele só contrata os trabalhadores. Ele tem uma série de contatos em diversas fazendas e entrega trabalhadores para esses sujeitos. O esquema é bem bóia-fria mesmo... só que a diferença aqui na Nova Zelândia é a falta daqueles caminhões que se vê no Jornal Nacional, abarrotados de pobre coitados com suas enxadas e caras sofridas. Aqui os bóias-frias têm seus próprios carros... e alguns escutam Hip Hop na hora do almoço.
John Lee só fica andando de um lado pro outro e recebendo uma porcentagem por cada maçã que tiramos... a perfeita ilustração de mais-valia rural. Mas ele é malandro, vive sorrindo e tentando nos convencer que podemos ficar ricos. Outro dia comprou Coca-Cola pra todo mundo, o dia estava tão quente, mas tão quente, que ele virou Deus.
Já os chefes mudam de fazenda em fazenda. Na que ficamos mais tempo, um deles parecia um capataz de novela das oito, usava um chapéu, barba e não parava de fumar. Ele passava olhando nosso trabalho, se não fizéssemos direito tínhamos que voltar e refazer.

No primeiro dia trabalhei rápido, terminei um corredor inteiro, deixei Rodrigo no chinelo e, quando o chefe viu meu trabalho, tive que voltar pra refazer tudo. No segundo desenvolvi uma técnica nova, uma maneira de trabalhar que apelidei de "Projeto Hiroshima" (em homenagem aos meus colegas de trabalho). Basicamente a técnica de destruição é sair arrancando tudo sem se preocupar com nada, galhos, folhas, maçãs, ninhos de passarinhos, tudo voa pelos ares no projeto Hiroshima. O segredo é só tomar cuidado para que o capataz não o veja durante o processo, já que uma vez terminado é impossível descobrir a falcatrua. O chefe passou, olhou tudo, olhou o topo, olhou a base, tocou as maçãs que sobraram, olhou pra mim e disse:
- Very good, better than yesterday!
- Muito bom, melhor do que ontem!
No terceiro dia tive uma crise existencialista. Não consegui trabalhar, era como se minha mente tivesse ficado vazia, escutava só os passarinhos, as maçãzinhas caindo no chão, o som do metal da escada... O dia estava muito quente; sentei no chão e desliguei... pensei no Brasil e me perdi naquele cheiro de maçã verde. Apaguei os olhos, deitei as costas nuas e suadas na grama e acordei com uma maçã no meu peito:
- What the fuck are you doing? Resting now? Go to work, you fucking brazilian!
- Que porra você está fazendo? Descansando agora? Vai trabalhar, brasileiro de merda!
- Fuck you, chilean! Let me alone!
- Vai se foder, chileno! Me deixe sozinho!
- Brazilians... soooo typical!
- Brasileiros...aaaaa mesma coisa!
Naquele dia ganhei somente 40 dólares. Mas tinha um plano para o dia seguinte. Peguei o meu pendrive, aquele ainda que tinha roubado do meu irmão e coloquei algumas músicas. Incrível como esse aparelhinho tem salvado minha vida. Lembro que antes de sair do Brasil olhei ele em cima da mesa e coloquei na mala... mas tinha um sentimento de que não ia precisar muito. Estava indo trabalhar num país estrangeiro, com certeza em algumas semanas iria comprar um Ipod com trocentos gigabytes, tela de cristal líquido e raio lazer. Mas não foi bem assim e esse criative de 256 megas tem salvado meus momentos de solidão como nada nesse mundo!
Rodrigo tinha alguns CDs que gravara em Christchurch e para minha surpresa tinha bossa nova num dos CDs:
- Ah, chilean... You have bossa nova in your CDs!
- Ah, chileno... Você tem bossa nova nos seus CDs!
- I don't know who put this there. I never heard this shit before.
- Não sei quem colocou isso aí. Nunca ouvi essa merda antes.
Trabalhei no quarto dia ao som de Lúcio Alves, Roberto Menescal, Quincy Jones e Marcos Valle. Trabalhei feliz! O MP3 tem espaço para umas sessenta músicas, apenas algumas horas de som. Mas mesmo repetindo durante o dia inteiro não enjoei... terminei o dia bem... são e feliz! A prova de que a gente não quer só comida, é preciso bebida e arte, ou que a música é o alimento da alma, salvadora de miolos aflitos. Já Rodrigo tinha a carranca dos que começam a sofrer com a própria companhia.
No dia seguinte ele pirou já no período da manhã. Começou a cantar e jogar maçãs em mim:
- What the fuck are you doing?
- Que porra você está fazendo?
- Ahh, brazilian! You are going too fast, fuck you!
- Ahh, brasileiro! Vocês está indo muito rápido, vai se foder!
Então ele girou e sentou apoiando suas duas mãos no chão.
- Fuck sake, I cannot see apples any more.
- Caralho, não posso mais ver maçãs.
Rodrigo ficou uns dez minutos no chão falando merda e atirando maçãs em mim.
- Fuck, man! I told you: STOP!
- Caralho, velho! Eu disso pra você: PÁRA!
- Let's go home, I don't feel well.
- Vamos pra casa, não me sinto bem.
- Come on, come here! Take this!
- Que isso, vem aqui! Segura aí!
Dei meu MP3 e ele voltou ao trabalho.
Depois de meia hora era eu que estava sentado no chão atirando maças no chileno:
- Come on, let's go home!
- Vem, vamos pra casa!
Chamamos os malasianos que iam de carona com a gente e voltamos mais cedo... pelo terceiro dia consecutivo.
Eles não estavam muito felizes.


3 Comments:
Banheiro LIMPO, MP3 do irmão, carinho da Mãe e brigas com o Pai.... ta chegando a hora de voltar pra Casa, nem que seja para fazer um Pit Stop.
Te cuida Guri !!!
By
lff, at 2/04/2007 06:36:00 PM
Thiagão,
vc tá (quase) tão fudido quanto os franceses na batalha de Azincourt (ou Agincourt)!!!!
Beijos na virilha,
Léo
PS: depois lê minha crítica (ou melhor) homenagem a saga do Rocky Balboa!!!
By
Léo, at 2/05/2007 09:24:00 PM
rsrsr!
Thiago, quer que eu te mande um IPOd?? So pra salvar sua vida??
" Passar tanto tempo consigo mesmo é perigoso, descobri que odeio minha companhia, prefiro brigar com os outros do que comigo mesmo."
Me permite usar essa frase no meu blog?? Como vai demorar a permissao usei ta?!
Meuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu absolutamente verdade!! affffffffff
BJusss
By
LLI LLI, at 2/06/2007 06:36:00 AM
Postar um comentário
Links to this post:
Criar um link
<< Home