CAIPIRINHA COM KIWI

12 Janeiro 2007

Últimos dias em Christchurch

Não posso dizer exatamente como as coisas se desenrolaram na cidade, foi uma passagem um tanto quanto mágica. Sei que o que vai ficar para o futuro, quando começar a resumir minha viagem em poucas palavras, será o fato de ter chegado de carona, sem dinheiro, sem amigos, sem nada e ter conseguido me reerguer. Mas naquele momento, enquanto aproveitava os últimos dias na cidade, posso dizer que se reerguer financeiramente foi o de menos... o grande problema tinha sido recuperar minha moral.
Quando cheguei, no início de setembro, não tinha a menor idéia do que me esperava, não tinha a mínima noção de onde iria terminar. Christchurch passou de pesadelo para ponto alto da minha viagem. Nunca fiquei tão apaixonado por uma cidade como estou agora. Amo cada canto, cada esquina, cada Pub, cada chinês daquele lugar.

Gardens


Acordei cedo, era hora de aproveitar. Sem trabalho, sem correria, sem frustração. Passei no Vivaci, tomei um café, li o The Press e depois andei pelo centro. O lugar estava magnífico. Turistas de todos lugares do mundo andavam de boca aberta em frente à catedral. Um garoto tocava gaita de fole preenchendo o local com música. Alguns viajantes checavam seus mapas com suas mochilas gigantes nas costas. Mais à frente, perto da estátua central, duas garotas faziam uma apresentação de polca sobre um palco de madeira; o barulho do sapateado se misturava ao da gaita.
Andei até o Fountain Souvlaki. Dune repousava os cotovelos no balcão ouvindo Fat Freddys Drop .

- Hey, man! Where are you up to?
- E aí cara! Indo pra onde?
- Just hanging around. My last days in town
- Dando umas voltas. Meus últimos dias na cidade.

Conversamos um pouco. Ele me fez um souvlaki de falafel e comprei uma Ginger Beer.
- What a beatiful day!
- Que dia bonito!
- Yes, man. Don't tell me. I'd like to swap place with you.
- Sim, cara. Nem me fale. Queria trocar de lugar com você.
- Yes, I know how you feel
- Sim, sei como se sente.

Saí do Souvlaki e fui até o Art Center. Todos os domingos vários turistas se amontoam na entrada para checar a feirinha de artesanato. Atravessei a multidão e cheguei no corredor culinário. Várias barraquinhas com comidas típicas de todos lugares do mundo. Pessoas, fumaça e odores se misturavam. Sobre os trailers era possível ver as placas indicando a procedência da comida: Thailand, Greece, China, Japan, Turkey, Korea, Morocco.
No primeiro pátio do Art Center, onde as últimas barraquinhas da feirinha se entrelaçavam, um grupinho de músicos tocava músicas típicas. Ao lado do palco improvisado, turistas deitavam com suas pernas brancas em um canteiro ensolarado.
O Art Center é um complexo com dezenas de prédios em estilo colonial onde é possível ver diversas exposições, do lado de fora você caminha por corredores abertos bem esverdeados e floridos e pode entrar e sair de qualquer salão sem pagar nada.
Num dos pátios centrais uma bandinha com músicos octogenários tocava músicas populares em seus instrumentos metálicos. Uma dezena de turistas, novamente deitados sobre a grama ou sentados sobre as mesinhas de madeira, aplaudiram quando os velhinhos terminam de tocar Summer Nights, tema do filme “Os Embalos De Sábado À Noite”
Bati algumas fotos e parti para o Gardens. O Gardens é o principal parque da cidade, e não é como o Ibirapuera em São Paulo, não... o Gardens ... putz... o Gardens é o Gardens! Na entrada uma grama verde como um tapete de criptonita se estende até onde sua vista alcança. Casais repousavam enquanto crianças corriam livres pelo gramado. Algumas árvores sacudiam com o vento fresco da primavera, que passava refrescando o sol quente do fim de tarde. O ar é limpo, mas tão limpo que parece mel percorrendo seus pulmões.
À frente um rio rodeia o parque. Novamente turistas e locais aproveitam a tarde de domingo para deitar às suas margens e tirar uma soneca... alguns optam por uma boa leitura. Dentro do rio vários caiaques remam sobre uma infinidade de peixes e ao lado de patos que bóiam despreocupados sobre a água azul. Resolvi sentar um pouco. Dormi por alguns minutos. Acordei com o doce som da gaita de fole... provavelmente o garoto da praça tinha vindo tentar um dinheiro no parque.
No horizonte o Sol começava a se pôr, cobrindo o distante céu neozelandês com um vibrante laranja.
Um pôr do Sol indescritível.
É...definitivamente caí de amores por Christchurch.

No dia seguinte tinha combinado de ir à praia com Pita. Era o penúltimo dia na cidade. Fui ao local marcado e ela estava me esperando junto com outra garota. A chilena nos apresentou; seu nome era Aliesha, uma kiwi de 23 anos. Pegamos o ônibus para a Summer Beach. No caminho conversei um pouco com a kiwi, descobri que ela era chefe de cozinha no restaurante onde Pita trabalhava e tinha um ótimo gosto musical. Contei que havia percorrido alguns bares de jazz na noite anterior com meu amigo Dune:
- Did you go to the Green?
- Você foi no Green?
- Yes, it's great!
- Sim, é ótimo!
O Green é um barzinho de blues bem escondido na cidade, não tem nada desses bares grandes freqüentados pela massa de estrangeiros. Conheci diversos lugarzinhos como esse através de Dune e Greg, meus dois amigos e anfitriões kiwis. Aliesha ficou impressionada de eu, um turista brasileiro, conhecer lugares tão típicos da moçadinha PIMBA* de Christchurch. Mas o fato é que a ojeriza que criei de lugares como o Shooters me fez correr atrás de outras opções como o Green, Twisted Hop e Mickye Finns. Claro que o fato de eu ser um PIMBA incorrigível também ajudou.
Não sei por quê, mas a kiwi gostou de mim. Ela era incrível, tinha um dos sorrisos mais belos que já vi na vida e era tão fácil abri-lo que não economizei nas piadas; para desespero de Pita que algumas vezes cobria a cara de vergonha.
Mas o tempo passou, chegamos em Summer Beach e caminhamos os três na beira da praia. Tiramos algumas fotos sobre as pedras e dentro da Cave Rock. Logo depois tomamos um café, comemos um souvlaki (não tão bom quanto o do Fountain) e pegamos o ônibus de volta para a cidade.
Na volta Aliesha sentou do meu lado. De vez em quando cruzávamos olhares, ela sorria, eu sorria de volta. Pita sentou no banco da frente e não olhava muito para trás, pois sabia que estava rolando algo ali. Do nada a kiwi pediu para eu cantar uma música em português.
Pensei um pouco...
...mas só um pouco:

...”Olha que coisa mais linda mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar...”

Ela sorriu:
- I know this song!!! E começou a cantarolar a melodia: pa para pa pa para pa pa...

Nos olhamos por algum tempo, e, sem perceber, minutos depois estávamos de mãos dadas. Quando Pita virou para perguntar alguma coisa, estávamos no meio do beijo...

Podia ter cantado qualquer coisa... poderia ter cantado Claudinho e Buchecha, Bonde do Tigrão ou Negritude Júnior... Talvez o resultado fosse o mesmo, nunca vou saber. Mas depois, segundos após aquele beijo, quando ela apoiou sua cabeça no meu ombro e, olhando pela janela do ônibus, cantarolou sorridente: pa para pa pa para, tive um sentimento até então muito distante durante toda minha viagem, algo que sempre tivera mas que perdera durante meses de derrota e humilhação em território estrangeiro...
...pela primeira vez senti orgulho de ser brasileiro...
...e só um pensamento cruzou minha mente:

Tom, meu camarada, muito obrigado!

E o ônibus deslizou pelo litoral ao som de:
pa para pa pa para pa pa para pa pa para pa pa...

PIMBA – Pseudo-Intelectual Metido à Besta

6 Comments:

  • Pra onde vc vai agora????? Mal posso esperar pra ler o próximo post!!!
    Bjs e boa sorte
    Claudia

    By Blogger Claudinha, at 1/12/2007 11:17:00 AM  

  • Sabia que vc ia conseguir! Demorou mais, acho que agora é só alegria...

    By Blogger piratealx, at 1/12/2007 05:01:00 PM  

  • que bonito, graças a deus vc esqueceu da musica do barbosa, e afinal, por que o A no PIMBA? bem, aguardo noticias, hj liguei pro marcelo ficou mo feliz, se quiser eu te ligo tbm, me manda o tel no email, um abraço e um soco do frango

    By Anonymous fred, at 1/12/2007 06:37:00 PM  

  • Putz! Estou numa ótima fase musical ouvindo bastante bossa nova e mpb de boa qualidade. Adoro Tom Jobim. Mas Garota de Ipanema é muito clichê, principalmente prum PIMBA (que saudades de ouvir isso!). Mas pro xavequinho barato funcionou, né!

    Beijos
    Se cuida

    By Anonymous Kaká, at 1/12/2007 10:30:00 PM  

  • uahauhauah vc deixou a nação PIMBA orgulhosa agora!!

    mas cá entre nós aquela historia de jogar baralho na cama c a gostosa??? imperdoável e inadmissível!!
    passo o trfeu cabaço de 2006 pra vc!!

    By Anonymous douglas, at 1/13/2007 01:06:00 AM  

  • ADOREIIIIIIIIIIIIIIIII!!!

    Meu inda bem mesmo que vc esqueceu OH barbosa!! ufa!!!


    A gente vai poder ver foto da kiwizinha?! anh anh anh? diz que sim?!

    Bju Thiagao!! PA PARA PA PA PARA PA PA PARA PA PA...

    By Blogger Alline, at 1/13/2007 05:42:00 AM  

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home