CAIPIRINHA COM KIWI

30 Janeiro 2007

John Lee, the fucking crazy

Em 20 minutos chegamos em Napier. Esperamos John Lee na frente do local indicado, um prédio com uma placa: backpack. Quando adentramos a cidade parecia que estávamos em Miami. Não que o lugar seja grande como Miami, mas tem uma avenida litorânea cheia de coqueiros que me lembrou aquele clipe do Will Smith.
Rodrigo parou o carro em frente ao prédio, pelo número era ali o local de encontro. Peguei o pacote de Port Royal, enrolei dois cigarros, o chileno apertou o isqueiro do carro: cleck! Ascendemos e esperamos por John Lee. Nisso um maori de quase dois metros e mais musculoso que o Hulk passou todo tatuado com seus óculos escuros. Andou devagarzinho a caminho do prédio e tirou os óculos revelando olhos malignos que nos encaravam com uma ira infernal. Juro, nunca vi aquilo!
Rodrigo suou frio e perguntou:
- Do you think he lives here?
- Você acha que ele mora aqui?
- I hope not.
- Espero que não.
Por fim ele colocou os óculos de novo e entrou no backpack.

- Do you think this is the acomodation we’re gonna stay?
- Você acha que essa é a acomodação que vamos ficar?
- I hope not!
- Espero que não.
Algum tempo depois, John Lee chegou. Ela era um chinês de meia idade bem agitado:
- Hello. I ' m John Lee. You ale the guys who want to wolk?
- Olá, Sou o John Lee. Vocês são os caras que querem trabalhar (sotaque chinês carregado)?
Ele explicou o trabalho. Também era “apple thinning”, a mesma coisa do indiano:
- Good mone, you wolk fast and get good mone. You two have a cal
- Bom dinheiro. Vocês trabalham rápido e ganham bom dinheiro. Vocês dois têm um “callo”?
- What?
- O quê?
- Cal.
- Callo.
- What is this?
- O que é isso?
Ele fez uma mímica de um cara dirigindo:
- Ah, car... yes.
- Ah, carro...sim.
Ele era muito falastrão. Falava alto e dava umas risadas histéricas. Para tudo ele gargalhava balançando o corpo todo e tentando ocultar a boca num sinal claro de vergonha que os chineses em geral têm:
- You ale blazilian? Hihihihihih... and you chilean? Hihihihihihih... You lave a cal Hihihihihihih... hihihihihihihi...
- São brasileiros? Hihihihihih... e você chileno? Hihihihihihih... vocês têm um “callo”. Hihihihihihih... hihihihihihihi...

John Lee disse que podíamos ficar na sua acomodação e apontou para o prédio do maori assassino.
- Come on in, I ' ll show you.
- Entrem. Eu vou mostrar pra vocês.
Entramos no local, acho que pelo fato de termos acabado de ver a acomodação mais roots de todos os tempos, esse backpack nos pareceu muitoooo bom. Era grande, tinha mesas de pingue-pongue, uma cozinha gigante, computador com internet ($2/ 10 min) e um terraço bacana. Claro que não fizemos um bom julgamento, na real fora algumas comodidades, o backpack era um lixo. Iríamos dividir um quartinho minúsculo, que cheirava mofo com duas caminhas vagabundas. Mas tudo bem, assinamos os papéis rapidamente... estávamos cansados, loucos para dormir um pouco.
Já tínhamos aceitado, assinado e concordado, mas, mesmo assim, John Lee começou a contar vantagem. O chinês disse que era o maior contratante da Nova Zelândia, que suas fazendas exportavam para o mundo inteiro, que ficaríamos ricos se optássemos por ele, que todos que trabalharam com ele estavam milionários agora... enfim, mentiu um bocado:
- You stay with me and you get lich! I had a chilean, he made two thousand dollas in one week. Vely clazy, he wolk wolk a lot, he is lich now. Veli lich. He just come to New Zealand to spend his money.
- Vocês ficam comigo e vocês ficam ricos! Eu tive um chileno, ele fez dois mil dólares em uma semana. Muito louco, ele trabalha trabalha muito. É rico agora. Muito rico. Ele só vem pra Nova Zelândia pra gastar seu dinheiro.
Voltamos para o lado de fora e encostamos no carro que estava estacionado ali na frente, acendemos outro cigarro para pensar enquanto John Lee, que nos seguia sem calar a boca, continuava a mentir sem parar. Nisso um grupinho de japoneses chegou do trabalho. Eles estavam destruídos, todos sujos e quase mortos de cansados. John Lee olhou para o grupinho, abriu os braços e cheio de empolgação, disse:
- Hello! How ale you? How was the wolk today?
- Oi! Como estão? Como foi o trabalho hoje?

Os japinhas se entreolharam. Por alguns segundos ninguém respondeu nada, até que finalmente um que estava mais ao fundo soltou:
- I ' m tired!
- Estou cansado!
Todos deram risada.
- But good mone today?
- Mas dinheiro bom hoje?
- Not really.
- Não muito.
Mais risadas.
O chinês engasgou, limpou a garganta:
- But is because is youl second day. After you get mol mone. You get mol platice, the job become mol easy.
- Mas é seu segundo dia ainda. Depois você consegue mais dinheiro. Ganha mais prática, o trabalho fica mais fácil.
- Acctualy is my third day.
- Na verdade é meu terceiro dia.
- No wollies, wait untill next week!
- Sem problema, espere até a próxima semana!
Após os míseros segundos de silêncio que caracterizam os melhores timing cômicos, um dos japinhas soltou:
- Itsudemo dekiru ne.
Provavelmente queria dizer algo do tipo: vai se foder chinês do caralho! E todos começaram a rir da cara do chinês e a caminhar em direção a porta do prédio.
Quando entraram, ainda soltando gargalhadas, Lee virou para nós e disse:
- You see? They ale lappy! Very Lappy people! Evely body who wolks fo me is Lapy!
- Você vê? São felizes. Pessoas muito felizes. Todo mundo que trabalha pra mim é feliz.
Resolvemos aceitar o trabalho, não que tenhamos acreditado numa só linha do que o chinês disse. Bom, pra falar a verdade, Rodrigo acreditou um pouco e insistiu para ficarmos.
- Man, there is a chilean that earns two thousand per week!
- Cara, tem um chileno que ganha dois mil por semana!
Não impus muita objeção, tava na cara que John Lee era um farsante, mas pelo menos sua acomodação, apesar do maori assassino, era melhor do que a do indiano.

No dia seguinte fomos trabalhar. Acordamos às 6 da manhã e John Lee nos esperava no rol de entrada. A maioria dos que moravam no backpack trabalhava para John Lee. E todos, sem exceção, eram asiáticos.
Naquela manhã eu e Rodrigo éramos completos estranhos no ninho. Nos destacávamos facilmente no meio da multidão de olhos puxados que se aglomerava na frente do prédio.
Mas o chinês organizou rapidamente a multidão, colocou dois malasianos no nosso carro, deu algumas instruções e saiu dirigindo sua caminhonete seguido pelo comboio asiático.
Em vinte minutos chegamos na orchard. (pomar) .
Saímos e ele separou o pessoal em grupos. Tinha mais 6 pessoas que estavam começando no mesmo dia que nós: dois coreanos, dois japoneses e dois malasianos. Ele nos chamou e começou a dar as primeiras instruções.
- Come, come, I ' ll teach you the work.
- Venham, venham, Eu vou ensinar o trabalho.
Lee pegou uma escada de ferro que estava encostada numa caminhonete, mas o fez de maneira tão estabanada que quase caiu e se matou com o objeto de ferro. Segundos depois, quando se levantou e pegou os óculos do chão, começou a explicar as normas de segurança.
- You have to put the ladder like this... never like this!
- Vocês têm que colocar a escada assim...nunca desse jeito!
As normas de seguranças se resumiram a frase acima, nada mais. Depois ele deixou a escada e mostrou o que teríamos que fazer nas macieiras.

Basicamente é tirar as maçãzinhas que nascem em grupo deixando somente uma ou duas. Ainda não era época de colheita, o serviço é basicamente esse. A poda é feita porque caso contrário o cacho cai quando as maçãs ficam maiores. A princípio parecia ser simples. O único problema seria a escada, já que teríamos que andar com aquele troço por todo o corredor de macieiras e subir árvore por árvore podando todo o topo.
John Lee começou a trabalhar a fim de demonstrar a difícil arte de podar maçãs. Ele parecia um louco, entrou na primeira árvore e desapareceu entre a folhagem girando rápido como o demônio da tasmânia, jogando várias maçãzinhas no chão e repetindo sem parar:
- You lave to wolk fast, vely fast. Evely aplle is dolla, you see, one dolla, anothe dolla. One mor dolla, anothe dolla.
- Você tem que trabalhar rápido, muito rápido. Cada maçã é dólar, vê, um dólar, outro dólar. Mais um dólar, outro dólar.
Ele continuou assim por quase 30 minutos. Eu, Rodrigo e os outros asiáticos só olhávamos sem saber se ríamos ou se ficávamos preocupados.
- Dolla, anothel dolla! Hi hi hi hi
- Dólar, outro dólar! Hi hi hi hi
Ploc, ploc, ploc fazia o barulinho oco das macãzinhas caindo no chão.
Se pudesse ouvir pelos ouvidos de John Lee, escutaria algo parecido com:
- $ $ $ $ $ $ $ $ $ $ $ $

3 Comments:

  • Adorei o chinês...rs
    No Stand Center da cheio deles, né?!...hehhehe
    Quanto tempo tem de atraso do blog em relação as coisas que te acontecem?

    Abraço

    Mau

    By Anonymous Mauríciio, at 1/30/2007 05:14:00 PM  

  • Fala Thiiiiiii...
    Pelo visto daqui a pouco vc larga tudo e vai ter um pomar aqui no BRasil...ahahaha
    Parabéns pelo Blog..muito bom...
    Beijos

    By Anonymous Thaís (facú), at 1/31/2007 04:53:00 PM  

  • rsrrrsrsrs
    doreiiiiiiiio sotaque do chines!!
    thiago, vira logo o ano nesse blog peloamordeDeus!

    Bjusss

    By Blogger LLI LLI, at 2/03/2007 06:47:00 AM  

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