CAIPIRINHA COM KIWI

24 Janeiro 2007

A Caminho da Ilha Norte

Coco voltou para Christchurch. Mesmo sabendo que não ouviria mais francês durante suas transas ele optou por trabalhar em Christchurch em vez de ficar em Nelson. Rodrigo tinha outros planos: iria para Rotorua, na Ilha Norte, trabalhar com um amigo. Eu não sabia o que fazer. Estava sentado num murinho fumando um cigarro pensando que minha conta bancária caía a cada dia e que eu só tinha me deslocado alguns quilômetros ao norte. Não!... definitivamente a Nova Zelândia não é um lugar para fazer turismo, pelo menos se você for um duro como eu.
Foi então que Rodrigo sentou do meu lado, acendeu um cigarro e disse:
- You can come with me if you want.
- Você pode vir comigo se quiser.
Pensei por alguns minutos. Se fosse apostaria tudo! Pegar o Ferry até a Ilha Norte não era brincadeira, era caro e representava o fim da minha viagem à Ilha Sul. Se não desse certo ficaria lá em cima sem dinheiro, sem emprego, sem nada! Todos os meus contatos no Sul se perderiam, não poderia recorrer a ninguém, não poderia simplesmente pegar uma carona para outro lugar, todas as portas que abri abandoraria, tudo que construí desmoronaria... enfim: estaria em um país novo e desconhecido chamado North Island!...E com apenas 500 dólares na conta!
- Ok, I go with you!
- Ok, vou com você!
Saímos de Nelson perto das onze da manhã. Dirigimos até Pickton e pegamos o famoso Ferry.
Sabe aquelas balsas que você pega para chegar em Ilha Bela? Pois bem, eu pensava que o tal do Ferry era aquilo... acho que por isso que fiquei tão espantado com o preço da passagem: 300 dólares! Tirei 150 chorando da carteira, Rodrigo pagou o resto e dirigiu o velho Honda em direção a entrada. De longe, enquanto ainda tentava estancar o sangue da facada que acabara de levar, avistei um PUTA NAVIO! A embarcação era gigantesca, três andares só de estacionamento. Na parte de cima mais 4 andares com restaurantes, salão de jogos, bares, televisões e, claro, o terraço!
Após o trauma pós-pagamento, me senti um milionário num cruzeiro. Entrei nos bares, andei cheio de bossa pelo rol principal, passei pelos restaurantes, sorri para as mocinhas, fumei um cigarro no terraço e, depois que o navio partiu, quase morri de fome durante a viagem! Até fomos ver quanto era um lanche no restaurante, mas sem condição! Sentei e tentei dormir para ver se a fome passava. Rodrigo tambem não abriu a mão e, minutos depois que o Ferry zarpou, já estávamos rezando para ele chegar logo em Welligton.
Mas, mesmo faminto, a viagem foi espetacular. Nunca tinha andado de navio, e aquele swing do mar é demais! Ficava vendo os outros passageiros no restaurante tentando comer em seus pratos deslizantes. Isso fora a paisagem no terraço. O navio cruzou uma centena de montanhas e depois adentrou o pequeno canal que leva à Ilha Norte. O dia estava magnífico!
Chegamos em Welligton, a capital da Nova Zelândia. Gostaria de poder escrever algo sobre a cidade, mas a fome e o medo de gastar nos fizeram correr para o norte cruzando a capital sem dó.
Finalmente paramos num posto de estrada e comemos uma Pie e tomamos uma L&P (tradicional bebida daqui que parece Sprite, só que mais gostosa).




Numa viagem a amizade aumenta na mesma proporção dos quilômetros percorridos. Rodrigo é um sujeito bacana, durante o caminho conversamos um bocado. Ele contou que estudara Ciências Políticas em Santiago e que tinha planos de ir para Ásia depois que seu work holiday expirasse.
O chileno tem dois grandes vícios: Luck Strike e Fanta. Ele dirige com precaução... com muita até! Não foram poucas as vezes que alguns motoristas estressados ultrapassam a mil por hora buzinando e xingando. Mas ele não está nem aí, só dá uma tragada no seu Luck Strike, abre sua Fanta, dá um gole e diz:
- Po Uevon!
O carro de Rodrigo não tem rádio. De Wellington até Rotorua são 484 quilômetros, quase sete horas de viagem. O que esgota qualquer papo. No caminho cantamos algumas músicas, eu em português, ele em espanhol. Depois trocamos. Tentei algumas músicas latinas famosas como Rick Martin e Shakira, e ele mandou um:
- Uelha a onda uelha a onda pa pa, fazendo aquela coreografia de axé estranha!
- Fuck, man! you just know shit musics in portuguese.
- Porra, cara! você só conhece músicas de merda em português.
- Like you in spanish.
- Como você em espanhol.
- Don't you know any Bossa Nova or other good stuff?
- Não conhece alguma Bossa Nova ou outra coisa boa?
- No.
- Fuck... why do you hear axé in Chile?
- Porra...por que vocês ouvem axé no Chile?
- Is not just this you have in Brazil?
- Não é só isso que vocês têm no Brasil?
- Course not!!!
- Claro que não!!!
- Ah, I know another singer as well, but I don't remember his name.
- Ah, eu conheço outro cantor também, mas não lembro o nome dele.
- Who?
- Quem?
- One that want to have a million of friends.
- Um que quer ter um milhão de amigos.
- Ahh... Roberto Carlos!
- Yes, this one.
- Sim, esse aí.
No caminho discutimos política. Ele falou sobre Michelle Bachelet, que era uma boa presidente, mas que nenhum será como Ricardo Lagos:
- You know Ricardo Lagos, don't you?
- Você conhece o Ricardo Lagos, não conhece?
Se tem uma coisa que eu minto e odeio não saber é política
- Yes, for sure!
- Sim, claro!
- He was the best president in South America.
- Ele foi o melhor presidente na América do Sul.
- You think?
- Cê acha?
- For sure! That's because Chile is the best country in South America.
- Claro! É por isso que o Chile é o melhor país na América do Sul.
Rodrigo está sempre dizendo isso. Cada sentença que fala, sobre qualquer coisa do Chile, ele termina com a frase: That's why we are the best country in South America! Não falo nada, não sei se é verdade, mas, pelo que conheço do Brasil e pelo que vi aqui fora, acho que nem vale a pena entrar em uma discussão desse nível.
- Why do you have so shit politicians in Brazil?
- Por que vocês têm tantos políticos de merda no Brasil?
- I don't know.
- Não sei!
- You, brazilians, are so fucking stupid. You could have the best country in the world, you are so fucking big, you have everything! But no. You just want to have partys, partys, partys. You speak your fucking portuguese and don't give a shit for the rest of South America.
- Vocês, brasileiros, são estúpidos pra caralho. Vocês poderiam ter o melhor país no mundo, são grandes pra caralho, têm tudo! Mas não. Vocês só querem fazer festas, festas, festas. Falam seu português de merda e não dão a mínima pro resto da América do Sul.
- Come on, man... Is not that simple!
- Que isso, cara... não é simples assim!
Engraçado como o resto dos latinos acha tão estranho o fato de falarmos português. É como se fossemos um povo estranho encrustrado no território deles. Alguns falam com desprezo...
- Brazil... the only country in South America who speaks portuguese... so snobs!
- Brasil...o único país na América do Sul que fala português... tão esnobes!
Na casa em Hereford St., eu vi o que a língua é capaz de fazer. Todos os latinos, de Porto Rico a Argentina, falavam em seu idioma. Todos faziam piadas, riam e se divertiam na própria língua, enquanto eu, o estranho vizinho, ficava de canto tentando entender alguma coisa. Percebi que existe uma cultura em comum entre todos: bandas, esportistas, apresentadores, modelos, cantores, políticos... todos fazem parte de um contexto latino que o Brasil está fora! Perguntava desesperado se conheciam algumas personalidades brasileiras, mas fora Pelé, Airton Senna e Xuxa, não conheciam muito. Eles perguntavam se eu conhecia Los Fabulosos Cadillacs que estava tocando no estéreo:
- Hum... never heard about.
- Hum... nunca ouvi falar.
E todos, argentinos, chilenos, porto-riquenhos e mexicanos cantaram em alto e bom tom o refrão da canção. Logo depois um deles virou pra mim e perguntou:
- Come on, brasileiro! Are you latin or not?
- E aí brasileiro! você é latino ou não?
Mas um dia descobri algo em comum. Um fenômeno que uniu a América Latina nos anos 80 e continua até hoje. Enquanto trocávamos personagens e cultura, lembrei de um sujeito, um comediante mexicano que é rei na América Latina e muito conhecido da brasileirada:
- Ok, in Brazil we love Chaves.
- Ok, no Brasil nós amamos o Chaves.
- What is that?
- O que é isso?
- Ahh... you guys must know. The TV show that has the music: "Que bonita sua roupa, que roupinha mucho loca".
- Ahh... vocês devem conhecer. O programa de TV que tem a música: "Que bonita sua roupa, que roupinha mucho loca".
De repente todos reconheceram a melodia e começaram a cantar bem alto:

"Que bonita vecindad, que bonita vecindad, es la vecindad del Chavo, no valdrá medio centavo, pero es linda de verdad."

- El Chavo!! Si, por supuesto!

Mas, mesmo com toda essa distância que separa a América Latina do Brasil, estava lá sentado no carro de um chileno, cruzando as estradas de um país distante e conversando em inglês com meu próprio vizinho.
Nesse momento percebi que tinha alguma coisa errada. Parei para pensar em toda a situação. Virei para Rodrigo e disse:
- Uevon! Yo vou aprender a hablar em espanhol.
Ele abriu sua garrafa de Fanta, deu um gole e disse:
- Shut the fuck up, brasileiro!
- Cala a boca, brasileiro!

5 Comments:

  • "Ela é toda remendada tchu tchu tchu não vale nem um centavo tchu tchu tchu mas agrada a quem olhar"

    pode crer Alejandro, sempre tive essa sensação sobre o Brasil. Nós não somos America Latina senão geograficamente. Mas acredito que isso deva mudar pra mudar a história

    Então devemoa agradecer às forças superiores pela existência do Chaves (que agora passa em desenho animado putaquepariu). Mandou muito bem.

    Beijos
    Não morre que eu estou com saudades

    Adivinha que as letrinhas não pssaram de primeira

    By Anonymous Kaká, at 1/25/2007 12:19:00 AM  

  • é... bem que a Llilli disse que era bom... viciei... Lu

    By Anonymous Anônimo, at 1/25/2007 06:15:00 AM  

  • Meu Thiagoooooo!!
    vc disse tudo nesse post!!!
    Ai ai .. esse Brasil. ts ts ts ts!!!

    Bjao

    By Blogger LLI LLI, at 1/26/2007 06:37:00 AM  

  • O desenvolvimento do Chile, realmente é espantoso... Eles são atualmente o País com a melhor renda percapita da América Latina e não pertencem e nem querem participar do Mercosul, o negócio deles é a ALCA, enquanto isso o Brasil fica só nas intenções....
    1 abraço e volta logo para ajudar a mudar esta situação.

    By Anonymous lff, at 1/27/2007 02:39:00 PM  

  • Quer saber, Barbusse? Não ligo a minima se o Chile é o melhor país da América Latina.... o que sei é que são bem menos simpaticos que os argentinos, por incrivel que pareça!!! Quando estive em San Pedro, no Atacama, (e reclamei porque uma água estava custando 4 doláres americanos) um deles disse: “brasileira, se quer vir ao Chile tem que ter dinheiro. Estrangeiro pobre não é bem-vindo”.

    Hijo de la putana!!!!

    Mas, em compensação, em La Paz, na posse do Evo Morales, estavam todos os hermanos (argentinos, chilenos, bolivianos, peruanos) cantando as mesmas canções de luta e tomando as mesmas cervejas. Me senti a menos latina de todas... um peixe fora da água!!!
    O que sei é que o Chile vende a alma para o demônio, mas o povo vive bem! Qual será a saída? Não sei... beba com seu amigo chileno e se divirta com ele!!! (aliás, em outros quesitos, os chilenos são OTEMOOOOOOOS! La garantia soy yo! Kkkk)

    By Blogger Rita Durden, at 1/30/2007 11:51:00 AM  

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