Nova casa, novos amigos.
A nova casa na Hereford St. é bem grande - velha, escura e suja - mas é bem grande. Ela não tem entrada pela frente, só uma porta do lado direito e outra nos fundos, que utilizo sempre, já que não uso nunca minhas chaves. A porta dos fundos está quase sempre aberta e dá direto para a primeira cozinha. Toda aquela área é considerada a primeira área social da casa e fumódromo: tem um sofazinho, duas poltronas e uma mesinha do lado de fora; sempre tem alguém fumando ou conversando ali. Passando pela cozinha você cai num corredor gigante que te leva para todos os dormitórios, siga por esse corredor, vire a primeira à direita e você encontrará a segunda cozinha logo em frente ao primeiro banheiro, continue seguindo e você vai passar pelo segundo banheiro um pouco antes de finalmente chegar na sala, que é onde fica a segunda área social da casa.
Os quartos estão espalhados pela casa, o primeiro fica do lado da primeira cozinha e é o pior da casa, ja que recebe todo barulho do fumódromo. Outros 5 quartos estão distribuídos ao longo do corredor e o último fica depois da sala, o segundo pior, já que também recebe todo barulho da segunda área social, só que sem a fumaça dos fumantes.
O meu quarto fica no corredor em frente ao segundo banheiro... uma boa localização.
Durante um bom tempo não conheci meu novo flatmate. Ele chegava depois que eu ia dormir e eu acordava antes dele levantar. Só sabia que seu nome era Jack e era canadense.
No entanto, a casa estava cheia, morava com mais outras 8 pessoas.
No começo foi difícil me enturmar, eles ja tinham seu grupinho, estavam bem entrosados, e eu passava a maior parte do tempo fora da casa. Demorei para pegar os nomes e as nacionalidades de todos.
Jaime é porto-riquenho; Rodrigo, Francisco e Ignácio são chilenos; Julie e Ashlen são irlandesas; Emílio é argentino e Hassim, saudita.
Nenhum brasileiro!
Resolvi fazer um esforço e me enturmar na primeira sexta-feira que passei na casa. Puxei assunto, tentei bater papo, mas eles não estavam muito abertos. Ficavam no grupinho deles e não davam muita trela. Não que tenham sido grosseiros nem nada, só não se mostravam muito interessados em conversar. Eles foram para a sala beber, botaram um som, trouxeram algumas caixas de cerveja e conversaram. Eu não tinha cerveja, mas fui também, sentei no sofá e esperei alguém me oferecer uma. Nada! Esfreguei a cabeça pensativo...
Tive uma ideia.
Olhei para os latinos e disse no meu melhor portunhol:
- Hey, chicos, que tal un baseado?
- Qué?
- Marijuana.
- Uh! Mui bueno, chico.
Fui até meu quarto e peguei o presente que François me deu minutos antes de partir de Cromwell. Enrolei um fininho e dividi com meus novos flatmates latinos.
- Mui Bueno amiguinho! Mui Bueno!
Ficamos todos chapados e começamos a falar a mesma língua.
- Hey, amiguinho, cuál de las chicas preferes? perguntou Francisco, o chileno, apontando as duas irlandesas que fumavam um cigarro na janela.
- Yo no sei.
- Cómo no sabe amiguinho? mira las señoritas... cuál de las señoritas quieres?
- Yo posso escolher?
- Sí sí... diga.
- Yo pienso que la de cabelo vermelho.
- Ahhh, amiguinho. Estamos echado el ojo nesta. Tú eres un nuevo concurrente.
Logo depois Francisco pegou um ursinho de pelúcia e começou a fazer alguns gestos sexuais com o animal a fim de entreter as mocinhas. Elas riam como loucas.
Me senti mais aceito após a roda de fumaça. Ganja definitivamente é um produto indispensável a todos road runners ou neobeatniks.
Emílio, o argentino, finalmente me ofereceu uma cerveja e todos mostraram mais interesse pela minha pessoa. Mais tarde descobri que a barreira inicial era pelo fato de ser brasileiro. Nós não somos bem vistos mesmo pelos nossos hermanos.
Continuamos a beber noite adentro quando Hassim, o saudita, chegou.
Não tinha conhecido Hassim ainda, mas quando o vi entrar por aquela porta, tive certeza de que o sujeito não pertencia aquele lugar. Ele usava uma jaquetinha azul comportada, tinha o cabelinho todo arrumadinho e portava uns óculos sérios. Ele olhou para o povo todo bêbado e soltou um “hello” cheio de vergonha. A festa parou por alguns segundos, as risadas cessaram e o silêncio pairou sobre a sala até que, por fim, Hassim disse:
- Well, I go to sleep, good night.
- Good night, Hassim. Todos responderam em coro.
The other day
No dia seguinte conheci meu novo flatmate. Cheguei da rua lá pelas 7 da noite e encontrei Jack sentado na sala já bêbado. Os chilenos me apresentaram o sujeito.
- Hey, Thiago, this is Jack, the guy that sleeps with you.
- Ei, Thiago, esse é o Jack, o cara que dorme com você.
Eles estavam indo para uma festa na casa ao lado e insistiram para que eu e Jack fôssemos juntos.
- Fuck, man, it`ll be only chileans there.
- Porra, cara, só vai ter chilenos lá.
Chegando lá entendi o motivo da reclamação. Só tinha chilenos e eles só falavam em espanhol. Acabei conversando só com Jack, e ele estava bêbado e eu não.
- Man, let’s go to the town...
- Cara, vamos pra cidade...
Saímos da festa e fomos para o Sulivans, um pub irlandês que vendia jugs por 12 dólares.
O Sulivans é demais. O lugar lembra um pouco o Finnegan's em São Paulo, só que menor. No palco uma banda tocava músicas típicas irlandesas enquanto turistas e locais pisoteavam o chão de madeira cantando em alto e bom tom.
Fiquei um pouco bêbado no Sulivans, e Jack incrementou seu nível alcoólico para bêbado nível 2.
O canadense estava louco para pegar uma garota:
- Man, I have to confess: I’m going tomorrow to Australia and I definitely need a girl tonight. I don’t belive I’m going to leave New Zealand without fuck!
- Cara, eu preciso confessar: eu estou indo amanhã pra Austrália e eu definitivamente preciso de uma garota hoje à noite. Eu não acredito que eu vou deixar a Nova Zelândia sem trepar!
Não sabia que ele iria embora no dia seguinte. Mas me compadeci com a situação e fiz uma promessa que não tinha a menor idéia de como iria cumprir:
- Relax, man! We’ll find a girl tonight! I promess.
- Relaxa, cara! Vamos encontrar uma garota hoje à noite! Eu prometo.
Olhei em volta e me dei conta que prometi demais. Como em todo pub, balada e lugar na Nova Zelândia a estatística do local era algo em torno de 100 homens para meia garota.
- Ok, let’s move.
Saímos do Sulivans e fomos para o Shooters. Odeio o Shooters, mas infelizmente era o local onde poderíamos ter alguma sorte. Bebemos mais umas cervejas, olhamos em volta e nada!
- Ok, let’s move.
Nessa altura já estávamos muito breacos, bêbados nível 5 - alcancei Jack no Shooters após duas pints de Export Gold. Não tínhamos a menor ideia de onde andávamos na rua e passamos na frente dum tal de Blues Bar - um bar de não turistas que odeiam turistas.
Na porta duas maoris quarentonas fumavam do lado de fora, ao lado de dois caras com jaqueta de couro e um segurança mal-encarado. Jack passou batido, mas eu resolvi parar e pedir um cigarro.
Uma das maoris abriu um sorriso, passou a mão no meu rosto e disse:
- Off course I have a cigarrete for you, baby.
- Claro que eu tenho um cigarro pra você, gato.
Ela colocou o cigarro na boca, acendeu, tragou olhando nos meus olhos e colocou na minha boca.
- Enjoy, baby.
Olhei para Jack e ele já estava longe. Agradeci o cigarro, corri, alcancei o canadense e disse:
- Man, if you want to fuck tonight, come with me!
- Cara, se você quiser trepar hoje, vem comigo!
Entramos no bar. No palco uma bandinha de blues, com senhores na faixa dos 80 anos vestindo jaquetas de couro sobre camisas xadrez, dava o tom. No bar uma garçonete manca servia as bebidas e, sentados nas mesas, dezenas de kiwis gordos vestindo jaquetas de couro e barbas longas seguravam seus canecos de cerveja. Todo mundo vestia jaqueta de couro naquele bar, até mesmo algumas mulheres e a barwoman manca. Por sorte, acaso ou conveniência, estava vestindo a minha. Queria não ter todos os dentes na boca ou uma cicatriz gigante no rosto para ficar mais à vontade, mas por hora a jaqueta e meu cabelo grande eram um bom disfarce; talvez nunca descobrissem que eu era turista. Ao contrário do canadense que mais parecia um... bem um canadense em férias no lugar errado.
Mas Jack adorou o local:
- Man!!! This is fucking perfect.
- Cara!!! Isso aqui é perfeito pra caralho.
Não demorou para ele achar seu alvo: Linda, uma kiwi na casa dos 50, que dançava mais bêbada que o Romário em despedida de solteiro.
Eu mapeei o local e pousei os olhos em três coreanos sentados numa mesa: um homem e duas mulheres. Era estranho, eles não estavam muito integrados ao local, voce não espera ver coreanos nesse tipo de ambiente; quando olhava em volta só conseguia ver o trio na mesa e Jack tentando pegar Linda na pista de dança, o resto era somente sombra.
Resolvi sentar, observar o estranho trio e descobrir qual das duas estava disponível. O sujeito tinha meio estilinho mafioso da yakusa, e as duas coeranas que o acompanhavam eram horríveis senhoras na casa dos 40... mas... who cares?
Enquanto isso, na pista, Linda se abraçou no canadense, mas não foi devido a nenhuma paixão incontrolável ou vontade extrema de se entregar, o fez porque mal se agüentava em pé de tão bêbada.
Jack arrastou Linda para a mesa onde eu estava sentado. Tentamos conversar um pouco, mas não dava.
O trio coreano se levantou para dançar. O sujeito abraçou a mais velha, deixando a outra senhora livre na pista. Muito educadamente a tirei para bailar e não demorou para descobri que ela era bem safada, se agarrou no meu pescoço e se esfregou toda em mim.
Mas sempre quando a esmola é demais a porra do santo sempre desconfia!
Como de costume a coreana só queria fazer ciúme no outro sujeito... e a tática funcionou.
O coreano me pegou pelo pescoço e as duas mulheres correram para separar. Foi só um princípio, uma faísca, uma rusga. Nao reagi nem nada. Eu até poderia, não precisava nem bater no sujeito, só ameaçar. Com certeza ia ter apoio dos outros neozelandeses, é claro que eles iriam ajudar o sujeito com jaqueta de couro em vez do coreano mafioso.
Mas a culpa não era dele. Ele era só um homem desesperado nas mãos de duas mulheres interesseiras, num país onde elas mandam. Dei um passo para trás e só balancei a cabeça.
Mulheres... iguais até na Coréia.
Enquato isso na mesa Jack passava a mão descaradamente em Linda, mas nada de beijo. Ele agia com volúpia e cobiça, passava as cantadas mais violentas, do tipo:
- Hey baby, what kind of music do you like?
- Ei gata, que tipo de música você curte?
- Metallica.
- I have a whole collection of Metallica in my flat, let’s go there to see?
- Eu tenho uma coleção inteira do Metallica no meu flat, vamos lá ver?
Eu juro que ele disse isso!
Nisso um outro kiwi se aproxima e diz:
- Hey, guys, what the fuck are you doing? This lady has a boyfriend.
- Ei, caras, que porra vocês estão fazendo? Essa senhora tem namorado.
Engolimos em seco e Jack tirou devagarzinho a mão esquerda da coxa de Linda.
Pensamos por um segundo no tipo de cara que namoraria Linda.
- A-and is he here now? Perguntou o canadense.
- E-e ele está aqui agora?
- Yes, man! It’s better you get out now before he wakes up.
- Sim, cara! É melhor vocês saírem agora antes que ele acorde.
E o sujeito apontou um homem gordo, feio e barbudo deitado no sofá, caído de bêbado com um caneco de cerveja vazio nas mãos.
- Hey, Jack, sorry for disturbing your date, man, but I think it’s better we get out.
- Ei, Jack, desculpe eu interromper seu encontro, cara, mas acho que é melhor a gente sair.
Jack se levantou e, antes de partir, virou para Linda e deu seu último tiro.
- Hey, baby, I’m leaving New Zealand today. If you want to have sex with two young and beautiful men please go to 243 Hereford St. now. I’ll be waiting for you. I’m sure it’ll be much better than spend the night with this fucking loser. I’m serious, we can make you go to the moon, baby. We are young and full of vitality, for sure you’ll never have this opportunity again! Think, Linda! Think about it!
- Ei, gata, eu estou deixando a Nova Zelândia hoje. Se você quiser fazer sexo com dois homens jovens e bonitos por favor vá para rua Hereford, 243, agora. Eu estarei esperando por você. Tenho certeza que será muito melhor do que passar a noite com esse bosta. Tô falando sério, nós podemos fazer você ir pra lua, gata. Somos jovens e cheios de vitalidade, com certeza você nunca mais vai ter uma oportunidade como esta. Pense, Linda! Pense a respeito!
Ele estava quase implorando.
Voltamos para casa e Jack sentou no murinho em frente a casa.
- I’ll wait for Linda.
- Vou esperar pela Linda.
- Come on man, she will never come. Let’s get in.
- Qual é cara, ela nunca vai aparecer. Vamos entrar.
- No, I feel she is coming.
- Não, eu sinto que ela está vindo.
Mas ela não apareceu. E após algumas horas Jack entrou no quarto e desabafou:
- Shit, man! No fucking sex in New Zealand!
- Merda, cara! Nada de sexo na Nova Zelândia!
No dia seguinte ele partiu, foi embora para a Austrália e eu nunca conhecerei a versão sóbria de Jack, o canadense.
Os quartos estão espalhados pela casa, o primeiro fica do lado da primeira cozinha e é o pior da casa, ja que recebe todo barulho do fumódromo. Outros 5 quartos estão distribuídos ao longo do corredor e o último fica depois da sala, o segundo pior, já que também recebe todo barulho da segunda área social, só que sem a fumaça dos fumantes.
O meu quarto fica no corredor em frente ao segundo banheiro... uma boa localização.
Durante um bom tempo não conheci meu novo flatmate. Ele chegava depois que eu ia dormir e eu acordava antes dele levantar. Só sabia que seu nome era Jack e era canadense.
No entanto, a casa estava cheia, morava com mais outras 8 pessoas.
No começo foi difícil me enturmar, eles ja tinham seu grupinho, estavam bem entrosados, e eu passava a maior parte do tempo fora da casa. Demorei para pegar os nomes e as nacionalidades de todos.
Jaime é porto-riquenho; Rodrigo, Francisco e Ignácio são chilenos; Julie e Ashlen são irlandesas; Emílio é argentino e Hassim, saudita.
Nenhum brasileiro!
Resolvi fazer um esforço e me enturmar na primeira sexta-feira que passei na casa. Puxei assunto, tentei bater papo, mas eles não estavam muito abertos. Ficavam no grupinho deles e não davam muita trela. Não que tenham sido grosseiros nem nada, só não se mostravam muito interessados em conversar. Eles foram para a sala beber, botaram um som, trouxeram algumas caixas de cerveja e conversaram. Eu não tinha cerveja, mas fui também, sentei no sofá e esperei alguém me oferecer uma. Nada! Esfreguei a cabeça pensativo...
Tive uma ideia.
Olhei para os latinos e disse no meu melhor portunhol:
- Hey, chicos, que tal un baseado?
- Qué?
- Marijuana.
- Uh! Mui bueno, chico.
Fui até meu quarto e peguei o presente que François me deu minutos antes de partir de Cromwell. Enrolei um fininho e dividi com meus novos flatmates latinos.
- Mui Bueno amiguinho! Mui Bueno!
Ficamos todos chapados e começamos a falar a mesma língua.
- Hey, amiguinho, cuál de las chicas preferes? perguntou Francisco, o chileno, apontando as duas irlandesas que fumavam um cigarro na janela.
- Yo no sei.
- Cómo no sabe amiguinho? mira las señoritas... cuál de las señoritas quieres?
- Yo posso escolher?
- Sí sí... diga.
- Yo pienso que la de cabelo vermelho.
- Ahhh, amiguinho. Estamos echado el ojo nesta. Tú eres un nuevo concurrente.
Logo depois Francisco pegou um ursinho de pelúcia e começou a fazer alguns gestos sexuais com o animal a fim de entreter as mocinhas. Elas riam como loucas.
Me senti mais aceito após a roda de fumaça. Ganja definitivamente é um produto indispensável a todos road runners ou neobeatniks.
Emílio, o argentino, finalmente me ofereceu uma cerveja e todos mostraram mais interesse pela minha pessoa. Mais tarde descobri que a barreira inicial era pelo fato de ser brasileiro. Nós não somos bem vistos mesmo pelos nossos hermanos.
Continuamos a beber noite adentro quando Hassim, o saudita, chegou.
Não tinha conhecido Hassim ainda, mas quando o vi entrar por aquela porta, tive certeza de que o sujeito não pertencia aquele lugar. Ele usava uma jaquetinha azul comportada, tinha o cabelinho todo arrumadinho e portava uns óculos sérios. Ele olhou para o povo todo bêbado e soltou um “hello” cheio de vergonha. A festa parou por alguns segundos, as risadas cessaram e o silêncio pairou sobre a sala até que, por fim, Hassim disse:
- Well, I go to sleep, good night.
- Good night, Hassim. Todos responderam em coro.
The other day
No dia seguinte conheci meu novo flatmate. Cheguei da rua lá pelas 7 da noite e encontrei Jack sentado na sala já bêbado. Os chilenos me apresentaram o sujeito.
- Hey, Thiago, this is Jack, the guy that sleeps with you.
- Ei, Thiago, esse é o Jack, o cara que dorme com você.
Eles estavam indo para uma festa na casa ao lado e insistiram para que eu e Jack fôssemos juntos.
- Fuck, man, it`ll be only chileans there.
- Porra, cara, só vai ter chilenos lá.
Chegando lá entendi o motivo da reclamação. Só tinha chilenos e eles só falavam em espanhol. Acabei conversando só com Jack, e ele estava bêbado e eu não.
- Man, let’s go to the town...
- Cara, vamos pra cidade...
Saímos da festa e fomos para o Sulivans, um pub irlandês que vendia jugs por 12 dólares.
O Sulivans é demais. O lugar lembra um pouco o Finnegan's em São Paulo, só que menor. No palco uma banda tocava músicas típicas irlandesas enquanto turistas e locais pisoteavam o chão de madeira cantando em alto e bom tom.
Fiquei um pouco bêbado no Sulivans, e Jack incrementou seu nível alcoólico para bêbado nível 2.
O canadense estava louco para pegar uma garota:
- Man, I have to confess: I’m going tomorrow to Australia and I definitely need a girl tonight. I don’t belive I’m going to leave New Zealand without fuck!
- Cara, eu preciso confessar: eu estou indo amanhã pra Austrália e eu definitivamente preciso de uma garota hoje à noite. Eu não acredito que eu vou deixar a Nova Zelândia sem trepar!
Não sabia que ele iria embora no dia seguinte. Mas me compadeci com a situação e fiz uma promessa que não tinha a menor idéia de como iria cumprir:
- Relax, man! We’ll find a girl tonight! I promess.
- Relaxa, cara! Vamos encontrar uma garota hoje à noite! Eu prometo.
Olhei em volta e me dei conta que prometi demais. Como em todo pub, balada e lugar na Nova Zelândia a estatística do local era algo em torno de 100 homens para meia garota.
- Ok, let’s move.
Saímos do Sulivans e fomos para o Shooters. Odeio o Shooters, mas infelizmente era o local onde poderíamos ter alguma sorte. Bebemos mais umas cervejas, olhamos em volta e nada!
- Ok, let’s move.
Nessa altura já estávamos muito breacos, bêbados nível 5 - alcancei Jack no Shooters após duas pints de Export Gold. Não tínhamos a menor ideia de onde andávamos na rua e passamos na frente dum tal de Blues Bar - um bar de não turistas que odeiam turistas.
Na porta duas maoris quarentonas fumavam do lado de fora, ao lado de dois caras com jaqueta de couro e um segurança mal-encarado. Jack passou batido, mas eu resolvi parar e pedir um cigarro.
Uma das maoris abriu um sorriso, passou a mão no meu rosto e disse:
- Off course I have a cigarrete for you, baby.
- Claro que eu tenho um cigarro pra você, gato.
Ela colocou o cigarro na boca, acendeu, tragou olhando nos meus olhos e colocou na minha boca.
- Enjoy, baby.
Olhei para Jack e ele já estava longe. Agradeci o cigarro, corri, alcancei o canadense e disse:
- Man, if you want to fuck tonight, come with me!
- Cara, se você quiser trepar hoje, vem comigo!
Entramos no bar. No palco uma bandinha de blues, com senhores na faixa dos 80 anos vestindo jaquetas de couro sobre camisas xadrez, dava o tom. No bar uma garçonete manca servia as bebidas e, sentados nas mesas, dezenas de kiwis gordos vestindo jaquetas de couro e barbas longas seguravam seus canecos de cerveja. Todo mundo vestia jaqueta de couro naquele bar, até mesmo algumas mulheres e a barwoman manca. Por sorte, acaso ou conveniência, estava vestindo a minha. Queria não ter todos os dentes na boca ou uma cicatriz gigante no rosto para ficar mais à vontade, mas por hora a jaqueta e meu cabelo grande eram um bom disfarce; talvez nunca descobrissem que eu era turista. Ao contrário do canadense que mais parecia um... bem um canadense em férias no lugar errado.
Mas Jack adorou o local:
- Man!!! This is fucking perfect.
- Cara!!! Isso aqui é perfeito pra caralho.
Não demorou para ele achar seu alvo: Linda, uma kiwi na casa dos 50, que dançava mais bêbada que o Romário em despedida de solteiro.
Eu mapeei o local e pousei os olhos em três coreanos sentados numa mesa: um homem e duas mulheres. Era estranho, eles não estavam muito integrados ao local, voce não espera ver coreanos nesse tipo de ambiente; quando olhava em volta só conseguia ver o trio na mesa e Jack tentando pegar Linda na pista de dança, o resto era somente sombra.
Resolvi sentar, observar o estranho trio e descobrir qual das duas estava disponível. O sujeito tinha meio estilinho mafioso da yakusa, e as duas coeranas que o acompanhavam eram horríveis senhoras na casa dos 40... mas... who cares?
Enquanto isso, na pista, Linda se abraçou no canadense, mas não foi devido a nenhuma paixão incontrolável ou vontade extrema de se entregar, o fez porque mal se agüentava em pé de tão bêbada.
Jack arrastou Linda para a mesa onde eu estava sentado. Tentamos conversar um pouco, mas não dava.
O trio coreano se levantou para dançar. O sujeito abraçou a mais velha, deixando a outra senhora livre na pista. Muito educadamente a tirei para bailar e não demorou para descobri que ela era bem safada, se agarrou no meu pescoço e se esfregou toda em mim.
Mas sempre quando a esmola é demais a porra do santo sempre desconfia!
Como de costume a coreana só queria fazer ciúme no outro sujeito... e a tática funcionou.
O coreano me pegou pelo pescoço e as duas mulheres correram para separar. Foi só um princípio, uma faísca, uma rusga. Nao reagi nem nada. Eu até poderia, não precisava nem bater no sujeito, só ameaçar. Com certeza ia ter apoio dos outros neozelandeses, é claro que eles iriam ajudar o sujeito com jaqueta de couro em vez do coreano mafioso.
Mas a culpa não era dele. Ele era só um homem desesperado nas mãos de duas mulheres interesseiras, num país onde elas mandam. Dei um passo para trás e só balancei a cabeça.
Mulheres... iguais até na Coréia.
Enquato isso na mesa Jack passava a mão descaradamente em Linda, mas nada de beijo. Ele agia com volúpia e cobiça, passava as cantadas mais violentas, do tipo:
- Hey baby, what kind of music do you like?
- Ei gata, que tipo de música você curte?
- Metallica.
- I have a whole collection of Metallica in my flat, let’s go there to see?
- Eu tenho uma coleção inteira do Metallica no meu flat, vamos lá ver?
Eu juro que ele disse isso!
Nisso um outro kiwi se aproxima e diz:
- Hey, guys, what the fuck are you doing? This lady has a boyfriend.
- Ei, caras, que porra vocês estão fazendo? Essa senhora tem namorado.
Engolimos em seco e Jack tirou devagarzinho a mão esquerda da coxa de Linda.
Pensamos por um segundo no tipo de cara que namoraria Linda.
- A-and is he here now? Perguntou o canadense.
- E-e ele está aqui agora?
- Yes, man! It’s better you get out now before he wakes up.
- Sim, cara! É melhor vocês saírem agora antes que ele acorde.
E o sujeito apontou um homem gordo, feio e barbudo deitado no sofá, caído de bêbado com um caneco de cerveja vazio nas mãos.
- Hey, Jack, sorry for disturbing your date, man, but I think it’s better we get out.
- Ei, Jack, desculpe eu interromper seu encontro, cara, mas acho que é melhor a gente sair.
Jack se levantou e, antes de partir, virou para Linda e deu seu último tiro.
- Hey, baby, I’m leaving New Zealand today. If you want to have sex with two young and beautiful men please go to 243 Hereford St. now. I’ll be waiting for you. I’m sure it’ll be much better than spend the night with this fucking loser. I’m serious, we can make you go to the moon, baby. We are young and full of vitality, for sure you’ll never have this opportunity again! Think, Linda! Think about it!
- Ei, gata, eu estou deixando a Nova Zelândia hoje. Se você quiser fazer sexo com dois homens jovens e bonitos por favor vá para rua Hereford, 243, agora. Eu estarei esperando por você. Tenho certeza que será muito melhor do que passar a noite com esse bosta. Tô falando sério, nós podemos fazer você ir pra lua, gata. Somos jovens e cheios de vitalidade, com certeza você nunca mais vai ter uma oportunidade como esta. Pense, Linda! Pense a respeito!
Ele estava quase implorando.
Voltamos para casa e Jack sentou no murinho em frente a casa.
- I’ll wait for Linda.
- Vou esperar pela Linda.
- Come on man, she will never come. Let’s get in.
- Qual é cara, ela nunca vai aparecer. Vamos entrar.
- No, I feel she is coming.
- Não, eu sinto que ela está vindo.
Mas ela não apareceu. E após algumas horas Jack entrou no quarto e desabafou:
- Shit, man! No fucking sex in New Zealand!
- Merda, cara! Nada de sexo na Nova Zelândia!
No dia seguinte ele partiu, foi embora para a Austrália e eu nunca conhecerei a versão sóbria de Jack, o canadense.


6 Comments:
Hahahahahha!
Sem dúvidas, esse é o melhor post de todos os tempos!!!
Puts, vc não sabe como eu “rezei” pra Linda aparecer e vc ter sua primeira experiencia com alguém que já completou Jubileu de Ouro. Mas... fica pra próxima!
Hilário a “cena” do corean boy te pagando pelo pescoço.... kkkkkk
Hei, man, this is danger!
Bjo
Rita (ainda rolando de rir)
By
Rita de cassia, at 11/24/2006 11:06:00 AM
Que machismo...que negócio é esse que : mulher é igual até na coréia??? Que feio, estou decepcionada...hahahaha.
Mas, realmente, esse foi o post mais engraçado de todos até agora. Beijão, e volta logo...estamos esperando!!!
Raquel.......
By
Raquel, at 11/24/2006 07:01:00 PM
E nada de sexo! Pô Tchê, tá foda a coisa por aí ? Não rolou nenhum namorinho gostoso ou é vc que não conta os detalhes sórdidos de sua vida sexual ? ou seria morte sexual ? rsrsrs
Mas tudo bem existem coisas bem mais importantes do que sexo. O trabalho, por exemplo, não é camarada ?
Tchê, eu tô com saudades viu. Queria te contar várias novidades mas por enquanto só vou dizer que terminei meu casamento, tô acabando a facú e saindo do trampo. Vou fazer uma viagem sem data pra voltar, a partir do dia 20 de dezembro. Acho que vou pra Bahia, mas de rolê por várias cidades, de mochilão e barraca nas costas e fazendo uns trampinhos pra garantir uma grana. Pretendo ir pra Salvador, Itacaré, Morro de São Paulo e depois só Deus sabe.
Sei que teu aniversário tá por aí, ou talvez até já passou né. Ser de sagitário, BOA SORTE. PARABÉNS!!!
Muito amor, paz e saúde pra ti. E talvez uma boa trepada na Nova Zelândia. Mas cuidado com as coroas coreanas nos bares de Blues e use camisinha. Ah! Quanto a maconha como matéria indispensável aos viajantes, ou neobeatniks como vc disse, concordo plenamente. Quero fumar um com vc ainda!
Te amo amigo!!!
Um beijão e abraço.
By
Carol, at 11/25/2006 01:06:00 PM
haahuaha ese post foi campeão!!!!!
RI muito cara!
By
Douglas, at 11/26/2006 12:25:00 AM
Muito bom !! Já vi q Vc é da turma do Inácio, q sempre diz "Não foi tomando leite q conheci meus melhores amigos".
1 abração
By
LFF, at 11/26/2006 07:30:00 PM
Eu fico só me perguntando "Que tipo de mulher usuaria vc pra fazer ciúmes em alguém?" E não é a primeira vez, né!
Outro dia vc me perguntou se qdo vc voltasse eu pagaria um cigarro e uma cerveja pra vc. Mas uma garota eu não vou ter que pagar não, né!
Saudades, irmãozinho!
Beijos
By
Kaká, at 11/28/2006 08:06:00 PM
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