Quando saímos da casa em Hereford St., cruzamos a rua e pegamos um outro chileno chamado Coco, ele iria conosco tentar o mesmo emprego na nursery e ajudar a rachar a gasolina. Já conhecia Coco das festas da chilenada, mas nunca tinha conversado com ele pessoalmente. Não demorou para descobrir que ele é do tipo fresquinho, daqueles que causam problemas em qualquer viagem - ao contrário de Rodrigo, que apesar de ter passado 8 meses em Christchurch, tem uma alma um tanto roots.
Nelson fica a 425 km de Christchurch, foram necessárias mais de 5 horas de viagem cruzando a Ilha Sul ao lado de belas paisagens: ovelhas, montanhas e mais ovelhas. O Honda velho de Rodrigo até que agüentou bem o tranco.
Dentro do veículo Coco não parava de falar de uma francesa que ele conhecera em Christchurch.
- She is awesome, we were fucking and I asked her to speak in french with me... So horny, man!
- Ela é demais, a gente estava trepando e eu pedi pra ela falar comigo em francês... Muito tesão, cara!

No caminho já saquei que o garoto iria pôr tudo a perder por causa da francesa... tinha certeza! Ele era do tipinho que estava começando a viver agora, recém saíra de uma fazenda no interior do Chile, fora estudar agrobussines em Santiago e, um ano depois, estava na Nova Zelândia patrocinado pela familia. Coco não come de tudo, preza o conforto, usa roupas de marca e recebe dinheiro do pai, fazendeiro... não, ele não era o companheiro de viagem ideal. Não que seja má pessoa, só é muito, com o perdão da palavra: cabação. E nada como uma francesa para enloquecer um cabação desses.
Mas o Honda de Rodrigo continuou comendo quilômetros em direção ao norte. Os dois chilenos falavam na maior parte do tempo em espanhol. Quando cheguei na casa em Hereford St., espanhol para mim era como grego, não entendia nada! Se você pensa que espanhol é parecido com português, pense de novo... tudo bem que são línguas irmãs e se você escutar um espanhol falando bem devagar voce vai entender algumas coisas. O problema é: eles não falam devagar! Mas é incrível como depois de alguns meses seu ouvido se acostuma com o idioma. Confesso que nunca pensei em aprender, nunca me esforcei nem quebrei a cabeça... foi como ouvir aqueles canadenses no
backpack em Queenstown; um dia, sem mais nem menos, as palavras começaram a fazer sentido. Não demorou para começar a falar também; claro que aquele portunhol mui picareta, mas melhor do que nada.
Cruzamos a última fronteira de Cantebury e adentramos a região de Marlborough. A paisagem muda drasticamente nesse ponto, as cadeias de montanhas dão lugar a uma região mais plana, cheia de fazendas,
vineyards e ovelhas... milhares de ovelhas! A regiao de Marlborough no topo da ilha sul é conhecida por suas tradicionais
vineyards e por fabricar os melhores vinhos do país. Suas duas principais cidades são Nelson e Blenhein, esta última lar da segunda maior colônia de brasileiros no país.
Chegamos em Nelson em baixo de chuva, adentramos o centro e procuramos por um
backpack, achamos um baratinho, 15 dólares, mas não tinha estacionamento e Rodrigo não queria deixar o carro na rua.
Se tivéssemos um nível de amizade maior, com certeza diria:
- Fuck off, who'll want to still this shit old crap.
- Vai se fuder, quem vai querer roubar essa merda caindo aos pedaços?Mas estávamos recém nos conhecendo, e não sabia que nível de relação ele tinha com aquela lata velha.

Acabamos no Holiday Park, bem afastado do centro.
Os Holiday Parks na Nova Zelândia são os lares de uma modalidade de viajantes que ainda não conhecia: os caravaneiros. Geralmente eles viajam em caravans, pagam por um lugar para estacionar nos Holiday Parks, tomam banho, usam a cozinha e dormem no próprio veículo... Como não viajávamos de caravan tivemos que alugar um quartinho: 20 dólares each.
Dormimos bem, o quarto ficava dentro de uma caixa metálica parecida com um contêiner, mas até que era confortável. No dia seguinte fomos conhecer a cidade. Andamos um pouco pelo centro e, por fim, Rodrigo disse que precisava ligar para o sujeito da
nursery.
Paramos num orelhão e ele discou:
- May I speak with Joe?... Sorry? ... He is not there? ... He is in Auckland? ... When does he come back? ... in 3 days??
-
Posso falar com o Joe?... Desculpe? ... Ele não está? ... Ele está em Auckland? ... Quando ele volta? ... em três dias??Fiquei olhando para a cena sem entender direito e, quando ele desligou, disse:
- But... You said to me that you had an interview with the guy today.
- Mas você disse pra mim que tinha uma entrevista com o cara hoje.- No, I said that I had the contact.
- Não, eu disse que tinha o contato.Se tivéssemos um certo nível de intimidade, diria:
- For FUCK SAKE, man! How can you cross the whole contry and only after you make the damn phone call?
-
PUTA QUE PARIU, cara! Como você cruza o país inteiro e só depois faz a droga do telefonema?
Mas não disse nada.
Fomos comer. No caminho decidimos o que fazer. Optamos por esperar o sujeito chegar na segunda-feira, mas Coco começou a colocar empecilhos:
- I think I'll not work if they offer me less than 13 per hour.
- Acho que eu não vou trabalhar se eles oferecerem menos do que 13 por hora.E Rodrigo foi entrando na dele:
- Yes, It must be more than 13 per hour, otherwise we go to another place.
- Sim, deve ser mais de 13 por hora, caso contrário a gente vai pra outro lugar.
- You two are crazy? Off course they'll not pay us more than 13 per hour... !! We are fucking latins! Hellooo!!! What's the fucking point to come here if you two lazy bastards don't want to work?
- Vocês dois estão loucos? Claro que eles não vão nos pagar mais do que 13 por hora... !! Somos latinos, caralho! Alôoooo!!! Qual o sentido de vir até aqui se vagabundos como vocês não querem trabalhar?Claro que a frase acima eu teria dito se tivesse um nível maior de intimidade... Acabei não dizendo nada, fiquei quieto... só observava aqueles dois chilenos perdidos liderarem a caravana rumo ao abismo..
Choveu os diabos nos três dias que ficamos em Nelson. Nosso pequeno contêiner, que por hora chamávamos de lar, tremia a noite com a tempestade. Mas na manhã do segundo dia o sol deu as caras. Resolvemos ir para Abel Tasman, um parque nacional perto de Pickton. O lugar é lindo. Fizemos um passeio de lancha, gastamos o que não podíamos gastar, visitamos algumas praias, Coco desenhou o nome de sua francesa na areia, tirou foto, eu esculpi uma anônima nua na areia e, por fim, pegamos uma baita chuva durante a tarde. Chegamos ensopados, cheios de areia, fedidos e famintos.

As noites durante o tempo que ficamos em Nelson eram bem monótonas. Geralmente conhecíamos outros viajantes na cozinha e trocávamos idéia para passar o tempo. Na primeira noite conheci um grupo de americanos. Entrei na cozinha e eles estavam ouvindo Mano Chao. Uma das americanas virou pra mim e disse:
- Hey, sorry for this music. We don't know who put it.
- Ei, desculpe pela música. A gente não sabe quem colocou.Dei um sorriso sem graça. Claro que a música não era deles. Estupidos
yankees!
- Acctualy, I like. It's Mano Chao, well-known in South America.
- Na verdade, eu gosto. É Mano Chao, muito conhecido na América do Sul.- Who?
- Quem ?- Mano Chao.
- Mano Chao.
- I never heard about it.
- Nunca ouvi falar.
- Where did you guys come from?
- De onde vocês vieram?
- Colorado.
Se existe uma coisa que odeio nos americanos é que eles são as únicas pessoas no mundo que, quando indagados de onde vêm, respondem com um estado. Um forte indício de que consideram a possibilidade de virem de qualquer outro lugar do mundo, que não o amado USA, impensável. Eles sempre, mas SEMPRE mesmo, respondem: I'm from Colorado, California, Texas, Tenesse... ahhh fuck off yankees!
- And you?
- E você?Resolvi ver se o oposto colava:
- I'm from São Paulo.- What?
- O quê?- São Paulo, the biggest city in Brazil, the third in the world, 18 million people, bigger than New York, bigger than Washington, maybe bigger than Washington and New York together!
- São Paulo , a maior cidade no Brasil, a terceira no mundo, 18 milhões de pessoas, maior do que Nova York maior do que Washington, talvez maior do que Washington e Nova York juntas.- Hum... ok! I never heard about it.
- Hum... ok! Nunca ouvi falar.Os americanos viajavam em grupo. Eram duas mulheres e três caras. Os
yankees, na maioria das vezes, viajam em grupo. Estavam jogando cartas e nem deram bola depois que disse que era do Brasil, continuei a cozinhar sozinho, só ouvindo a mais chata reclamar da música... Os outros se colocaram a pensar, acho que tentaram lembrar se Brasil era algum estado americano não muito representativo ou seria um desses países de terceiro mundo com doenças estranhas que fica abaixo da linha do equador...
No dia seguinte estava com Coco e Rodrigo na cozinha, e conhecemos um casal de suíços germânicos. Eles formavam um dos casais mais simpáticos que já vi. Ambos tinham 30 anos e estavam dando a volta ao mundo em uma viagem de 1 ano. Estiveram na América do Sul, mas não!... não passaram pelo Brasil.
O casal contou algumas aventuras no Chile para deleite de Rodrigo e Coco.
Uma coisa que tenho percebido nessa viagem é que ninguém está indo ao Brasil. É incrível o número de gente que vai ao Chile, Argentina, Bolivia; e assutadora a nulidade de turistas que passam pelo Brasil. Na verdade sá conheci uma: Ashlen, a irlandesa que morou comigo em Hereford St. Mas mesmo ela disse ter odiado:
- Brazil is terrible. It's full of "hutie mamas".
- O Brasil é terrível. É cheio de "hutie mamas".Ela chama de "hutie mamas" os sujeitos que sabem dançar e tiram um barato com as gringas que não sabem. Ashlen disse que em nenhum outro país ela foi tão humilhada por "hutie mamas":
- There was one that stared at me all the time saying things like: "come on, gringa, you swing like an european". And then started to do the fucking samba like a crazy bastard.
- Tinha um que olhava pra mim o tempo todo dizendo coisas como: "vamos lá, gringa, você rebola como uma européia". E então começava a sambar que nem um louco.
Dei um sorriso envergonhado, e ela completou:
- And you brazilians think you can dance sooooo well. But for your information, I prefer one thousand times the argentinian's tango.
- E vocês brasileiros pensam que daçam tãoooo bem. Mas pra informação de vocês, eu prefiro mil vezes o tango argentino.Aííííí, toma!!!
No último dia, para minha surpresa, conheci um casal de caravaneiros brasileiros. Eram cariocas aposentados: ele trabalhara para a Petrobras, e ela como professora do estado. Não lembro de seus nomes, mas foram bem simpáticos. Disseram não ter filhos e por isso viajavam o mundo todo.
- Sabe como é, né? não temos pra quem deixar.
A senhora lavava a louça e falava naquele tom que as tias do busão falam no Brasil. Me bateu uma saudade estranha ao ouvir aquela mulher falar; tinha até me esquecido das tias do busão.
- Ai o Brasil tá um horror! Tu sabe que mataram um turista português em Copacabana esses dias. Na luz do dia! Um horror! Não dá, não tem mais jeito. É uma vergonha. Aonde nós vamos parar meu filho? Me diz... em plena luz do dia. Antigamente a gente não ficava sabendo dessas coisas quando viajava, mas agora, com esse negócio de internet, só vem desgraça. Nem da vontade de voltar pro Brasil mais. Vergonhoso! E o incompetente do Lula não faz nada!

No dia seguinte teríamos a tão esperada entrevista. Coco já tinha desistido, disse que ia voltar para Christchurch de qualquer jeito, mesmo se ganhasse 20 dólares por hora:
- I didn't like this city, there are no commodities, too small for me.
- Não gostei desta cidade, não tem muita opção, muito pequena pra mim.(Nelson tem 46 mil habitantes, de fato não é grande, mas porra... tinha cinema! Deu vontade de mandar esse sujeito para Cromwell, passar um temporada no deserto)
Coco estava com as malas prontas quando Rodrigo ligou para a
nursery perguntando quanto pagavam:
- What? 11 dolars ? No, thank you very much, we are not interested!
- O quê? 11 dólares? Não, muito obrigado, nós não estamos interessados!Se eu tivesse mais intimidade teria dit... não, peraí... o que diabos esse chileno acabou de fazer?
- Are you fucking crazy, man? You give up a job like this? Are you nuts?
-
Porra, cara! você está louco? Desiste de um emprego assim? Pirou?- No, man, relax. It is not a good money. We can find better things.
- Não, cara, relaxa. Não é uma grana boa. A gente pode achar coisas melhores.Coco estava esfuziante, voltaria para Christchurch rever sua francesa.
Entramos no carro para dirigir até o Holiday Park. Estava sentado no banco da frente de mau humor, quando ouvi Coco discar seu celular:
- Hello, my french girl! I have a good new for you... I'm coming back to Christchurch... Anh? Pardon?... No, no, the job wasn't not good, it didn't pay well... What? No... I decided that here would not be a good place, Christchurch has more commodities, I can have a better life there... But anyway... are you happy?...
- Oi, minha francesa! Tenho uma boa notícia pra você... Estou voltando para Christchurch... Anh? Perdão?... Não, não, o emprego não era bom, não pagava bem... O quê? Não... Decidi que aqui não seria um bom lugar, Christchurch tem mais opções, eu posso ter uma vida melhor lá... Mas enfim...você está feliz?(longo silêncio)
No, no, but I'm not coming back because of you... Really... I swear... But why do you say that?... Don't you want me to come back?
Não, não, mas não estou voltando por sua causa... Sério...Eu juro... Mas por que você diz isso? Não quer que eu volte?(novamente longo silêncio, pelo retrovisor vi sua cara se metamorfosear dos sorrisos apaixonados para o semblante dos que possuem um coração partido...)
Anyway, I'm not coming back because of you, don't misunderstand me, please!
De qualquer forma, não estou voltando por sua causa, não me entenda mal, por favor!Ele desligou o telefone e ficou olhando atônito para a janela.
Apesar de ainda estar puto com a situação não pude deixar de me divertir vendo a cena...
Respirei aliviado:
... e Deus criou as francesas!