CAIPIRINHA COM KIWI

24 de maio de 2007

Comunicado

Aos leitores do Caipirinha com Kiwi

Primeiro gostaria de pedir desculpas por não postar mais nesse blog e deixar a última história incompleta. Para quem não sabe, não estou mais na Nova Zelândia, minha viagem terminou no dia 15 de Abril de 2007 - os acontecimentos narrados nesse blog vão somente até o último dia do ano de 2006. Tenho mais algumas histórias escritas e pretendo terminar esse blog num futuro próximo, mas no momento estou engajado em um novo projeto.

Estou numa cidade chamada Diamantino, no interior do Mato Grosso... Como vim parar aqui???
Não sei.
Mas provavelmente devo começar um novo blog em breve.

8 de abril de 2007

Sexta temporada – Em busca do Eldorado

Já havia passado por Hastings antes com Rodrigo, a cidade me parecera bacana; pequena, mas não minúscula. Tinha cinema, alguns pubs e umas duas cafeterias; o que no interior da Nova Zelândia já é grande coisa. Nicolas e Javier também me pareceram ser ótimos sujeitos para conviver, muito bem-humorados e dispostos a me ensinar espanhol. A passagem por Hastings tinha tudo para dar certo, trabalharia duro, aprenderia espanhol, faria alguns exercicios no fim da tarde, comeria alimentos saudáveis, economizaria dinheiro e, por fim: voltaria para a civilização rico, bonito e inteligente.

Quando cheguei vi que o tal Backpacker era muito bom. Cozinha limpa, banheiro grande, sala confortável, tudo que o Oceanic não tinha. Encontrei os chilenos e eles me cumprimentaram calorosamente:

- Dale huevon! Yo sabia que tu virias.

Havia passado pouco tempo com os dois em Auckland, mas me lembrava bem do jeito deles. Javier era baixinho, tinha um bigodinho safado e um sorriso gigante. Ele adorava salsa, tocar viola e falar pelos cotovelos. Já Nicolas era mais alto, tinha o cabelo enrolado e era mais na dele. Ambos me mostraram o quarto que dividiríamos: um trailer que ficava do lado de fora na parte dos fundos. Não havia muito espaço lá, a cama não era das mais confortáveis, nossas coisas tinham que ficar todas empilhadas, mas era só para dormir mesmo, e o resto do Hostel compensava. Fui até o escritório e fiz o check-in com Neil e Cindy, os dois são um casal de kiwis recém-entrados na terceira idade. Eles sorriram, foram simpáticos, mostraram o local e cobraram 100 dólares pela semana; até que razoável. O A1 não é um backpack grande, é como uma casa reformada com 4 quartos e três trailers do lado de fora, devem caber umas 20 pessoas no máximo, mas naquele fim de ano percebi que éramos apenas 9: três alemãs, um escocês , um maori, dois israelenses, Nicolas, Javier e eu.

Andrew, o escocês, era um senhor velho, na casa dos setenta, ele passava o dia inteiro vendo TV; dizem que morava no Backpack porque sua família não o aguentava mais em casa resmungando toda hora. Já Leon, o maori, não é velho como Andrew, mas tinha lá seus quarenta e poucos anos. Os dois destoam um pouco da média dos frequentadores do Backpacker pela idade, mas de vez em quando conversavam e compartilhavam experiência com os mais jovens.

As alemãs se chamavam: Stephani, Verina e Monica. As duas primeiras se conheceram no aéroporto de Auckland, viajaram juntas todo o litoral norte do país e pararam em Hastings para fazer uma grana. Lá conheceram Verina, que viajava sozinha com um carro que comprara em Bay of Plenty e também parara na cidade para incrementar seu orçamento de viagem. As três tinham Work Holliday e trabalhavam juntas numa Pack House, embalando frutas.

Por último, os dois israelenses, que eram como todos os israelenses que eu conheci nessa viagem: maconheiros, muito maconheiros! Tal e Nadav dormiam no trailer ao lado do nosso. Sempre que passava a caminho do banheiro via-os sentados escutando um som e soltando fumaça. Os dois sempre me chamavam para fumar:

- Come on, Thiago, I know you smoke!

Mas o fato é que eu não queria mais fumar. Estava em Hastings para fazer dinheiro! A partir dali seria um capitalista e um capitalista que é capitalista rasga pôsteres do Bob Marley e não perde tempo chapando sobre coisas não materiais. Fuck the ganja I want money! Esse seria meu lema a partir de então. Além do mais, como esses israelenses do caralho sabiam que eu fumava?

Depois da terceira vez que me convidaram fiquei incomodado. Tenho amigos no Brasil que sempre reclamaram do fato de terem cara de maconheiros, dizem que vão para as festas e todos chegam perguntando se tem bagulho. Eu nunca tive esse problema, nunca passei por isso. Mas depois que parei para pensar, já faz um bom tempo que todos vem me tratando como maconheiro. Acho que deve ser por causa do cabelo... ou talvez pelas roupas sujas, barba mal feita, tênis rasgados e falta de banho. O fato é que me injuriei com os israelenses. Não iria mais falar com eles. Passei a deixá-los de canto e ia conversar só com os chilenos e as alemãs.
Nos dois dias que antecederam o reveillon, me adaptei novamente à vida no interior. Fiz amizade com os outros moradores do backpack, relaxei, botei minhas sandálias e me organizei. Fiz um planejamento estratégico com Nicolas e Javier, os dois eram estudantes de engenharia pela Universidade Federal do Chile, eram muito certinhos, cheios de planos, números e estratégias. Nicolas comprou um carro, calculamos quanto cada um teria que dar para a gasolina, deduzimos o valor do aluguel do provável salário, descontamos as taxas, adicionamos as horas extras, dividimos pela máxima potência da raiz quadrada dos catetos da hipotenusa e SIM! Estava pronto! Tinha cobiça em meus olhos, nada daria errado, os números estavam do meu lado, havia recuperado minha dignidade, era senhor de mim mesmo, tinha o destino nas mãos e uma frase de auto-ajuda para cada desgraça que ameaçasse acometer-se sobre minha pessoa.O dia 31 chegou. Neill e Cindy, os donos do backpack, nos disseram que o melhor réveillon da região seria em Napier, resolvemos ir conferir. Coloquei minha melhor roupa, fiz a barba e costurei meus tênis. Acho que não deu muito certo, já que Nadav passou por mim, deu uma piscada e disse:

- Come on... I know you smoke!

Fomos em seis, eu, os chilenos e as alemãs. Convidamos Tal e Nadav, mas eles não quiseram ir:
- We’re going to spend the New Year under the moon, smoking ganja and playing guitar.- Vamos passar o Ano Novo sob a lua, fumando maconha e tocando violão.

"Maconheiros!", pensei comigo mesmo. Esse ano novo seria um recomeço, seria um marco nos bons acontecimentos que estavam por vir. Exalava auto-confiança, ainda mais porque Monica, uma das alemãs não parava de me olhar. Quando você acredita em si mesmo as coisas acontecem, não existe sorte, existe oportunidade, um vencedor é quem supera as barreiras, um vencedor é quem sabe trilhar o próprio caminho... Definitivamente, se existia um vencedor, era aquele sujeito cabeludo com boné verde rumo à vitória! Podia até ouvir a música do Rocky Balboa embalando meu sucesso.Enquanto dirigíamos a caminho de Napier a roleta da sorte girou.E não é que a filha-da-puta da bolinha me pára num 13 preto!E não é que a pior coisa que poderia acontecer aconteceu!E não é que o vencedor aqui, cheio de si mesmo, mais uma vez, tomou no cu.

30 de março de 2007

Últimas horas em Auckland

Nos dois dias que se seguiram ao Natal conversei bastante com Dago. Ficamos bem amigos e fumamos vários baseados juntos:
- Ô Thiagão, véio... vai não, véio! Fica aí, vamo passá o ano novo junto, vamo bebe todas e desencaná.
- Pô, cara, preciso ir. Tô sem grana, não tenho nada.
- Fica ae, mano. Eu te banco, cê pode dormir no meu quarto, ninguém precisa saber. Que se foda essa portuguesa do caralho.
- Não, cara, não posso ficar te devendo, não sei quando vou ter grana de novo.
- Véio, se não tiver grana, não paga. Tô te falando, Thiagão, fica aí que eu te banco!

O fato é que eu estava a fim de sair fora. Não gostara de Auckland, a experiência de encarar o Brasil e lembrar que no fundo não passava de um brasileiro no exterior tinha sido dura demais. As coisas também pareciam que iam demorar para esquentar em Auckland, o mercado de dishwasher não estava muito favorável naquele fim de ano. As fazendas pareciam ser novamente a melhor alternativa. É, de fato estava decidido: não passaria o Réveillon em Auckland!
Analisei minhas alternativas: Tom, o inglês, ou Nicolas e Javier, os chilenos. Se passasse uma temporada com os chilenos poderia, por fim, aprender espanhol. Já Tom era gente fina, mas era europeu e certamente não encararia o trabalho da mesma forma que eu. Além do mais ele sempre pegava as melhores garotas para ele.
Optei pelos chilenos.
Mandei uma mensagem para os dois dizendo que chegaria antes do fim de ano.

Antes de partir me reuni com os brasileiros. Todos disseram que me ajudariam caso eu quisesse ficar:
- O meu rei, fica aí, que vai mexer com colheita que nada. Fica aí que em janeiro tu arruma um trampo bom num restaurante.
Subi para arrumar minhas malas, mais tarde os brasileiros se reuniram com os argentinos no porão. Alguém trouxera um violão e uma rodinha de música rolava, uma hora com músicas em português, outra com músicas em espanhol. No chão a argentina que chorara por causa dos chocolates beijava Marcelo, o mulato que veio da Austrália.
- Rapaz, num é que a bichinha gosta mesmo dum chocolate?

No exterior as características são mais fortes. Conviver com tantas nacionalidades diferentes te faz prestar atenção em todas nuances culturais, você pega facilmente todas qualidades e defeitos dos seus semelhantes e pode fazer um julgamento melhor sobre como o meio em que você vive te transforma. A experiência no Oceanic não foi das mais enaltecedoras para formar minha visão do povo Brasileiro. No entanto descobri que, apesar de tudo, o brasileiro é solidário. O engraçado é que essa solidariedade não está relacionada com nenhuma formação de caráter comum, não ligamos para honra, para mérito, para dignidade. Somos solidários mais porque temos uma coisa que, infelizmente, não sei como chamar. Alguns chamam de bom coração, outros chamam de amor, mas o fato é que é um sentimento que nunca encontrei tão forte em nenhuma outra nacionalidade. É algo que nos faz brasileiros, que nos faz ser um povo diferente, cheio de contradição, cheio de sofrimento e alegria.
Cada brasileiro sabe a dor e a delícia de ter um passaporte verde.

Fim da quinta temporada

28 de março de 2007

Um brasileiro que veio da Austrália

O mês de dezembro foi crucial para minha viagem: ficar ou não ficar na Nova Zelândia, eis a questão. Meu visto iria vencer em janeiro e minha passagem estava em aberto. Quando cheguei em Auckland, tinha certeza de que minha viagem terminaria aqui, não tinha motivo para continuar, a New Zealand era como um cassino, e eu perdera todas as fichas. era hora de ir para casa me recompor.
No entanto um dia depois de ver Tom apostar 200 dólares na roleta e recuperar todo seu dinheiro, alguma coisa mudou em minha cabeça: talvez eu não esteja apostando alto demais! era tudo o que eu pensava. Resolvi ir até a Aerolineas e marcar minha passagem.
- What is the day limit ?
- Qual o dia limite?
- April 14.
- 14 de Abril.
- Ok, you can book it!
- Ok, pode reservar!
Pronto, tinha até o dia 14 de abril para encontrar o que viera buscar. Tinha comprado minhas fichas, e a roleta estava girando!

Foi aí que conheci Marcelo.

Marcelo chegou no Oceanic um dia depois do Natal, ele era um mulato alto de Brasília e estava de partida para o Brasil no dia seguinte. O sujeito tinha um forte sotaque de quem morou muito tempo fora, falava meio enrolado e às vezes soltava algumas palavras em inglês no meio da conversa em português.
Ele me contou sua história... e que história!
3 anos atrás Marcelo fora à Austrália para estudar inglês. Do Brasil ele comprara um curso e tirara o visto de estudante. Os estudantes podem trabalhar até 20 horas semanais legalmente no país. Marcelo estudava e trabalhava como pedreiro durante os primeiros meses, disse que tirava mais de 100 dólares por dia. Algum tempo depois ele começou a trabalhar num bar em Sydney e não demorou para que arrumasse uma namorada australiana. Com o passar do tempo o brasileiro descobriu a atração que as gringas têm pelos mulatos. Ele acabou sendo convidado para trabalhar como stripper e juntou uma grana astronômica.
- Eu comecei a freqüentar as melhores baladas, comer as melhores mulheres, me envolver com os sujeitos mais importantes. Teve uma festa que fui com minha namorada e encontrei o Russel Crow. Nada demais, sempre encontrava gente famosa, the fact é que ele me ofereceu 10 mil dólares para que eu comesse minha namorada na frente dele.
Marcelo começou a mostrar algumas fotos, tirou seu celular do bolso e mostrou fotos da sua namorada, primeiro ele e ela, depois só ela, depois só ela sem roupa.
- Ela era muito gostosa, you know do tipo que todo mundo olha na rua e cobiça... nunca que um mulato que nem eu ia ter uma mulher dessas no meu país.
Foi aí que dois anos se passaram e ele voltou de férias para o Brasil.
- Gastei uma fortuna em festa e putaria, mas deixei uma boa parte guardada para voltar a Austrália. E foi aí que aconteceu!
A embaixada australiana negou o visto de entrada de Marcelo alegando que ele não tinha as presenças necessárias na escola para renovar seu visto de estudante.
- Foi a pior coisa que me aconteceu. Eu tinha tudo, tinha uma vida na Austrália, tinha conseguido comprar tudo o que eu sempre quisera, fiz fama, dinheiro, poder.
Foi então que Marcelo resolveu investir seu dinheiro para vir para a Nova Zelândia. Mas a vida nesse pequeno pedaço de chão não é nada se comparado com o gigante australiano:
- Esse país is shit. Não consegui fazer grana, trabalhei pra caramba e não juntei a grana necessária para voltar para a Austrália. Ninguém faz dinheiro aqui!
Na verdade, Marcelo tinha que ficar pelo menos 1 ano fora de solo australiano para tentar entrar novamente. Ele queria passar esse tempo na New Zealand, fazer um dinheiro e depois tentar o visto australiano novamente.
- Nesse meio tempo terminei com minha namorada, ela começou a sair com outro brasileiro. O plano era ela vir para a Nova Zelândia para casarmos e ficar mais fácil dar entrada na minha cidadania... mas não rolou.
Marcelo decidiu então tentar uma última tacada. Ele ganhara uma vez 4 mil dólares num cassino na Austrália.
- Sempre jogava, às vezes ganhava, às vezes perdia. Na maioria das vezes tive prejuízo.
Decidiu jogar em Auckland:
- Perdi... mas perdi feio! Mais de 12 mil dólares.
- DOZE MIL DÓLARES???
- Sim, perdi tudo isso em duas noites. Não consegui parar, fui gastando, ganhei algumas vezes, fui apostando high, cada vez mais. Perdi tudo.
- E agora, o que você vai fazer?
- Agora vou voltar pro Brasil. Estou quebrado. Não tenho nada! Tive que vender meu MP3 para pagar a acomodação essa semana e bancar um taxi quando chegar no Brasil. Brazil again... depois de tanto tempo vou ter que aprender a viver no Brasa de novo... É tao estranho!

Naquela tarde fiquei pensativo.
Já tinha comprado minhas fichas.
Ia apostar em mais 3 meses.
Mas Marcelo me fez lembrar de uma coisa...

... de que eu também posso perder!

23 de março de 2007

Um brasileiro que veio do México

Pelos corredores do Oceanic sempre via um sujeito falando espanhol, mas não sabia da onde ele era. Com surpresa descobri que era brasileiro, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, seu nome era Antônio, mas todos o chamavam de Dago.
- Pô! pensei que tu era argentino ou alguma coisa.
- E eu pensei que tu era gringo ou qualquer coisa.
Dago tinha passado um ano na Cidade do México, estudara comércio exterior no Brasil e trabalhara para uma empresa de exportação na maior cidade do mundo. Ele aprendera a falar espanhol lá, e veio para a New Zealand aprender inglês e trabalhar como lavador de pratos. O sujeito tem um sotaque bem típico de Ribeirão Preto, fala véio a cada duas palavra:
- Véio, a parada no México é muito loca, tá ligado? É doido você morar uma cara lá e depois vir pra cá. O mexicano é muito malandro véio, se brasileiro pensa que é veiaco, você não imagina os caras. Esse país aqui véio, isso aqui não parece que é real, mano. No começo eu pensava que esses kiwis eram muito ingênuos, mas depois não. Não são eles que são ingênuos véio, somos nóis que sabemos demais, nóis que somos muito malandro, tá ligado? Olha como esses kiwis vivem... olha esse país, véio! Tudo certinho, sinalzinho que apita bi bi bi bi quando abre, velho andando sussegado nas ruas, ninguem quer te passar pra trás. Mano, agora olha nosso país véio, olha o México...nós é veiaco porque se não nós morre!
Estávamos conversando na cozinha e Dago não tirava os olhos do canto da mesa.
- Mas é isso véio, a parada parece que ainda não chegou aqui. Esse lance que aconteceu com os brasa onti, eu não tava aqui, tá ligado? tava trampando, mas os maluco me falaram, é bem isso, mano, brasileiro é malandro, gosta de tirar vantagem, se for em cima de argentino melhor ainda. Mas tá ligado, se no brasa é foda, imagina aqui, véio! O lance é que aqui da mais na vista, tá ligado? aqui os maluco não se protegem, aqui não tem veiaco, aqui fica mais feio ser brasa.
Dago continuava a mirar o canto da mesa:
- Véio, to de olho naquele kebab ali no canto. Faz mó cara que deixaram isso ali, desde que cheguei do trampo.
Ele se levantou e pegou o kebab que estava enrolado em papel alumínio.
- Pronto véio, aqui. Cê janto?
- Ainda não.
Ele dividiu o kebab no meio e me deu metade:
- Aí, mano... são duas barrigas vazias e um lanche que ia pro lixo.

20 de março de 2007

A Noite Mágica de Natal

Primeiro ceiaram os chilenos. Fizeram uma grande ceia, brindaram e saíram para a rua festejar. Susu, a japonesa, havia me convidado para jantar junto com ela e um outro irlandês que nunca vira na vida, presumi que os brasileiros nao fariam nada de especial e acabei aceitando. Comemos, conversamos e nesse meio tempo os argentinos começaram a ceiar. Eles ligaram o Ipod numas caixas acústicas brancas e encheram o porão com música: Bob Marley, Manu Chao, Jimi Hendrix. Ceiaram com vinho e pernil. Estavam todos bem-arrumados, as garotas maquiadas e perfumadas.
Depois de algumas horas os primeiros brasileiros começaram a chegar. Ricardo apareceu vestindo sua roupinha de Natal, todo penteadinho e de sapatinho novo. Logo depois desceram os baianos, os mineiros, os paulistas e os goianos.
Nesse momento ficaram todos na sala, argentinos, brasileiros e algums moradores como Ash, Robert e Abdu. Francisco, o argentino, perguntou se eu queria fumar com ele e seus camaradas... achei melhor não, afinal era noite de Natal. Mas alguns minutos depois todo mundo ficou bêbado e fumado, resolvi voltar atrás na decisão e procurar o argentino:
- Muy tarde bolhudo, nosotros ya fumamos tudo.
Mas Bida, um brasileiro do Guarujá, disse que tinha um pouco e dividiria comigo se eu arrumasse duas argentina gostosas para fumar junto. Achei a proposta absurda, mas por coincidência, algumas horas depois, duas argentinas lindas chegaram pra mim e perguntaram se eu conhecia algum brasileiro que tinha fumo.
Estávamos indo os quatro, quando Francisco chega e pergunta se pode ir junto:
- Por supuesto huevon!
Mas Bida não gostou da idéia:
- Que cê tá fazendo, mano? Vai quebrar a roda, tamo com duas gata, cê vai bota um mané no meio?
Aí ele virou pro argentino e fez um sinal de negativo com a mão:
- No, no... vaza, vaza!
Não sabia onde enfiar a cara, o filho-da-puta não queria dividir nem um baseado na noite de Natal!? Ainda mais com o argentino que sempre fumava com a gente. Fiquei muito envergonhado. E o argentino muito puto:
- Concha su madre, que brasilero culiado de mierda.
Os dois quase saíram na mão, se xingaram em plena noite de Natal por causa de um baseadinho. Acabei jogando uns panos quentes, dei uma cerveja para Bida e tentei mudar de assunto:
- Muy culiado este brasileiro. Que se cre? pensa que vai culiar com las chicas argentinas. Maricón de mierda!
Bida foi fumar sozinho com as duas garotas, claro que não fui junto. Elas não ouviram a briga, estavam mais adiante e muito chapadas para saber o que se passava em volta. No fim as argentinas voltaram pra sala, beijaram outros argentinos na frente de Bida e ainda olharam para ele rindo. Bida ficou com cara amarrada a noite inteira e foi dormir mais cedo.

Mais tarde os argentinos saíram todos para a balada. Nenhum brasileiro tinha dinheiro para festejar a noite fora, acabaram ficando todos na mesa. Telemar disse que ia pegar um som para tocar umas músicas. Subiu e desceu com um estéreo muito antigo.
Ele e Zé Luíz tentaram ligar.
Os brasileiros sentaram-se na mesa em que os argentinos estavam sentados antes. Robert e Abdu, o maori e o paquistanês, juntaram-se ao grupo. Os dois também não tinham para onde ir na noite de Natal e resolveram sentar-se com os brasileiros. Um pouco mais ao longe Susu e dois amigos japoneses conversavam no sofá em frente a TV.
Telemar e Zé Luíz continuavam a mexer no som tentando ligá-lo.
Abdu sacou uma câmerazinha fotográfica bem velha e perguntou se podia bater uma foto com os brasileiros. Era sua noite de Natal na New Zealand e, muito provavelmente, ele queria ter uma recordação. Os brasileiros se emparelharam ao lado do paquistanês soltando frases como: "ae fedor!", "diga x cheiroso".
Flash!
Telemar e Zé Luíz ainda mexiam no rádio. Levantei para ver se podia ajudar:
- Bah, de quem é esse som?
- É meu uai, achei no lixo aqui perto.
- No lixo, Telemar?
- É ué, tá aí novinho.
Não conseguimos ligar o som. Após alguns segundos desisti de tentar, e me pus a olhar os CDs de Telemar: Mastrus com Leite, Aviões do Forró, Calipso, por alguns segundos rezei para aquele som nunca pegar. O mais estranho para mim, no entanto, era olhar aquela coleção de CD piratas, fazia tanto tempo que não via aquilo.
Telemar continuou a mexer nos botões.
Valtinho sentou-se na ponta da mesa e esbarrou numa sacola:
- Eita nóis... pérai, pérai todo mundo!
Todos olharam para Valtinho:
- Olha aqui o que o Papai Noel deixou pá nóis!
E o baiano jogou na mesa uma sacola cheia de chocolates. A brasileirada toda bateu palma e correu para abrir as embalagens. Um saquinho de confete explodiu enchendo a mesa com o doce colorido. Quase no mesmo instante Telemar conseguiu ligar o som.

Chegou, virou, botou pressão/ Balançou, balançou/ Swing de tremer o chão/ Isso é Calypso

Peguei um papelzinho de chocolate da mesa e li assustado as palavras: made in Argentina. Tentei chamar a atenção do povo:
- Ei, pessoal, acho que esse chocolate é dos argentinos.
Mas ninguém ouviu, o forró comia solto e o chocolate era farto na mesa.
A mulher de Telemar dançava, o povo bebia, e os japoneses tampavam o ouvido do outro lado da sala.
Nisso uma argentina adentra o recinto. Ela olha desconfiada para a mesa, mas prefere não acreditar no que está vendo. Ela segue em direção ao local onde Valtinho estava sentado:
- Sorry... there were some chocolates there, do you know where are they?
- Desculpe...Tinha uns chocolates ali, sabe onde estão?
Todos olharam para mim:
Não disse nada.
É impossível descrever a cara de vergonha com que os brasileiros olharam a argentina. Tava na cara o que tinha acontecido, mas ninguém queria explicar a situação, e ela queria ouvir de nós o triste fim de seus chocolates argentinos. Eu não sabia o que fazer, não sabia onde me enfiar. Talvez coubesse a mim tentar explicar a situação, pelo menos eu acho que era o que todos esperavam. Mas pela primeira vez na vida me senti paralizado pela vergonha. Resolvi ficar quieto sem dizer nada, só olhei para o chão e rezei para que a terra me engolisse.
A pobre argentina chorou, e, para nosso desespero, o fez copiosamente! Nesse meio tempo chegaram outros argentinos e perguntaram o que acontecera:
- Los brasileros comeram todo chocolate que yo trouxera para Jasmin.
Dor... pela primeira vez na vida senti dor de tanta vergonha.
- Ok. Sorry! Sorry very much!
Era Zé Luíz que levantara como um herói e tentara contornar a situação. Ele falou um portunhol misturado com inglês e conseguiu resolver a situação. Disse que tínhamos bebido demais, que perderamos as estribeiras e que pagaríamos pelo prejuízo. O goiano tirou uma nota de 20 dólares da carteira e deu para a garota. Ela limpou as lágrimas, pegou o dinheiro e saiu.
Por alguns segundos o silêncio imperou na sala. Todos estavam tentando entender e assimilar a situação. Foi quando Ricardo soltou:
- Ah, argentinos de merda! Sempre pensam que são melhores que nós.
Alguns concordaram, outros ficaram quietos e Telemar ligou de novo o som:

Deixa a guitarra swingar/Dirim, dirim, dirim, dom/E o som bater no coração/Dim, dim, dom/O toque é bom pra se dançar/Dirim, dirim, dirim, dom/E bata na palma da mão/Dim, dim, dom

Ainda estava paralisado de vergonha no meu lugar. Era algo violento, sentia minha pele pegar fogo e tive muita vergonha de ser brasileiro naquele momento. Mas não tive vergonha pelos meus compatriotas, não, o motivo principal de tanta agonia, sofrimento e desgosto vinha de dentro, literalmente. O que mais doeu era saber que em algum lugar dentro do meu estômago estava a prova do crime...
... e eu ainda podia sentir na boca o gostinho!

15 de março de 2007

No submundo de Auckland

Anotações de diário:
23 de dezembro de 2006

Abdu é paquistanês. Ele mora sozinho num dos quartos do Oceanic. O sujeito é mais velho, está na casa dos 50 e trabalha na cidade durante a noite. Abdu não tem amigos, está sempre sozinho, mas sempre cumprimenta todo mundo quando desce para comer sua janta. Ele usa um perfume paquistanês muito forte que os brasileiros deduziram como sendo fedor natural. Abdu sempre sorri educadamente para os brasileiros que tampam o nariz assim que ele passa. "Ê, fedô!" dizem alguns.

Um pouco antes do Natal, Tom partiu para trabalhar na colheita em Napier. Tom era meu melhor amigo na cidade, ele havia insistido um bocado para que eu ficasse por lá durante o Natal e depois ambos viajaríamos pra onde quer que fosse. Mas algo misterioso o fez mudar de idéia e partir antes do planejado. Desconfio que tenha sido porque o ambiente ficava cada vez mais pesado.
Eu deveria ter ido embora, mas queria passar o Natal com os brasileiros. O fim de ano não estava sendo fácil, a saudade aumenta muito nessa época e ficar com meu povo e falar minha língua ajudaria a matar essa carência. No entanto estava sem trabalhar e, fora escrever, não fazia nada durante o dia inteiro. Com o tempo acabei mergulhando no submundo de Auckland.

Cyber Café
Durante o tempo que antecedeu o Natal me dediquei com afinco ao blogue. Todos os dias cruzava a Anzac St. até a Madison St. e chegava ao Knight Brothers, um cyber café nas imediações. Os donos do Knight Brothers eram, é claro, chineses. O atrativo do lugar é o preco: 2 dólares por hora, mas se você comprar um plano pode usar 50 horas por 50 dólares, apenas 1 dólar por hora. O fato é que o Knight Brothers é uma porcaria de lugar. Fica num porão, embaixo de uma cafeteria e cheira a mijo. O banheiro do lugar é inutilizável, se estou escrevendo e preciso urinar tenho que me locomover até o Fat Camel, um bar que fica ao lado. Lá dentro as paredes são todas pichadas e o chão é grudento de tão sujo.
À noite o Knight Brothers é ainda mais assustador, já que nessa hora a internet também funciona como ponto de drogas, vários maoris bem ao estilinho rapper americanos se drogam em frente a turistas assutados e desavisados. Tem um gordão que se deita na cadeira bem ao lado do banheiro, se pica todo e dorme sonhos intranqüilos fazendo um barulho estranho. Misturado ao maoris estão os chineses que passam a noite jogando aquela merda de joquinhos que eles jogam... um tal de Counter-Strike.
O dono da internet é um chinês feio pra caralho, parece que lhe tacaram fogo na cara e apagaram com um martelo. Desconfio que deva ter um acordo secreto entre ele e os traficantes. Os maoris estão sempre lá bagunçando, às vezes tenho que desistir de escrever porque gritam e fazem muita zona. Ao mesmo tempo o chinês não faz nada. Fica calado e finge que nada está acontecendo.
Já as mocinhas são duas chinesinhas. São bonitinhas até e se revesam na recepção. Uma delas tem uma voz irritante, está sempre gritando coisas em chinês, quando ela começa, tenho que tapar o ouvido. Não sei qual é a relação delas com o chinês dono do negócio, mas desconfio que não seja somente negócios. Um dia fui de madrugada para usar a internet, ela funciona 24 horas, e encontrei a grade fechada com um bilhete: "Sorry, CLOSE. open tomorrow 8 am". Me aproximei da grade e uma luz negra iluminou meu rosto. Lá dentro alguns gritos de mulheres e um barulho de chicote davam o tom. Não consegui ver nada, minha visão só conseguiu pegar um chinês que jogava aquelas porcarias de joguinhos de tiro mais ao canto... alheio a tudo o que acontecia a sua volta.

Ash
Dentre os moradores do Oceanic, Ash é o único kiwi. E ele é bem típico: usa um bonézinho preto com a aba reta virada para o lado, bermudão e camisa listrada. Igual a maioria da molecadinha kiwi.
A primeira vez que conversei com Ash foi no porão. Ele veio perguntar se eu queria fumar maconha com ele. Recusei o convite, e ele me ofereceu algumas cervejas. Bebemos no seu quarto, o lugar era uma sujeira, quase pior do que o quarto 37. Ash deu uns pegas e começou a contar sua vida. Ele tinha apenas 22 anos e tinha um filho com uma japonesa pra criar.
Ash não faz o tipo violento, na verdade faz mais o tipinho carente, assustado com o mundo. Ele tenta a todo custo fazer amizades com o pessoal no backpack, mas a barreira da língua e os costumes acabam esbarrando nas suas boas intenções. Ele tem mania de abraçar todo mundo, o que não demorou para ser interpretado pelos brasileiros como um traço de viadagem. No entanto, apesar de toda essa carência, quando criança sua mãe o colocara num internato para crianças violentas.
- I never understand that. I didn't do anything
- Eu nunca entendi isso. Não fiz nada.
Ele começou a falar sobre sua namorada:
- It was very nice, I met her in the street and after we were fucking in her house... I didn't need to do anything, it was very easy.
- Foi muito legal, eu conheci ela na rua e depois estávamos transando na casa dela...Não precisei fazer nada, foi muito fácil.
Ele disse que o filho não foi planejado, mas que ele e a garota faziam sexo sem camisinha de propósito:
- I think she wanted to get pregnant. I don't know why.
- Acho que ela quis ficar grávida. Não sei por quê.
Sua namorada acabou tirando a cidadania neozelandesa e morando em Auckland.
O kiwi perdeu seus últimos 3 empregos, não consegue achar trabalho em lugar nenhum e se mantém com um seguro desemprego de mais ou menos 200 dólares por semana.
Como já escrevi aqui antes, na Nova Zelândia é quase que obrigatório sair de casa após os dezoito anos. Com Ash não foi diferente, sua mãe o tocou pra fora quando completou a maioridade e nunca mais ligou, nem para dar os parabéns no aniversário.
- Fuck, what did you do to your mother?
- Porra, o que você fez pra sua mãe?
- Nothing, man. I swear that I didn't do anything.
- Nada, cara. Juro que não fiz nada.
- Fuck, and she never calls you?
- Caralho, e ela nunca liga pra você?
- I know what you mean... the families here in New Zealand are shit! I heard that you have a good family in South America. Maybe that's why you're so surprise with my mom.
- Te entendo...as famílias aqui na Nova Zelândia são uma merda! Ouvi que você tem uma boa família na América do Sul. Talvez é por isso que você está tão surpreso com minha mãe.
Descemos para a cozinha. Varios latinos falavam em espanhol, alguns me chamaram para conversar. Ash sentou-se em frente a TV. Era assim que esse kiwi levava seus dias: bebendo, fumando e vendo TV: como um estrangeiro na própria terra.

Os expulsos

Primeiro foi um brasileiro chamado William, paulistano da zona Sul, cheio de marra, o sujeito passava boa parte dos seus dias fumando maconha no quarto 34 do Oceanic. Um dia a portuguesa dona do Hotel descobriu e o chamou para conversar.
- Ou você me paga o dobro do aluguel ou eu chamo a polícia.

Wiliam foi extorquido por algumas semanas, até conseguiu negociar e se mudou para outro backpack.
O segundo foi Paul, o inglês. Paul dormia com Ricardo, o paulistinha de São Caetano com passaporte italiano. Ricardo acabou contando para a portuguesa que o inglês queimava um "cigarrinho do capeta" no dormitóio.
Paul foi expulso.
Por útimo foi Brian, o americano. A portuguesa disse que ia trocar meus lençois e queria ir comigo até o quarto para eu dizer qual era a minha cama. Quando ela entrou quase teve um ataque:
- Mas que bagunça!!!! Como alguém pode viver aqui?
Ela perguntou de quem eram as coisas atiradas por todo quarto:
- É do gringo aí.
Brian estava dormindo na cama, e a portuguesa o acordou:
- Brian, wake up! Pack your things and go to my office.
- Brian, acorde! Arrume suas coisas e vai pro meu escritório.
O engraçado é que o americano se levantou ao tiro e começou a arrumar as malas. Ele nem questionou por que estava sendo mandado embora.
Com certeza não era pelo que estava pensando.

12 de março de 2007

O Baiano que queria falar inglês

Anotações de diário
22 de dezembro de 2006:

Robert é maori. Ele trabalha como cleaner no Oceanic. Robert é um senhor na casa dos 60 que procura levar uma vida saudável, sempre o encontro com uma camiseta regata e tênis pronto para fazer sua sessão de exercícios. Ele tem uma voz grossa e um sorriso fácil e envergonhado. O sujeito está sempre sozinho, não tem nenhum amigo e segue diariamente sua rotina, quase invisível aos outros moradores. Outro dia descobri que ele cumpriu sentença na penitenciária de Auckland há uns dois anos. Não consegui saber o motivo, mas outro dia quando o vi correndo nas ruas de Auckland pude sentir o peso de seu passado em seu trote.

Os brasileiros me colocaram lá em cima pelo fato de ser o único que falava inglês. No entanto, o Oceanic era o lugar de chegada do pessoal, ninguém estava aqui há mais de 3 meses, e eu já era macaco velho na New Zealand. Quando dizia que era que nem eles no começo e que tinha aprendido inglês na raça, eles ficavam cheios de motivação. Valtinho era um deles. Conheci o baiano enquanto esperava para usar o telefone e ele pintava o salão de entrada do Oceanic. Ele começou a contar algumas histórias, disse que tinha um filho para criar em Trancoso, na Bahia, e que passou por maus bocados com o brasileiro que o trouxe pra cá.
Valtinho é um fenômeno, faz de tudo sem falar nada de inglês. Arrumou um empregador russo, se comunica com o sujeito e consegue explicar tudo sem falar nada. De todos os brasileiros ele é o que se envolve mais com os gringos, sempre o vejo tentando conversar com os japoneses e os ingleses. O fato de eu ter um bom transito entre os gringos o motivou mais ainda:
- Rapaz, tu tem amigo gringo e os nego gostam de ti mesmo? Que coisa bonita isso.

Ele acabou grudando em mim. Quando ia falar com os ingleses ele ia junto, quando ia beber com os chilenos ele também estava lá. Nao que o baiano fosse chato, ele ficava quieto ouvindo e prestando atenção, não atrapalhava nem se intrometia demais. No fim do papo dizia o que tinha entendido da conversa... na maioria das vezes entendia bem o contexto.
Com o tempo os brasileiros acabaram se misturando mais com os gringos. Os argentinos chamavam direto os brasileiros para fumar maconha e vice-versa. Teve um dia que Francisco, um argentino, nos chamou para uma rodada. Ricardo, o paulistinha mala de São Caetano com passaporte italiano, disse que queria ir junto. Fomos eu; Ricardo; Valtinho; Francisco; Prasad, o indiano e Paul, o inglês.
Ricardo não fumava. Nunca havia fumado na vida:
- Rapaz, mas quantos anos tu tem? Aonde já se viu um bicho grande desse qaue nunca fumo. Vai fumá sim, meu rei. Vai fumá e vai fumá é agora!
Mas Ricardo só sorria envergonhado, se recusou a fumar e só ficava nos olhando com olhar de reprovação e asco. Ficamos sem entender por que ele quis ir junto, talvez para contar para seus amigos paulistinhas filhinhos-de-papai as aventuras que teve no exterior: o dia em que quase fumou maconha... talvez a coisa mais transgressora que tenha feito na vida.
O baiano deu dois pegas e começou a falar inglês.
- Oh, my brodinho, this is veri goodi!
Ele falava com um sotaque muito forte, mas o indiano, o inglês e o argentino entendiam tudo. Não demorou muito para que eles quase morressem de dar risada com o baiano. Em especial o indiano, que começou a idolatrar Valtinho
- Man, you're so fucking funny. I never see anything like this. You're a legend, you're a god!
- Cara, você é engraçado pra caralho. Nunca vi algo assim. Você é uma lenda, um deus!
O baiano se abriu mais que um pavão e continuou a arranhar o inglês com os gringos:
- My friend, I ami from Bahia... in Bahia you take easy. Let's takerizar my king.
O indiano ria tanto que pensei que ia ter um colapso.
Ricardo não entendia nada. Ficava nos olhando com cara de taxo sem saber o que fazer quando me perguntou:
- Que que o Valtinho tá falando aí?
Mas o baiano já cortou a conversa:
- No portugese, my friend. We don't speaki portuguese. Here, english! Only english.
- Sem português, meu amigo. A gente não fala português. Aqui, inglês. Só em inglês.
- Fala aí, Thiago, o que que o baiano tá falando?
Resolvi não falar. Estava gostando da cena. Não é sempre que você vê um baiano pobre com familía pra sustentar tirar um barato de um advogadozinho filhinho-de-papai.
- Sorry, man, you heard the baiano: no portuguese in this place!
- Desculpe, cara, você ouviu o baiano: nada de português aqui!
O sujeito ficou puto da vida e saiu da roda.

No dia seguinte Valtinho chegou pra mim e disse:
- Rapaz, esses gringo de onti não falam nada mermo de português?
- Não... por quê?
- Sério mesmo?
- Claro!
- E sao meus amigos rapaz! Como é que pode? Tô falando é muito inglês mesmo.
Nisso Paul chegou e deu uma batidinha nas costas de Valtinho:
- Hey, man, how are you doing?
Vaguinho fez um joinha, soltou um good! e abriu um baita sorriso:
- Rapaz, se contar em Trancoso ninguém acredita.

9 de março de 2007

Os professores

Anotações de diário:
20 de dezembro de 2006

Uma das piores coisas que pode acontecer com um brasileiro no exterior é um fenômeno chamado: desbrasileiração. Para os indivíduos que realmente têm planos de voltar à patria amada, a desbrasileiração pode trazer sérios danos ao estilo de vida e cotidiano dentro do perímetro verde e amarelo. Claro que se o imigrante em questão quiser passar o resto da sua vida no exterior, a desbrasileiração passa a ser vital e bem-vinda. Os primeiros sintomas de desbrasileiraçãp: parada súbita do ato de furar fila, baixo desempenho com o jeitinho e perda da capacidade de tirar vantagem de tudo. Em alguns casos mais sérios o imigrante pode apresentar mal-funcionamento do dispositivo da malandragem, causando sérios prejuízos financeiros e morais. O ministério da saúde adverte: a perda da malandragem pode ser extremamente danosa e, em alguns casos, irreversível.


Uma coisa que me irrita quando brasileiro se reúne é que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Foi Diego que veio me falar desse tal de Ricardo pela primeira vez.
- O cara é louco. Juro, ele não bate bem.
O sujeito ficou famoso no Oceanic por ser um completo e irremediável cabação! Primeiro de tudo o cara só falta pendurar o passaporte italiano no pescoco, vive dizendo que é europeu e que odeia o Brasil, mas na verdade não fala nada de italiano e talvez nunca tenha sequer ido para a Italia, é so mais um dos tantos descendentes que tem o privilégio de tirar a cidadania. Ricardo é na verdade um paulistinha de São Caetano muito metido à besta, não dá nem pra levar o sujeito a sério. Ele é formado em direito por uma dessas uni-não-sei-das-quantas e vive batendo no peito para falar da profissão. Seu jeito bobo e falastrão acabou virando alvo perfeito para a brasileirada. Todos tiram o maior sarro dele que no fim sempre ameaça chamar a imigração se não pararmos:
- Tô ligado que vocês tão tudo ilegal aqui, eu não tenho problema com nada, tenho passaporte italiano. Tô cagando pra vocês.
O mais engracado é que o palerma não fala nada de inglês. Mas nada mesmo! Outro dia ele entrou no banheiro feminino porque tinha achado que o Women era mais parecido com Homem. Ele é do tipinho que gosta de malhar, usa camisetinha tomara-que-me-comam e passa horas na frente do espelho para ajeitar os cabelos loiros.
Mas não dá pra levar o cara a sério!

Beto é um sujeito muito quieto. Às vezes o vejo na cozinha comendo seu sanduíche lentamente, pensando na vida. Ele é gaúcho de Porto Alegre e deve ter uns 40 anos. Descobri que ele era professor de biologia no Brasil e desistiu da carreira para vir trabalhar como pedreiro na New Zealand. Existem outros 2 professores no Oceanic: Zé Luiz, de historia e Lyard, de filosofia. Este último é mais jovem, está na New Zealand mais para aprender inglês, voltar para o Brasil e continuar a dar aula. Já Zé Luiz é como Beto e está aqui para ficar. Ele trabalha numa oficina mecânica e sustenta esposa e filhos no Brasil.
Outro dia conversei com Zé Luiz. Ele é goaino e está no país há mais de um ano. Disse que infelizmente recebe mais como mecânico na New Zealand do que como professor no Brasil:
- O problema da nossa profissão no Brasil é que ninguém respeita. Ser professor virou profissão de dona de casa, de senhoras casadas com PMs ou comerciantes e que querem fazer um dinheirinho para incrementar a renda no fim do mês. Não tem seriedade, não tem compromisso. Eu realmente gostava de dar aula, acreditava muito na profissão, mas o que você pode fazer quando um moleque vira para você e diz que não quer estudar porque o pai dele que nunca estudou ganha duas vezes mais do que o professor otário dele?

Ver o Brasil de fora é muito estranho. Eu sempre soube que a educação era um problema, mas não sabia que era tanto. Você começa a ver o quanto o resto do mundo tem uma visão maior das coisas e o quanto o brasileiro é alheio à realidade. Estamos na época da informação e sempre que entro na internet para checar os principais sites de notícia do meu país, vejo sempre as mesmas coisas: Big Brother, novela, fofocas. E, se procuro mais a fundo, vejo que a corrupção na política continua, que o povo colocou Clodovil, Maluf e Collor na Câmara e que a violência come solta no país. Ou temos um filtro muito grande para desgraças ou o povo é alienado... muito alienado!

Outro dia Lyard estava conversando com Beto no porão. Estavam debatendo sobre política e de como era vergonhoso o PT ter ganhado de novo. Beto falava algo de ter votado no Lula em 2002 quando Ricardo chegou:
- O quê?! Você votou no Lula?
Os dois deram risada, como disse, não dá pra levar a sério um sujeito como Ricardo.
- Sim, votei no Lula
- Você é muito otario, isso sim! Também, professor, só podia ser petista mesmo. A pior raça é petista e professor. Pra mim, é um bando de vagabundo que fica pedindo aumento sem fazer nada... tinham que matar tudo que é petista e professor. Como se isso lá fosse profissão.
Os dois riram um tanto nervosos.
Mas não dá pra levar Ricardo a sério...
...assim como às vezes não dá pra levar o Brasil a sério.

8 de março de 2007

Os dois ingleses

Anotações de diário:
19 de dezembro de 2006:

A cozinha do Oceanic é uma merda. Tem um corredor na parte dos fundos onde ficam as geladeiras, você tem que colocar seu nome nas coisas e largar lá. Ao lado da mesa grande tem uns armários. Os produtos não-perecíveis você pode guardar lá, só colocar seu nome e jogar ali. Primeiro me roubaram uns tomates que comprei, depois sumiu minha faca e usaram metade da minha maionese. Comprei uma torta outro dia, era baratinha, apenas 1 dólar; me roubaram também! Parei de comprar comida. A partir de agora só vou comer na rua... é mais caro, mas mais garantido.

Paul era pedreiro na inglaterra. Ele veio para a New Zealand com o Work Holiday. Muitos europeus fazem isso, o que acaba confundindo os latino. A maior surpresa dos brasileiros foi constatar que Paul trabalhava como pedreiro em Auckland: "Mas como se ele é inglês?" se perguntava a maioria. O fato é que a New Zealand é muito diferente da Europa, nunca fui pra lá, mas conversei muito com os europeus para descobrir o quanto este país é especial. Ao contrário dos latinos, asiáticos e africanos, os europeus vêm para aproveitar o país. Eles não estão muito preocupados com dinheiro, vêm para trabalhar nas fazendas, viajar em trailers e fumar muita maconha. A juventude européia da New Zealand é um tanto neo-hippie, entende a importância do trabalho, mas não ignoram o sexo, as drogas e o rock n' roll.
São milhares de franceses, ingleses, alemães, holandeses, todos convertem seus euros (ou libras) para dólar neozelandês e trabalham nas fazendas e restaurantes do país. Os kiwis adoram isso, no fundo desconfio que eles têm um programa secreto para esse tipo de turismo. Eles sabem muito bem do poder e dinheiro trazido pelos europeus e os tratam como reis. Ao contrário dos latinos e asiáticos, que são tratados como o pior lixo do mundo. Já no aeroporto você começa a ver a diferença: latinos numa fila, passaporte vermelho na outra.
Mesmo dentro da colonia chilena e argentina, países que possuem o Work Holiday, a relação viagem - trabalho é diferente. O fato é que o dólar neozelandês, por mais porcaria que seja, é muito melhor do que a moeda de nossos países. E o salário mínimo, por mais mínimo que seja, é muito mais digno do que nos países sul-americanos, o que acaba fazendo qualquer latino com dignidade aceitar qualquer trabalho indigno. Os sudacas acabam trabalhando, portanto, para fazer bastante dinheiro, enquanto os europeus querem mais é fazer amizades e ter uma boa experiência de vida.
Eu acabei indo para o time dos europeus, preferi viajar e ter boas experiências a fazer dinheiro. Só que um pequeno problema sempre recaía sobre mim: no fim das contas não passo de um sudaca, e sudaca que é sudaca está sempre mal de grana. Minha experiência nunca foi completa por causa do dinheiro, nunca consegui ir muito longe porque sempre faltou! A merda do vil metal sempre esteve no meu caminho, e eu nunca tive talento o suficiente para ir buscá-lo.

Já Paul não estava muito preocupado, trabalhava quando queria, gastava todo seu dinheiro em skank e bebia uma caixa de cerveja toda noite. Tom era chefe de cozinha na Inglaterra, ele estava viajando o mundo com as libras que juntou no seu país; uma coisa que aprendi é que quem recebe em libra tem os mundo aos seus pés. Ele tinha recém-chegado da Austrália e procurava emprego em Auckland. Tom achou algo como labour, montando marquises para shows, um trabalho superpesado. Novamente ninguém entendeu:
- Tom, fuck sake, you're a chef!!! Why don't you find something in a restaurant?
- Tom, caralho, você é um chef!!! Por que não acha algo num restaurante?
- No, man... I'm sick of kitchens.
- Não, cara...não agüento mais cozinhas.

Com o tempo percebi que as latinas davam muito em cima de Tom. Não que o sujeito seja um tipão, ao contrário, tem uma cara de Hug Grant depois da gripe que se fosse brasileiro tava pior que eu. Mas mesmo assim ele era a celebridade do backpack. Teve uma vez que eu estava no fumódromo com Paul e uma argentina veio conversar com a gente. Ela provavelmente presumiu que eu era inglês também e nos convidou para ir a uma festa com ela. Paul não estava a fim, mas eu fiquei empolgado:
- Yes, for sure, where is it?
- Sim, claro, onde é?
Ela indicou o local e logo depois perguntou por Tom.
- I don't know where Tom is.
- Não sei onde Tom está.
Conversamos mais um pouco e eu caí na besteira de querer falar com ela em espanhol.
- Non creo, tu hablas espanhol?
- Un pouquito.
- Serio, un ingles que habla espanhol?
- Yo no soy ingles... soy brasileiro.
Pronto, ela esfriou muito, quase nem falava mais comigo direito. E juro que não estou exagerando!
Depois de alguns segundos Tom chegou de mãos dadas com Susu, uma japonesa do backpack. A argentina o convidou para a festa.
- Sorry, no partys tonight. I'll stay with my girl.
- Foi mal, sem baladas hoje. Vou ficar com minha garota.
E então ela se despediu e saiu andando. Nem olhou para trás... Eu que estava louco para ir pra festa, dancei. Fui dormir mais cedo naquele dia.

No dia seguinte Tom e Paul me convidaram para ir ao Cassino. Pensei um pouco e resolvi ir porque não estava fazendo nada. Mas jurei que não ia gastar nada. Lá dentro Tom comprou 50 dólares em fichas e sentou na mesa de Blackjack. Eu e Paul fomos dar uma volta pelo Cassino. Paul resolveu sentar numa maquininha e gastar algumas moedas. Andei sozinho pelo Cassino e vendo tanta luz, tanto dinheiro rodando, tanto luxo e tanta tentação; acabei colocando uma moedinha na máquina.
Perdi.
Fui lá ver como estava o inglês. Ele havia perdido os 50 dólares e comprara mais 50 em fichas. Acabei trocando uma nota de 20 por fichinhas para jogar nas máquinas.
Perdi mais 20.
Paul ainda estava jogando. Já deixara 30 dólares nas máquinas e tinha um monte de moedas ainda para apostar. Resolvi gastar mais 20.
Perdi.
40 dólares! Que merda, perdera quarenta malditos dólares numa merda de Cassino. Estava muito puto da vida quando encontrei Tom. Ele estava sorrindo:
- Hey, Thiago, how are your luck today?
- Ei, Thiago, como está sua sorte hoje?
- I lost 40 fucking dolars.
- Perdi 40 dólares.
- Don't worry. I lost 200
- Não se preocupe. Perdi 200
Como pode o filho-da-puta ainda estar sorrindo. Nós juntamos os três e nos preparamos para ir embora. Eu perdera 40 dólares, Paul, 35 e Tom, 200. Algo me consolava de pelo menos não ter sido o grande perdedor.
No caminho da saída Tom disse:
- Wait a minute, I'll try again!
- Pérai, vou tentar de novo!
Ele foi até o caixa e comprou mais 200 dólares em fichas. Eu e Paul não podiamos acreditar no que estávamos vendo. Tom sentou-se novamente na mesa de Blackjack e apostou tudo. Um japonês que estava ao lado bateu uma foto da cena, um grupinho se reuniu ao lado para assistir. Primeira carta: 5. Tom bateu na mesa. Segunda carta: J. Tom bateu mais uma vez. Terceira carta: 6. Vinte e UM ! O filho-da-puta fez VINTE E UM! Todos aplaudiram, e Tom passou no caixa para pegar o dinheiro.
Engraçado como as coisas acontecem. Engraçado como de uma hora para outra o grande perdedor passa a ser o grande vencedor. E você, que se considerava um jogador moderado, passa diretamente para o lugar do grande perdedor.
É... às vezes nesta vida é preciso apostar alto.

7 de março de 2007

Dentro do Quarto 12

Anotações de diário
18 de dezembro de 2006

Até o Natal na New Zealand é diferente: as ruas não são tão enfeitadas como no Brasil, as propagandas na TV não são tão massacrantes, você não vê Papais Noéis suando em uniformes vermelhos nas ruas e o comércio não parece ter aquela explosão de vendas. Claro que a Coca-Cola continua veiculada em cartazes e propagandas, mas fora isso parece até que o Natal é um feriado religioso... muito estranho.

Quando chegamos o quarto 12 do Oceanic estava limpo. Era um cubículo minúsculo, mas não podemos reclamar que estava sujo. Rodrigo e eu dormimos um curto período sozinhos, logo depois chegou Diego, o sul-mato-grossense. Diego dormiu por três dias seguidos quando chegou, nunca vi isso na minha vida! So pude conversar melhor com sujeito depois que despertou. O garoto contou sua história, disse que havia sido deportado da Inglaterra, que tinha o sonho de conhecer a Europa e que tivera vindo para a New Zealand como segunda opção:
- Bem-vindo ao time rapaz... 90% dos brasileiros que estão aqui são por segunda opção. Esta aqui é a terra dos renegados!
Diego tinha planos de voltar para o Brasil. Ele queria fazer uma grana e voltar para abrir uma empresa de licitação em Mato Grosso do Sul.
- Fazer grana? Aqui? Meu amigo, é melhor você voltar pro Brasil... o milagre econômico ainda não aconteceu aqui.
Mas não demorou para Diego arrumar um emprego de dishwasher. Ele andava bastante com um sujeito de Goiânia, um tal de Luiz. O goiano era mais velho, tinha vindo para tentar fazer grana e sustentar a família no Brasil, mas sempre o via com cara triste pelos corredores. Com certeza não estava sendo bem-sucedido em sua empreitada. Diego acabou pegando o emprego de Luiz, já que o goaino desistiu da Nova Zelândia e voltou para o Brasil.
Diego é um sujeito muito magro. Ele parece que vai quebrar com um leve toque. Às vezes no quarto ele tira a camisa revelando umas tatuagens nos bracinhos mirrados, parece um usuário de crack do Carandiru.
Nos primeiros dias de trabalho ele vinha falar comigo:
- Cara, é muito foda, tenho que lavar umas panelas gigantes no restaurante. Outro dia uma panela caiu na minha cabeça e abriu esse corte aqui, tá vendo? Meu corpo todo dói e o pior: tem dois dias que não sinto meu dedão do pé.
- Mano... isso tudo que você tá falando eu sei como é. A vida na gringa é isso. Vai dizer que você é mais um dos que acreditaram nas fotos do Orkut?

Alguns dias depois que Rodrigo saiu do Oceanic, um novo sujeito mudou para o nosso quarto. Brian, era seu nome. Brian era americano, ou estadounidense, achei engraçado, mas ele não disse o estado quando se apresentou. O sujeito tinha um estilinho meio boy band, cabelinho cortadinho, loirinho, olhos claros, mas era muito... mas muito drogado. Nunca conheci Brian sóbrio, ele chegava no quarto no meio da madrugada, dormia um pouco e saía para se drogar de novo.
O dormitório foi ficando bagunçado à medida que o tempo passava, mas depois que Brian se mudou o caos estava gerado. O americano não tinha o mínimo de higiene, ele deixava tudo atirado, comida, roupa, cuecas. Era um cataclismo. Eu descobri um canto inabitado no quarto e comecei a jogar minhas coisas ali. Roupas suja e limpa iam para o mesmo lugar.
Mas era impossível chamar a atenção de Brian, ele chegava no quarto com os olhos vermelhos sorrindo e dizia com seu sotaque engraçado:
- Muita chapado!
Ele havia tido uma namorada brasileira em Tauranga, ele adorava brasileiros, vestia uma camiseta da seleção que um gaúcho lhe dera e falava algumas palavras em português com sotaque engraçado:
- My brazilian girlfriend, muito gostosa!
Brian deve ter uns 18 ou 20 anos, não mais que isso. É bem molecão. Outro dia entrou no quarto com um envelope que recebera dos EUA. Abriu na minha frente:
- Uhuuu, my mom sent me money!
- Uhuuu, minha mãe me mandou dinheiro!
Ele me mostrou a nota de 100 dólares e disse :
- Do you know what I gonna do with this?
- Sabe o que vou fazer com isso?
- No.
- I'll piss everything.
- Vou mijar tudo.
E saiu correndo do quarto em direção ao bar mais próximo.

Um dia depois de Brian mudar para o quarto, chegou o quarto homem. Um gaúcho. Eu e Diego perguntamos o nome do sujeito, e ele respondeu:
- Meu nome é Truck.
Nunca ficamos sabendo o nome verdadeiro de Truck. O gaúcho tinha um sotaque muito forte, falava cantando e usava gírias incompreensíveis para o pobre sul-mato-grossense:
- Bah, bruxo, que tri essa penta. Tu que é um baita trovador guri.
Diego vinha pra mim desesperado:
- Caraca, mano, não entendo o que o cara fala! Como é que posso querer aprender inglês se nem sei português!
Truck estava morando com uns amigos em outro backpack, mas foi expulso por quebrar uma vidraça na cozinha. Quando o conhecemos, ele estava há apenas dois meses na New Zealand, ele só andava com brasileiro. Toda hora ele tinha uma história nova dos brasucas pra contar:
- Bah, meu, tinha um guri que ficou comendo comida de cachorro por duas semanas porque não sabia ler a embalagem. Que a fuder esses brasa, né?
Truck tinha largado tudo no Brasil para ir para o exterior. Ele aplicara o visto para a Escócia, disse que queria morar num castelo escocês, afastado de todo mundo:
- Nao é que os pau-no-cu me negaram o visto?
Antes de dormirmos, sempre trocávamos uma idéia os três no quarto. O americano às vezes chegava mais cedo e tentava dormir, mas não dávamos muito bola.
- Bah, tinha um guri que começou a namorar uma coreana. Tri feia, a pelega! E o bagua não me fala nada de inglês, nem de coreano nem de nada, é uma negação o sujeito. A guria também não fala nada. Um dia a gente foi comer na baia do sujeito. Ele me vira pra coreana e diz: "Amor, pega uns prato aí pra mim". Em português!!...Bah, que me arriei no sujeito, falando em português com a guria. E o pior, a guria respondeu: "what?" e ele me solta: "ah, então deixa que eu pego".
Uma noite perguntamos porque afinal ele estava aqui. O sujeito era muito bem-humorado, estava sempre contando histórias mas não falava muito sobre esse assunto. Só havia dito que queria ir para um castelo afastado na Escócia.
- Hi, então é por causa de mulher.
- Mais ou menos.
- Sabia! Coração partido?
- Não, eu ia casar.
- E ela te largou.
- Pior.
- O que foi?
- Ela morreu.
Eu e Diego engolimos em seco.
- Foi num acidente de carro... algumas semanas antes do casamento. E pra piorar, depois descobriram que ela estava grávida.
- Putz!
- Pois é... por isso queria tanto ir para um lugar afastado.

5 de março de 2007

Alianças desfeitas

Anotações de diário
13 de dezembro de 2006

O Oceanic é como o ponto de partida de todos os viajantes na Nova Zelândia. Se não tivesse feito tudo errado na minha viagem, ou pudesse começar tudo de novo, Auckland e Oceanic seriam a combinação perfeita. Todo dia vários viajantes chegam, ficam alguns dias, fazem amizade, conhecem outros viajantes, conversam, fazem planos e partem. Se estivesse chegando agora, ficaria aqui um tempo, montaria um grupo bacana e partiria rumo ao interior. Queenstown não é lugar para começar... talvez para terminar.

A passagem por Auckland era só uma passagem. Na verdade poderíamos ficar se achássemos mais um emprego; trabalhar para a Providore, empresa de Julian, não nos dava a remuneração que estávamos procurando. Não achamos outro emprego, o mês de dezembro é o pior em Auckland, TUDO PÁRA! Quanto mais o mês avançava, mais a cidade ficava vazia. Em todo canto se ouve o conselho: saia de Auckland no fim de ano! Os eventos pela Provedore acabaram. Depois do Christmas in the Park, só tinha mais um marcado para duas semanas depois, perto do Natal... não valeria a pena esperar. Rodrigo começou a procurar empregos na internet e a ligar para cidades do interior.
Nisso um grupo de chilenos chegou no backpack. Eram quatro amigos: Mathias, José, Nicolas e Juan. Rodrigo se enturmou fácil com os sujeitos. Os quatro não falavam nada de inglês, preferiam que eu falasse em português do que em inglês. Mas eram bem buena onda os sujeitos, sempre rindo e simpáticos, não demorou para que Rodrigo decidisse encaixá-los na caravana.

Com o passar do tempo comecei a pegar alguma coisa de espanhol. Trabalhar e viver com tantos sudacas facilitou muito. Rodrigo não gostava, ele odiava quando eu tentava falar em espanhol, queria falar em inglês. Mas com os quatro chilenos não teve jeito, toda vez que conversávamos, eu aprendia um pouco de espanhol. Rodrigo fechava a cara quando os chilenos me ensinavam.
Alguns dias depois, chegaram mais dois chilenos: Javier e Nicolas. Os dois falavam bem em inglês, mas Javier queria muito aprender português:
- ? Si Yo te ensinar a hablar en espanhol tu me ensinas el portugues?
Javier era uma figura, o sujeito era muito gente fina. Fizemos amizade muito rápido e todo o tempo conversávamos em portunhol:
- Oi, brasileiro, como chamas isso em portugués?
- Colher; e en espanhol?
- Conchada
Acabei pegando mais rápido que ele, mas só pelo fato de estar convivendo mais tempo com os sudacas.
- Hablas muy bien, brasileiro! Yo penso que ya hablavas antes
Rodrigo ficou com ciúmes. O chileno não respondia quando falava com ele em espanhol e estava cada vez mais mal-humorado. Ele não fez amizade com Nicolas e Javier, mal conversava com os dois chilenos. Teve um dia que fomos todos, eu e a chilenada, para um baile de salsa no cassino da cidade. Foi ali que percebi mais nitidamente como Rodrigo tinha odiado a idéia de Javier querer me ensinar espanhol. Ele procurava ficar longe, não falava muito com os dois e ficava mais junto dos outros quatro.
Tentei encaixar também Nicolas e Javier na caravana rumo à próxima cidade, mas Rodrigo não gostou muito da idéia. Não insisti muito, afinal, ele era o dono do carro.
Definimos o lugar: Te Puke, perto de Tauranga. Iríamos numa quarta-feira, dia 13 de dezembro. Mas parece que só eu tinha visto um pequeno probleminha:
- Hey, Rodrigo... Look, I think we'll not fit in the car. There are six of us and plus the luggage.
- Ei, Rodrigo...Olha, acho que não vamos caber no carro. Estamos em seis e mais a bagagem.
Mas Rodrigo não estava muito preocupado:
- Look, man... if you don't want to go, just stay here.
- Olha, cara...se você não quiser ir, fique aqui.
Foi então que eu vi que não era mais bem-vindo. O filho-da-puta queria se livrar de mim
- What? You don't want me to go?
- O que? Você não quer que eu vá?
Ele so fez um ah! que tanto poderia ser interpretado como: "quero que você se foda" quanto como "até parece, deixa de falar besteira" e, logo depois, saiu andando.
Tirei aquela noite para refletir. Estava na cara que não iríamos caber todos no carro. Seis neguinhos mais a bagagem num Honda... era loucura! Ao mesmo tempo estava com um sentimento de que talvez devesse ficar. Voltar para a cidade grande me deixara feliz, as coisas pareciam que iam melhorar, tudo poderia se ajeitar, quem sabe até arrumar um bom emprego. Não queria voltar para o interior novamente. Resolvi sair naquela noite e não voltar mais.
No dia seguinte Rodrigo partira. Não me mandou nem uma mensagem o filho-da-puta, nem pra perguntar se eu estava bem. Partiu para o interior e me deixara sozinho na cidade grande.

A amizade com Nicolas e Javier acabou se estreitando mais depois que Rodrigo partiu com os outros chilenos. Mas eles sacaram rápido que as coisas em Auckland não iam vingar e decidiram partir para o interior.
- Huevón! Vamos com nosotros? Vamos acer arta plata nas granjas.
- Cara! Vamos com a gente? Vamos fazer muita grana nas fazendas.
Queria muito ir, os sujeitos eram muito legais, poderia aprender espanhol e ainda fazer mais uma graninha nas fazendas antes de voltar para o Brasil. Mas não, achava que era muito cedo. Tinha alguma coisa que me impelia a ficar.
- Yo vou com ustedes, mas yo voi despois. Vou me quedar aca en Auckland por um tiempo

O backpack ficava cada vez mais vazio, todos estavam partindo para o interior. De todos, os únicos que ficavam eram os brasileiros. Estava cada vez mais incrustado na colina de brasileiros. Acho que por isso que não queria ir. No fim estava com saudade do meu povo. O Natal e o Ano Novo estavam chegando, o coração de um viajante fica muito vulnerável nessa época. Decidi que iria passar as festas com meu povo!

Na Gringa

Anotaçães de diário
10 de dezembro de 2006

Auckland é uma cidade agitada, muito diferente do que havia visto na New Zealand até então. Atravessei o país de sul a norte e não vi nenhuma linha de pobreza, nenhum gueto, nenhuma favela, nenhuma pichação... A New Zealand parece uma maquete e tem qualquer coisa de conto de fadas, sempre com suas casinhas certinhas, verde, natureza e ovelhas, muitas ovelhas. No entanto em Auckland vi os primeiros mendigos e traços de pobreza. O concreto se estende e cobre todo o verde do país enquanto prédios jogam sombras na cidade. Auckland é como um câncer que vai crescendo rumo ao sul, vai matando tudo e cobrindo a maquete de cinza. Exatamente como o homem vem fazendo no resto do mundo.

João e Tonico eram muito amigos na Bahia, costumavam chamavam um ao outro de irmão. Tonico não tinha muito dinheiro, era um baiano pobre, filho de mãe solteira e solto no mundo. Ao contrário de João, que vinha de boa família e podia comprar de tudo. No entanto o dinheiro nunca atrapalhou a relação dos irmãos. Os dois sempre saíam juntos para as baladas de Trancoso. Quando Tonico não tinha, João fazia questão de colocar dinheiro no bolso do amigo. Nunca cobrava de volta, sabia bem como era a situação .
Foi então que um dia Tonico levantou com essa idéia maluca de ir para o estrangeiro:
- Rapaz, tá doido, é? Fazer o que lá?
Mas não teve santo que o fizesse mudar de pensamento:
- Vou... e vou mesmo!
Tonico acabou escolhendo a Nova Zelândia. Ele conhecera um sujeito que dissera ser um ótimo país para fazer dinheiro. Tonico pegou grana emprestada de todo mundo, João acabou dando a maior parte. Em Janeiro de 2005 Tonico embarcou sozinho para a Nova Zelândia.
Por muito tempo não se teve notícias de Tonico. Alguns disseram que tinha se dado mal, perdera tudo e estava em dificuldade no exterior, outros acreditavam até mesmo que tinha morrido. Foi então que, mais de um ano depois, ele reapareceu. João checava seus e-mails quando encontrou um convite de Tonico o convidando para ser seu amigo no Orkut. O baiano não podia acreditar quando abriu a página de seu irmãozinho. As fotos no seu álbum mostravam um sujeito que vencera na vida: carro, mulheres, praia, surfe, dinheiro... João encheu o peito de orgulho: por fim o moleque se deu bem!
Mas a vida não seguiu seu rumo em Trancoso. Depois que Tonico reapareceu no Orkut, a pequena cidade baiana nunca mais foi a mesma. As garotas só falavam em Tonico, os homens brindavam ao sujeito e os mais velhos o tratavam como herói. João começou a sentir a pressão em casa. Ele não gostava muito de trabalhar, muito menos de estudar; gostava mesmo era de viajar com sua namorada Letícia. Mas o fantasma de seu amigo no exterior tirara seu sossego:
- Filho, tu tem que se espelhar em Tonico. Veja que homem importante ele é hoje. Até quando tu vai levar essa vida sem futuro?
Ao que parecia, Tonico abrira uma empresa na Nova Zelândia, casara-se com uma nativa e morava num ótimo apartamento em Auckland.
Um dia na praia com seu amigo Valtinho, João confessou:
- Rapaz, num to aguetandu naum. Tá um inferno aquela casa. Vou vazar pro exterior.
- Maaaas Rapaaaz tá doido é? Fazer o que lá?
- Oxe, se Tonico deu certo porque eu não posso dá não?
João convidou Valtinho para ir junto. Os dois tinham a mesma idade, na casa dos 20 anos. O problema era que Valtinho tinha um filho para criar em Trancoso, não queria abandonar o moleque assim.
- Tu vai ganha mais grana no exterior que aqui.
- Vô não homi, num saio da Bahia não!
Os pais de João adoraram a idéia.
- Vá mesmo meu filho. E que Ogum ilumine teu caminho.
João contatou seu amigo pelo Orkut e informou que estava de partida para o país. Seu pai lhe deu quatro mil dólares:
- Fio, se precisa de mais não passe necessidade.
Alguns dias antes de embarcar, Valtinho fez a proposta para João:
- Rapaz, to pensando em ir com tu. Tem como me adianta uma grana pra mim?
Em setembro de 2006 os dois partiram rumo à distante Nova Zelandia.

Maria já estava preocupada. Fazia horas que Pedro trancara-se no quarto falando ao telefone. Ela bem sabia o que era. Desde que perdera o emprego na Telemar, empresa onde trabalhara, Pedro botou a cabeça que queria ir para o exterior. Maria não estava muito contente. Não queria deixar Governador Valadares, já ouvira muita história de gente que não dera certo no exterior. Mas Pedro era insistente... e como era!
Ele recém voltara de viagem, tentara entrar no Canadá, mas terminou preso em Porto Rico e deportado para o Brasil. Tudo começara com aquele mesmo telefonema, naquele mesmo quarto. Pedro achara um homem que agenciava viagens para o exterior, um tal de Hector. O sujeito havia oferecido um passaporte português ao mineiro, quatro mil dolóres, mais a postagem. Com o passaporte português Pedro poderia entrar facilmente no Canadá. Ele tinha um amigo lá esperando por ele, o emprego era garantido e a grana parecia ser alta. O passaporte chegou, Pedro embarcou, mas foi descoberto em Porto Rico, na primeira parada. Passou a noite na cadeia, não conseguiu se explicar, não falava inglês , não falava espanhol, só falava mineirês. Os oficiais acabaram liberando o sujeito de volta ao Brasil, não o ficharam nem o entregaram ao governo Brasileiro.
A segunda tentativa era mais radical. Hector se desculpou pelo visto e disse que cobriria o dinheiro com outro plano de viagem. Dessa vez Pedro tentaria entrar nos EUA... pelo México! Estava tudo acertado, tudo planejado, mas Maria, a mulher de Pedro, implorou para ele não ir. Ela havia visto uma matéria no Jornal Nacional na qual os americanos atiravam para matar nos imigrantes que tentavam cruzar a fronteira ilegalmente. Pedro atendeu aos apelos da mulher e desistiu da idéia.
Mas Hector tinha uma outra alternativa: Nova Zelândia! O país era um dos mais fáceis de entrar, não tinha como dar errado, ele só precisaria pagar mais 6 mil dólares para a escola e acomodação, e o emprego era garantido nas lavouras.
Pedro embarcou.

Tonico esperava por João e Valtinho no aeroporto. Os dois amigos se abraçaram e quase choraram de felicidade. Valtinho esperava no canto, ele não conhecia João, e este quando o viu, perguntou:
- Quem é esse aí?
- Esse é Valtinho, meu amigo.
- Rapaz, tu trouxe outro nego contigo? Pra que homi?
João disse que não tinha lugar para Valtinho na casa, e este acabou dormindo num backpack.
Nos primeiros dias João descobriu que Tonico não estava tão bem assim. De fato ele casara com uma kiwi, mas a mulher era horrível de feia; de fato ele abrira uma empresa, mas ela parecia dar mais prejuízo que lucro e de fato ele morava num belo apartamento, mas era alugado e muito mal localizado. Tonico entrara no negócio de pintura, como costumava dizer. Ele contratava uns pintores, sua mulher arrumava algumas casas e ele pegava o dinheiro, não fazia quase nada o sujeito. Não demorou para João e Valtinho começarem a trabalhar com ele. Dos quatro mil reais que o pai de João lhe dera, Tonico tomou três. Foi tirando o dinheiro: cobrando por ajuda, escola e moradia. João deu de bom grado, ainda estava deslumbrado com o exterior e toda a aura de herói imposta ao amigo, mas Valtinho sacou rápido e desfez laços com o sujeito.
- Valtinho, tu tá é loco. Que tu vai faze sozinho aqui sem fala inglês?
- Rapaz, inglês tu aprende. Só num gosto é de sacanagem.
Depois de um mês João trouxe a namorada, Letícia. Os dois dividiam o aluguel com Tonico e a esposa.
Não demorou para que Letícia descobrisse que o preço total do aluguel era 400 dólares, muito estranho já que ela e João juntos pagavam 320. A garota insistiu para João falar com Tonico:
- Vem cá, Tonico, tem algo errado aqui. Porque nós tamo pagando mais?
- Tem nada não, é que minha esposa não paga.
- Tá, mas por quê?
- Rapaz, tu fica quieto que fui eu que te botei aqui. Num reclama muito não.
Letícia tinha odiado Tonico, insistiu para mudar de casa, brigou diversas vezes com João e ameaçou voltar pro Brasil:
- João, não dá pra ver que o sujeito tá nos roubando não? Acorda homi!
Por fim João resolveu mudar e foi falar com Tonico:
- Como assim mudar? Rapaz, tu vai me deixa na mão, é? Fique sabendo que vai ter que me pagar duas semanas de aluguel se quiser sair.
João pagou. Pagou e ainda procurou um flatmate para Tonico. Letícia colocou avisos em toda a cidade, três casais responderam...
Tonico rejeitou todos:
- Pra que isso, rapaz? Tá querendo ficar sem "flatemate"?
- Não gostei deles, não servem para morar comigo.
Acabou que as duas semanas de aluguel venceram, Tonico não arrumou ninguém e fez Joao pagar por mais duas semanas. Muito a contragosto o casal pagou, era melhor do que criar um inimigo. Foi então que um dia João e Letícia passaram na antiga casa para pegar algumas coisas que esqueceram e encontraram Júlio, um outro baiano, vivendo no lugar deles. O mais inacreditável era que Tonico estava cobrando os mesmos 320 de Júlio e embolsando a grana de João.
- Ele acabou de mudar, ia avisar vocês hoje. Vou devolver tua grana do aluguel dessa semana.

Pedro chegou na Nova Zelândia e não havia ninguém para esperá-lo no aeroporto. Sem saber falar inglês, ele pegou um táxi até o backpack onde ficaria. Não existia nada! Nada do que ele comprara existia, não estava matriculado na escola, a acomodação não estava paga. Sem saber o que fazer, Pedro encontrou dois brasileiros na rua e pediu ajuda. Os sujeitos disseram para ele procurar um backpack chamado Oceanic, que ficava ali próximo. Ao que parecia, a dona era portuguesa e o preço dos quartos era bem barato. Após algumas semanas, Pedro não tinha nada no bolso. Acabou pedindo emprego para a portuguesa dona do backpack.
- Não tenho nada, nem pra comer eu tenho dinheiro.
Pedro virou faxineiro e seguranca do local. O salário não era muito bom, mas ele ganhava acomodação de graça. Ele ainda tinha alguma grana nas suas economias, resolveu fazer um último investimento: trouxe a mulher do Brasil. Ela também arrumou uma boca na faxina, moravam no mesmo quartinho minúsculo, dezenas de vezes menor do que o apartamento que moravam em Governador Valadares.
Pedro virou Telemar, apelido que tinha no Brasil e adotou na New Zealand.
Hector desapareceu, não responde mais aos chamados de Telemar, nem e-mails o filho-da-puta não respondia mais.
Mas apesar de toda grana perdida e da atual situação, Telemar respirou aliviado, tirou algumas fotos em frente a Sky Tower com a esposa e jogou na internet.
É... pois é, depois de muita luta o mineiro finalmente estava na tão sonhada gringa.

João e Leticia estavam morando com Valtinho no Oceanic quando a grande briga aconteceu. Ficaram algumas semanas desempregados e passaram por um terrível sufoco - João não queria ligar para casa pedindo dinheiro de jeito nenhum. Letícia ficou sabendo de um lava-carros que contratava vários brasileiros. João acabou indo trabalhar lá, e Leticia descolou outro emprego em outro lava-carros. Valtinho já tinha descolado um emprego com um jovem russo que estava no mesmo negócio de Tonico. João e Letícia começaram a tirar 8 dólares a hora, menos do que o mínimo estipulado por lei. Estavam trabalhando ilegalmente com o visto de turista, mas, mesmo assim, sorriam. Tinham fé que a vida mudaria a partir dali, afinal: estavam na gringa! Foram ao cais de Auckland, vestiram as melhores roupas e bateram várias fotos. Valtinho saíra naquela mesma tarde para gastar dinheiro. Comprara uma calça e uma camisa de marca; chegando no backpack, abriu para mostrar aos amigos:
- Ohh, tá bem, hein? Valtinho
- Pois é, fia, tô na gringa!

1 de março de 2007

Christmas in the Park

Anotações de diário
5 de dezembro de 2006

Descobrimos uma internet bem barata nas imediações do backpack. Dois dólares a hora. Nada de muito excitante hoje. Passei o dia inteiro escrevendo, depois fui a Wearhouse comprar pratos, talheres e panelas - o Oceanic não oferece material de cozinha, dizem que sempre roubam quando colocam. Chegando na cozinha, tentei abrir a embalagem da faca; fiz de mal jeito e abri um corte gigantesco no dedo indicador. O sangue jorrava. Tentei limpar e respinguei tudo na camiseta. Todos olhavam assustados, parecia que tinha tomado um tiro ou coisa parecida. Corri até a pia para jogar água, mas a torneira estava ligada no quente, e queimei a mão. Só escrevi isso para explicar o sangue no papel. Não tenho Band-Aid, e o corte ainda está aberto.

Na semana seguinte ao evento do Golf, eu e Rodrigo fomos escalados para trabalhar no Christmas in the Park, um grande concerto de Natal que acontece todo ano em Auckland. Na verdade, iríamos trabalhar em duas tendas, uma da Coca-Cola e outra de uma empresa de seguros. As duas empresas patrocinavam o evento e por isso tinham tendas especiais onde serviriam bebida e comida para quem possuísse o cracha.
Trabalhei na tenda da Coca-cola.
Foram dois dias de trabalho. O primeiro foi mais sossegado, era apenas ensaio no palco, o evento em si seria no dia seguinte. No entanto, as tendas funcionaram. Claro que para o primeiro dia a Coca-Cola mandou só os piões de fábrica; a diretoria ficaria para o dia seguinte.
Maoris, muitos maoris! Todo baixo escalão da Coca-Cola era composto de maoris, nenhum branco no salão. E maori que é maori bebe... bebe muito! Minha função era ficar no Open Bar. Cinco marcas de cerveja, três tipos de vinho e muita, muita champagne. Antes de começarmos, as instruções eram de não dar bebida para quem parecesse intoxicado.
Bom... defina intoxicado!
Tem qualquer coisa de mágica ficar atrás do balcão de um Open Bar. Você vê a olhos nus a transformação causada pelo álcool. Vou me concentrar em um sujeito, que chamarei de Rawiri. Primeiramente, Rawiri chegou com sua camisa listrada e gel no cabelo, seu porte grande de maori contrastava com os bons modos e a timidez com que se aproximou do bar e perguntou se a cerveja era de graça. Rawiri provavelmente deveria ser um dos sujeitos que colocam tampinhas nas garrafas ou que operam as máquinas de enchimento. Ele não estava acostumado a esse tipo de ambiente, estava na cara que não se sentia confortável dentro daquela camisa listrada. No entanto, eu lhe dei a primeira cerveja. Nas próximas duas Rawiri ainda veio tímido, levantou o dedinho e apontou para uma garrafa de Lion Red na geladeira; na terceira ele já tinha se livrado daquele botão incômodo ao redor do pescoço e arregaçado as mangas; na quarta perdera a timidez, estampava um sorriso no rosto e me chamava de "brow"; na oitava sua voz era pastosa e o equilíbrio não era cem por cento; na décima o cabelo não era o mesmo e na décima quinta me abraçava cheio de farinha no nariz, totalmente desfigurado. No entanto, aquele sujeito com farinha no nariz e olhos mais pequenos que os de um japonês não me parecia lá muito intoxicado... dei logo mais duas cervejas pra Rawiri.

No dia seguinte o esquema era outro, a decoração muito melhor, o cardápio mil vezes mais arrojado do que o churrasquinho do dia anterior e as bebidas bem mais variadas. Não eram mais os piões de fábrica, agora era a diretoria que ia se divertir.
Chegamos bem antes dos convidados para arrumar as coisas. A equipe estava um pouco diferente também. Rodrigo se misturou com os chilenos e foi para a tenda da seguradora. Na tenda em que fiquei a equipe era: Fiona, kiwi e gerente da operação; Luise e Daniel, franceses; Rod, kiwi; Scarlet e Greta, suecas; Kahu, Wai e Maania, três maoris e, por fim, Jorge, um argentino.
A primeira tarefa era abastecer a geladeira do primeiro bar. Fizemos isso eu e Kahu, uma das maoris. Kahu era novinha, diz ter 18 anos, mas desconfio que tenha apenas 15 ou 16. Ela é baixinha e magricela, tem os dentinhos para frente e ri cobrindo o rosto e mexendo os bracinhos finos. Ela também é do tipo que te dá um tapinha no seu braço quando você solta uma muito boa. Enquanto trabalhávamos ela vinha me mostrar uns vídeos que baixara no seu celular. O primeiro era de um adulto batendo numa criança, o outro era uma cena de sexo envolvendo um peido durante uma posição inusitada. Ela ria depois que o vídeo terminava:
- Do you think this is funny?
- Você acha isso engraçado?
- hihihi, yes.
- hihihi, sim.
Depois que colocamos toda a bebida na geladeira, ficamos um tempo sem fazer nada. Kahu perguntou se eu tinha um cigarro. Respondi que não, e ela apontou para Rod e disse:
- He has, don't you wanna ask him?
- Ele tem, não quer pedir pra ele?
Rod é um kiwi desses que encontrei de monte pelo interior. Estava na cara que ele não era da cidade grande, parecia um Crocodilo Dundie em Nova York, vestindo sua camisa branca e gravata preta torta. Ninguém entendia nada do que ele falava. Nem mesmo os kiwis! Me aproximei de Rod e perguntei:
- Hey, Bro, can you give a roll?
- Ei, mano, tem como descolar unzinho?
Ele deu uma tragada, cuspiu no chão e estendeu o pacote de Port Royal.
- Sure, Matte!
- Claro, velho!
Abri o papel, coloquei o tabaco e procurei pelos filtros:
- You don't have filters, bro?
- Não tem filtros, mano?
Rod me olhou de canto e soltou um "ra":
- What a hell do you think I am, boy? I'm a real smoker!
- Que diabos pensa que sou, garoto? Sou um verdadeiro fumante!
Enrolei o cigarro enquanto ele falava. Acho que era algo sobre sua infância ou cigarros, já que, fora as palavra "kid" e "cigarette", não entendi mais nada.
Depois do cigarro Fiona me mandou para o break junto com Jorge, o argentino. Jorge era um sujeito bacana, conversamos bastante durante o intervalo e, como bons latinos, falamos, obviamente, sobre as suecas, que eram bem gostosas. As suecas, por sua vez, não davam bola para ninguém, não sei se é por que não falavam muito inglês, mas estavam sempre juntas e não conversavam com o resto da equipe.
Os franceses eram mais sociáveis. Mais Luise, Daniel ainda era um pouco calado. Ele tinha boas piadas, mas as fazia raramente. Já Luise vinha todo tempo falar comigo em francês:
- Ça vá, Thiagô? Tu veux une cigarette?
- Oui, merci.
Como fumava a francesa! Todo hora que olhava para ela estava com um cigarro na boca. Luise tinha uns 30 anos, não era muito bonita, mas tinha um charme especial que só as francesas têm.
Fiona, a gerente, nos chamou para uma rápida reunião. Ela estava bem estressada, parecia que ia ter um colapso. Fiona é uma kiwi na casa dos 25 anos, alta, mas não muito bonita. Dava para ver que o evento era um dos seus primeiros trabalhos, estava totalmente insegura e não sabia bem o que fazer.
- Ok, guys, it must be everything perfect! We cannot commit any mistake tonight...please!
- Ok, pessoal, deve sair tudo perfeito! Não podemos cometer nenhum erro esta noite...por favor!
Rod, o kiwi começou a falar algo, gesticulava para a geladeira do seu bar e falava incompreensivelmente. Quando terminou: silêncio!
- Sorry... but what did you say? perguntou Fiona
- Desculpe...mas o que você disse?
- Huablahua rotow wur weuint woitner
Silêncio novamente. As suecas se entreolharam prontas para rir.
- Sorry, Rod. Say it again!
- Desculpe, Rod. Fale de novo.
- Ah, whatever! desistiu o kiwi
- Ah, tanto faz!

Fiona me colocou para entregar o lanche das crianças. Eram centenas de caixinhas como aquelas do McDonald's que eu deveria dar aos pivetes com cara de menos de 8 anos. Fiquei ali plantado na entrada por umas 2 horas, vestindo minha gravata preta e entregando caixinha para as criancinhas. Por um lado foi bom, pude ver toda movimentação do lado da tenda, e o que passou ali foi uma perfeita ilustração do tempo na New Zealand. O sol ardia no céu, centenas de turistas tentavam queimar suas pernas brancas enquanto esperavam pelo início do concerto. Um vendedor de balões indiano suava nas axilas, formando uma pizza em sua camisa laranja. Passados dez minutos um vento forte começou a varrer o parque, guarda-sóis caíram, um jornal saiu voando, e o indiano perdeu alguns balões. Uma chuva fina caiu de um céu sem nuvens. Passado alguns minutos, a garoa parou, o sol continuou a refletir nas pernas brancas, e um senhor de óculos conseguiu alcançar seu jornal . Passado o tempo do indiano vender dois balões, o céu se encheu de nuvens negras e, como se alguém girasse a torneira, uma chuva pesada despencou sobre a multidão. As mães gritavam chamando os filhos enquanto começava uma coreografia de guarda-chuvas, que se abriam ao mesmo tempo, fazendo uma sinfonia de: flop, flop, flop! O indiano correu tentando achar uma árvore, e o senhor de óculos desistiu da leitura usando o jornal para se cobrir. Por minutos chove como se o mundo fosse acabar... De repente pára! Um passarinho canta, e as nuvens se vão. O sol volta a lançar seus raios na multidão, que em minutos fica seca, pronta pra outra.

As malditas caixinhas terminaram. Fiona me colocou no Bar com Luise e Kahu. A Francesa abriu uma lata de energético e colocou escondida do lado da geladeira, bebemos a noite inteira. Bem ao lado do nosso bar estava um alto-falante, alto, muito alto. Não conseguíamos ouvir nada. Kahu me cutucou e me mostrou mais um videozinho violento no seu celular. Fiz uma mímica dizendo para ela parar de me mostrar essas porcarias. Ela só riu tapando a boca.
A noite seguiu longa, artistas se revesavam no palco, empresários da Coca-Cola bebiam e comiam, a multidão do lado de fora se divertia e nós estávamos cansados, muito cansados. Foram mais de 12 horas de trabalho nesse dia. Rodrigo passou meia-noite para dizer que estava indo embora; o serviço em sua tenda acabara. Era 1 da manhã quando os artistas do palco chegaram para jantar. Uma hora depois e eles ainda dançavam bêbados enquanto nós desmontávamos as mesas e limpávamos o lixo.
Por fim sentamos todos no chão esperando os sujeitos irem embora. Jorge, o argentino, chegou com uma garrafa de Chardonnay:
- Come on, people... we deserve.
- Vem, galera...a gente merece.
Servimos o vinho e fizemos um brinde. Fiona olhou, mas não disse nada. Estava também muito cansada, e de fato merecíamos.
Os artistas finalmente foram embora. Estava me despedindo de todos quando a francesa me ofereceu uma carona:
- Je suis avec mon voiture.
Caminhamos os dois cansados até o carro. Chegando lá, ela abriu a mochila e tirou duas garrafas de vinho, um branco e o outro tinto. Abrimos a de vinho branco, bebemos um pouco e ela disse:
- I know a very good place to go now.
- Conheço um bom lugar pra ir agora.
Então ligou o carro e dirigiu até um lugar chamado Monte Eden. Estacionamos o carro na base e, apesar do cansaço, subimos a pé o morro. Lá em cima esqueci do quanto meu corpo doía. Uma vista incrível! Podíamos ver toda Auckland: a Sky Tower, a baía, os prédios, as luzes. Podia girar 360 graus e tudo o que via ao redor eram luzes e mais luzes. O topo estava vazio, a cidade dormia sob nossos pés, silenciosa e brilhante. Parecia uma pintura.
Sentamos num banco e acendemos um cigarro. Luise olhou para mim, deu uma tragada e disse:
- Que belle vue, j'aime ce place.
Um barulho oco de garrafa vazia, uma tirinha de vinho tinto escorrendo.
Pude sentir o forte cheiro de cigarro antes do beijo.

28 de fevereiro de 2007

Um brasileiro disfarçado

Anotações de diário
04 de dezembro de 2006

Desci para fazer minha janta. Na cozinha dois brasileiros tentavam xavecar uma chilena. Um deles tinha um forte sotaque do litoral de São Paulo, falava cheio de gírias e com um português todo errado. Perguntou pra garota: "Max, eae, tu pega onda?". Ela respondeu sem muita paciência: "I told you, I don't speak portuguese!". O sujeito insistiu, dessa vez falando bem devagarzinho: "Ustede, pega onda?". Ela só balançou a cabeça. "Pega ou num pega?", insistiu ele. Ela não estava querendo ser mal-educada, por isso tentou mais uma vez se comunicar em inglês: "I think it is better if we speak in english.". O surfista parou um pouco, coçou a cabeça, virou pro seu amigo e perguntou: "Que que ela tá falando aí, mano?"

Fazia muito tempo que não encontrava brasileiros. O último, ou última, fora Camila, logo nos primeiros dias em Cristchurch. Posso dizer que fiquei meses sem falar português, não sei se foi bom ou ruim, mas foi muito estranho ouvir de novo depois de tanto tempo. Tudo bem que às vezes ligava para casa ou para alguns amigos no Brasil, mas nada como ouvir, ver e interagir pessoalmente.
Para minha surpresa o backpack estava cheio de brasileiros, mas adotei uma estratégia: não diria para ninguém da onde era, a não ser que me perguntassem.
Rodrigo não demorou para se enturmar com os chilenos e argentinos, eu fiz amizade com Tom e Paul, dois ingleses; andava bastante com esses sujeitos, fato que ajudou a reforçar meu disfarce.
Os brasileiros falavam de monte, estavam sempre gritando no porão, falando alto e soltando palavrões. Eu apenas fazia uma cara de paisagem como se aquela língua fosse um dialeto distante e curioso.
Nunca, nem sequer uma vez, um basileiro me perguntou de onde eu era!
Com o tempo percebi que todos no backpack se misturavam: os ingleses bebiam com os japoneses, os chilenos conversavam com os indianos, os argentinos fumavam com os húngaros, mas os brasileiros faziam tudo entre eles. Era o povo mais isolado do backpack.
A primeira amizade que fiz foi com Tom, um dos ingleses. Tom é um sujeito bacana, tem um forte sotaque britânico, e quando o conheci usava um cachecol vermelho com uma camiseta de mangas curtas. O inglês tem um senso de humor um tanto peculiar para a raça inglesa, meio infantil diria até. Não que seja bobo, mas passa longe da ironia que estávamos acostumados a ver nos britânicos .
Ele me deu um cigarro no dia que nos conhecemos.
Um dos principais motivos das brigas entre mim e Rodrigo era por causa de cigarros. Ele é igualzinho a mim: fuma mas não compra. Não que eu seja miserável, mas é que não me sinto confortável gastando dinheiro com uma coisa que sei que vai me matar. Fumo sem culpa quando alguém me dá.
Lembro que quando mudei para a casa em Hereford St. tive dificuldade para descobrir um fornecedor. Passado alguns meses na Nova Zelândia, criei minhas próprias técnicas: a primeira é procurar alguém que compra tabaco, cigarro feito é muito caro; a segunda é nunca pedir pela primeira vez, você insinua que fuma e finge que esqueceu de comprar, se oferecerem, você pega; a terceira é criar um nível de confiança no qual você não tenha nem que pedir mais: simplesmente possa fumar como se tivessem comprado juntos. É difícil, muito difícil! mas vinha sendo bem-sucedido até então. Primeiro os goianos de Queenstown me davam um monte, depois os cearences que me ameaçaram de morte, depois François e Shon. Enfim, sempre achava um bom samaritano para dividir seu câncer comigo. Mas em Hereford St. estava difícil... ninguém me oferecia! Foi então que um dia, vendo todo mundo fumar na varanda, resolvi dar uma de simpaticão e pedir um:
- Ok, hello, everybody! Is there a good soul that can give a cigarette to this poor guy?
- Ok, olá, pessoal! Tem alguma boa alma que possa dar um cigarro pra este pobre sujeito?
Silêncio...
Depois descobri que Rodrigo queimara a boca, pedira tanto cigarro pras irlandesas que o assunto virara tabu na casa.
Acabei comprando um maço, mas quando coloquei o primeiro cigarro na boca, o chileno chegou pra mim e disse:
- Hey, man... can you give me one?
- Ei, cara...pode me dar um?
Acabamos ficando nessa. Ele comprava, eu fumava; eu comprava, ele fumava. No entanto, nunca brigamos feio por causa disso, na verdade começamos a agir em conjunto: quando ele arrumava um fornecedor, me indicava a boa fonte e vice-versa.

No Oceanic achamos Tom. Encontrei Rodrigo fumando com ele e um indiano do lado de fora. Me aproximei e esperei alguém me oferecer. O inglês tirou um maço de cigarros Balines e estendeu em minha direção, depois disso tentou falar um pouco sobre futebol, mas desistiu quando viu que eu não sabia nada.
O indiano tambem é legal. Prasad, seu nome. Prasad mora no Oceanic há muito tempo, trabalha no Base, uma rede de backpacks chique na New Zealand, e adora brasileiros. Ele bem que tentava se comunicar com os brasucas, mas nunca conseguia.
Mais tarde conheci Paul, um outro inglês, e Gergely, um húngaro de Budapeste, este último não fumava, mas sempre ia nos acompanhar para não perder o papo; os fumódromos são bons lugares para fazer amizades.
Depois de um tempo resolvi fazer um teste. Tinha uma brasileira que parecia ser a mais quietinha. Nunca abria a boca. Ela trabalhava no próprio backpack como cleaner. Resolvi chegar para ela um dia e puxar assunto. Ela arregalou os olhos quando falei em português. Descobri que era mineira, de Governador Valadares, viera para cá com o marido e ambos trabalhavam no backpack sem falar uma palavra de inglês.
O curioso é que depois desse papo rápido os brasileiros pararam de falar na minha frente. No elevador, quando me encontravam, ficavam quietos, pararam de soltar palavrões e falar besteiras sobre os outros na minha frente. Com o passar do tempo alguns passaram a me cumprimentar em português e a puxar papo na cozinha. Meu disfarce caíra. Mas o importante é que a partir daquele momento estava dentro do grupinho com a nacionalidade mais fechada e curiosa. Era membro de uma tribo distante e não catalogada: a excêntrica colônia de brasileiros no exterior!

27 de fevereiro de 2007

New Zealand Open Golf

Anotações de diário
02 de dezembro de 2006

O Oceanic tem 3 andares onde diversos quartinhos se estendem ao longo de estreitos corredores, parece um presídio. Não sei quantas pessoas podem viver aqui, mas aposto que é bastante. A cozinha fica na parte de baixo, uma escada corta o chão levando ao recinto, que foi apelidado de porão pelos moradores. Lá você também encontra a TV, que fica ligada o dia inteiro, mas é praticamente impossível assistir algo durante os horários de movimento, os telespectadores se contentam apenas com as imagens de clipes da recém-inaugurada MTV neozelandesa. As línguas mais ouvidas no Oceanic são o português e o espanhol; inglês é raridade por aqui. Um piso acima da cozinha fica a entrada e o telefone. Tentar usar o telefone é a mesma coisa que tentar ver TV: impossível. Sempre vejo alguém pedindo silêncio para os brasileiros nessa área. Tinha até me esquecido... brasileiro fala muito!

Primeiramente, Julian nos escalou para trabalhar na Sky Tower, mas depois de algumas horas nos ligou e perguntou se podíamos trabalhar num torneio de Golf. O esquema dessa empresa é enviar trabalhadores para quem precisa. É muito parecido com o esquema de John Lee nas fazendas: eles têm vários contatos com empresas de eventos, pegam um monte de gente e jogam a mão de obra barata ali embolsando uma parte do nosso suor.
No dia seguinte acordamos cedo e fomos ao local marcado. Uma pequena multidão de latinos esperava pelo ônibus que levaria ao torneio. No grupinho era nítido que não havia nenhum brasileiro: pelas caras e roupas dava para sacar que eram todos da turminha do Work Holiday... a porra do visto a que o Brasil não tem direito. Geralmente dá pra notar porque na maioria são todos latinos classe média alta, gente que veio curtir a Nova Zelândia e aprender inglês; diferente dos brasileiros, que vieram fugir da violência e fazer dinheiro.
Rodrigo se enturmou fácil com os latinos, se misturou com os chilenos e acabei me excluindo por não falar espanhol. Mas o grupo era grande e acabei conversando mais com uma garota de Hong Kong, uma francesa e um kiwi com cara de indiano - pelo menos eles falavam em ingles.
O torneio parecia ser importante, um tal de Neozealand Open. Ao chegar, avistamos jogadores de todo o mundo seguidos de seus carregadores de tacos e fãs donos de multinacionais. O campo ia até onde a vista alcançava, lagos, montanhas, árvores, areia, mulheres bonitas; tudo se misturava, deixando os pobres latinos de boca aberta.
Um kiwi vermelho do sol, usando bermuda e um daqueles fones no estilo walkie-talkie, comandava a operação. Eu e Rodrigo ficamos no grupo dos runners, cuja função era a de correr comidas para as tendas principais usando os carrinhos. Os outros ficariam nas tendas servindo os granfinos.
O serviço era muito baba, principalmente porque eles contrataram mais trabalhadores do que o necessário. Dentro da cozinha os chefes de cozinha trabalhavam apressados, às vezes quando entrava para dar uma olhada, tinha a impressão que iam se pegar na porrada; um clima de estresse insuportável. Enquanto isso do lado de fora os runners fumavam seus cigarros e se esticavam na grama. O grupo era composto quase todo por argentinos, somente eu de brasileiro; Rodrigo, Alejandra e Macarena representando a ala chilena; e Tatiana marcando presença para a Colômbia. Os argentinos eram muito figuras, ficavam fumando com seus óculos escuros e golas levantadas fazendo pose para as mocinhas do torneio. Faziam o estilinho: latino dançador de tango comedor de gringas indefesas, não que de fato o fossem, mas acreditavam com fé. Mais tarde Rodrigo me disse que eles eram os tais dos portenhos, tão odiados pelos moradores da América Latina.


- It's not all argentinean that is bad. We, the brazilians and the rest hate the "portenhos", the playboys from Buenos Aires... the ones that say "xo" rather than "yo"... Shit, I hate this accent!
- Não é todo argentino que é mal. Nós, os brasileiros e o resto odiamos os portenhos, os playboys de Buenos Aires... aqueles que dizem "xo" em vez de "yo"... Merda, eu odeio esse sotaque"

Às vezes desacreditava das coisas que saíam da cozinha. Pratos enormes com salmão, carneiro, filé mignon. Isso fora os vinhos e queijos que eram servidos todo o tempo. Andava com o carrinho pelo campo e olhava aqueles ricos... como eram ricos os filhos-da-puta! Ficavam lá, sentados nas tendas comendo salmão, bebendo Chardonnay e beliscando pedacinhos de queijo brie. A maioria usava roupas sports de tecido fino, tênis mais caros que o PIB de certos países e mulheres compradas nos melhores catálogos da Playboy. Engraçado como a apenas alguns metros jovens privilegiados do terceiro mundo olhavam famintos para toda aquela orgia alimentar.
Depois de levar toda a comida era hora de ir buscar. Colocavamos todos os pratos sujos nos carrinhos e levávamos de volta para a cozinha. Peças inteiras de salmão ficavam nas travessas, a cada carro que chegava era uma multidão que se encostava tentando arrancar pedaços da nobre carne com as mãos sujas... incluindo os portenhos!
O kiwi vermelho começou a gritar:
- Rubbish!!! This food must go to the rubbish!!!
- Lixo!!! Esta comida deve ir para o lixo!!!
Mas ninguém deu bola. Continuaram a pegar nacos de salmão e enfiar em suas bocas famintas. Um dos argentinos olhou para aquela carne rosada, molhadinha e suculenta, estendeu o braço, arrancou um filete, olhou para os lados e saiu mastigando e fazendo pose sob seus óculos escuros de 400 dólares...
Pois é, salmão é salmão, e latino é latino!
Era muita comida que chegava de volta, mas muita mesmo. Foi uma das maiores dores que já tive, ao ver tudo aquilo ser virado no lixo. Carnes, queijos, doces, vinhos. Os kiwis davam as ordens como se aquela atrocidade fosse a coisa mais normal do mundo:
- Rubbish... all food in the rubbish!
- Lixo...toda comida no lixo!

Por um momento fiquei só. Estava com uma tábua de queijos na minha frente e tinha a difícil tarefa de virar tudo no lixo. Mirei aquele pobre queijo gorgonzola, intocado, nem uma fatia a menos, puro, imaculado, cheiroso. Olhei em volta, não avistei ninguém. Enrolei o inocente queijo num papel e coloquei no bolso. Ao menos havia salvado uma pobre vítima daquele sinistro holocausto.

Naquela noite comi queijo gorgonzola com coca-cola.