CAIPIRINHA COM KIWI

23 Maio 2007

Comunicado

Aos leitores do Caipirinha com Kiwi

Primeiro gostaria de pedir desculpas por não postar mais nesse blog e deixar a última história incompleta. Para quem não sabe, não estou mais na Nova Zelândia, minha viagem terminou no dia 15 de Abril de 2007 - os acontecimentos narrados nesse blog vão somente até o último dia do ano de 2006. Tenho mais algumas histórias escritas e pretendo terminar esse blog num futuro próximo, mas no momento estou engajado em um novo projeto.

Estou numa cidade chamada Diamantino, no interior do Mato Grosso... Como vim parar aqui???
Não sei.
Mas provavelmente devo começar um novo blog em breve.

07 Abril 2007

Sexta temporada – Em busca do Eldorado

Já havia passado por Hastings antes com Rodrigo, a cidade me parecera bacana; pequena, mas não minúscula. Tinha cinema, alguns pubs e umas duas cafeterias; o que no interior da Nova Zelândia já é grande coisa. Nicolas e Javier também me pareceram ser ótimos sujeitos para conviver, muito bem-humorados e dispostos a me ensinar espanhol. A passagem por Hastings tinha tudo para dar certo, trabalharia duro, aprenderia espanhol, faria alguns exercicios no fim da tarde, comeria alimentos saudáveis, economizaria dinheiro e, por fim: voltaria para a civilização rico, bonito e inteligente.

Quando cheguei vi que o tal Backpacker era muito bom. Cozinha limpa, banheiro grande, sala confortável, tudo que o Oceanic não tinha. Encontrei os chilenos e eles me cumprimentaram calorosamente:

- Dale huevon! Yo sabia que tu virias.

Havia passado pouco tempo com os dois em Auckland, mas me lembrava bem do jeito deles. Javier era baixinho, tinha um bigodinho safado e um sorriso gigante. Ele adorava salsa, tocar viola e falar pelos cotovelos. Já Nicolas era mais alto, tinha o cabelo enrolado e era mais na dele. Ambos me mostraram o quarto que dividiríamos: um trailer que ficava do lado de fora na parte dos fundos. Não havia muito espaço lá, a cama não era das mais confortáveis, nossas coisas tinham que ficar todas empilhadas, mas era só para dormir mesmo, e o resto do Hostel compensava. Fui até o escritório e fiz o check-in com Neil e Cindy, os dois são um casal de kiwis recém-entrados na terceira idade. Eles sorriram, foram simpáticos, mostraram o local e cobraram 100 dólares pela semana; até que razoável. O A1 não é um backpack grande, é como uma casa reformada com 4 quartos e três trailers do lado de fora, devem caber umas 20 pessoas no máximo, mas naquele fim de ano percebi que éramos apenas 9: três alemãs, um escocês , um maori, dois israelenses, Nicolas, Javier e eu.

Andrew, o escocês, era um senhor velho, na casa dos setenta, ele passava o dia inteiro vendo TV; dizem que morava no Backpack porque sua família não o aguentava mais em casa resmungando toda hora. Já Leon, o maori, não é velho como Andrew, mas tinha lá seus quarenta e poucos anos. Os dois destoam um pouco da média dos frequentadores do Backpacker pela idade, mas de vez em quando conversavam e compartilhavam experiência com os mais jovens.

As alemãs se chamavam: Stephani, Verina e Monica. As duas primeiras se conheceram no aéroporto de Auckland, viajaram juntas todo o litoral norte do país e pararam em Hastings para fazer uma grana. Lá conheceram Verina, que viajava sozinha com um carro que comprara em Bay of Plenty e também parara na cidade para incrementar seu orçamento de viagem. As três tinham Work Holliday e trabalhavam juntas numa Pack House, embalando frutas.

Por último, os dois israelenses, que eram como todos os israelenses que eu conheci nessa viagem: maconheiros, muito maconheiros! Tal e Nadav dormiam no trailer ao lado do nosso. Sempre que passava a caminho do banheiro via-os sentados escutando um som e soltando fumaça. Os dois sempre me chamavam para fumar:

- Come on, Thiago, I know you smoke!

Mas o fato é que eu não queria mais fumar. Estava em Hastings para fazer dinheiro! A partir dali seria um capitalista e um capitalista que é capitalista rasga pôsteres do Bob Marley e não perde tempo chapando sobre coisas não materiais. Fuck the ganja I want money! Esse seria meu lema a partir de então. Além do mais, como esses israelenses do caralho sabiam que eu fumava?

Depois da terceira vez que me convidaram fiquei incomodado. Tenho amigos no Brasil que sempre reclamaram do fato de terem cara de maconheiros, dizem que vão para as festas e todos chegam perguntando se tem bagulho. Eu nunca tive esse problema, nunca passei por isso. Mas depois que parei para pensar, já faz um bom tempo que todos vem me tratando como maconheiro. Acho que deve ser por causa do cabelo... ou talvez pelas roupas sujas, barba mal feita, tênis rasgados e falta de banho. O fato é que me injuriei com os israelenses. Não iria mais falar com eles. Passei a deixá-los de canto e ia conversar só com os chilenos e as alemãs.
Nos dois dias que antecederam o reveillon, me adaptei novamente à vida no interior. Fiz amizade com os outros moradores do backpack, relaxei, botei minhas sandálias e me organizei. Fiz um planejamento estratégico com Nicolas e Javier, os dois eram estudantes de engenharia pela Universidade Federal do Chile, eram muito certinhos, cheios de planos, números e estratégias. Nicolas comprou um carro, calculamos quanto cada um teria que dar para a gasolina, deduzimos o valor do aluguel do provável salário, descontamos as taxas, adicionamos as horas extras, dividimos pela máxima potência da raiz quadrada dos catetos da hipotenusa e SIM! Estava pronto! Tinha cobiça em meus olhos, nada daria errado, os números estavam do meu lado, havia recuperado minha dignidade, era senhor de mim mesmo, tinha o destino nas mãos e uma frase de auto-ajuda para cada desgraça que ameaçasse acometer-se sobre minha pessoa.O dia 31 chegou. Neill e Cindy, os donos do backpack, nos disseram que o melhor réveillon da região seria em Napier, resolvemos ir conferir. Coloquei minha melhor roupa, fiz a barba e costurei meus tênis. Acho que não deu muito certo, já que Nadav passou por mim, deu uma piscada e disse:

- Come on... I know you smoke!

Fomos em seis, eu, os chilenos e as alemãs. Convidamos Tal e Nadav, mas eles não quiseram ir:
- We’re going to spend the New Year under the moon, smoking ganja and playing guitar.- Vamos passar o Ano Novo sob a lua, fumando maconha e tocando violão.

"Maconheiros!", pensei comigo mesmo. Esse ano novo seria um recomeço, seria um marco nos bons acontecimentos que estavam por vir. Exalava auto-confiança, ainda mais porque Monica, uma das alemãs não parava de me olhar. Quando você acredita em si mesmo as coisas acontecem, não existe sorte, existe oportunidade, um vencedor é quem supera as barreiras, um vencedor é quem sabe trilhar o próprio caminho... Definitivamente, se existia um vencedor, era aquele sujeito cabeludo com boné verde rumo à vitória! Podia até ouvir a música do Rocky Balboa embalando meu sucesso.Enquanto dirigíamos a caminho de Napier a roleta da sorte girou.E não é que a filha-da-puta da bolinha me pára num 13 preto!E não é que a pior coisa que poderia acontecer aconteceu!E não é que o vencedor aqui, cheio de si mesmo, mais uma vez, tomou no cu.

30 Março 2007

Últimas horas em Auckland

Nos dois dias que se seguiram ao Natal conversei bastante com Dago. Ficamos bem amigos e fumamos vários baseados juntos:
- Ô Thiagão, véio... vai não, véio! Fica aí, vamo passá o ano novo junto, vamo bebe todas e desencaná.
- Pô, cara, preciso ir. Tô sem grana, não tenho nada.
- Fica ae, mano. Eu te banco, cê pode dormir no meu quarto, ninguém precisa saber. Que se foda essa portuguesa do caralho.
- Não, cara, não posso ficar te devendo, não sei quando vou ter grana de novo.
- Véio, se não tiver grana, não paga. Tô te falando, Thiagão, fica aí que eu te banco!

O fato é que eu estava a fim de sair fora. Não gostara de Auckland, a experiência de encarar o Brasil e lembrar que no fundo não passava de um brasileiro no exterior tinha sido dura demais. As coisas também pareciam que iam demorar para esquentar em Auckland, o mercado de dishwasher não estava muito favorável naquele fim de ano. As fazendas pareciam ser novamente a melhor alternativa. É, de fato estava decidido: não passaria o Réveillon em Auckland!
Analisei minhas alternativas: Tom, o inglês, ou Nicolas e Javier, os chilenos. Se passasse uma temporada com os chilenos poderia, por fim, aprender espanhol. Já Tom era gente fina, mas era europeu e certamente não encararia o trabalho da mesma forma que eu. Além do mais ele sempre pegava as melhores garotas para ele.
Optei pelos chilenos.
Mandei uma mensagem para os dois dizendo que chegaria antes do fim de ano.

Antes de partir me reuni com os brasileiros. Todos disseram que me ajudariam caso eu quisesse ficar:
- O meu rei, fica aí, que vai mexer com colheita que nada. Fica aí que em janeiro tu arruma um trampo bom num restaurante.
Subi para arrumar minhas malas, mais tarde os brasileiros se reuniram com os argentinos no porão. Alguém trouxera um violão e uma rodinha de música rolava, uma hora com músicas em português, outra com músicas em espanhol. No chão a argentina que chorara por causa dos chocolates beijava Marcelo, o mulato que veio da Austrália.
- Rapaz, num é que a bichinha gosta mesmo dum chocolate?

No exterior as características são mais fortes. Conviver com tantas nacionalidades diferentes te faz prestar atenção em todas nuances culturais, você pega facilmente todas qualidades e defeitos dos seus semelhantes e pode fazer um julgamento melhor sobre como o meio em que você vive te transforma. A experiência no Oceanic não foi das mais enaltecedoras para formar minha visão do povo Brasileiro. No entanto descobri que, apesar de tudo, o brasileiro é solidário. O engraçado é que essa solidariedade não está relacionada com nenhuma formação de caráter comum, não ligamos para honra, para mérito, para dignidade. Somos solidários mais porque temos uma coisa que, infelizmente, não sei como chamar. Alguns chamam de bom coração, outros chamam de amor, mas o fato é que é um sentimento que nunca encontrei tão forte em nenhuma outra nacionalidade. É algo que nos faz brasileiros, que nos faz ser um povo diferente, cheio de contradição, cheio de sofrimento e alegria.
Cada brasileiro sabe a dor e a delícia de ter um passaporte verde.

Fim da quinta temporada

28 Março 2007

Um brasileiro que veio da Austrália

O mês de dezembro foi crucial para minha viagem: ficar ou não ficar na Nova Zelândia, eis a questão. Meu visto iria vencer em janeiro e minha passagem estava em aberto. Quando cheguei em Auckland, tinha certeza de que minha viagem terminaria aqui, não tinha motivo para continuar, a New Zealand era como um cassino, e eu perdera todas as fichas. era hora de ir para casa me recompor.
No entanto um dia depois de ver Tom apostar 200 dólares na roleta e recuperar todo seu dinheiro, alguma coisa mudou em minha cabeça: talvez eu não esteja apostando alto demais! era tudo o que eu pensava. Resolvi ir até a Aerolineas e marcar minha passagem.
- What is the day limit ?
- Qual o dia limite?
- April 14.
- 14 de Abril.
- Ok, you can book it!
- Ok, pode reservar!
Pronto, tinha até o dia 14 de abril para encontrar o que viera buscar. Tinha comprado minhas fichas, e a roleta estava girando!

Foi aí que conheci Marcelo.

Marcelo chegou no Oceanic um dia depois do Natal, ele era um mulato alto de Brasília e estava de partida para o Brasil no dia seguinte. O sujeito tinha um forte sotaque de quem morou muito tempo fora, falava meio enrolado e às vezes soltava algumas palavras em inglês no meio da conversa em português.
Ele me contou sua história... e que história!
3 anos atrás Marcelo fora à Austrália para estudar inglês. Do Brasil ele comprara um curso e tirara o visto de estudante. Os estudantes podem trabalhar até 20 horas semanais legalmente no país. Marcelo estudava e trabalhava como pedreiro durante os primeiros meses, disse que tirava mais de 100 dólares por dia. Algum tempo depois ele começou a trabalhar num bar em Sydney e não demorou para que arrumasse uma namorada australiana. Com o passar do tempo o brasileiro descobriu a atração que as gringas têm pelos mulatos. Ele acabou sendo convidado para trabalhar como stripper e juntou uma grana astronômica.
- Eu comecei a freqüentar as melhores baladas, comer as melhores mulheres, me envolver com os sujeitos mais importantes. Teve uma festa que fui com minha namorada e encontrei o Russel Crow. Nada demais, sempre encontrava gente famosa, the fact é que ele me ofereceu 10 mil dólares para que eu comesse minha namorada na frente dele.
Marcelo começou a mostrar algumas fotos, tirou seu celular do bolso e mostrou fotos da sua namorada, primeiro ele e ela, depois só ela, depois só ela sem roupa.
- Ela era muito gostosa, you know do tipo que todo mundo olha na rua e cobiça... nunca que um mulato que nem eu ia ter uma mulher dessas no meu país.
Foi aí que dois anos se passaram e ele voltou de férias para o Brasil.
- Gastei uma fortuna em festa e putaria, mas deixei uma boa parte guardada para voltar a Austrália. E foi aí que aconteceu!
A embaixada australiana negou o visto de entrada de Marcelo alegando que ele não tinha as presenças necessárias na escola para renovar seu visto de estudante.
- Foi a pior coisa que me aconteceu. Eu tinha tudo, tinha uma vida na Austrália, tinha conseguido comprar tudo o que eu sempre quisera, fiz fama, dinheiro, poder.
Foi então que Marcelo resolveu investir seu dinheiro para vir para a Nova Zelândia. Mas a vida nesse pequeno pedaço de chão não é nada se comparado com o gigante australiano:
- Esse país is shit. Não consegui fazer grana, trabalhei pra caramba e não juntei a grana necessária para voltar para a Austrália. Ninguém faz dinheiro aqui!
Na verdade, Marcelo tinha que ficar pelo menos 1 ano fora de solo australiano para tentar entrar novamente. Ele queria passar esse tempo na New Zealand, fazer um dinheiro e depois tentar o visto australiano novamente.
- Nesse meio tempo terminei com minha namorada, ela começou a sair com outro brasileiro. O plano era ela vir para a Nova Zelândia para casarmos e ficar mais fácil dar entrada na minha cidadania... mas não rolou.
Marcelo decidiu então tentar uma última tacada. Ele ganhara uma vez 4 mil dólares num cassino na Austrália.
- Sempre jogava, às vezes ganhava, às vezes perdia. Na maioria das vezes tive prejuízo.
Decidiu jogar em Auckland:
- Perdi... mas perdi feio! Mais de 12 mil dólares.
- DOZE MIL DÓLARES???
- Sim, perdi tudo isso em duas noites. Não consegui parar, fui gastando, ganhei algumas vezes, fui apostando high, cada vez mais. Perdi tudo.
- E agora, o que você vai fazer?
- Agora vou voltar pro Brasil. Estou quebrado. Não tenho nada! Tive que vender meu MP3 para pagar a acomodação essa semana e bancar um taxi quando chegar no Brasil. Brazil again... depois de tanto tempo vou ter que aprender a viver no Brasa de novo... É tao estranho!

Naquela tarde fiquei pensativo.
Já tinha comprado minhas fichas.
Ia apostar em mais 3 meses.
Mas Marcelo me fez lembrar de uma coisa...

... de que eu também posso perder!

22 Março 2007

Um brasileiro que veio do México

Pelos corredores do Oceanic sempre via um sujeito falando espanhol, mas não sabia da onde ele era. Com surpresa descobri que era brasileiro, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, seu nome era Antônio, mas todos o chamavam de Dago.
- Pô! pensei que tu era argentino ou alguma coisa.
- E eu pensei que tu era gringo ou qualquer coisa.
Dago tinha passado um ano na Cidade do México, estudara comércio exterior no Brasil e trabalhara para uma empresa de exportação na maior cidade do mundo. Ele aprendera a falar espanhol lá, e veio para a New Zealand aprender inglês e trabalhar como lavador de pratos. O sujeito tem um sotaque bem típico de Ribeirão Preto, fala véio a cada duas palavra:
- Véio, a parada no México é muito loca, tá ligado? É doido você morar uma cara lá e depois vir pra cá. O mexicano é muito malandro véio, se brasileiro pensa que é veiaco, você não imagina os caras. Esse país aqui véio, isso aqui não parece que é real, mano. No começo eu pensava que esses kiwis eram muito ingênuos, mas depois não. Não são eles que são ingênuos véio, somos nóis que sabemos demais, nóis que somos muito malandro, tá ligado? Olha como esses kiwis vivem... olha esse país, véio! Tudo certinho, sinalzinho que apita bi bi bi bi quando abre, velho andando sussegado nas ruas, ninguem quer te passar pra trás. Mano, agora olha nosso país véio, olha o México...nós é veiaco porque se não nós morre!
Estávamos conversando na cozinha e Dago não tirava os olhos do canto da mesa.
- Mas é isso véio, a parada parece que ainda não chegou aqui. Esse lance que aconteceu com os brasa onti, eu não tava aqui, tá ligado? tava trampando, mas os maluco me falaram, é bem isso, mano, brasileiro é malandro, gosta de tirar vantagem, se for em cima de argentino melhor ainda. Mas tá ligado, se no brasa é foda, imagina aqui, véio! O lance é que aqui da mais na vista, tá ligado? aqui os maluco não se protegem, aqui não tem veiaco, aqui fica mais feio ser brasa.
Dago continuava a mirar o canto da mesa:
- Véio, to de olho naquele kebab ali no canto. Faz mó cara que deixaram isso ali, desde que cheguei do trampo.
Ele se levantou e pegou o kebab que estava enrolado em papel alumínio.
- Pronto véio, aqui. Cê janto?
- Ainda não.
Ele dividiu o kebab no meio e me deu metade:
- Aí, mano... são duas barrigas vazias e um lanche que ia pro lixo.

19 Março 2007

A Noite Mágica de Natal

Primeiro ceiaram os chilenos. Fizeram uma grande ceia, brindaram e saíram para a rua festejar. Susu, a japonesa, havia me convidado para jantar junto com ela e um outro irlandês que nunca vira na vida, presumi que os brasileiros nao fariam nada de especial e acabei aceitando. Comemos, conversamos e nesse meio tempo os argentinos começaram a ceiar. Eles ligaram o Ipod numas caixas acústicas brancas e encheram o porão com música: Bob Marley, Manu Chao, Jimi Hendrix. Ceiaram com vinho e pernil. Estavam todos bem-arrumados, as garotas maquiadas e perfumadas.
Depois de algumas horas os primeiros brasileiros começaram a chegar. Ricardo apareceu vestindo sua roupinha de Natal, todo penteadinho e de sapatinho novo. Logo depois desceram os baianos, os mineiros, os paulistas e os goianos.
Nesse momento ficaram todos na sala, argentinos, brasileiros e algums moradores como Ash, Robert e Abdu. Francisco, o argentino, perguntou se eu queria fumar com ele e seus camaradas... achei melhor não, afinal era noite de Natal. Mas alguns minutos depois todo mundo ficou bêbado e fumado, resolvi voltar atrás na decisão e procurar o argentino:
- Muy tarde bolhudo, nosotros ya fumamos tudo.
Mas Bida, um brasileiro do Guarujá, disse que tinha um pouco e dividiria comigo se eu arrumasse duas argentina gostosas para fumar junto. Achei a proposta absurda, mas por coincidência, algumas horas depois, duas argentinas lindas chegaram pra mim e perguntaram se eu conhecia algum brasileiro que tinha fumo.
Estávamos indo os quatro, quando Francisco chega e pergunta se pode ir junto:
- Por supuesto huevon!
Mas Bida não gostou da idéia:
- Que cê tá fazendo, mano? Vai quebrar a roda, tamo com duas gata, cê vai bota um mané no meio?
Aí ele virou pro argentino e fez um sinal de negativo com a mão:
- No, no... vaza, vaza!
Não sabia onde enfiar a cara, o filho-da-puta não queria dividir nem um baseado na noite de Natal!? Ainda mais com o argentino que sempre fumava com a gente. Fiquei muito envergonhado. E o argentino muito puto:
- Concha su madre, que brasilero culiado de mierda.
Os dois quase saíram na mão, se xingaram em plena noite de Natal por causa de um baseadinho. Acabei jogando uns panos quentes, dei uma cerveja para Bida e tentei mudar de assunto:
- Muy culiado este brasileiro. Que se cre? pensa que vai culiar com las chicas argentinas. Maricón de mierda!
Bida foi fumar sozinho com as duas garotas, claro que não fui junto. Elas não ouviram a briga, estavam mais adiante e muito chapadas para saber o que se passava em volta. No fim as argentinas voltaram pra sala, beijaram outros argentinos na frente de Bida e ainda olharam para ele rindo. Bida ficou com cara amarrada a noite inteira e foi dormir mais cedo.

Mais tarde os argentinos saíram todos para a balada. Nenhum brasileiro tinha dinheiro para festejar a noite fora, acabaram ficando todos na mesa. Telemar disse que ia pegar um som para tocar umas músicas. Subiu e desceu com um estéreo muito antigo.
Ele e Zé Luíz tentaram ligar.
Os brasileiros sentaram-se na mesa em que os argentinos estavam sentados antes. Robert e Abdu, o maori e o paquistanês, juntaram-se ao grupo. Os dois também não tinham para onde ir na noite de Natal e resolveram sentar-se com os brasileiros. Um pouco mais ao longe Susu e dois amigos japoneses conversavam no sofá em frente a TV.
Telemar e Zé Luíz continuavam a mexer no som tentando ligá-lo.
Abdu sacou uma câmerazinha fotográfica bem velha e perguntou se podia bater uma foto com os brasileiros. Era sua noite de Natal na New Zealand e, muito provavelmente, ele queria ter uma recordação. Os brasileiros se emparelharam ao lado do paquistanês soltando frases como: "ae fedor!", "diga x cheiroso".
Flash!
Telemar e Zé Luíz ainda mexiam no rádio. Levantei para ver se podia ajudar:
- Bah, de quem é esse som?
- É meu uai, achei no lixo aqui perto.
- No lixo, Telemar?
- É ué, tá aí novinho.
Não conseguimos ligar o som. Após alguns segundos desisti de tentar, e me pus a olhar os CDs de Telemar: Mastrus com Leite, Aviões do Forró, Calipso, por alguns segundos rezei para aquele som nunca pegar. O mais estranho para mim, no entanto, era olhar aquela coleção de CD piratas, fazia tanto tempo que não via aquilo.
Telemar continuou a mexer nos botões.
Valtinho sentou-se na ponta da mesa e esbarrou numa sacola:
- Eita nóis... pérai, pérai todo mundo!
Todos olharam para Valtinho:
- Olha aqui o que o Papai Noel deixou pá nóis!
E o baiano jogou na mesa uma sacola cheia de chocolates. A brasileirada toda bateu palma e correu para abrir as embalagens. Um saquinho de confete explodiu enchendo a mesa com o doce colorido. Quase no mesmo instante Telemar conseguiu ligar o som.

Chegou, virou, botou pressão/ Balançou, balançou/ Swing de tremer o chão/ Isso é Calypso

Peguei um papelzinho de chocolate da mesa e li assustado as palavras: made in Argentina. Tentei chamar a atenção do povo:
- Ei, pessoal, acho que esse chocolate é dos argentinos.
Mas ninguém ouviu, o forró comia solto e o chocolate era farto na mesa.
A mulher de Telemar dançava, o povo bebia, e os japoneses tampavam o ouvido do outro lado da sala.
Nisso uma argentina adentra o recinto. Ela olha desconfiada para a mesa, mas prefere não acreditar no que está vendo. Ela segue em direção ao local onde Valtinho estava sentado:
- Sorry... there were some chocolates there, do you know where are they?
- Desculpe...Tinha uns chocolates ali, sabe onde estão?
Todos olharam para mim:
Não disse nada.
É impossível descrever a cara de vergonha com que os brasileiros olharam a argentina. Tava na cara o que tinha acontecido, mas ninguém queria explicar a situação, e ela queria ouvir de nós o triste fim de seus chocolates argentinos. Eu não sabia o que fazer, não sabia onde me enfiar. Talvez coubesse a mim tentar explicar a situação, pelo menos eu acho que era o que todos esperavam. Mas pela primeira vez na vida me senti paralizado pela vergonha. Resolvi ficar quieto sem dizer nada, só olhei para o chão e rezei para que a terra me engolisse.
A pobre argentina chorou, e, para nosso desespero, o fez copiosamente! Nesse meio tempo chegaram outros argentinos e perguntaram o que acontecera:
- Los brasileros comeram todo chocolate que yo trouxera para Jasmin.
Dor... pela primeira vez na vida senti dor de tanta vergonha.
- Ok. Sorry! Sorry very much!
Era Zé Luíz que levantara como um herói e tentara contornar a situação. Ele falou um portunhol misturado com inglês e conseguiu resolver a situação. Disse que tínhamos bebido demais, que perderamos as estribeiras e que pagaríamos pelo prejuízo. O goiano tirou uma nota de 20 dólares da carteira e deu para a garota. Ela limpou as lágrimas, pegou o dinheiro e saiu.
Por alguns segundos o silêncio imperou na sala. Todos estavam tentando entender e assimilar a situação. Foi quando Ricardo soltou:
- Ah, argentinos de merda! Sempre pensam que são melhores que nós.
Alguns concordaram, outros ficaram quietos e Telemar ligou de novo o som:

Deixa a guitarra swingar/Dirim, dirim, dirim, dom/E o som bater no coração/Dim, dim, dom/O toque é bom pra se dançar/Dirim, dirim, dirim, dom/E bata na palma da mão/Dim, dim, dom

Ainda estava paralisado de vergonha no meu lugar. Era algo violento, sentia minha pele pegar fogo e tive muita vergonha de ser brasileiro naquele momento. Mas não tive vergonha pelos meus compatriotas, não, o motivo principal de tanta agonia, sofrimento e desgosto vinha de dentro, literalmente. O que mais doeu era saber que em algum lugar dentro do meu estômago estava a prova do crime...
... e eu ainda podia sentir na boca o gostinho!

15 Março 2007

No submundo de Auckland

Anotações de diário:
23 de dezembro de 2006

Abdu é paquistanês. Ele mora sozinho num dos quartos do Oceanic. O sujeito é mais velho, está na casa dos 50 e trabalha na cidade durante a noite. Abdu não tem amigos, está sempre sozinho, mas sempre cumprimenta todo mundo quando desce para comer sua janta. Ele usa um perfume paquistanês muito forte que os brasileiros deduziram como sendo fedor natural. Abdu sempre sorri educadamente para os brasileiros que tampam o nariz assim que ele passa. "Ê, fedô!" dizem alguns.

Um pouco antes do Natal, Tom partiu para trabalhar na colheita em Napier. Tom era meu melhor amigo na cidade, ele havia insistido um bocado para que eu ficasse por lá durante o Natal e depois ambos viajaríamos pra onde quer que fosse. Mas algo misterioso o fez mudar de idéia e partir antes do planejado. Desconfio que tenha sido porque o ambiente ficava cada vez mais pesado.
Eu deveria ter ido embora, mas queria passar o Natal com os brasileiros. O fim de ano não estava sendo fácil, a saudade aumenta muito nessa época e ficar com meu povo e falar minha língua ajudaria a matar essa carência. No entanto estava sem trabalhar e, fora escrever, não fazia nada durante o dia inteiro. Com o tempo acabei mergulhando no submundo de Auckland.

Cyber Café
Durante o tempo que antecedeu o Natal me dediquei com afinco ao blogue. Todos os dias cruzava a Anzac St. até a Madison St. e chegava ao Knight Brothers, um cyber café nas imediações. Os donos do Knight Brothers eram, é claro, chineses. O atrativo do lugar é o preco: 2 dólares por hora, mas se você comprar um plano pode usar 50 horas por 50 dólares, apenas 1 dólar por hora. O fato é que o Knight Brothers é uma porcaria de lugar. Fica num porão, embaixo de uma cafeteria e cheira a mijo. O banheiro do lugar é inutilizável, se estou escrevendo e preciso urinar tenho que me locomover até o Fat Camel, um bar que fica ao lado. Lá dentro as paredes são todas pichadas e o chão é grudento de tão sujo.
À noite o Knight Brothers é ainda mais assustador, já que nessa hora a internet também funciona como ponto de drogas, vários maoris bem ao estilinho rapper americanos se drogam em frente a turistas assutados e desavisados. Tem um gordão que se deita na cadeira bem ao lado do banheiro, se pica todo e dorme sonhos intranqüilos fazendo um barulho estranho. Misturado ao maoris estão os chineses que passam a noite jogando aquela merda de joquinhos que eles jogam... um tal de Counter-Strike.
O dono da internet é um chinês feio pra caralho, parece que lhe tacaram fogo na cara e apagaram com um martelo. Desconfio que deva ter um acordo secreto entre ele e os traficantes. Os maoris estão sempre lá bagunçando, às vezes tenho que desistir de escrever porque gritam e fazem muita zona. Ao mesmo tempo o chinês não faz nada. Fica calado e finge que nada está acontecendo.
Já as mocinhas são duas chinesinhas. São bonitinhas até e se revesam na recepção. Uma delas tem uma voz irritante, está sempre gritando coisas em chinês, quando ela começa, tenho que tapar o ouvido. Não sei qual é a relação delas com o chinês dono do negócio, mas desconfio que não seja somente negócios. Um dia fui de madrugada para usar a internet, ela funciona 24 horas, e encontrei a grade fechada com um bilhete: "Sorry, CLOSE. open tomorrow 8 am". Me aproximei da grade e uma luz negra iluminou meu rosto. Lá dentro alguns gritos de mulheres e um barulho de chicote davam o tom. Não consegui ver nada, minha visão só conseguiu pegar um chinês que jogava aquelas porcarias de joguinhos de tiro mais ao canto... alheio a tudo o que acontecia a sua volta.

Ash
Dentre os moradores do Oceanic, Ash é o único kiwi. E ele é bem típico: usa um bonézinho preto com a aba reta virada para o lado, bermudão e camisa listrada. Igual a maioria da molecadinha kiwi.
A primeira vez que conversei com Ash foi no porão. Ele veio perguntar se eu queria fumar maconha com ele. Recusei o convite, e ele me ofereceu algumas cervejas. Bebemos no seu quarto, o lugar era uma sujeira, quase pior do que o quarto 37. Ash deu uns pegas e começou a contar sua vida. Ele tinha apenas 22 anos e tinha um filho com uma japonesa pra criar.
Ash não faz o tipo violento, na verdade faz mais o tipinho carente, assustado com o mundo. Ele tenta a todo custo fazer amizades com o pessoal no backpack, mas a barreira da língua e os costumes acabam esbarrando nas suas boas intenções. Ele tem mania de abraçar todo mundo, o que não demorou para ser interpretado pelos brasileiros como um traço de viadagem. No entanto, apesar de toda essa carência, quando criança sua mãe o colocara num internato para crianças violentas.
- I never understand that. I didn't do anything
- Eu nunca entendi isso. Não fiz nada.
Ele começou a falar sobre sua namorada:
- It was very nice, I met her in the street and after we were fucking in her house... I didn't need to do anything, it was very easy.
- Foi muito legal, eu conheci ela na rua e depois estávamos transando na casa dela...Não precisei fazer nada, foi muito fácil.
Ele disse que o filho não foi planejado, mas que ele e a garota faziam sexo sem camisinha de propósito:
- I think she wanted to get pregnant. I don't know why.
- Acho que ela quis ficar grávida. Não sei por quê.
Sua namorada acabou tirando a cidadania neozelandesa e morando em Auckland.
O kiwi perdeu seus últimos 3 empregos, não consegue achar trabalho em lugar nenhum e se mantém com um seguro desemprego de mais ou menos 200 dólares por semana.
Como já escrevi aqui antes, na Nova Zelândia é quase que obrigatório sair de casa após os dezoito anos. Com Ash não foi diferente, sua mãe o tocou pra fora quando completou a maioridade e nunca mais ligou, nem para dar os parabéns no aniversário.
- Fuck, what did you do to your mother?
- Porra, o que você fez pra sua mãe?
- Nothing, man. I swear that I didn't do anything.
- Nada, cara. Juro que não fiz nada.
- Fuck, and she never calls you?
- Caralho, e ela nunca liga pra você?
- I know what you mean... the families here in New Zealand are shit! I heard that you have a good family in South America. Maybe that's why you're so surprise with my mom.
- Te entendo...as famílias aqui na Nova Zelândia são uma merda! Ouvi que você tem uma boa família na América do Sul. Talvez é por isso que você está tão surpreso com minha mãe.
Descemos para a cozinha. Varios latinos falavam em espanhol, alguns me chamaram para conversar. Ash sentou-se em frente a TV. Era assim que esse kiwi levava seus dias: bebendo, fumando e vendo TV: como um estrangeiro na própria terra.

Os expulsos

Primeiro foi um brasileiro chamado William, paulistano da zona Sul, cheio de marra, o sujeito passava boa parte dos seus dias fumando maconha no quarto 34 do Oceanic. Um dia a portuguesa dona do Hotel descobriu e o chamou para conversar.
- Ou você me paga o dobro do aluguel ou eu chamo a polícia.

Wiliam foi extorquido por algumas semanas, até conseguiu negociar e se mudou para outro backpack.
O segundo foi Paul, o inglês. Paul dormia com Ricardo, o paulistinha de São Caetano com passaporte italiano. Ricardo acabou contando para a portuguesa que o inglês queimava um "cigarrinho do capeta" no dormitóio.
Paul foi expulso.
Por útimo foi Brian, o americano. A portuguesa disse que ia trocar meus lençois e queria ir comigo até o quarto para eu dizer qual era a minha cama. Quando ela entrou quase teve um ataque:
- Mas que bagunça!!!! Como alguém pode viver aqui?
Ela perguntou de quem eram as coisas atiradas por todo quarto:
- É do gringo aí.
Brian estava dormindo na cama, e a portuguesa o acordou:
- Brian, wake up! Pack your things and go to my office.
- Brian, acorde! Arrume suas coisas e vai pro meu escritório.
O engraçado é que o americano se levantou ao tiro e começou a arrumar as malas. Ele nem questionou por que estava sendo mandado embora.
Com certeza não era pelo que estava pensando.

12 Março 2007

O Baiano que queria falar inglês

Anotações de diário
22 de dezembro de 2006:

Robert é maori. Ele trabalha como cleaner no Oceanic. Robert é um senhor na casa dos 60 que procura levar uma vida saudável, sempre o encontro com uma camiseta regata e tênis pronto para fazer sua sessão de exercícios. Ele tem uma voz grossa e um sorriso fácil e envergonhado. O sujeito está sempre sozinho, não tem nenhum amigo e segue diariamente sua rotina, quase invisível aos outros moradores. Outro dia descobri que ele cumpriu sentença na penitenciária de Auckland há uns dois anos. Não consegui saber o motivo, mas outro dia quando o vi correndo nas ruas de Auckland pude sentir o peso de seu passado em seu trote.

Os brasileiros me colocaram lá em cima pelo fato de ser o único que falava inglês. No entanto, o Oceanic era o lugar de chegada do pessoal, ninguém estava aqui há mais de 3 meses, e eu já era macaco velho na New Zealand. Quando dizia que era que nem eles no começo e que tinha aprendido inglês na raça, eles ficavam cheios de motivação. Valtinho era um deles. Conheci o baiano enquanto esperava para usar o telefone e ele pintava o salão de entrada do Oceanic. Ele começou a contar algumas histórias, disse que tinha um filho para criar em Trancoso, na Bahia, e que passou por maus bocados com o brasileiro que o trouxe pra cá.
Valtinho é um fenômeno, faz de tudo sem falar nada de inglês. Arrumou um empregador russo, se comunica com o sujeito e consegue explicar tudo sem falar nada. De todos os brasileiros ele é o que se envolve mais com os gringos, sempre o vejo tentando conversar com os japoneses e os ingleses. O fato de eu ter um bom transito entre os gringos o motivou mais ainda:
- Rapaz, tu tem amigo gringo e os nego gostam de ti mesmo? Que coisa bonita isso.

Ele acabou grudando em mim. Quando ia falar com os ingleses ele ia junto, quando ia beber com os chilenos ele também estava lá. Nao que o baiano fosse chato, ele ficava quieto ouvindo e prestando atenção, não atrapalhava nem se intrometia demais. No fim do papo dizia o que tinha entendido da conversa... na maioria das vezes entendia bem o contexto.
Com o tempo os brasileiros acabaram se misturando mais com os gringos. Os argentinos chamavam direto os brasileiros para fumar maconha e vice-versa. Teve um dia que Francisco, um argentino, nos chamou para uma rodada. Ricardo, o paulistinha mala de São Caetano com passaporte italiano, disse que queria ir junto. Fomos eu; Ricardo; Valtinho; Francisco; Prasad, o indiano e Paul, o inglês.
Ricardo não fumava. Nunca havia fumado na vida:
- Rapaz, mas quantos anos tu tem? Aonde já se viu um bicho grande desse qaue nunca fumo. Vai fumá sim, meu rei. Vai fumá e vai fumá é agora!
Mas Ricardo só sorria envergonhado, se recusou a fumar e só ficava nos olhando com olhar de reprovação e asco. Ficamos sem entender por que ele quis ir junto, talvez para contar para seus amigos paulistinhas filhinhos-de-papai as aventuras que teve no exterior: o dia em que quase fumou maconha... talvez a coisa mais transgressora que tenha feito na vida.
O baiano deu dois pegas e começou a falar inglês.
- Oh, my brodinho, this is veri goodi!
Ele falava com um sotaque muito forte, mas o indiano, o inglês e o argentino entendiam tudo. Não demorou muito para que eles quase morressem de dar risada com o baiano. Em especial o indiano, que começou a idolatrar Valtinho
- Man, you're so fucking funny. I never see anything like this. You're a legend, you're a god!
- Cara, você é engraçado pra caralho. Nunca vi algo assim. Você é uma lenda, um deus!
O baiano se abriu mais que um pavão e continuou a arranhar o inglês com os gringos:
- My friend, I ami from Bahia... in Bahia you take easy. Let's takerizar my king.
O indiano ria tanto que pensei que ia ter um colapso.
Ricardo não entendia nada. Ficava nos olhando com cara de taxo sem saber o que fazer quando me perguntou:
- Que que o Valtinho tá falando aí?
Mas o baiano já cortou a conversa:
- No portugese, my friend. We don't speaki portuguese. Here, english! Only english.
- Sem português, meu amigo. A gente não fala português. Aqui, inglês. Só em inglês.
- Fala aí, Thiago, o que que o baiano tá falando?
Resolvi não falar. Estava gostando da cena. Não é sempre que você vê um baiano pobre com familía pra sustentar tirar um barato de um advogadozinho filhinho-de-papai.
- Sorry, man, you heard the baiano: no portuguese in this place!
- Desculpe, cara, você ouviu o baiano: nada de português aqui!
O sujeito ficou puto da vida e saiu da roda.

No dia seguinte Valtinho chegou pra mim e disse:
- Rapaz, esses gringo de onti não falam nada mermo de português?
- Não... por quê?
- Sério mesmo?
- Claro!
- E sao meus amigos rapaz! Como é que pode? Tô falando é muito inglês mesmo.
Nisso Paul chegou e deu uma batidinha nas costas de Valtinho:
- Hey, man, how are you doing?
Vaguinho fez um joinha, soltou um good! e abriu um baita sorriso:
- Rapaz, se contar em Trancoso ninguém acredita.

09 Março 2007

Os professores

Anotações de diário:
20 de dezembro de 2006

Uma das piores coisas que pode acontecer com um brasileiro no exterior é um fenômeno chamado: desbrasileiração. Para os indivíduos que realmente têm planos de voltar à patria amada, a desbrasileiração pode trazer sérios danos ao estilo de vida e cotidiano dentro do perímetro verde e amarelo. Claro que se o imigrante em questão quiser passar o resto da sua vida no exterior, a desbrasileiração passa a ser vital e bem-vinda. Os primeiros sintomas de desbrasileiraçãp: parada súbita do ato de furar fila, baixo desempenho com o jeitinho e perda da capacidade de tirar vantagem de tudo. Em alguns casos mais sérios o imigrante pode apresentar mal-funcionamento do dispositivo da malandragem, causando sérios prejuízos financeiros e morais. O ministério da saúde adverte: a perda da malandragem pode ser extremamente danosa e, em alguns casos, irreversível.


Uma coisa que me irrita quando brasileiro se reúne é que todo mundo sabe da vida de todo mundo! Foi Diego que veio me falar desse tal de Ricardo pela primeira vez.
- O cara é louco. Juro, ele não bate bem.
O sujeito ficou famoso no Oceanic por ser um completo e irremediável cabação! Primeiro de tudo o cara só falta pendurar o passaporte italiano no pescoco, vive dizendo que é europeu e que odeia o Brasil, mas na verdade não fala nada de italiano e talvez nunca tenha sequer ido para a Italia, é so mais um dos tantos descendentes que tem o privilégio de tirar a cidadania. Ricardo é na verdade um paulistinha de São Caetano muito metido à besta, não dá nem pra levar o sujeito a sério. Ele é formado em direito por uma dessas uni-não-sei-das-quantas e vive batendo no peito para falar da profissão. Seu jeito bobo e falastrão acabou virando alvo perfeito para a brasileirada. Todos tiram o maior sarro dele que no fim sempre ameaça chamar a imigração se não pararmos:
- Tô ligado que vocês tão tudo ilegal aqui, eu não tenho problema com nada, tenho passaporte italiano. Tô cagando pra vocês.
O mais engracado é que o palerma não fala nada de inglês. Mas nada mesmo! Outro dia ele entrou no banheiro feminino porque tinha achado que o Women era mais parecido com Homem. Ele é do tipinho que gosta de malhar, usa camisetinha tomara-que-me-comam e passa horas na frente do espelho para ajeitar os cabelos loiros.
Mas não dá pra levar o cara a sério!

Beto é um sujeito muito quieto. Às vezes o vejo na cozinha comendo seu sanduíche lentamente, pensando na vida. Ele é gaúcho de Porto Alegre e deve ter uns 40 anos. Descobri que ele era professor de biologia no Brasil e desistiu da carreira para vir trabalhar como pedreiro na New Zealand. Existem outros 2 professores no Oceanic: Zé Luiz, de historia e Lyard, de filosofia. Este último é mais jovem, está na New Zealand mais para aprender inglês, voltar para o Brasil e continuar a dar aula. Já Zé Luiz é como Beto e está aqui para ficar. Ele trabalha numa oficina mecânica e sustenta esposa e filhos no Brasil.
Outro dia conversei com Zé Luiz. Ele é goaino e está no país há mais de um ano. Disse que infelizmente recebe mais como mecânico na New Zealand do que como professor no Brasil:
- O problema da nossa profissão no Brasil é que ninguém respeita. Ser professor virou profissão de dona de casa, de senhoras casadas com PMs ou comerciantes e que querem fazer um dinheirinho para incrementar a renda no fim do mês. Não tem seriedade, não tem compromisso. Eu realmente gostava de dar aula, acreditava muito na profissão, mas o que você pode fazer quando um moleque vira para você e diz que não quer estudar porque o pai dele que nunca estudou ganha duas vezes mais do que o professor otário dele?

Ver o Brasil de fora é muito estranho. Eu sempre soube que a educação era um problema, mas não sabia que era tanto. Você começa a ver o quanto o resto do mundo tem uma visão maior das coisas e o quanto o brasileiro é alheio à realidade. Estamos na época da informação e sempre que entro na internet para checar os principais sites de notícia do meu país, vejo sempre as mesmas coisas: Big Brother, novela, fofocas. E, se procuro mais a fundo, vejo que a corrupção na política continua, que o povo colocou Clodovil, Maluf e Collor na Câmara e que a violência come solta no país. Ou temos um filtro muito grande para desgraças ou o povo é alienado... muito alienado!

Outro dia Lyard estava conversando com Beto no porão. Estavam debatendo sobre política e de como era vergonhoso o PT ter ganhado de novo. Beto falava algo de ter votado no Lula em 2002 quando Ricardo chegou:
- O quê?! Você votou no Lula?
Os dois deram risada, como disse, não dá pra levar a sério um sujeito como Ricardo.
- Sim, votei no Lula
- Você é muito otario, isso sim! Também, professor, só podia ser petista mesmo. A pior raça é petista e professor. Pra mim, é um bando de vagabundo que fica pedindo aumento sem fazer nada... tinham que matar tudo que é petista e professor. Como se isso lá fosse profissão.
Os dois riram um tanto nervosos.
Mas não dá pra levar Ricardo a sério...
...assim como às vezes não dá pra levar o Brasil a sério.

08 Março 2007

Os dois ingleses

Anotações de diário:
19 de dezembro de 2006:

A cozinha do Oceanic é uma merda. Tem um corredor na parte dos fundos onde ficam as geladeiras, você tem que colocar seu nome nas coisas e largar lá. Ao lado da mesa grande tem uns armários. Os produtos não-perecíveis você pode guardar lá, só colocar seu nome e jogar ali. Primeiro me roubaram uns tomates que comprei, depois sumiu minha faca e usaram metade da minha maionese. Comprei uma torta outro dia, era baratinha, apenas 1 dólar; me roubaram também! Parei de comprar comida. A partir de agora só vou comer na rua... é mais caro, mas mais garantido.

Paul era pedreiro na inglaterra. Ele veio para a New Zealand com o Work Holiday. Muitos europeus fazem isso, o que acaba confundindo os latino. A maior surpresa dos brasileiros foi constatar que Paul trabalhava como pedreiro em Auckland: "Mas como se ele é inglês?" se perguntava a maioria. O fato é que a New Zealand é muito diferente da Europa, nunca fui pra lá, mas conversei muito com os europeus para descobrir o quanto este país é especial. Ao contrário dos latinos, asiáticos e africanos, os europeus vêm para aproveitar o país. Eles não estão muito preocupados com dinheiro, vêm para trabalhar nas fazendas, viajar em trailers e fumar muita maconha. A juventude européia da New Zealand é um tanto neo-hippie, entende a importância do trabalho, mas não ignoram o sexo, as drogas e o rock n' roll.
São milhares de franceses, ingleses, alemães, holandeses, todos convertem seus euros (ou libras) para dólar neozelandês e trabalham nas fazendas e restaurantes do país. Os kiwis adoram isso, no fundo desconfio que eles têm um programa secreto para esse tipo de turismo. Eles sabem muito bem do poder e dinheiro trazido pelos europeus e os tratam como reis. Ao contrário dos latinos e asiáticos, que são tratados como o pior lixo do mundo. Já no aeroporto você começa a ver a diferença: latinos numa fila, passaporte vermelho na outra.
Mesmo dentro da colonia chilena e argentina, países que possuem o Work Holiday, a relação viagem - trabalho é diferente. O fato é que o dólar neozelandês, por mais porcaria que seja, é muito melhor do que a moeda de nossos países. E o salário mínimo, por mais mínimo que seja, é muito mais digno do que nos países sul-americanos, o que acaba fazendo qualquer latino com dignidade aceitar qualquer trabalho indigno. Os sudacas acabam trabalhando, portanto, para fazer bastante dinheiro, enquanto os europeus querem mais é fazer amizades e ter uma boa experiência de vida.
Eu acabei indo para o time dos europeus, preferi viajar e ter boas experiências a fazer dinheiro. Só que um pequeno problema sempre recaía sobre mim: no fim das contas não passo de um sudaca, e sudaca que é sudaca está sempre mal de grana. Minha experiência nunca foi completa por causa do dinheiro, nunca consegui ir muito longe porque sempre faltou! A merda do vil metal sempre esteve no meu caminho, e eu nunca tive talento o suficiente para ir buscá-lo.

Já Paul não estava muito preocupado, trabalhava quando queria, gastava todo seu dinheiro em skank e bebia uma caixa de cerveja toda noite. Tom era chefe de cozinha na Inglaterra, ele estava viajando o mundo com as libras que juntou no seu país; uma coisa que aprendi é que quem recebe em libra tem os mundo aos seus pés. Ele tinha recém-chegado da Austrália e procurava emprego em Auckland. Tom achou algo como labour, montando marquises para shows, um trabalho superpesado. Novamente ninguém entendeu:
- Tom, fuck sake, you're a chef!!! Why don't you find something in a restaurant?
- Tom, caralho, você é um chef!!! Por que não acha algo num restaurante?
- No, man... I'm sick of kitchens.
- Não, cara...não agüento mais cozinhas.

Com o tempo percebi que as latinas davam muito em cima de Tom. Não que o sujeito seja um tipão, ao contrário, tem uma cara de Hug Grant depois da gripe que se fosse brasileiro tava pior que eu. Mas mesmo assim ele era a celebridade do backpack. Teve uma vez que eu estava no fumódromo com Paul e uma argentina veio conversar com a gente. Ela provavelmente presumiu que eu era inglês também e nos convidou para ir a uma festa com ela. Paul não estava a fim, mas eu fiquei empolgado:
- Yes, for sure, where is it?
- Sim, claro, onde é?
Ela indicou o local e logo depois perguntou por Tom.
- I don't know where Tom is.
- Não sei onde Tom está.
Conversamos mais um pouco e eu caí na besteira de querer falar com ela em espanhol.
- Non creo, tu hablas espanhol?
- Un pouquito.
- Serio, un ingles que habla espanhol?
- Yo no soy ingles... soy brasileiro.
Pronto, ela esfriou muito, quase nem falava mais comigo direito. E juro que não estou exagerando!
Depois de alguns segundos Tom chegou de mãos dadas com Susu, uma japonesa do backpack. A argentina o convidou para a festa.
- Sorry, no partys tonight. I'll stay with my girl.
- Foi mal, sem baladas hoje. Vou ficar com minha garota.
E então ela se despediu e saiu andando. Nem olhou para trás... Eu que estava louco para ir pra festa, dancei. Fui dormir mais cedo naquele dia.

No dia seguinte Tom e Paul me convidaram para ir ao Cassino. Pensei um pouco e resolvi ir porque não estava fazendo nada. Mas jurei que não ia gastar nada. Lá dentro Tom comprou 50 dólares em fichas e sentou na mesa de Blackjack. Eu e Paul fomos dar uma volta pelo Cassino. Paul resolveu sentar numa maquininha e gastar algumas moedas. Andei sozinho pelo Cassino e vendo tanta luz, tanto dinheiro rodando, tanto luxo e tanta tentação; acabei colocando uma moedinha na máquina.
Perdi.
Fui lá ver como estava o inglês. Ele havia perdido os 50 dólares e comprara mais 50 em fichas. Acabei trocando uma nota de 20 por fichinhas para jogar nas máquinas.
Perdi mais 20.
Paul ainda estava jogando. Já deixara 30 dólares nas máquinas e tinha um monte de moedas ainda para apostar. Resolvi gastar mais 20.
Perdi.
40 dólares! Que merda, perdera quarenta malditos dólares numa merda de Cassino. Estava muito puto da vida quando encontrei Tom. Ele estava sorrindo:
- Hey, Thiago, how are your luck today?
- Ei, Thiago, como está sua sorte hoje?
- I lost 40 fucking dolars.
- Perdi 40 dólares.
- Don't worry. I lost 200
- Não se preocupe. Perdi 200
Como pode o filho-da-puta ainda estar sorrindo. Nós juntamos os três e nos preparamos para ir embora. Eu perdera 40 dólares, Paul, 35 e Tom, 200. Algo me consolava de pelo menos não ter sido o grande perdedor.
No caminho da saída Tom disse:
- Wait a minute, I'll try again!
- Pérai, vou tentar de novo!
Ele foi até o caixa e comprou mais 200 dólares em fichas. Eu e Paul não podiamos acreditar no que estávamos vendo. Tom sentou-se novamente na mesa de Blackjack e apostou tudo. Um japonês que estava ao lado bateu uma foto da cena, um grupinho se reuniu ao lado para assistir. Primeira carta: 5. Tom bateu na mesa. Segunda carta: J. Tom bateu mais uma vez. Terceira carta: 6. Vinte e UM ! O filho-da-puta fez VINTE E UM! Todos aplaudiram, e Tom passou no caixa para pegar o dinheiro.
Engraçado como as coisas acontecem. Engraçado como de uma hora para outra o grande perdedor passa a ser o grande vencedor. E você, que se considerava um jogador moderado, passa diretamente para o lugar do grande perdedor.
É... às vezes nesta vida é preciso apostar alto.

07 Março 2007

Dentro do Quarto 12

Anotações de diário
18 de dezembro de 2006

Até o Natal na New Zealand é diferente: as ruas não são tão enfeitadas como no Brasil, as propagandas na TV não são tão massacrantes, você não vê Papais Noéis suando em uniformes vermelhos nas ruas e o comércio não parece ter aquela explosão de vendas. Claro que a Coca-Cola continua veiculada em cartazes e propagandas, mas fora isso parece até que o Natal é um feriado religioso... muito estranho.

Quando chegamos o quarto 12 do Oceanic estava limpo. Era um cubículo minúsculo, mas não podemos reclamar que estava sujo. Rodrigo e eu dormimos um curto período sozinhos, logo depois chegou Diego, o sul-mato-grossense. Diego dormiu por três dias seguidos quando chegou, nunca vi isso na minha vida! So pude conversar melhor com sujeito depois que despertou. O garoto contou sua história, disse que havia sido deportado da Inglaterra, que tinha o sonho de conhecer a Europa e que tivera vindo para a New Zealand como segunda opção:
- Bem-vindo ao time rapaz... 90% dos brasileiros que estão aqui são por segunda opção. Esta aqui é a terra dos renegados!
Diego tinha planos de voltar para o Brasil. Ele queria fazer uma grana e voltar para abrir uma empresa de licitação em Mato Grosso do Sul.
- Fazer grana? Aqui? Meu amigo, é melhor você voltar pro Brasil... o milagre econômico ainda não aconteceu aqui.
Mas não demorou para Diego arrumar um emprego de dishwasher. Ele andava bastante com um sujeito de Goiânia, um tal de Luiz. O goiano era mais velho, tinha vindo para tentar fazer grana e sustentar a família no Brasil, mas sempre o via com cara triste pelos corredores. Com certeza não estava sendo bem-sucedido em sua empreitada. Diego acabou pegando o emprego de Luiz, já que o goaino desistiu da Nova Zelândia e voltou para o Brasil.
Diego é um sujeito muito magro. Ele parece que vai quebrar com um leve toque. Às vezes no quarto ele tira a camisa revelando umas tatuagens nos bracinhos mirrados, parece um usuário de crack do Carandiru.
Nos primeiros dias de trabalho ele vinha falar comigo:
- Cara, é muito foda, tenho que lavar umas panelas gigantes no restaurante. Outro dia uma panela caiu na minha cabeça e abriu esse corte aqui, tá vendo? Meu corpo todo dói e o pior: tem dois dias que não sinto meu dedão do pé.
- Mano... isso tudo que você tá falando eu sei como é. A vida na gringa é isso. Vai dizer que você é mais um dos que acreditaram nas fotos do Orkut?

Alguns dias depois que Rodrigo saiu do Oceanic, um novo sujeito mudou para o nosso quarto. Brian, era seu nome. Brian era americano, ou estadounidense, achei engraçado, mas ele não disse o estado quando se apresentou. O sujeito tinha um estilinho meio boy band, cabelinho cortadinho, loirinho, olhos claros, mas era muito... mas muito drogado. Nunca conheci Brian sóbrio, ele chegava no quarto no meio da madrugada, dormia um pouco e saía para se drogar de novo.
O dormitório foi ficando bagunçado à medida que o tempo passava, mas depois que Brian se mudou o caos estava gerado. O americano não tinha o mínimo de higiene, ele deixava tudo atirado, comida, roupa, cuecas. Era um cataclismo. Eu descobri um canto inabitado no quarto e comecei a jogar minhas coisas ali. Roupas suja e limpa iam para o mesmo lugar.
Mas era impossível chamar a atenção de Brian, ele chegava no quarto com os olhos vermelhos sorrindo e dizia com seu sotaque engraçado:
- Muita chapado!
Ele havia tido uma namorada brasileira em Tauranga, ele adorava brasileiros, vestia uma camiseta da seleção que um gaúcho lhe dera e falava algumas palavras em português com sotaque engraçado:
- My brazilian girlfriend, muito gostosa!
Brian deve ter uns 18 ou 20 anos, não mais que isso. É bem molecão. Outro dia entrou no quarto com um envelope que recebera dos EUA. Abriu na minha frente:
- Uhuuu, my mom sent me money!
- Uhuuu, minha mãe me mandou dinheiro!
Ele me mostrou a nota de 100 dólares e disse :
- Do you know what I gonna do with this?
- Sabe o que vou fazer com isso?
- No.
- I'll piss everything.
- Vou mijar tudo.
E saiu correndo do quarto em direção ao bar mais próximo.

Um dia depois de Brian mudar para o quarto, chegou o quarto homem. Um gaúcho. Eu e Diego perguntamos o nome do sujeito, e ele respondeu:
- Meu nome é Truck.
Nunca ficamos sabendo o nome verdadeiro de Truck. O gaúcho tinha um sotaque muito forte, falava cantando e usava gírias incompreensíveis para o pobre sul-mato-grossense:
- Bah, bruxo, que tri essa penta. Tu que é um baita trovador guri.
Diego vinha pra mim desesperado:
- Caraca, mano, não entendo o que o cara fala! Como é que posso querer aprender inglês se nem sei português!
Truck estava morando com uns amigos em outro backpack, mas foi expulso por quebrar uma vidraça na cozinha. Quando o conhecemos, ele estava há apenas dois meses na New Zealand, ele só andava com brasileiro. Toda hora ele tinha uma história nova dos brasucas pra contar:
- Bah, meu, tinha um guri que ficou comendo comida de cachorro por duas semanas porque não sabia ler a embalagem. Que a fuder esses brasa, né?
Truck tinha largado tudo no Brasil para ir para o exterior. Ele aplicara o visto para a Escócia, disse que queria morar num castelo escocês, afastado de todo mundo:
- Nao é que os pau-no-cu me negaram o visto?
Antes de dormirmos, sempre trocávamos uma idéia os três no quarto. O americano às vezes chegava mais cedo e tentava dormir, mas não dávamos muito bola.
- Bah, tinha um guri que começou a namorar uma coreana. Tri feia, a pelega! E o bagua não me fala nada de inglês, nem de coreano nem de nada, é uma negação o sujeito. A guria também não fala nada. Um dia a gente foi comer na baia do sujeito. Ele me vira pra coreana e diz: "Amor, pega uns prato aí pra mim". Em português!!...Bah, que me arriei no sujeito, falando em português com a guria. E o pior, a guria respondeu: "what?" e ele me solta: "ah, então deixa que eu pego".
Uma noite perguntamos porque afinal ele estava aqui. O sujeito era muito bem-humorado, estava sempre contando histórias mas não falava muito sobre esse assunto. Só havia dito que queria ir para um castelo afastado na Escócia.
- Hi, então é por causa de mulher.
- Mais ou menos.
- Sabia! Coração partido?
- Não, eu ia casar.
- E ela te largou.
- Pior.
- O que foi?
- Ela morreu.
Eu e Diego engolimos em seco.
- Foi num acidente de carro... algumas semanas antes do casamento. E pra piorar, depois descobriram que ela estava grávida.
- Putz!
- Pois é... por isso queria tanto ir para um lugar afastado.

04 Março 2007

Alianças desfeitas

Anotações de diário
13 de dezembro de 2006

O Oceanic é como o ponto de partida de todos os viajantes na Nova Zelândia. Se não tivesse feito tudo errado na minha viagem, ou pudesse começar tudo de novo, Auckland e Oceanic seriam a combinação perfeita. Todo dia vários viajantes chegam, ficam alguns dias, fazem amizade, conhecem outros viajantes, conversam, fazem planos e partem. Se estivesse chegando agora, ficaria aqui um tempo, montaria um grupo bacana e partiria rumo ao interior. Queenstown não é lugar para começar... talvez para terminar.

A passagem por Auckland era só uma passagem. Na verdade poderíamos ficar se achássemos mais um emprego; trabalhar para a Providore, empresa de Julian, não nos dava a remuneração que estávamos procurando. Não achamos outro emprego, o mês de dezembro é o pior em Auckland, TUDO PÁRA! Quanto mais o mês avançava, mais a cidade ficava vazia. Em todo canto se ouve o conselho: saia de Auckland no fim de ano! Os eventos pela Provedore acabaram. Depois do Christmas in the Park, só tinha mais um marcado para duas semanas depois, perto do Natal... não valeria a pena esperar. Rodrigo começou a procurar empregos na internet e a ligar para cidades do interior.
Nisso um grupo de chilenos chegou no backpack. Eram quatro amigos: Mathias, José, Nicolas e Juan. Rodrigo se enturmou fácil com os sujeitos. Os quatro não falavam nada de inglês, preferiam que eu falasse em português do que em inglês. Mas eram bem buena onda os sujeitos, sempre rindo e simpáticos, não demorou para que Rodrigo decidisse encaixá-los na caravana.

Com o passar do tempo comecei a pegar alguma coisa de espanhol. Trabalhar e viver com tantos sudacas facilitou muito. Rodrigo não gostava, ele odiava quando eu tentava falar em espanhol, queria falar em inglês. Mas com os quatro chilenos não teve jeito, toda vez que conversávamos, eu aprendia um pouco de espanhol. Rodrigo fechava a cara quando os chilenos me ensinavam.
Alguns dias depois, chegaram mais dois chilenos: Javier e Nicolas. Os dois falavam bem em inglês, mas Javier queria muito aprender português:
- ? Si Yo te ensinar a hablar en espanhol tu me ensinas el portugues?
Javier era uma figura, o sujeito era muito gente fina. Fizemos amizade muito rápido e todo o tempo conversávamos em portunhol:
- Oi, brasileiro, como chamas isso em portugués?
- Colher; e en espanhol?
- Conchada
Acabei pegando mais rápido que ele, mas só pelo fato de estar convivendo mais tempo com os sudacas.
- Hablas muy bien, brasileiro! Yo penso que ya hablavas antes
Rodrigo ficou com ciúmes. O chileno não respondia quando falava com ele em espanhol e estava cada vez mais mal-humorado. Ele não fez amizade com Nicolas e Javier, mal conversava com os dois chilenos. Teve um dia que fomos todos, eu e a chilenada, para um baile de salsa no cassino da cidade. Foi ali que percebi mais nitidamente como Rodrigo tinha odiado a idéia de Javier querer me ensinar espanhol. Ele procurava ficar longe, não falava muito com os dois e ficava mais junto dos outros quatro.
Tentei encaixar também Nicolas e Javier na caravana rumo à próxima cidade, mas Rodrigo não gostou muito da idéia. Não insisti muito, afinal, ele era o dono do carro.
Definimos o lugar: Te Puke, perto de Tauranga. Iríamos numa quarta-feira, dia 13 de dezembro. Mas parece que só eu tinha visto um pequeno probleminha:
- Hey, Rodrigo... Look, I think we'll not fit in the car. There are six of us and plus the luggage.
- Ei, Rodrigo...Olha, acho que não vamos caber no carro. Estamos em seis e mais a bagagem.
Mas Rodrigo não estava muito preocupado:
- Look, man... if you don't want to go, just stay here.
- Olha, cara...se você não quiser ir, fique aqui.
Foi então que eu vi que não era mais bem-vindo. O filho-da-puta queria se livrar de mim
- What? You don't want me to go?
- O que? Você não quer que eu vá?
Ele so fez um ah! que tanto poderia ser interpretado como: "quero que você se foda" quanto como "até parece, deixa de falar besteira" e, logo depois, saiu andando.
Tirei aquela noite para refletir. Estava na cara que não iríamos caber todos no carro. Seis neguinhos mais a bagagem num Honda... era loucura! Ao mesmo tempo estava com um sentimento de que talvez devesse ficar. Voltar para a cidade grande me deixara feliz, as coisas pareciam que iam melhorar, tudo poderia se ajeitar, quem sabe até arrumar um bom emprego. Não queria voltar para o interior novamente. Resolvi sair naquela noite e não voltar mais.
No dia seguinte Rodrigo partira. Não me mandou nem uma mensagem o filho-da-puta, nem pra perguntar se eu estava bem. Partiu para o interior e me deixara sozinho na cidade grande.

A amizade com Nicolas e Javier acabou se estreitando mais depois que Rodrigo partiu com os outros chilenos. Mas eles sacaram rápido que as coisas em Auckland não iam vingar e decidiram partir para o interior.
- Huevón! Vamos com nosotros? Vamos acer arta plata nas granjas.
- Cara! Vamos com a gente? Vamos fazer muita grana nas fazendas.
Queria muito ir, os sujeitos eram muito legais, poderia aprender espanhol e ainda fazer mais uma graninha nas fazendas antes de voltar para o Brasil. Mas não, achava que era muito cedo. Tinha alguma coisa que me impelia a ficar.
- Yo vou com ustedes, mas yo voi despois. Vou me quedar aca en Auckland por um tiempo

O backpack ficava cada vez mais vazio, todos estavam partindo para o interior. De todos, os únicos que ficavam eram os brasileiros. Estava cada vez mais incrustado na colina de brasileiros. Acho que por isso que não queria ir. No fim estava com saudade do meu povo. O Natal e o Ano Novo estavam chegando, o coração de um viajante fica muito vulnerável nessa época. Decidi que iria passar as festas com meu povo!

Na Gringa

Anotaçães de diário
10 de dezembro de 2006

Auckland é uma cidade agitada, muito diferente do que havia visto na New Zealand até então. Atravessei o país de sul a norte e não vi nenhuma linha de pobreza, nenhum gueto, nenhuma favela, nenhuma pichação... A New Zealand parece uma maquete e tem qualquer coisa de conto de fadas, sempre com suas casinhas certinhas, verde, natureza e ovelhas, muitas ovelhas. No entanto em Auckland vi os primeiros mendigos e traços de pobreza. O concreto se estende e cobre todo o verde do país enquanto prédios jogam sombras na cidade. Auckland é como um câncer que vai crescendo rumo ao sul, vai matando tudo e cobrindo a maquete de cinza. Exatamente como o homem vem fazendo no resto do mundo.

João e Tonico eram muito amigos na Bahia, costumavam chamavam um ao outro de irmão. Tonico não tinha muito dinheiro, era um baiano pobre, filho de mãe solteira e solto no mundo. Ao contrário de João, que vinha de boa família e podia comprar de tudo. No entanto o dinheiro nunca atrapalhou a relação dos irmãos. Os dois sempre saíam juntos para as baladas de Trancoso. Quando Tonico não tinha, João fazia questão de colocar dinheiro no bolso do amigo. Nunca cobrava de volta, sabia bem como era a situação .
Foi então que um dia Tonico levantou com essa idéia maluca de ir para o estrangeiro:
- Rapaz, tá doido, é? Fazer o que lá?
Mas não teve santo que o fizesse mudar de pensamento:
- Vou... e vou mesmo!
Tonico acabou escolhendo a Nova Zelândia. Ele conhecera um sujeito que dissera ser um ótimo país para fazer dinheiro. Tonico pegou grana emprestada de todo mundo, João acabou dando a maior parte. Em Janeiro de 2005 Tonico embarcou sozinho para a Nova Zelândia.
Por muito tempo não se teve notícias de Tonico. Alguns disseram que tinha se dado mal, perdera tudo e estava em dificuldade no exterior, outros acreditavam até mesmo que tinha morrido. Foi então que, mais de um ano depois, ele reapareceu. João checava seus e-mails quando encontrou um convite de Tonico o convidando para ser seu amigo no Orkut. O baiano não podia acreditar quando abriu a página de seu irmãozinho. As fotos no seu álbum mostravam um sujeito que vencera na vida: carro, mulheres, praia, surfe, dinheiro... João encheu o peito de orgulho: por fim o moleque se deu bem!
Mas a vida não seguiu seu rumo em Trancoso. Depois que Tonico reapareceu no Orkut, a pequena cidade baiana nunca mais foi a mesma. As garotas só falavam em Tonico, os homens brindavam ao sujeito e os mais velhos o tratavam como herói. João começou a sentir a pressão em casa. Ele não gostava muito de trabalhar, muito menos de estudar; gostava mesmo era de viajar com sua namorada Letícia. Mas o fantasma de seu amigo no exterior tirara seu sossego:
- Filho, tu tem que se espelhar em Tonico. Veja que homem importante ele é hoje. Até quando tu vai levar essa vida sem futuro?
Ao que parecia, Tonico abrira uma empresa na Nova Zelândia, casara-se com uma nativa e morava num ótimo apartamento em Auckland.
Um dia na praia com seu amigo Valtinho, João confessou:
- Rapaz, num to aguetandu naum. Tá um inferno aquela casa. Vou vazar pro exterior.
- Maaaas Rapaaaz tá doido é? Fazer o que lá?
- Oxe, se Tonico deu certo porque eu não posso dá não?
João convidou Valtinho para ir junto. Os dois tinham a mesma idade, na casa dos 20 anos. O problema era que Valtinho tinha um filho para criar em Trancoso, não queria abandonar o moleque assim.
- Tu vai ganha mais grana no exterior que aqui.
- Vô não homi, num saio da Bahia não!
Os pais de João adoraram a idéia.
- Vá mesmo meu filho. E que Ogum ilumine teu caminho.
João contatou seu amigo pelo Orkut e informou que estava de partida para o país. Seu pai lhe deu quatro mil dólares:
- Fio, se precisa de mais não passe necessidade.
Alguns dias antes de embarcar, Valtinho fez a proposta para João:
- Rapaz, to pensando em ir com tu. Tem como me adianta uma grana pra mim?
Em setembro de 2006 os dois partiram rumo à distante Nova Zelandia.

Maria já estava preocupada. Fazia horas que Pedro trancara-se no quarto falando ao telefone. Ela bem sabia o que era. Desde que perdera o emprego na Telemar, empresa onde trabalhara, Pedro botou a cabeça que queria ir para o exterior. Maria não estava muito contente. Não queria deixar Governador Valadares, já ouvira muita história de gente que não dera certo no exterior. Mas Pedro era insistente... e como era!
Ele recém voltara de viagem, tentara entrar no Canadá, mas terminou preso em Porto Rico e deportado para o Brasil. Tudo começara com aquele mesmo telefonema, naquele mesmo quarto. Pedro achara um homem que agenciava viagens para o exterior, um tal de Hector. O sujeito havia oferecido um passaporte português ao mineiro, quatro mil dolóres, mais a postagem. Com o passaporte português Pedro poderia entrar facilmente no Canadá. Ele tinha um amigo lá esperando por ele, o emprego era garantido e a grana parecia ser alta. O passaporte chegou, Pedro embarcou, mas foi descoberto em Porto Rico, na primeira parada. Passou a noite na cadeia, não conseguiu se explicar, não falava inglês , não falava espanhol, só falava mineirês. Os oficiais acabaram liberando o sujeito de volta ao Brasil, não o ficharam nem o entregaram ao governo Brasileiro.
A segunda tentativa era mais radical. Hector se desculpou pelo visto e disse que cobriria o dinheiro com outro plano de viagem. Dessa vez Pedro tentaria entrar nos EUA... pelo México! Estava tudo acertado, tudo planejado, mas Maria, a mulher de Pedro, implorou para ele não ir. Ela havia visto uma matéria no Jornal Nacional na qual os americanos atiravam para matar nos imigrantes que tentavam cruzar a fronteira ilegalmente. Pedro atendeu aos apelos da mulher e desistiu da idéia.
Mas Hector tinha uma outra alternativa: Nova Zelândia! O país era um dos mais fáceis de entrar, não tinha como dar errado, ele só precisaria pagar mais 6 mil dólares para a escola e acomodação, e o emprego era garantido nas lavouras.
Pedro embarcou.

Tonico esperava por João e Valtinho no aeroporto. Os dois amigos se abraçaram e quase choraram de felicidade. Valtinho esperava no canto, ele não conhecia João, e este quando o viu, perguntou:
- Quem é esse aí?
- Esse é Valtinho, meu amigo.
- Rapaz, tu trouxe outro nego contigo? Pra que homi?
João disse que não tinha lugar para Valtinho na casa, e este acabou dormindo num backpack.
Nos primeiros dias João descobriu que Tonico não estava tão bem assim. De fato ele casara com uma kiwi, mas a mulher era horrível de feia; de fato ele abrira uma empresa, mas ela parecia dar mais prejuízo que lucro e de fato ele morava num belo apartamento, mas era alugado e muito mal localizado. Tonico entrara no negócio de pintura, como costumava dizer. Ele contratava uns pintores, sua mulher arrumava algumas casas e ele pegava o dinheiro, não fazia quase nada o sujeito. Não demorou para João e Valtinho começarem a trabalhar com ele. Dos quatro mil reais que o pai de João lhe dera, Tonico tomou três. Foi tirando o dinheiro: cobrando por ajuda, escola e moradia. João deu de bom grado, ainda estava deslumbrado com o exterior e toda a aura de herói imposta ao amigo, mas Valtinho sacou rápido e desfez laços com o sujeito.
- Valtinho, tu tá é loco. Que tu vai faze sozinho aqui sem fala inglês?
- Rapaz, inglês tu aprende. Só num gosto é de sacanagem.
Depois de um mês João trouxe a namorada, Letícia. Os dois dividiam o aluguel com Tonico e a esposa.
Não demorou para que Letícia descobrisse que o preço total do aluguel era 400 dólares, muito estranho já que ela e João juntos pagavam 320. A garota insistiu para João falar com Tonico:
- Vem cá, Tonico, tem algo errado aqui. Porque nós tamo pagando mais?
- Tem nada não, é que minha esposa não paga.
- Tá, mas por quê?
- Rapaz, tu fica quieto que fui eu que te botei aqui. Num reclama muito não.
Letícia tinha odiado Tonico, insistiu para mudar de casa, brigou diversas vezes com João e ameaçou voltar pro Brasil:
- João, não dá pra ver que o sujeito tá nos roubando não? Acorda homi!
Por fim João resolveu mudar e foi falar com Tonico:
- Como assim mudar? Rapaz, tu vai me deixa na mão, é? Fique sabendo que vai ter que me pagar duas semanas de aluguel se quiser sair.
João pagou. Pagou e ainda procurou um flatmate para Tonico. Letícia colocou avisos em toda a cidade, três casais responderam...
Tonico rejeitou todos:
- Pra que isso, rapaz? Tá querendo ficar sem "flatemate"?
- Não gostei deles, não servem para morar comigo.
Acabou que as duas semanas de aluguel venceram, Tonico não arrumou ninguém e fez Joao pagar por mais duas semanas. Muito a contragosto o casal pagou, era melhor do que criar um inimigo. Foi então que um dia João e Letícia passaram na antiga casa para pegar algumas coisas que esqueceram e encontraram Júlio, um outro baiano, vivendo no lugar deles. O mais inacreditável era que Tonico estava cobrando os mesmos 320 de Júlio e embolsando a grana de João.
- Ele acabou de mudar, ia avisar vocês hoje. Vou devolver tua grana do aluguel dessa semana.

Pedro chegou na Nova Zelândia e não havia ninguém para esperá-lo no aeroporto. Sem saber falar inglês, ele pegou um táxi até o backpack onde ficaria. Não existia nada! Nada do que ele comprara existia, não estava matriculado na escola, a acomodação não estava paga. Sem saber o que fazer, Pedro encontrou dois brasileiros na rua e pediu ajuda. Os sujeitos disseram para ele procurar um backpack chamado Oceanic, que ficava ali próximo. Ao que parecia, a dona era portuguesa e o preço dos quartos era bem barato. Após algumas semanas, Pedro não tinha nada no bolso. Acabou pedindo emprego para a portuguesa dona do backpack.
- Não tenho nada, nem pra comer eu tenho dinheiro.
Pedro virou faxineiro e seguranca do local. O salário não era muito bom, mas ele ganhava acomodação de graça. Ele ainda tinha alguma grana nas suas economias, resolveu fazer um último investimento: trouxe a mulher do Brasil. Ela também arrumou uma boca na faxina, moravam no mesmo quartinho minúsculo, dezenas de vezes menor do que o apartamento que moravam em Governador Valadares.
Pedro virou Telemar, apelido que tinha no Brasil e adotou na New Zealand.
Hector desapareceu, não responde mais aos chamados de Telemar, nem e-mails o filho-da-puta não respondia mais.
Mas apesar de toda grana perdida e da atual situação, Telemar respirou aliviado, tirou algumas fotos em frente a Sky Tower com a esposa e jogou na internet.
É... pois é, depois de muita luta o mineiro finalmente estava na tão sonhada gringa.

João e Leticia estavam morando com Valtinho no Oceanic quando a grande briga aconteceu. Ficaram algumas semanas desempregados e passaram por um terrível sufoco - João não queria ligar para casa pedindo dinheiro de jeito nenhum. Letícia ficou sabendo de um lava-carros que contratava vários brasileiros. João acabou indo trabalhar lá, e Leticia descolou outro emprego em outro lava-carros. Valtinho já tinha descolado um emprego com um jovem russo que estava no mesmo negócio de Tonico. João e Letícia começaram a tirar 8 dólares a hora, menos do que o mínimo estipulado por lei. Estavam trabalhando ilegalmente com o visto de turista, mas, mesmo assim, sorriam. Tinham fé que a vida mudaria a partir dali, afinal: estavam na gringa! Foram ao cais de Auckland, vestiram as melhores roupas e bateram várias fotos. Valtinho saíra naquela mesma tarde para gastar dinheiro. Comprara uma calça e uma camisa de marca; chegando no backpack, abriu para mostrar aos amigos:
- Ohh, tá bem, hein? Valtinho
- Pois é, fia, tô na gringa!

28 Fevereiro 2007

Christmas in the Park

Anotações de diário
5 de dezembro de 2006

Descobrimos uma internet bem barata nas imediações do backpack. Dois dólares a hora. Nada de muito excitante hoje. Passei o dia inteiro escrevendo, depois fui a Wearhouse comprar pratos, talheres e panelas - o Oceanic não oferece material de cozinha, dizem que sempre roubam quando colocam. Chegando na cozinha, tentei abrir a embalagem da faca; fiz de mal jeito e abri um corte gigantesco no dedo indicador. O sangue jorrava. Tentei limpar e respinguei tudo na camiseta. Todos olhavam assustados, parecia que tinha tomado um tiro ou coisa parecida. Corri até a pia para jogar água, mas a torneira estava ligada no quente, e queimei a mão. Só escrevi isso para explicar o sangue no papel. Não tenho Band-Aid, e o corte ainda está aberto.

Na semana seguinte ao evento do Golf, eu e Rodrigo fomos escalados para trabalhar no Christmas in the Park, um grande concerto de Natal que acontece todo ano em Auckland. Na verdade, iríamos trabalhar em duas tendas, uma da Coca-Cola e outra de uma empresa de seguros. As duas empresas patrocinavam o evento e por isso tinham tendas especiais onde serviriam bebida e comida para quem possuísse o cracha.
Trabalhei na tenda da Coca-cola.
Foram dois dias de trabalho. O primeiro foi mais sossegado, era apenas ensaio no palco, o evento em si seria no dia seguinte. No entanto, as tendas funcionaram. Claro que para o primeiro dia a Coca-Cola mandou só os piões de fábrica; a diretoria ficaria para o dia seguinte.
Maoris, muitos maoris! Todo baixo escalão da Coca-Cola era composto de maoris, nenhum branco no salão. E maori que é maori bebe... bebe muito! Minha função era ficar no Open Bar. Cinco marcas de cerveja, três tipos de vinho e muita, muita champagne. Antes de começarmos, as instruções eram de não dar bebida para quem parecesse intoxicado.
Bom... defina intoxicado!
Tem qualquer coisa de mágica ficar atrás do balcão de um Open Bar. Você vê a olhos nus a transformação causada pelo álcool. Vou me concentrar em um sujeito, que chamarei de Rawiri. Primeiramente, Rawiri chegou com sua camisa listrada e gel no cabelo, seu porte grande de maori contrastava com os bons modos e a timidez com que se aproximou do bar e perguntou se a cerveja era de graça. Rawiri provavelmente deveria ser um dos sujeitos que colocam tampinhas nas garrafas ou que operam as máquinas de enchimento. Ele não estava acostumado a esse tipo de ambiente, estava na cara que não se sentia confortável dentro daquela camisa listrada. No entanto, eu lhe dei a primeira cerveja. Nas próximas duas Rawiri ainda veio tímido, levantou o dedinho e apontou para uma garrafa de Lion Red na geladeira; na terceira ele já tinha se livrado daquele botão incômodo ao redor do pescoço e arregaçado as mangas; na quarta perdera a timidez, estampava um sorriso no rosto e me chamava de "brow"; na oitava sua voz era pastosa e o equilíbrio não era cem por cento; na décima o cabelo não era o mesmo e na décima quinta me abraçava cheio de farinha no nariz, totalmente desfigurado. No entanto, aquele sujeito com farinha no nariz e olhos mais pequenos que os de um japonês não me parecia lá muito intoxicado... dei logo mais duas cervejas pra Rawiri.

No dia seguinte o esquema era outro, a decoração muito melhor, o cardápio mil vezes mais arrojado do que o churrasquinho do dia anterior e as bebidas bem mais variadas. Não eram mais os piões de fábrica, agora era a diretoria que ia se divertir.
Chegamos bem antes dos convidados para arrumar as coisas. A equipe estava um pouco diferente também. Rodrigo se misturou com os chilenos e foi para a tenda da seguradora. Na tenda em que fiquei a equipe era: Fiona, kiwi e gerente da operação; Luise e Daniel, franceses; Rod, kiwi; Scarlet e Greta, suecas; Kahu, Wai e Maania, três maoris e, por fim, Jorge, um argentino.
A primeira tarefa era abastecer a geladeira do primeiro bar. Fizemos isso eu e Kahu, uma das maoris. Kahu era novinha, diz ter 18 anos, mas desconfio que tenha apenas 15 ou 16. Ela é baixinha e magricela, tem os dentinhos para frente e ri cobrindo o rosto e mexendo os bracinhos finos. Ela também é do tipo que te dá um tapinha no seu braço quando você solta uma muito boa. Enquanto trabalhávamos ela vinha me mostrar uns vídeos que baixara no seu celular. O primeiro era de um adulto batendo numa criança, o outro era uma cena de sexo envolvendo um peido durante uma posição inusitada. Ela ria depois que o vídeo terminava:
- Do you think this is funny?
- Você acha isso engraçado?
- hihihi, yes.
- hihihi, sim.
Depois que colocamos toda a bebida na geladeira, ficamos um tempo sem fazer nada. Kahu perguntou se eu tinha um cigarro. Respondi que não, e ela apontou para Rod e disse:
- He has, don't you wanna ask him?
- Ele tem, não quer pedir pra ele?
Rod é um kiwi desses que encontrei de monte pelo interior. Estava na cara que ele não era da cidade grande, parecia um Crocodilo Dundie em Nova York, vestindo sua camisa branca e gravata preta torta. Ninguém entendia nada do que ele falava. Nem mesmo os kiwis! Me aproximei de Rod e perguntei:
- Hey, Bro, can you give a roll?
- Ei, mano, tem como descolar unzinho?
Ele deu uma tragada, cuspiu no chão e estendeu o pacote de Port Royal.
- Sure, Matte!
- Claro, velho!
Abri o papel, coloquei o tabaco e procurei pelos filtros:
- You don't have filters, bro?
- Não tem filtros, mano?
Rod me olhou de canto e soltou um "ra":
- What a hell do you think I am, boy? I'm a real smoker!
- Que diabos pensa que sou, garoto? Sou um verdadeiro fumante!
Enrolei o cigarro enquanto ele falava. Acho que era algo sobre sua infância ou cigarros, já que, fora as palavra "kid" e "cigarette", não entendi mais nada.
Depois do cigarro Fiona me mandou para o break junto com Jorge, o argentino. Jorge era um sujeito bacana, conversamos bastante durante o intervalo e, como bons latinos, falamos, obviamente, sobre as suecas, que eram bem gostosas. As suecas, por sua vez, não davam bola para ninguém, não sei se é por que não falavam muito inglês, mas estavam sempre juntas e não conversavam com o resto da equipe.
Os franceses eram mais sociáveis. Mais Luise, Daniel ainda era um pouco calado. Ele tinha boas piadas, mas as fazia raramente. Já Luise vinha todo tempo falar comigo em francês:
- Ça vá, Thiagô? Tu veux une cigarette?
- Oui, merci.
Como fumava a francesa! Todo hora que olhava para ela estava com um cigarro na boca. Luise tinha uns 30 anos, não era muito bonita, mas tinha um charme especial que só as francesas têm.
Fiona, a gerente, nos chamou para uma rápida reunião. Ela estava bem estressada, parecia que ia ter um colapso. Fiona é uma kiwi na casa dos 25 anos, alta, mas não muito bonita. Dava para ver que o evento era um dos seus primeiros trabalhos, estava totalmente insegura e não sabia bem o que fazer.
- Ok, guys, it must be everything perfect! We cannot commit any mistake tonight...please!
- Ok, pessoal, deve sair tudo perfeito! Não podemos cometer nenhum erro esta noite...por favor!
Rod, o kiwi começou a falar algo, gesticulava para a geladeira do seu bar e falava incompreensivelmente. Quando terminou: silêncio!
- Sorry... but what did you say? perguntou Fiona
- Desculpe...mas o que você disse?
- Huablahua rotow wur weuint woitner
Silêncio novamente. As suecas se entreolharam prontas para rir.
- Sorry, Rod. Say it again!
- Desculpe, Rod. Fale de novo.
- Ah, whatever! desistiu o kiwi
- Ah, tanto faz!

Fiona me colocou para entregar o lanche das crianças. Eram centenas de caixinhas como aquelas do McDonald's que eu deveria dar aos pivetes com cara de menos de 8 anos. Fiquei ali plantado na entrada por umas 2 horas, vestindo minha gravata preta e entregando caixinha para as criancinhas. Por um lado foi bom, pude ver toda movimentação do lado da tenda, e o que passou ali foi uma perfeita ilustração do tempo na New Zealand. O sol ardia no céu, centenas de turistas tentavam queimar suas pernas brancas enquanto esperavam pelo início do concerto. Um vendedor de balões indiano suava nas axilas, formando uma pizza em sua camisa laranja. Passados dez minutos um vento forte começou a varrer o parque, guarda-sóis caíram, um jornal saiu voando, e o indiano perdeu alguns balões. Uma chuva fina caiu de um céu sem nuvens. Passado alguns minutos, a garoa parou, o sol continuou a refletir nas pernas brancas, e um senhor de óculos conseguiu alcançar seu jornal . Passado o tempo do indiano vender dois balões, o céu se encheu de nuvens negras e, como se alguém girasse a torneira, uma chuva pesada despencou sobre a multidão. As mães gritavam chamando os filhos enquanto começava uma coreografia de guarda-chuvas, que se abriam ao mesmo tempo, fazendo uma sinfonia de: flop, flop, flop! O indiano correu tentando achar uma árvore, e o senhor de óculos desistiu da leitura usando o jornal para se cobrir. Por minutos chove como se o mundo fosse acabar... De repente pára! Um passarinho canta, e as nuvens se vão. O sol volta a lançar seus raios na multidão, que em minutos fica seca, pronta pra outra.

As malditas caixinhas terminaram. Fiona me colocou no Bar com Luise e Kahu. A Francesa abriu uma lata de energético e colocou escondida do lado da geladeira, bebemos a noite inteira. Bem ao lado do nosso bar estava um alto-falante, alto, muito alto. Não conseguíamos ouvir nada. Kahu me cutucou e me mostrou mais um videozinho violento no seu celular. Fiz uma mímica dizendo para ela parar de me mostrar essas porcarias. Ela só riu tapando a boca.
A noite seguiu longa, artistas se revesavam no palco, empresários da Coca-Cola bebiam e comiam, a multidão do lado de fora se divertia e nós estávamos cansados, muito cansados. Foram mais de 12 horas de trabalho nesse dia. Rodrigo passou meia-noite para dizer que estava indo embora; o serviço em sua tenda acabara. Era 1 da manhã quando os artistas do palco chegaram para jantar. Uma hora depois e eles ainda dançavam bêbados enquanto nós desmontávamos as mesas e limpávamos o lixo.
Por fim sentamos todos no chão esperando os sujeitos irem embora. Jorge, o argentino, chegou com uma garrafa de Chardonnay:
- Come on, people... we deserve.
- Vem, galera...a gente merece.
Servimos o vinho e fizemos um brinde. Fiona olhou, mas não disse nada. Estava também muito cansada, e de fato merecíamos.
Os artistas finalmente foram embora. Estava me despedindo de todos quando a francesa me ofereceu uma carona:
- Je suis avec mon voiture.
Caminhamos os dois cansados até o carro. Chegando lá, ela abriu a mochila e tirou duas garrafas de vinho, um branco e o outro tinto. Abrimos a de vinho branco, bebemos um pouco e ela disse:
- I know a very good place to go now.
- Conheço um bom lugar pra ir agora.
Então ligou o carro e dirigiu até um lugar chamado Monte Eden. Estacionamos o carro na base e, apesar do cansaço, subimos a pé o morro. Lá em cima esqueci do quanto meu corpo doía. Uma vista incrível! Podíamos ver toda Auckland: a Sky Tower, a baía, os prédios, as luzes. Podia girar 360 graus e tudo o que via ao redor eram luzes e mais luzes. O topo estava vazio, a cidade dormia sob nossos pés, silenciosa e brilhante. Parecia uma pintura.
Sentamos num banco e acendemos um cigarro. Luise olhou para mim, deu uma tragada e disse:
- Que belle vue, j'aime ce place.
Um barulho oco de garrafa vazia, uma tirinha de vinho tinto escorrendo.
Pude sentir o forte cheiro de cigarro antes do beijo.

27 Fevereiro 2007

Um brasileiro disfarçado

Anotações de diário
04 de dezembro de 2006

Desci para fazer minha janta. Na cozinha dois brasileiros tentavam xavecar uma chilena. Um deles tinha um forte sotaque do litoral de São Paulo, falava cheio de gírias e com um português todo errado. Perguntou pra garota: "Max, eae, tu pega onda?". Ela respondeu sem muita paciência: "I told you, I don't speak portuguese!". O sujeito insistiu, dessa vez falando bem devagarzinho: "Ustede, pega onda?". Ela só balançou a cabeça. "Pega ou num pega?", insistiu ele. Ela não estava querendo ser mal-educada, por isso tentou mais uma vez se comunicar em inglês: "I think it is better if we speak in english.". O surfista parou um pouco, coçou a cabeça, virou pro seu amigo e perguntou: "Que que ela tá falando aí, mano?"

Fazia muito tempo que não encontrava brasileiros. O último, ou última, fora Camila, logo nos primeiros dias em Cristchurch. Posso dizer que fiquei meses sem falar português, não sei se foi bom ou ruim, mas foi muito estranho ouvir de novo depois de tanto tempo. Tudo bem que às vezes ligava para casa ou para alguns amigos no Brasil, mas nada como ouvir, ver e interagir pessoalmente.
Para minha surpresa o backpack estava cheio de brasileiros, mas adotei uma estratégia: não diria para ninguém da onde era, a não ser que me perguntassem.
Rodrigo não demorou para se enturmar com os chilenos e argentinos, eu fiz amizade com Tom e Paul, dois ingleses; andava bastante com esses sujeitos, fato que ajudou a reforçar meu disfarce.
Os brasileiros falavam de monte, estavam sempre gritando no porão, falando alto e soltando palavrões. Eu apenas fazia uma cara de paisagem como se aquela língua fosse um dialeto distante e curioso.
Nunca, nem sequer uma vez, um basileiro me perguntou de onde eu era!
Com o tempo percebi que todos no backpack se misturavam: os ingleses bebiam com os japoneses, os chilenos conversavam com os indianos, os argentinos fumavam com os húngaros, mas os brasileiros faziam tudo entre eles. Era o povo mais isolado do backpack.
A primeira amizade que fiz foi com Tom, um dos ingleses. Tom é um sujeito bacana, tem um forte sotaque britânico, e quando o conheci usava um cachecol vermelho com uma camiseta de mangas curtas. O inglês tem um senso de humor um tanto peculiar para a raça inglesa, meio infantil diria até. Não que seja bobo, mas passa longe da ironia que estávamos acostumados a ver nos britânicos .
Ele me deu um cigarro no dia que nos conhecemos.
Um dos principais motivos das brigas entre mim e Rodrigo era por causa de cigarros. Ele é igualzinho a mim: fuma mas não compra. Não que eu seja miserável, mas é que não me sinto confortável gastando dinheiro com uma coisa que sei que vai me matar. Fumo sem culpa quando alguém me dá.
Lembro que quando mudei para a casa em Hereford St. tive dificuldade para descobrir um fornecedor. Passado alguns meses na Nova Zelândia, criei minhas próprias técnicas: a primeira é procurar alguém que compra tabaco, cigarro feito é muito caro; a segunda é nunca pedir pela primeira vez, você insinua que fuma e finge que esqueceu de comprar, se oferecerem, você pega; a terceira é criar um nível de confiança no qual você não tenha nem que pedir mais: simplesmente possa fumar como se tivessem comprado juntos. É difícil, muito difícil! mas vinha sendo bem-sucedido até então. Primeiro os goianos de Queenstown me davam um monte, depois os cearences que me ameaçaram de morte, depois François e Shon. Enfim, sempre achava um bom samaritano para dividir seu câncer comigo. Mas em Hereford St. estava difícil... ninguém me oferecia! Foi então que um dia, vendo todo mundo fumar na varanda, resolvi dar uma de simpaticão e pedir um:
- Ok, hello, everybody! Is there a good soul that can give a cigarette to this poor guy?
- Ok, olá, pessoal! Tem alguma boa alma que possa dar um cigarro pra este pobre sujeito?
Silêncio...
Depois descobri que Rodrigo queimara a boca, pedira tanto cigarro pras irlandesas que o assunto virara tabu na casa.
Acabei comprando um maço, mas quando coloquei o primeiro cigarro na boca, o chileno chegou pra mim e disse:
- Hey, man... can you give me one?
- Ei, cara...pode me dar um?
Acabamos ficando nessa. Ele comprava, eu fumava; eu comprava, ele fumava. No entanto, nunca brigamos feio por causa disso, na verdade começamos a agir em conjunto: quando ele arrumava um fornecedor, me indicava a boa fonte e vice-versa.

No Oceanic achamos Tom. Encontrei Rodrigo fumando com ele e um indiano do lado de fora. Me aproximei e esperei alguém me oferecer. O inglês tirou um maço de cigarros Balines e estendeu em minha direção, depois disso tentou falar um pouco sobre futebol, mas desistiu quando viu que eu não sabia nada.
O indiano tambem é legal. Prasad, seu nome. Prasad mora no Oceanic há muito tempo, trabalha no Base, uma rede de backpacks chique na New Zealand, e adora brasileiros. Ele bem que tentava se comunicar com os brasucas, mas nunca conseguia.
Mais tarde conheci Paul, um outro inglês, e Gergely, um húngaro de Budapeste, este último não fumava, mas sempre ia nos acompanhar para não perder o papo; os fumódromos são bons lugares para fazer amizades.
Depois de um tempo resolvi fazer um teste. Tinha uma brasileira que parecia ser a mais quietinha. Nunca abria a boca. Ela trabalhava no próprio backpack como cleaner. Resolvi chegar para ela um dia e puxar assunto. Ela arregalou os olhos quando falei em português. Descobri que era mineira, de Governador Valadares, viera para cá com o marido e ambos trabalhavam no backpack sem falar uma palavra de inglês.
O curioso é que depois desse papo rápido os brasileiros pararam de falar na minha frente. No elevador, quando me encontravam, ficavam quietos, pararam de soltar palavrões e falar besteiras sobre os outros na minha frente. Com o passar do tempo alguns passaram a me cumprimentar em português e a puxar papo na cozinha. Meu disfarce caíra. Mas o importante é que a partir daquele momento estava dentro do grupinho com a nacionalidade mais fechada e curiosa. Era membro de uma tribo distante e não catalogada: a excêntrica colônia de brasileiros no exterior!

26 Fevereiro 2007

New Zealand Open Golf

Anotações de diário
02 de dezembro de 2006

O Oceanic tem 3 andares onde diversos quartinhos se estendem ao longo de estreitos corredores, parece um presídio. Não sei quantas pessoas podem viver aqui, mas aposto que é bastante. A cozinha fica na parte de baixo, uma escada corta o chão levando ao recinto, que foi apelidado de porão pelos moradores. Lá você também encontra a TV, que fica ligada o dia inteiro, mas é praticamente impossível assistir algo durante os horários de movimento, os telespectadores se contentam apenas com as imagens de clipes da recém-inaugurada MTV neozelandesa. As línguas mais ouvidas no Oceanic são o português e o espanhol; inglês é raridade por aqui. Um piso acima da cozinha fica a entrada e o telefone. Tentar usar o telefone é a mesma coisa que tentar ver TV: impossível. Sempre vejo alguém pedindo silêncio para os brasileiros nessa área. Tinha até me esquecido... brasileiro fala muito!

Primeiramente, Julian nos escalou para trabalhar na Sky Tower, mas depois de algumas horas nos ligou e perguntou se podíamos trabalhar num torneio de Golf. O esquema dessa empresa é enviar trabalhadores para quem precisa. É muito parecido com o esquema de John Lee nas fazendas: eles têm vários contatos com empresas de eventos, pegam um monte de gente e jogam a mão de obra barata ali embolsando uma parte do nosso suor.
No dia seguinte acordamos cedo e fomos ao local marcado. Uma pequena multidão de latinos esperava pelo ônibus que levaria ao torneio. No grupinho era nítido que não havia nenhum brasileiro: pelas caras e roupas dava para sacar que eram todos da turminha do Work Holiday... a porra do visto a que o Brasil não tem direito. Geralmente dá pra notar porque na maioria são todos latinos classe média alta, gente que veio curtir a Nova Zelândia e aprender inglês; diferente dos brasileiros, que vieram fugir da violência e fazer dinheiro.
Rodrigo se enturmou fácil com os latinos, se misturou com os chilenos e acabei me excluindo por não falar espanhol. Mas o grupo era grande e acabei conversando mais com uma garota de Hong Kong, uma francesa e um kiwi com cara de indiano - pelo menos eles falavam em ingles.
O torneio parecia ser importante, um tal de Neozealand Open. Ao chegar, avistamos jogadores de todo o mundo seguidos de seus carregadores de tacos e fãs donos de multinacionais. O campo ia até onde a vista alcançava, lagos, montanhas, árvores, areia, mulheres bonitas; tudo se misturava, deixando os pobres latinos de boca aberta.
Um kiwi vermelho do sol, usando bermuda e um daqueles fones no estilo walkie-talkie, comandava a operação. Eu e Rodrigo ficamos no grupo dos runners, cuja função era a de correr comidas para as tendas principais usando os carrinhos. Os outros ficariam nas tendas servindo os granfinos.
O serviço era muito baba, principalmente porque eles contrataram mais trabalhadores do que o necessário. Dentro da cozinha os chefes de cozinha trabalhavam apressados, às vezes quando entrava para dar uma olhada, tinha a impressão que iam se pegar na porrada; um clima de estresse insuportável. Enquanto isso do lado de fora os runners fumavam seus cigarros e se esticavam na grama. O grupo era composto quase todo por argentinos, somente eu de brasileiro; Rodrigo, Alejandra e Macarena representando a ala chilena; e Tatiana marcando presença para a Colômbia. Os argentinos eram muito figuras, ficavam fumando com seus óculos escuros e golas levantadas fazendo pose para as mocinhas do torneio. Faziam o estilinho: latino dançador de tango comedor de gringas indefesas, não que de fato o fossem, mas acreditavam com fé. Mais tarde Rodrigo me disse que eles eram os tais dos portenhos, tão odiados pelos moradores da América Latina.


- It's not all argentinean that is bad. We, the brazilians and the rest hate the "portenhos", the playboys from Buenos Aires... the ones that say "xo" rather than "yo"... Shit, I hate this accent!
- Não é todo argentino que é mal. Nós, os brasileiros e o resto odiamos os portenhos, os playboys de Buenos Aires... aqueles que dizem "xo" em vez de "yo"... Merda, eu odeio esse sotaque"

Às vezes desacreditava das coisas que saíam da cozinha. Pratos enormes com salmão, carneiro, filé mignon. Isso fora os vinhos e queijos que eram servidos todo o tempo. Andava com o carrinho pelo campo e olhava aqueles ricos... como eram ricos os filhos-da-puta! Ficavam lá, sentados nas tendas comendo salmão, bebendo Chardonnay e beliscando pedacinhos de queijo brie. A maioria usava roupas sports de tecido fino, tênis mais caros que o PIB de certos países e mulheres compradas nos melhores catálogos da Playboy. Engraçado como a apenas alguns metros jovens privilegiados do terceiro mundo olhavam famintos para toda aquela orgia alimentar.
Depois de levar toda a comida era hora de ir buscar. Colocavamos todos os pratos sujos nos carrinhos e levávamos de volta para a cozinha. Peças inteiras de salmão ficavam nas travessas, a cada carro que chegava era uma multidão que se encostava tentando arrancar pedaços da nobre carne com as mãos sujas... incluindo os portenhos!
O kiwi vermelho começou a gritar:
- Rubbish!!! This food must go to the rubbish!!!
- Lixo!!! Esta comida deve ir para o lixo!!!
Mas ninguém deu bola. Continuaram a pegar nacos de salmão e enfiar em suas bocas famintas. Um dos argentinos olhou para aquela carne rosada, molhadinha e suculenta, estendeu o braço, arrancou um filete, olhou para os lados e saiu mastigando e fazendo pose sob seus óculos escuros de 400 dólares...
Pois é, salmão é salmão, e latino é latino!
Era muita comida que chegava de volta, mas muita mesmo. Foi uma das maiores dores que já tive, ao ver tudo aquilo ser virado no lixo. Carnes, queijos, doces, vinhos. Os kiwis davam as ordens como se aquela atrocidade fosse a coisa mais normal do mundo:
- Rubbish... all food in the rubbish!
- Lixo...toda comida no lixo!

Por um momento fiquei só. Estava com uma tábua de queijos na minha frente e tinha a difícil tarefa de virar tudo no lixo. Mirei aquele pobre queijo gorgonzola, intocado, nem uma fatia a menos, puro, imaculado, cheiroso. Olhei em volta, não avistei ninguém. Enrolei o inocente queijo num papel e coloquei no bolso. Ao menos havia salvado uma pobre vítima daquele sinistro holocausto.

Naquela noite comi queijo gorgonzola com coca-cola.

23 Fevereiro 2007

Quinta Temporada - Nas entranhas do Oceanic

Anotações de diário:
01 de dezembro de 2006
A convivência cria situações engraçadas. É como se as personalidades e manias se misturassem. Após viajar com Rodrigo, comecei a pegar seu sotaque chileno, dizer “tchoes” em vez de “shoes” e usar algumas palavras que ele repete direto, como “perfect” e “fuck sake”. Já Rodrigo começou a esquecer as coisas em todos os lugares. Ele era do tipo centrado, que tinha o controle de tudo, costumava ficar bem puto quando eu esquecia de fechar o pino do carro e vivia me dando broncas quando perdia algo. Seu problema começou devagar, com coisas pequenas, como esquecer o shampoo no banheiro e não lembrar onde enfiou as chaves do carro. Mas depois de algumas semanas, quando o fato virou rotina, encontrei-o sentado na cama com as mãos no rosto, desolado:
- Fuck sake! I became a Thiago.
- Que merda! Virei um Thiago.

Chegamos em Auckland sob uma forte chuva. Uma nuvem negra cobria a cidade. Rodrigo sabia que existia um backpack na cidade que custava a bagatela de 50 dólares por semana, ficava na Anzac St., uma rua perto do centro da cidade. É fácil se localizar nas cidades pequenas da NZ, geralmente você pega a avenida principal e pronto! acha tudo o que procura ali. Mas não em Auckland! Pela primeira vez estava numa metrópole, depois de quase 8 meses no exterior. Não que Auckland seja algo épico; para quem vem de São Paulo esse gigante neozelandês não passa de um vilarejo indígena. Mas o fato de ter passado tanto tempo em cidades cujo número de ovelhas é sempre maior do que o de seres humanos, foi o bastante para me fazer supervalorizar as proporções de Auckland.
Após nos perdermos diversas vezes, finalmente encontramos o tal backpack.

Um outro brasileiro
Minha história começa no Aeroporto Internacional de Campo Grande (MS, ), há dois anos, quando era jovem, ao menos mais jovem do que sou agora. . Alguns dias antes de embarcarmos havíamos dado uma grande festa, estavam todos lá para a despedida, amigos parentes, colegas. Eu e André alugamos um sítio, foi todo mundo, três bandas de amigos animaram o local, muitos abraços, beijos, desejos de boa sorte, palavras amigas. Íamos partir para não voltarmos mais, era o fim do Brasil para nós. Eu e meu amigo tínhamos planos de ficar ricos, só voltar para o Brasil para passar férias, talvez no carnaval.
Londres, Inglaterra. O lugar sempre foi meu sonho, na verdade qualquer lugar no exterior era meu sonho, mas Londres, putz, Londres era onde queria estar. Já no avião eu e André tiramos várias fotos, não podíamos acreditar que aquela aeronave nos levaria para a Europa, continente que só havíamos visto antes em filmes.
Passamos por São Paulo, trocamos de avião, viajamos várias horas e adentramos o território europeu. Novamente trocamos de avião na Holanda. Não demorou muito para sobrevoarmos o aeroporto London City. Da janela pude ver a cidade agitada me esperando. Saímos da aeronave e fomos para o guichê carimbar nossos passaportes. Enquanto esperávamos nossas malas, um oficial da imigração veio a nosso encontro e pediu para o acompanharmos. Na verdade sabíamos que era arriscado, era nossa primeira vez no exterior, viéramos sem visto, sem muito dinheiro e sem falar nada de inglês, mas tínhamos combinado bem a desculpa que usaríamos, não tinha por que negarem nossa entrada.
Não demorou muito para sacarem que não entendíamos uma palavra do que diziam. Estávamos sentados numa mesa em frente ao oficial, e ele ligou para um intérprete que nos traduziu a conversa pelo viva-voz. Após algumas explicações gerais, nos separam para fazerem as perguntas. André foi primeiro. Quando saiu vi pela sua cara que alguma coisa não estava bem.
Entrei na sala e o oficial fez as perguntas em inglês seguido pelo intérprete. Era estranho, ele não era brasileiro, dava pra ver, ou melhor, ouvir. Tinha um sotaque forte de quem aprendeu a falar português como segunda língua. Gozado, por que alguém aprenderia a falar português? Na terceira pergunta descobri que nossa desculpa não colaria. Tínhamos combinado de dizer que tínhamos uma empresa de publicidade no Brasil e que estávamos em Londres para passar férias. Mas não fomos muito mais longe do que criar um nome fictício para nosso suposto negócio. O oficial perguntou quanto eu ganhava, quanto era o faturamento, quanto meu sócio tinha de participação, como distribuíamos os lucros, enfim, perguntou tudo!
É claro que nos deportaram.
Apreenderam nossos passaportes, como se fôssemos bandidos ou terroristas, e nos expulsaram do país.
Na volta fizemos novamente escala no aeroporto da Holanda, dormimos nas cadeiras esperando pelo vôo do dia seguinte. Sem malas, sem passaporte, sem nada. Naquele momento só pensava na vergonha por ter de voltar para minha terra, após todas as despedidas e toda a luta para embarcar para o exterior.
Paramos no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. André tinha um parente em Piedade, no interior. Ficamos lá alguns dias tomando coragem para voltar a Campo Grande.

Eu e Rodrigo fomos até a recepção. Uma chinesa nos atendeu e confirmou que tinham quartos a 50 dólares por semana.
- Yes, but those rooms don't have windows, with window the price is 65 per week.
- Sim, mas aqueles quartos não têm janelas, com janela o preço é 65 por semana.
- Who needs window?
- Quem precisa de janela?
Ela nos mostrou o quarto. Não posso dizer que o quarto se parecia com uma cela... estava mais para aquelas solitárias onde eles colocam os presos mais perigosos. 4 camas!! Muita sacanagem colocar 4 pessoas para dormir onde mal cabe uma. Felizmente o quarto estava vazio.
No dia seguinte fomos procurar emprego. Rodrigo tinha um contato com um chileno que lhe falou a respeito de um argentino que contratava trabalhadores para trabalhar na Sky Tower. Marcamos uma entrevista para o mesmo dia. Julian, o nome do argentino. Ele é jovem, deve ter uns 30 anos e tem jeito de quem é rico... Mas se bem que é argentino, e os argentinos passam fome mas compram roupas de marca. Julian estava meio apressado, nos fez meia dúzia de perguntas e disse que o emprego era nosso. Felizmente, não perguntou nada a respeito do meu visto. Deve ter esquecido.
- You two start tomorrow!
- Vocês dois começam amanhã!

Dois anos depois lá estava eu de novo no Aeroporto Internacional de Campo Grande. Não quis que ninguém fosse dessa vez, não fiz festa, não avisei todo mundo. Depois de muito trabalho refiz parte da grana, tomei alguns empréstimos e comprei outra passagem de avião. Dessa vez para Nova Zelândia.
Nova Zelandia! nem sei o que tem lá!
Embarquei sozinho. Meu amigo André desistiu de tentar a vida fora.
Tinha uns conhecidos em Auckland, dois baianos que conheci em Campo Grande, que prometeram dar uma ajudar. Trocamos alguns e-mails e era isso, nada muito garantido.
Pisei em solo neozelandês lá pelas 6 da tarde após uma viagem longa demais. Do lado de fora uns índios, os tais dos maoris, faziam uma dança típica muito estranha. Se batiam todo colocando a língua para fora, assustador. Mais tarde descobri que era uma dança de guerra chamada Haka.
Passei no primeiro guichê, carimbaram meu visto para 3 meses e fui pegar minhas malas na esteira. Um oficial se aproximou e pediu para ver meu passaporte. Com o maior medo do mundo mostrei o tão controvertido livrinho verde "República Federativa do Brasil". O sujeito me mandou para outra fila, vários brasileiros esperavam para terem suas malas reviradas.
Não sei por que, mas eles me chamaram para uma entrevista.
Perguntaram tudo, ligaram para a escola que eu me matriculei, checaram mais uma vez minha mala e, por fim, fizeram um X gigante sobre meu visto.

Quando voltamos para o Oceanic, após a entrevista com Julian, encontramos mais um sujeito no quarto. Não precisei nem perguntar da onde era, já que usava uma camisa da seleção brasileira.
- Brasileiro!
- Sim
- Da onde?
- Campo Grande e você?
- São Paulo.
Rodrigo pegou suas coisas e foi tomar banho. Sentei na cama e resolvi fazer algo que há muito tempo não fazia: Falar com um brasileiro.
- E ae? acabou de chegar?
- Sim, cheguei hoje, e você?
- Oito meses atrás! Qual seu nome?
- Diego, e o teu?
- Thiago
Não sei por que, mas olhando para aquele sujeito era como se me visse oito meses atrás: sozinho, assustado, sem falar inglês e pela primeira vez no exterior. A Nova Zelândia tem qualquer coisa de exército, alguns morrem na entrada, não conseguem nem sair do barco direito, outros vão ficando pelo caminho, não agüentam as privações e as dificuldades e voltam para a pátria. O período de serviço militar é de um ano, que é o quanto dura sua passagem, poucos ficam mais tempo, esses viram sargentos ou coronéis, mas são raridades e muito difíceis de achar.
Ao ver aquele novato sentado na minha frente, pela primeira vez me senti um soldado experiente. Resolvi contar algumas histórias. Enquanto falava, o pobre garoto me mirava assustado: pedra nos rins, brigas, acidentes de carros, fazendas. Ele não estava olhando para um sujeito que apenas cumpriu um serviçozinho militar qualquer. Não! Ele estava sentado em frente a um soldado que foi pra guerra!
Pude ver um feixe de admiração brotar em seus olhos.

Não! De novo não! Não podia acreditar que voltaria para o Brasil de novo. Quando já estava quase chorando, vi que ela carimbou outro visto embaixo do X.
1 Month
Um mês. Um mês!? Me tiraram 2 meses!
Bom... melhor do que nada.
Após sair do aeroporto peguei um táxi até o Oceanic.
Estava morrendo de sono.
Quanto estava quase deitando, chegaram dois sujeitos. Um se apresentou logo como brasileiro, disse que se chamava Thiago e que morava em São Paulo. Ele tinha um sotaque estranho, falava meio enrolado; deve estar há muito tempo aqui.
O outro sujeito só disse um hello e foi tomar banho.
Estava com muito sono. Não é fácil atravessar o mundo inteiro, o tal do jet lag te mata.
Para meu desespero o brasileiro resolveu sentar para conversar. Não conseguia prestar atenção em nada do que ele dizia... de qualquer maneira parecia ser um monte de baboseiras. Minha cabeça ainda estava zonza por tudo o que havia passado.
Como fala esse cara! Será que não dá pra ver que eu tô com sono, pô?

22 Fevereiro 2007

Em direção ao Norte - Fim da Quarta Temporada

Anotações de diário:
29 de novembro de 2006

São nove da noite, Rodrigo estacionou o carro na calçada em frente ao mar... ao nosso lado várias outras Vans lotadas de viajantes se preparam para passar a noite. Eles têm cortininhas, colchonetes, espaço, ferramentas, comida. Não achamos onde dormir, não temos mais dinheiro para hotéis, o carro está abarrotado de malas e todo sujo, muito sujo! Decidimos dormir no carro. Comi só uma lata de atum no almoço, minha barriga ronca de fome. Rodrigo saiu para fumar um cigarro. Nosso último cigarro! Putz, pelo jeito esta noite vai ser uma merda.

Acabamos não dormindo no carro naquela noite. Rodrigo recebeu uma mensagem de um amigo chileno dizendo que poderíamos dormir em seu flat. Jorge trabalha como housekeeper num Hotel em Manganui, ele conhecera Rodrigo em Christchurch quando morou na mesma casa que nós em Hereford St., mas muito antes de eu mudar para lá. Seu flat era bacana, ele dividia com um kiwi já velho. Tomamos umas cervejas e conversamos os quatro na sala até quase uma da manhã.
Dormi num sofazinho minúsculo, mas comparado com o banco de trás do Honda de Rodrigo era como se estivesse dormindo numa cama king size.
De volta ao carro, algumas horas antes de recebermos a mensagem salvadora, Rodrigo e eu tivemos uma discussão feia. Eu estava deitado no banco de trás tomando uma cerveja quando ele soltou um peido:
- Fuck! Why that, motherfucker?
- Caralho! Por que isso, filho da puta?
- Come on, man, it's just a fart.
- Que isso, cara, é só um peido.
- It's fucking disgusting.
- É nojento pra caralho.
- This is discusting? Come on, you burp all the time.
- Isso é nojento? Que isso, você arrota o tempo inteiro.
- A burp? To burp is not disgusting.
- Um arroto? Arrotar não é nojento.
- Of course it is! Much more than a fart.
- Claro que é! Muito mais do que um peido.
- Fuck off! A burp can be disgusting, but it will never be more disgusting than a fart.
- Vai se fuder! Um arroto pode ser nojento, mas nunca vai ser mais nojento do que um peido.
- Are you crazy? Fucking brazilians... so dirty people. Do you know how many germs there
are in you mouth?
- Você está louco? Porra de brasileiros...tão sujos. Você sabe quantos germes existem na sua boca?
- Man, I'm sure that is less than the germs you have in your ass!
- Velho, eu tenho certeza de que é menos do que os germes que você tem no seu cu.
- You must be kidding... you really think the fart is more disgusting than the burp?
- Você deve estar brincando...você realmente acha que o peido é mais nojento do que o arroto?
- OFF COURSE!
- CLARO!
- Bloody brazilians! That's why we are the best country in South America.
- Brasileiros! É por isso que somos o melhor país na América do Sul.
- Stick your fucking country in your ass and stop saying bad things about Brazil.
- Enfia a porra do seu país no cu e pare de dizer essas coisas sobre o Brasil.
- Your country is a shit! We go to your country just to fuck your girls in your beaches.
- Seu país é uma merda! A gente vai pro seu país só pra comer as garotas nas praias de vocês.
- My country is a shit? At least I don’t have to say that I’m from South America just because nobody knows where is my country.
- Meu país é uma merda? Pelo menos não tenho que dizer que sou da América do Sul só por que ninguém sabe onde fica meu país.
- It’s not my fault if people are stupid.
- Não é minha culpa se as pessoas são estúpidas.
- It’s not my fault that you live in a strange country where they think a burp is more disgusting than a fart.
- Não é minha culpa que você mora num país estranho onde pensam que um arroto é mais nojento do que um peido.
- Shut the fuck up... you don't even have a Work Holiday!
- Cala essa boca...vocês nem mesmo têm um Work Holiday!


Não existe amizade que consiga passar ilesa pela corrosão da convivência. Já fazia quase 3 semanas que estava vivendo direto com Rodrigo, acordava e dormia com o sujeito. Nesse ponto as discussões e brigas ficam mais freqüentes. O caso do peido foi banal, mas são nas coisas mais banais que as grandes guerras começam. E não acho que seja culpa de nenhum dos dois, é só o caminho natural da decomposição... não tem como escapar.

No dia seguinte saímos cedo. Sete e meia da manhã e estávamos na rua. Paramos num posto para comer uma pie com L&P. Rodrigo comprou uma Fanta.
Ok, hora de decidir o que fazer. Não estávamos ambos de bom humor. O chileno ligou para uma amiga e perguntou se ela tinha emprego. Não...
Rodrigo disse que tinha um contato de um argentino em Auckland, a metrópole neozelandesa. Mas logo Auckland? A visão da cidade me dava calafrios, principalmente porque não tinha dinheiro, e nada como cidades grandes para comerem sua grana. Mas Rodrigo estava louco para ir para lá.
Para não criar mais problemas, levantei os ombros:
- Ok, let's move to Auckland... but you have to check this contact first. You'll call and ask for job and ask him if I can work being brazilian.
- Ok, vamos pra Auckland... mas você tem que checar esse contato primeiro. Você vai ligar e vai pedir um emprego e perguntar se eu posso trabalhar sendo brasileiro.
Rodrigo ligou. Ninguém atendeu.
- We can call again on the way.
- Podemos ligar de novo no caminho.

Na real não tinha muito o que fazer.
- Ok, let's go!

A paisagem vai ficando mais cinza à medida que você se aproxima de Auckland. Os campos verdes cheios de ovelhas vão ficando mais raros, as árvores não são mais tão folhadas, as montanhas menos verdes.
No caminho pegamos uma ventania que quase fez o carro virar. Uma corrente de vento batia na lateral e balançava o veículo violentamente.
Algum tempo depois começou a chover. Não era bem uma chuva, era uma tempestade, um dilúvio. Adentramos a primeira rodovia da cidade debaixo d'agua. Paramos num posto para pedir informação e dirigimos em direção ao centro.

Quando entramos na cidade um sentimento de derrota tomou conta. Não sei bem explicar o que era, só sei que era como o final de um filme, um despertar de um sonho. Enquanto nosso Honda cruzava ruas rodeadas de prédios enormes, diversos outdoors, shoppings e mega stores, fui sentindo que saíra do mundo encantado da Nova Zelândia para entrar em algo totalmente novo e diferente. Nosso carro se perdeu na infinidade de veículos que percorriam a Queen Avenue. Não éramos mais aventureiros sem destino: ficávamos pequenos e insignificantes.
Não éramos nada!

Fim da quarta temporada.

* Em virtude dos rumos tomados pelo nosso brasileiro na Nova Zelândia, o "Caipirinha com Kiwi" terá suas atualizações feitas diariamente na quinta temporada. Fiquem ligados!

14 Fevereiro 2007

Rápida decisão

Em Christchurch perdi meu celular. Foi durante uma noite que saí para beber com Pita. Coloquei o aparelho junto de meu pacote de tabaco e perdi os dois. Não fiquei puto, nem dei bola; quando um mundo de desgraça cai sobre sua cabeça como nas primeiras semanas em Christchurch, perder um celular e um pacote de tabaco passa a ser um fator nulo. No entanto foi a primeira vez que fui ficando puto... gradativamente. Me recusei a comprar outro aparelho e percebi que não tinha mais nenhum dos meus antigos contatos. Perdera tudo! Aos poucos recuperei, comecei a anotar numa agendinha. Mas a partir daquele momento tive só um pensamento: Foda-se os celulares... vou aprender a viver sem!
No começo é difícil, perder um celular e não repor é como perder parte de si, como um dedo ou uma orelha. A adaptação é difícil, dolorosa.
Foi durante meu aniversário que senti mais falta. No dia 28 de novembro estava embaixo de uma macieira, trabalhando numa fazenda a milhares de quilômetros longe de casa. Não poderia nem ter esperança de algum amigo ligar para dar os parabéns e, de fato, ninguém ligou mesmo.
De manha Rodrigo me sacudiu e disse:
- Feliz compleaños, Thiaguinho!
Logo depois abriu sua garrafa de Fanta, deu um gole e saiu.
Foi a única felicitação que recebi pelo meu aniversário.
Coloquei minha roupa suja e fui trabalhar.
Tinha algo estranho naquele dia. Tanto eu quanto Rodrigo estávamos de saco cheio! Trabalhamos rápido na parte da manhã, fizemos uma pausa para o almoço, calculamos quanto tínhamos ganhado: 25 dólares cada. Voltamos ao trabalho, olhamos para a nova fila de macieiras. Longa, muito longa. Rodrigo disse que ia contar as árvores: 36! Logo depois me deu o celular para fazer a conta: 29 dólares.
Paramos por alguns segundos. Sentei no chão e vi Rodrigo começar a arrancar maçãs e chutar as macieiras com raiva:
- I'm sick of this shit! Let’s go!
- Estou cheio dessa merda! Vamos embora!
- Ok, I'm sick as well.
- Ok, eu também.
Fomos até o carro, pegamos a máquina fotográfica e saímos para bater algumas fotos. Os outros orientais olhavam sem entender nada. Fizemos poses em cima da escada, arrancando maçãs, parecíamos dois turistas em férias.


No caminho de volta passamos pelos chefes:
- We are leaving.
- Estamos saindo.
- What?
- O quê?
- Yes, we are leaving, we didn't like this job. So, we go.
- Sim, estamos saindo, não gostamos do trabalho. Então, nós vamos.
- But, but... what you gonna do?
- Mas, mas...o que você vai fazer?
Tinha qualquer coisa nesse "what you gonna do" que me irritou. Era como se ele dissesse: o que vão fazer? Olhe para vocês, latinos pobres e feios, aqui é seu único lugar, estão loucos, vão sair daqui e passar fome.
Mas não dissemos nada. Rodrigo ainda tentou jogar um "h", dizendo que tinha qualificação em ciências políticas, mas o fazendeiro só olhou com desdém, pronto para explodir em risos quando saíssemos.
Pegamos a estrada de volta para a cidade, deixamos os malasianos na fazenda (eles disseram que não queriam ir embora tão cedo e que depois pegariam uma carona com John Lee).
Na volta Rodrigo parou num restaurante.
- Ok, let’s celebrate your birthday.
- Ok, vamos comemorar seu aniversário.
No começo estranhei, o restaurante era do tipo bem chique e caro - o que esse chileno tá pensando? Mas depois ele me mostrou uma placa na frente que dizia:
Eat for free in your birthday
(Coma de graça no seu aniversário)

- But you have to share my bill.
- Mas você tem que dividir minha conta.
- Fucking Chilean.
- Chileno desgraçado.
Entramos no restaurante com nossas roupas sujas do trabalho. Uma funcionária veio desesperada ao nosso encontro. Por um segundo pensei que ela ia nos tocar dali dizendo não ter restos de comida.
- It's his Bithday, and he wants to eat for free!
- É aniversário dele, e ele quer comer de graça.
A mocinha nos olhou de cima a baixo com desprezo e disse:
- Sorry, but there is some conditions apply. You have to bring three or more people with you. As far I can see you are only in two.
- Desculpe, mas há algumas condições. Vocês têm que trazer três ou mais pessoas. No que posso ver, vocês estão em apenas duas.
- But you should put this in the board outside.
- Mas vocês deveriam colocar isso no aviso lá fora.
- Actually... It IS typed in the board outside!
- Na verdade...ESTÁ digitado no aviso lá fora!
Fomos embora, Rodrigo passou no Pack n' Save e comprou umas cervejas. Tui, a mais barata. Chegando no backpack, tentamos fazer o check-out.
- Sorry, but to get the bond back you have to give us one week notice.
- Desculpe, mas para recuperar o bond vocês têm que nos avisar uma semana antes.
Se saíssemos do backpack no dia seguinte, perderíamos os 90 dólares que colocamos de bond. Uma merda. Oito meses de Nova Zelândia e ainda caindo em golpes de backpackers.
Tentamos argumentar, explicar a situação, chorar, brigar... mas não adiantou.
De duas uma: ou sairíamos e perderíamos a porra do bond ou ligaríamos para John Lee e pediríamos nosso emprego de volta por mais uma semana.
Fomos para o quarto beber.
Porra, 90 dólares! Que merda! Para quem viaja comendo latas de atum puro no almoço 90 dólares é uma puta grana!
Estudamos a situação, olhamos todos os ângulos e bebemos toda a cerveja:
- Ok, fuck the money. We have to go!
- Ok, foda-se a grana. Temos que ir!

07 Fevereiro 2007

Colegas de trabalho

De todas as nacionalidades, os asiáticos são os mais misteriosos. Eles estão em toda parte na Nova Zelândia, mas possuem uma barreira quase impossível de ser cruzada plenamente: a língua!
Aprender inglês é fácil para qualquer falante de idioma latino, as letras são iguais, as raízes têm alguma semelhança, os sons são parecidos. Para os asiáticos, no entanto, é uma tarefa árdua e complicada. Pense num japonês, que tem três tipos diferentes de caracteres e alfabetos, o quanto ele não vai ter de estudar para saber que a letra P tem som de P... decorar todo um novo sistema de códigos, todo um novo jeito de falar, adquirir todo um novo pensamento lingüístico. Eu ainda acho que tem qualquer coisa de psicologia na língua, do tipo: diga-me o que falas que eu te direi quem és. Não imagino como seria minha cabeça se em vez de ter toda latinidade e ginga do português tivesse toda formalidade e quadracidade do mandarim.
É por isso que os asiáticos sempre foram um mistério para mim. Tive vários amigos coreanos, chineses, japoneses e malasianos durante a viagem, mas a conversa nunca flui, o papo nunca se aprofunda. Na maior parte do tempo, temos que tentar descobrir o que estamos falando , trocando sinais, descrevendo palavras, fazendo mímicas, desenhando. Não é todo mundo que tem paciência para isso.
No quinto dia na orchard conversei com um grupinho de coreanos. Tínhamos terminado todas as árvores e esperávamos para saber aonde iríamos depois. Eram três garotos e uma garota. O dia estava quente, eles estavam todos suados e com as camisas envoltas na cabeça para protegerem-se do Sol. Virei para Rodrigo e disse:
- It’s time to make some friends.
- É hora de fazer alguns amigos.
Me aproximei deles e perguntei se tinham fogo, um deles estava fumando. Acendi o cigarro e sentei no chão para ver se conseguia puxar assunto. O mesmo sujeito que me acendeu o cigarro perguntou:
- Where you from?
- De onde é?
- Brazil.
- Ahhh, Brazil! Soccer!
- Ahhh, Brasil! Futebol!
Uma coisa que já me acostumei aqui no exterior é que a palavra Brasil vem sempre, invariavelmente, seguida da palavra: soccer! (ou futebol, em alguns casos). É incrível, no começo me irritava um pouco, mas agora nem dou mais bola.
- Yes... soccer! And you are from North Korea?
- Sim...futebol! E você é da Coréia do Norte?
Eles riram. Acho que o fato de fazer piada com a Coréia do Norte deve ser algo tão recorrente como ligar Brasil a futebol. Eles nem gostam muito de falar sobre esse assunto, mas é sempre a primeira coisa que os estrangeiros perguntam. A primeira vez perguntei inocentemente, mas depois descobri que uma coisa impossível de se encontrar no mundo é um viajante norte-coreano, por isso perguntar para um coreano se ele é da Coréia do Norte é algo tão estúpido quando perguntar para um brasileiro se ele é de Buenos Aires.
- Brazil, big country!
- Brasil, país grande!
- Yes, yes, very big.
- Sim, sim, muito grande.
- Very good soccer.
- Muito bom futebol.
- Yes, yes, very good.
- Sim, sim, muito bom.
- Brazil... big snakes.
- Brasil...cobras grandes.
- Big snakes?
- Cobras grandes?
- Yes, I see pictures, snake, like this, snakes eat bull. Become like this, vely fati hihihihihi
- Sim, vejo fotos, cobra, assim ó, cobras comem bois. Ficam assim ó, muito goidas hihihihihi
- Yes, it's true, we have very big snakes in Brazil.
- Sim, é verdade. Temos cobras muito grandes no Brasil.
Nesse momento todos soltaram um:
- Ohhhhh
- And you do not have fear?
- E você não tem medo?
- No, I always take my snake gun before leaving home
- Não, eu sempre pego minha pistola-de-cobra antes de sair de casa.
- Snake gun... Really?
- Pistola-de-cobra... Sério?
- No, I'm kidding, it's just in the Amazon, very far from where I live.
- Não, estou brincando, é só na Amazônia, muito longe de onde eu moro.
- And you know the Amazon, I mean, you go, you went?
- E você conhece a Amazônia, quero dizer, vai, foi?
Dei uma tragada no cigarro e fiz uma pausa enquanto me olhavam ansiosos.
Dessa eles iam gostar:
- I've lived there for two years.
- Morei lá por dois anos.
- OOOOHHHHHHHH
Parecia que iam bater palmas.
Sorri cheio de orgulho
- Did you see snakes?
- Você viu cobras?
- See? Man, I held snakes!
- Ver? Velho, eu segurava cobras!
- OOOOHHHHHHHH
Estava me sentindo o verdadeiro Crocodilo Dundie, um Indiana Jones da América Latina, mal sabiam os pobres coreanos que vivi em Manaus quando tinha apenas 2 anos e que segurara algumas cobras não-venenosas no Instituto Butantã... mas detalhes, quem precisa deles?

Durante o tempo que trabalhamos na orchard demos carona para dois malasianos. Eles falavam muito pouco inglês e eram assustadores. O primeiro tinha cabelos compridos e a pele bem escura, quando tirava a camisa revelava músculos rasgados e violentos. O sujeito era muito parecido com aqueles que você vê nos filmes do Chuck Norris, geralmente um que entra nas rodas de luta usando tiras cheias de cacos de vidro enroladas nas mãos. O outro era magro, seco, cabelo curto e olhos um tanto vesgos. Ele fumava Port Royal sem filtro e sua visão me lembrava aqueles filmes de guerra sobre o Vietnã, parecia um daqueles guerrilheiros que se escondiam em casamatas.



Íamos todo dia para o trabalho sem conversar, até tentava um pouco, perguntava como era no país deles, quanto tempo estavam aqui, se estavam gostando do passeio. Mas eles não respondiam. Só ficavam ali no banco de trás fumando seus cigarros sem filtro, com caras de mau. Os dois eram uma máquina de trabalhar, arrancavam maçãs e subiam na escada com uma agilidade incrível. Não estavam ali aqui pra brincar!
No primeiro dia voltamos mais cedo, no segundo também, no terceiro a mesma coisa. Você pode sair a hora que quiser do trabalho, eles te pagam por produção, se quiser sair antes azar o seu. Mas no nosso caso, azar o nosso e dos malasianos, que voltavam sempre de carona conosco.
Nos dois primeiros dias eles não disseram nada, iam embora calados. Mas no terceiro dia começaram a conversar em mandarim no banco de trás. Rodrigo parou para abastecer, e eu saí para falar com ele:
- Man, the guys are pissing me off.
- Velho, os caras estão me enchendo.
- Yes, I know, they never talk and today they are talking a lot. Probably, they'll try to kill us.
- Sim, sei, eles nunca falam e hoje estão falando muito. Provavelmente, vão tentar nos matar.

Não tivemos coragem de cobrar a gasolina deles. Por um tempo tive certeza de que na primeira oportunidade que os malasianos tivessem de nos matar, eles o fariam! Deveriam ser assassinos cruéis e violentos. Tínhamos que nos proteger, talvez se fôssemos embora, talvez se atacássemos primeiro...

Mas depois descobri que tenho uma mente um tanto hollywoodiana. Ver aqueles dois malasianos tão parecidos com um dos vilões que Chuck Norris esmaga sem dó nos seus filmes me fez acreditar, de alguma maneira, que eram sujeitos sanguinários sedentos por orelhas alheias para seus colares macabros. No entanto, algumas horas depois de falarem sem parar em mandarim no banco de passageiros, nos dando a certeza de uma morte próxima, encontrei-os na cozinha. Eu tinha descido de chinelo para cozinhar minha janta, e o cabeludo me olhou com os olhos vermelhos e um sorriso que denuncia qualquer maconheiro. Estava muito chapado o filho-da-puta, me abraçou, deu tapinhas nas minhas costas e tentou falar um pouco em inglês.
- Good, very good! Ganja...
- Boa, muito boa! Maconha...
Pronto... Como temer um maconheiro? Descobri que o sujeito não era um carniceiro asiático. Descobri que os inimigos de Chuck Norris são como eu: estrangeiros numa terra distante, longe de amigos, parentes e cultura. Apenas tentando sobreviver. É tão difícil entender certas pessoas, é tão fácil fazer um mau julgamento, é tão simples destruir o que não conhecemos. Quando olhei para aquele sorriso chapado e para aqueles olhos vermelhos, só tive uma certeza: não tenho mais medo dos inimigos do Chuck Norris...
...tenho medo é do próprio!

03 Fevereiro 2007

About Apples

Anotações de diário:

Terceiro dia na orchard. Estou sentado neste momento em minha cama no backpack em Napier. Não consigo me mexer direito, nunca fiquei tão fodido na vida. Minhas mãos estão estragadas: parecem uma lixa. As unhas dos meus polegares parecem que estão podres, tenho um corte entre a carne e a ponta das unhas que proporciona aquela dor chata e ardida quando em contato com a água. Mal consigo segurar a caneta. Putz, lembrei que preciso lavar minhas roupas, desde que saí de Christchurch não lavo minhas roupas! Mas não sei onde é a lavanderia, nem quero procurar agora. Acabei de voltar da cozinha, fiz um esforço homérico para cozinhar minha janta: Noodles com atum. Preparei também um rango para levar amanhã de marmita, nada especial, batata com atum. Consegui achar forças para tomar um banho, mas quando olho para aquele chuveiro tenho minhas dúvidas se vou sair mais limpo do que quando entrei. Merda de chuveiros coletivos, não agüento mais. Quero ter um banheiro limpo... faz tempo que não tenho um banheiro limpo!




O trabalho
O serviço na orchard é pago por produção. Sempre escutei falar desses trabalhos por produção, alguns dizem ser bom, outros falam que é uma merda.
Tive que testar para escrever!
O lado bom é que todo dia antes de ir embora você pode calcular as árvores para saber o quanto ganhou. O valor não é fixo, antes de começar um corredor de macieiras o chefe lhe dá o valor de cada árvore. Varia muito, pode tanto ser $0.80 por árvore como pode ser $3.50. Tudo depende do número de maçãs que você vai ter que tirar.
A parte prática do trabalho é uma merda. Você passa 10 horas por dia tirando maçã de árvore... Nem é tanto pelo esforço físico, em três dias seu corpo se acostuma com o peso da escada, você cria músculos e sua bunda fica dura como madeira. O problema é o psicológico! Pense em arrancar maçãs por 10 horas! Sozinho! somente você e você! Passar tanto tempo consigo mesmo é perigoso, descobri que odeio minha companhia, prefiro brigar com os outros do que comigo mesmo.

John Lee não é o chefe, ele só contrata os trabalhadores. Ele tem uma série de contatos em diversas fazendas e entrega trabalhadores para esses sujeitos. O esquema é bem bóia-fria mesmo... só que a diferença aqui na Nova Zelândia é a falta daqueles caminhões que se vê no Jornal Nacional, abarrotados de pobre coitados com suas enxadas e caras sofridas. Aqui os bóias-frias têm seus próprios carros... e alguns escutam Hip Hop na hora do almoço.
John Lee só fica andando de um lado pro outro e recebendo uma porcentagem por cada maçã que tiramos... a perfeita ilustração de mais-valia rural. Mas ele é malandro, vive sorrindo e tentando nos convencer que podemos ficar ricos. Outro dia comprou Coca-Cola pra todo mundo, o dia estava tão quente, mas tão quente, que ele virou Deus.
Já os chefes mudam de fazenda em fazenda. Na que ficamos mais tempo, um deles parecia um capataz de novela das oito, usava um chapéu, barba e não parava de fumar. Ele passava olhando nosso trabalho, se não fizéssemos direito tínhamos que voltar e refazer.

No primeiro dia trabalhei rápido, terminei um corredor inteiro, deixei Rodrigo no chinelo e, quando o chefe viu meu trabalho, tive que voltar pra refazer tudo. No segundo desenvolvi uma técnica nova, uma maneira de trabalhar que apelidei de "Projeto Hiroshima" (em homenagem aos meus colegas de trabalho). Basicamente a técnica de destruição é sair arrancando tudo sem se preocupar com nada, galhos, folhas, maçãs, ninhos de passarinhos, tudo voa pelos ares no projeto Hiroshima. O segredo é só tomar cuidado para que o capataz não o veja durante o processo, já que uma vez terminado é impossível descobrir a falcatrua. O chefe passou, olhou tudo, olhou o topo, olhou a base, tocou as maçãs que sobraram, olhou pra mim e disse:
- Very good, better than yesterday!
- Muito bom, melhor do que ontem!
No terceiro dia tive uma crise existencialista. Não consegui trabalhar, era como se minha mente tivesse ficado vazia, escutava só os passarinhos, as maçãzinhas caindo no chão, o som do metal da escada... O dia estava muito quente; sentei no chão e desliguei... pensei no Brasil e me perdi naquele cheiro de maçã verde. Apaguei os olhos, deitei as costas nuas e suadas na grama e acordei com uma maçã no meu peito:

- What the fuck are you doing? Resting now? Go to work, you fucking brazilian!
- Que porra você está fazendo? Descansando agora? Vai trabalhar, brasileiro de merda!
- Fuck you, chilean! Let me alone!
- Vai se foder, chileno! Me deixe sozinho!
- Brazilians... soooo typical!
- Brasileiros...aaaaa mesma coisa!
Naquele dia ganhei somente 40 dólares. Mas tinha um plano para o dia seguinte. Peguei o meu pendrive, aquele ainda que tinha roubado do meu irmão e coloquei algumas músicas. Incrível como esse aparelhinho tem salvado minha vida. Lembro que antes de sair do Brasil olhei ele em cima da mesa e coloquei na mala... mas tinha um sentimento de que não ia precisar muito. Estava indo trabalhar num país estrangeiro, com certeza em algumas semanas iria comprar um Ipod com trocentos gigabytes, tela de cristal líquido e raio lazer. Mas não foi bem assim e esse criative de 256 megas tem salvado meus momentos de solidão como nada nesse mundo!
Rodrigo tinha alguns CDs que gravara em Christchurch e para minha surpresa tinha bossa nova num dos CDs:
- Ah, chilean... You have bossa nova in your CDs!
- Ah, chileno... Você tem bossa nova nos seus CDs!
- I don't know who put this there. I never heard this shit before.
- Não sei quem colocou isso aí. Nunca ouvi essa merda antes.
Trabalhei no quarto dia ao som de Lúcio Alves, Roberto Menescal, Quincy Jones e Marcos Valle. Trabalhei feliz! O MP3 tem espaço para umas sessenta músicas, apenas algumas horas de som. Mas mesmo repetindo durante o dia inteiro não enjoei... terminei o dia bem... são e feliz! A prova de que a gente não quer só comida, é preciso bebida e arte, ou que a música é o alimento da alma, salvadora de miolos aflitos. Já Rodrigo tinha a carranca dos que começam a sofrer com a própria companhia.
No dia seguinte ele pirou já no período da manhã. Começou a cantar e jogar maçãs em mim:
- What the fuck are you doing?
- Que porra você está fazendo?
- Ahh, brazilian! You are going too fast, fuck you!
- Ahh, brasileiro! Vocês está indo muito rápido, vai se foder!
Então ele girou e sentou apoiando suas duas mãos no chão.
- Fuck sake, I cannot see apples any more.
- Caralho, não posso mais ver maçãs.
Rodrigo ficou uns dez minutos no chão falando merda e atirando maçãs em mim.
- Fuck, man! I told you: STOP!
- Caralho, velho! Eu disso pra você: PÁRA!
- Let's go home, I don't feel well.
- Vamos pra casa, não me sinto bem.
- Come on, come here! Take this!
- Que isso, vem aqui! Segura aí!
Dei meu MP3 e ele voltou ao trabalho.
Depois de meia hora era eu que estava sentado no chão atirando maças no chileno:
- Come on, let's go home!
- Vem, vamos pra casa!
Chamamos os malasianos que iam de carona com a gente e voltamos mais cedo... pelo terceiro dia consecutivo.
Eles não estavam muito felizes.

30 Janeiro 2007

John Lee, the fucking crazy

Em 20 minutos chegamos em Napier. Esperamos John Lee na frente do local indicado, um prédio com uma placa: backpack. Quando adentramos a cidade parecia que estávamos em Miami. Não que o lugar seja grande como Miami, mas tem uma avenida litorânea cheia de coqueiros que me lembrou aquele clipe do Will Smith.
Rodrigo parou o carro em frente ao prédio, pelo número era ali o local de encontro. Peguei o pacote de Port Royal, enrolei dois cigarros, o chileno apertou o isqueiro do carro: cleck! Ascendemos e esperamos por John Lee. Nisso um maori de quase dois metros e mais musculoso que o Hulk passou todo tatuado com seus óculos escuros. Andou devagarzinho a caminho do prédio e tirou os óculos revelando olhos malignos que nos encaravam com uma ira infernal. Juro, nunca vi aquilo!
Rodrigo suou frio e perguntou:
- Do you think he lives here?
- Você acha que ele mora aqui?
- I hope not.
- Espero que não.
Por fim ele colocou os óculos de novo e entrou no backpack.

- Do you think this is the acomodation we’re gonna stay?
- Você acha que essa é a acomodação que vamos ficar?
- I hope not!
- Espero que não.
Algum tempo depois, John Lee chegou. Ela era um chinês de meia idade bem agitado:
- Hello. I ' m John Lee. You ale the guys who want to wolk?
- Olá, Sou o John Lee. Vocês são os caras que querem trabalhar (sotaque chinês carregado)?
Ele explicou o trabalho. Também era “apple thinning”, a mesma coisa do indiano:
- Good mone, you wolk fast and get good mone. You two have a cal
- Bom dinheiro. Vocês trabalham rápido e ganham bom dinheiro. Vocês dois têm um “callo”?
- What?
- O quê?
- Cal.
- Callo.
- What is this?
- O que é isso?
Ele fez uma mímica de um cara dirigindo:
- Ah, car... yes.
- Ah, carro...sim.
Ele era muito falastrão. Falava alto e dava umas risadas histéricas. Para tudo ele gargalhava balançando o corpo todo e tentando ocultar a boca num sinal claro de vergonha que os chineses em geral têm:
- You ale blazilian? Hihihihihih... and you chilean? Hihihihihihih... You lave a cal Hihihihihihih... hihihihihihihi...
- São brasileiros? Hihihihihih... e você chileno? Hihihihihihih... vocês têm um “callo”. Hihihihihihih... hihihihihihihi...

John Lee disse que podíamos ficar na sua acomodação e apontou para o prédio do maori assassino.
- Come on in, I ' ll show you.
- Entrem. Eu vou mostrar pra vocês.
Entramos no local, acho que pelo fato de termos acabado de ver a acomodação mais roots de todos os tempos, esse backpack nos pareceu muitoooo bom. Era grande, tinha mesas de pingue-pongue, uma cozinha gigante, computador com internet ($2/ 10 min) e um terraço bacana. Claro que não fizemos um bom julgamento, na real fora algumas comodidades, o backpack era um lixo. Iríamos dividir um quartinho minúsculo, que cheirava mofo com duas caminhas vagabundas. Mas tudo bem, assinamos os papéis rapidamente... estávamos cansados, loucos para dormir um pouco.
Já tínhamos aceitado, assinado e concordado, mas, mesmo assim, John Lee começou a contar vantagem. O chinês disse que era o maior contratante da Nova Zelândia, que suas fazendas exportavam para o mundo inteiro, que ficaríamos ricos se optássemos por ele, que todos que trabalharam com ele estavam milionários agora... enfim, mentiu um bocado:
- You stay with me and you get lich! I had a chilean, he made two thousand dollas in one week. Vely clazy, he wolk wolk a lot, he is lich now. Veli lich. He just come to New Zealand to spend his money.
- Vocês ficam comigo e vocês ficam ricos! Eu tive um chileno, ele fez dois mil dólares em uma semana. Muito louco, ele trabalha trabalha muito. É rico agora. Muito rico. Ele só vem pra Nova Zelândia pra gastar seu dinheiro.
Voltamos para o lado de fora e encostamos no carro que estava estacionado ali na frente, acendemos outro cigarro para pensar enquanto John Lee, que nos seguia sem calar a boca, continuava a mentir sem parar. Nisso um grupinho de japoneses chegou do trabalho. Eles estavam destruídos, todos sujos e quase mortos de cansados. John Lee olhou para o grupinho, abriu os braços e cheio de empolgação, disse:
- Hello! How ale you? How was the wolk today?
- Oi! Como estão? Como foi o trabalho hoje?

Os japinhas se entreolharam. Por alguns segundos ninguém respondeu nada, até que finalmente um que estava mais ao fundo soltou:
- I ' m tired!
- Estou cansado!
Todos deram risada.
- But good mone today?
- Mas dinheiro bom hoje?
- Not really.
- Não muito.
Mais risadas.
O chinês engasgou, limpou a garganta:
- But is because is youl second day. After you get mol mone. You get mol platice, the job become mol easy.
- Mas é seu segundo dia ainda. Depois você consegue mais dinheiro. Ganha mais prática, o trabalho fica mais fácil.
- Acctualy is my third day.
- Na verdade é meu terceiro dia.
- No wollies, wait untill next week!
- Sem problema, espere até a próxima semana!
Após os míseros segundos de silêncio que caracterizam os melhores timing cômicos, um dos japinhas soltou:
- Itsudemo dekiru ne.
Provavelmente queria dizer algo do tipo: vai se foder chinês do caralho! E todos começaram a rir da cara do chinês e a caminhar em direção a porta do prédio.
Quando entraram, ainda soltando gargalhadas, Lee virou para nós e disse:
- You see? They ale lappy! Very Lappy people! Evely body who wolks fo me is Lapy!
- Você vê? São felizes. Pessoas muito felizes. Todo mundo que trabalha pra mim é feliz.
Resolvemos aceitar o trabalho, não que tenhamos acreditado numa só linha do que o chinês disse. Bom, pra falar a verdade, Rodrigo acreditou um pouco e insistiu para ficarmos.
- Man, there is a chilean that earns two thousand per week!
- Cara, tem um chileno que ganha dois mil por semana!
Não impus muita objeção, tava na cara que John Lee era um farsante, mas pelo menos sua acomodação, apesar do maori assassino, era melhor do que a do indiano.

No dia seguinte fomos trabalhar. Acordamos às 6 da manhã e John Lee nos esperava no rol de entrada. A maioria dos que moravam no backpack trabalhava para John Lee. E todos, sem exceção, eram asiáticos.
Naquela manhã eu e Rodrigo éramos completos estranhos no ninho. Nos destacávamos facilmente no meio da multidão de olhos puxados que se aglomerava na frente do prédio.
Mas o chinês organizou rapidamente a multidão, colocou dois malasianos no nosso carro, deu algumas instruções e saiu dirigindo sua caminhonete seguido pelo comboio asiático.
Em vinte minutos chegamos na orchard. (pomar) .
Saímos e ele separou o pessoal em grupos. Tinha mais 6 pessoas que estavam começando no mesmo dia que nós: dois coreanos, dois japoneses e dois malasianos. Ele nos chamou e começou a dar as primeiras instruções.
- Come, come, I ' ll teach you the work.
- Venham, venham, Eu vou ensinar o trabalho.
Lee pegou uma escada de ferro que estava encostada numa caminhonete, mas o fez de maneira tão estabanada que quase caiu e se matou com o objeto de ferro. Segundos depois, quando se levantou e pegou os óculos do chão, começou a explicar as normas de segurança.
- You have to put the ladder like this... never like this!
- Vocês têm que colocar a escada assim...nunca desse jeito!
As normas de seguranças se resumiram a frase acima, nada mais. Depois ele deixou a escada e mostrou o que teríamos que fazer nas macieiras.

Basicamente é tirar as maçãzinhas que nascem em grupo deixando somente uma ou duas. Ainda não era época de colheita, o serviço é basicamente esse. A poda é feita porque caso contrário o cacho cai quando as maçãs ficam maiores. A princípio parecia ser simples. O único problema seria a escada, já que teríamos que andar com aquele troço por todo o corredor de macieiras e subir árvore por árvore podando todo o topo.
John Lee começou a trabalhar a fim de demonstrar a difícil arte de podar maçãs. Ele parecia um louco, entrou na primeira árvore e desapareceu entre a folhagem girando rápido como o demônio da tasmânia, jogando várias maçãzinhas no chão e repetindo sem parar:
- You lave to wolk fast, vely fast. Evely aplle is dolla, you see, one dolla, anothe dolla. One mor dolla, anothe dolla.
- Você tem que trabalhar rápido, muito rápido. Cada maçã é dólar, vê, um dólar, outro dólar. Mais um dólar, outro dólar.
Ele continuou assim por quase 30 minutos. Eu, Rodrigo e os outros asiáticos só olhávamos sem saber se ríamos ou se ficávamos preocupados.
- Dolla, anothel dolla! Hi hi hi hi
- Dólar, outro dólar! Hi hi hi hi
Ploc, ploc, ploc fazia o barulinho oco das macãzinhas caindo no chão.
Se pudesse ouvir pelos ouvidos de John Lee, escutaria algo parecido com:
- $ $ $ $ $ $ $ $ $ $ $ $

25 Janeiro 2007

Primeira parada: Hasting

O Sol já caía no horizonte e o velho Honda de Rodrigo continuava cortando caminho sobre as distantes estradas neozelandesas. No Brasil ainda era madrugada do dia anterior. Pensei por alguns segundos que aquele mesmo sol que desaparecia por entre as montanhas estava a caminho de minha terra natal para iluminar mais um dia que já vivera. Lentamente ele cruzaria todo oceano e chegaria ao Brasil deixando aquele minúsculo pedaço de terra no distante oriente cheio de sombras.
Nesse ponto cruzávamos uma estrada cheia de curvas e rodeada por um penhasco gigantesco. Geralmente as estradas na Nova Zelândia são bem seguras, mas essa não! Para nossa surpresa não existiam barras de protecao, qualquer movimento em falso e o carro deslizaria morro abaixo. A visão do penhasco fez-me ajeitar na cadeira segurando com força o puta-que-pariu:
- Fuck, man... what is that?
- Porra, cara... o que é aquilo?
Sem tirar os olhos da estrada Rodrigo respondeu:
- Stupid kiwis, why they do this? They have a lot of money!
- Kiwis estúpidos, por que eles fazem isso? Eles têm muito dinheiro!
O Sol do fim da tarde cobriu o penhasco de laranja. A cadeia de montanhas me lembrava muito o deserto de Benock Burn em Cromwell.
Ficamos ambos um tempo sem falar, apreensivos.
De repente o carro começou a fazer um barulho estranho. Olhei para Rodrigo, e ele não disse nada. Prendi a respiração e resolvi ficar quieto.
O barulho continuou.
Novamente olhei para ele na esperança dele dizer algo.
Nada!
O barulho aumentou! Era um ruído de ferro com ferro que provavelmente vinha do eixo do carro, irritando os ouvidos.
Resolvi falar:
- Rodrigo... I think your car is doing a strange noise
- Rodgrigo...Acho que seu carro está fazendo um barulho estranho.
- For fuck sake, man, I know! respondeu demonstrando que tambem estava assutado.
- Que porra, cara! Eu sei.
Fiquei quieto e respirei fundo.
Finalmente o carro cruzou a última curva do penhasco adentrando uma estrada de duas pistas bem mais segura. O barulho continuou. Não paramos para ver o que era, continuamos percorrendo a estrada, e o ruído nos acompanhou por todo caminho até a próxima cidade.
Eram umas 10 horas da noite quando chegamos em Hasting, uma cidadedezinha no meio da Ilha Norte.
- Ok, man... I think it is better if we sleep here, disse Rodrigo.
- Ok, cara...Acho melhor a gente dormir aqui.
Paramos num posto, pedimos informação e dirigimos até o Holiday Park mais próximo. Estava fechado. Toquei o interfone, e uma mulher, com voz de sono, disse que os check-ins eram até às 22h.
- But it’s five past ten.
- Mas é 10:05.
- Well, I guess five past ten is not ten o'clock, is it?
- Bem, acho que 10:05 não são 10 em ponto, é?
Dirigimos pela cidade para tentar achar um backpack. Nada, tudo fechado!
Incrível, mas as cidadezinhas na Nova Zelândia morrem após as dez.
Por fim, depois de horas de procura, encontramos um hotel que nos cobraria 25 dólares por um quartinho. Odeio hotéis, mas esse era pegar ou pegar!

No dia seguinte andamos pela cidade. Rodrigo ficou encantado, adorou o lugar e perguntou se não era melhor se trabalhássemos e morássemos por ali mesmo. Não achei nada de mais em Hasting, era só mais uma cidade pequena, ajeitadinha, mas micro cidade por micro cidade fico aqui mesmo. Só precisava me certificar de algo antes. Caminhei até o Information Center e perguntei:
- Sorry, do you have cinema in Hasting?
- Desculpe, vocês têm cinema em Hasting?
- Yes, there is one in...
- Sim, tem um na...
- No, no , you don't need to say me where it is... thanks!
- Não, não, não precisa me dizer onde que é...obrigado!
Virei para Rodrigo e disse:
- Ok, we can stay here!
- Ok, podemos ficar aqui!
Fizemos o check-out no hotel e fomos para a cidade arrumar emprego. Alguns poucos contatos com locais nos levaram até uma agência de emprego rural... uma tal de Pick.co.
O que mais existe na Nova Zelândia é emprego rural. Centenas de agências procuram desesperadamente por trabalhadores a fim de preencher o tão defasado quadro de funcionários das fazendas. O lema na Nova Zelândia é: com preguiça de procurar emprego? Vá para as fazendas! Não é necessário entrevista, qualificação, teste... nada! Chegou, trabalhou!
Adentramos o local e perguntamos por trabalho. A kiwi da recepção abriu um largo sorriso:
- For sure, here in Hasting you'll find a lot of jobs with apples. It's time now for the apple picking. - Mas claro, aqui em Hasting vocês vão encontrar muitos empregos com maças. É época de colheita.
Nos entreolhamos:
- Whatever...
- Que seja...
- Ok, I just need to see your passaports and your permits.
- O k, só preciso ver seus passaportes e suas permissões.
Mostramos os passaportes e quando ela olhou o meu disse:
- Oh, you are brazilian! Sorry, but we don't do seasonal work here.
- Oh, você é brasileiro! Desculpe, mas não fazemos “seasonal work” aqui.

Ok, mais uma vez vou explicar a questão do visto. Não tenho o Work Holiday, o Brasil não tem esse acordo com a Nova Zelândia ao contrário do Chile e outra centena de países. Quando ela falou do tal seasonal work, ela se referiu a um tipo de visto especial concedido na Ilha Sul. Ou seja, sendo brasileiro eu só posso trabalhar legalmente nas regioes de Marlborough ou Otago e só! Não sou bem-vindo na Ilha Norte.
Fiquei meio zonzo com a informação... essa era nova! E agora? Não tinha dinheiro para voltar para a Ilha Sul, estava preso aqui, me fodi! Devia ter pensado melhor, seu idiota!
Ela percebeu que eu fiquei baqueado e disse baixinho:
- I know, it's a shame. But you know, New Zealand needs a lot of workers for this area. I cannot give you any job because we are, you know, a "job agency", here must be everthing by the book, but I cannot intercept you to take a look in the board in the wall I have there. You'll find some employers who'll not mind with the fact you are brazilian.
- Eu sei, é uma pena. Mas você sabe, a Nova Zelândia precisa de muitos trabalhadores para essa área. Não posso dar nenhum emprego pra você porque nós somos, sabe, uma “agência de emprego”, aqui precisa ser tudo anotado, mas eu não posso impedir você de dar uma olhada no quadro de avisos que eu tenho ali na parede. Você vai encontrar alguns empregadores que não vão se importar com o fato de você ser brasileiro.
A-ha! Cada país tem o jeitinho para o que precisa.

Pegamos dois telefones no mural. O primeiro de um sujeito chamado Chacka e o segundo chamado John Lee.
Fomos até a praça central e Rodrigo me passou o celular:
- You call!
- Você liga!
Liguei para o primeiro. Pelo seu "hello" já saquei que era indiano:
- Hello!... You need a job? For sure, I'll meet you in the square at 5 pm.
- Alô!... você precisa de emprego? Claro, eu te encontro na praça às 5 da tarde.
Liguei para o outro. Pelo "hello" já saquei que era chinês:

- Hello!... You need a job? Great, can you come to Napier at 7 o'clock?
- Alô!... precisa de um emprego? Ótimo, você pode vir para Napier às 7 horas?
Napier é uma cidade ao norte de Hasting. Uns quinze minutos de distância.

Andamos um pouco pela cidade até dar cinco horas. No horário marcado sentamos num banco de praça para esperar por Chacra.
- I bet the indian will dress a striped t-shirt, have gel in the hair, a big belly and bring five children.
- Aposto que o indiano vai vestir uma camiseta listrada, usar gel no cabelo, ter aquela barriga e trazer cinco crianças.
Rodrigo riu com minha descrição, mas seu riso não foi maior do que quando o sujeito apareceu extamente da maneira que descrevi... exceto pelo fato de estar carregando somente um criança.
Chacra disse que a “orchive” que trabalharíamos era mais afastada, numa cidadezinha fantasma chamada Waiupawa. Ele disse para pegarmos o carro e seguirmos ele.
Passamos pela cidade, que era basicamente um supermercado, um bar e uma igreja, e logo em seguida quebramos para outra estradinha rumo ao local de trabalho.
A fazenda era no meio do nada. Entramos com o carro pelo portão principal e avistamos milhares de macieiras que se estendiam até onde a vista alcançava. Um mar verde! Abri um pouco a janela e um cheiro de maça verde tomou conta do carro. Continuamos dirigindo até o núcleo da fazenda. O carro do indiano parou, saímos para conversar:
- So, the job is here... it's by contract, it means you earn by production. You can stay in the acomodation here, it's 40 dollars per week. The work is for 6 weeks, but you don't have days off, it's Monday to Monday! I know it's sounds scary, but I tell you: it’s a very good money!... sometimes you can make 900 dollars per week. You work, work, work a lot and can have a very happy New Year.
- Então, o trabalho é aqui...é por contrato, o que quer dizer que vocês ganham por produção. Vocês podem ficar na acomodação aqui, são 40 dólares por semana. O trabalho é por 6 semanas, mas vocês não tem folga, é de segunda a segunda! Sei que parece assustador, mas eu digo pra vocês: é uma grana muito boa!... às vezes você pode fazer 900 dólares por semana. Você trabalha, trabalha, trabalha e pode ter um Ano Novo muito feliz.

Pelo seu tom de voz ele estava desesperado para que disséssemos sim.
O indiano nos levou para mostrar a acomodação da fazenda. Era um barracão de madeira de dois andares. Na parte de cima ficavam os quartos, uma dezena deles. A visão dos quartos era assutadora: tudo em madeira podre e com 4 camas vagabundas cobertas com um colchão mofado e desengonçado; não tinha armários, não tinha cabides, não tinha cômoda, não tinha nada... era uma alcova na mais pura concepção da palavra.
O resto da “acomodação” também era de meter medo, parecia um galpão de escravos, um bunker da primeira guerra, tudo escuro, sujo e desarrumado.
Descemos e encontramos umas dezenas de tchecos fumando maconha na área de lazer, que nada mais era do que uma mesa do lado de fora com dois bancos de madeira podre.
O fato de encontrar os tchecos me empolgou. Eles são como uma lenda aqui na Nova Zelândia. As pessoas dizem: encontre um tcheco e você vai encontrar a grana.
Passei o caminho inteiro de volta tentando convencer Rodrigo a ficar:
- Are you crazy? Look at that! It's impossible to live there.
- Você está louco? Olha pra aquilo! É impossível viver lá!
- Man, if there is people living there, it's not impossible. And, besides, it's just once in your life, for just six weeks! After we'll have money to do whatever we want! I think it'll worth!
- Cara, se tem gente morando lá, não é impossível. E, além disso, é só uma vez na sua vida, por apenas seis semanas! Depois a gente vai ter dinheiro pra fazer o que a gente quiser. Acho que vai valer a pena.
- Ok, But let’s check the fucking chinese first.
- Ok, mas vamos dar uma olhada no chinês primeiro.

E então, antes do Sol se pôr, cortamos a estrada rumo a Napier.

24 Janeiro 2007

A Caminho da Ilha Norte

Coco voltou para Christchurch. Mesmo sabendo que não ouviria mais francês durante suas transas ele optou por trabalhar em Christchurch em vez de ficar em Nelson. Rodrigo tinha outros planos: iria para Rotorua, na Ilha Norte, trabalhar com um amigo. Eu não sabia o que fazer. Estava sentado num murinho fumando um cigarro pensando que minha conta bancária caía a cada dia e que eu só tinha me deslocado alguns quilômetros ao norte. Não!... definitivamente a Nova Zelândia não é um lugar para fazer turismo, pelo menos se você for um duro como eu.
Foi então que Rodrigo sentou do meu lado, acendeu um cigarro e disse:
- You can come with me if you want.
- Você pode vir comigo se quiser.
Pensei por alguns minutos. Se fosse apostaria tudo! Pegar o Ferry até a Ilha Norte não era brincadeira, era caro e representava o fim da minha viagem à Ilha Sul. Se não desse certo ficaria lá em cima sem dinheiro, sem emprego, sem nada! Todos os meus contatos no Sul se perderiam, não poderia recorrer a ninguém, não poderia simplesmente pegar uma carona para outro lugar, todas as portas que abri abandoraria, tudo que construí desmoronaria... enfim: estaria em um país novo e desconhecido chamado North Island!...E com apenas 500 dólares na conta!
- Ok, I go with you!
- Ok, vou com você!
Saímos de Nelson perto das onze da manhã. Dirigimos até Pickton e pegamos o famoso Ferry.
Sabe aquelas balsas que você pega para chegar em Ilha Bela? Pois bem, eu pensava que o tal do Ferry era aquilo... acho que por isso que fiquei tão espantado com o preço da passagem: 300 dólares! Tirei 150 chorando da carteira, Rodrigo pagou o resto e dirigiu o velho Honda em direção a entrada. De longe, enquanto ainda tentava estancar o sangue da facada que acabara de levar, avistei um PUTA NAVIO! A embarcação era gigantesca, três andares só de estacionamento. Na parte de cima mais 4 andares com restaurantes, salão de jogos, bares, televisões e, claro, o terraço!
Após o trauma pós-pagamento, me senti um milionário num cruzeiro. Entrei nos bares, andei cheio de bossa pelo rol principal, passei pelos restaurantes, sorri para as mocinhas, fumei um cigarro no terraço e, depois que o navio partiu, quase morri de fome durante a viagem! Até fomos ver quanto era um lanche no restaurante, mas sem condição! Sentei e tentei dormir para ver se a fome passava. Rodrigo tambem não abriu a mão e, minutos depois que o Ferry zarpou, já estávamos rezando para ele chegar logo em Welligton.
Mas, mesmo faminto, a viagem foi espetacular. Nunca tinha andado de navio, e aquele swing do mar é demais! Ficava vendo os outros passageiros no restaurante tentando comer em seus pratos deslizantes. Isso fora a paisagem no terraço. O navio cruzou uma centena de montanhas e depois adentrou o pequeno canal que leva à Ilha Norte. O dia estava magnífico!
Chegamos em Welligton, a capital da Nova Zelândia. Gostaria de poder escrever algo sobre a cidade, mas a fome e o medo de gastar nos fizeram correr para o norte cruzando a capital sem dó.
Finalmente paramos num posto de estrada e comemos uma Pie e tomamos uma L&P (tradicional bebida daqui que parece Sprite, só que mais gostosa).




Numa viagem a amizade aumenta na mesma proporção dos quilômetros percorridos. Rodrigo é um sujeito bacana, durante o caminho conversamos um bocado. Ele contou que estudara Ciências Políticas em Santiago e que tinha planos de ir para Ásia depois que seu work holiday expirasse.
O chileno tem dois grandes vícios: Luck Strike e Fanta. Ele dirige com precaução... com muita até! Não foram poucas as vezes que alguns motoristas estressados ultrapassam a mil por hora buzinando e xingando. Mas ele não está nem aí, só dá uma tragada no seu Luck Strike, abre sua Fanta, dá um gole e diz:
- Po Uevon!
O carro de Rodrigo não tem rádio. De Wellington até Rotorua são 484 quilômetros, quase sete horas de viagem. O que esgota qualquer papo. No caminho cantamos algumas músicas, eu em português, ele em espanhol. Depois trocamos. Tentei algumas músicas latinas famosas como Rick Martin e Shakira, e ele mandou um:
- Uelha a onda uelha a onda pa pa, fazendo aquela coreografia de axé estranha!
- Fuck, man! you just know shit musics in portuguese.
- Porra, cara! você só conhece músicas de merda em português.
- Like you in spanish.
- Como você em espanhol.
- Don't you know any Bossa Nova or other good stuff?
- Não conhece alguma Bossa Nova ou outra coisa boa?
- No.
- Fuck... why do you hear axé in Chile?
- Porra...por que vocês ouvem axé no Chile?
- Is not just this you have in Brazil?
- Não é só isso que vocês têm no Brasil?
- Course not!!!
- Claro que não!!!
- Ah, I know another singer as well, but I don't remember his name.
- Ah, eu conheço outro cantor também, mas não lembro o nome dele.
- Who?
- Quem?
- One that want to have a million of friends.
- Um que quer ter um milhão de amigos.
- Ahh... Roberto Carlos!
- Yes, this one.
- Sim, esse aí.
No caminho discutimos política. Ele falou sobre Michelle Bachelet, que era uma boa presidente, mas que nenhum será como Ricardo Lagos:
- You know Ricardo Lagos, don't you?
- Você conhece o Ricardo Lagos, não conhece?
Se tem uma coisa que eu minto e odeio não saber é política
- Yes, for sure!
- Sim, claro!
- He was the best president in South America.
- Ele foi o melhor presidente na América do Sul.
- You think?
- Cê acha?
- For sure! That's because Chile is the best country in South America.
- Claro! É por isso que o Chile é o melhor país na América do Sul.
Rodrigo está sempre dizendo isso. Cada sentença que fala, sobre qualquer coisa do Chile, ele termina com a frase: That's why we are the best country in South America! Não falo nada, não sei se é verdade, mas, pelo que conheço do Brasil e pelo que vi aqui fora, acho que nem vale a pena entrar em uma discussão desse nível.
- Why do you have so shit politicians in Brazil?
- Por que vocês têm tantos políticos de merda no Brasil?
- I don't know.
- Não sei!
- You, brazilians, are so fucking stupid. You could have the best country in the world, you are so fucking big, you have everything! But no. You just want to have partys, partys, partys. You speak your fucking portuguese and don't give a shit for the rest of South America.
- Vocês, brasileiros, são estúpidos pra caralho. Vocês poderiam ter o melhor país no mundo, são grandes pra caralho, têm tudo! Mas não. Vocês só querem fazer festas, festas, festas. Falam seu português de merda e não dão a mínima pro resto da América do Sul.
- Come on, man... Is not that simple!
- Que isso, cara... não é simples assim!
Engraçado como o resto dos latinos acha tão estranho o fato de falarmos português. É como se fossemos um povo estranho encrustrado no território deles. Alguns falam com desprezo...
- Brazil... the only country in South America who speaks portuguese... so snobs!
- Brasil...o único país na América do Sul que fala português... tão esnobes!
Na casa em Hereford St., eu vi o que a língua é capaz de fazer. Todos os latinos, de Porto Rico a Argentina, falavam em seu idioma. Todos faziam piadas, riam e se divertiam na própria língua, enquanto eu, o estranho vizinho, ficava de canto tentando entender alguma coisa. Percebi que existe uma cultura em comum entre todos: bandas, esportistas, apresentadores, modelos, cantores, políticos... todos fazem parte de um contexto latino que o Brasil está fora! Perguntava desesperado se conheciam algumas personalidades brasileiras, mas fora Pelé, Airton Senna e Xuxa, não conheciam muito. Eles perguntavam se eu conhecia Los Fabulosos Cadillacs que estava tocando no estéreo:
- Hum... never heard about.
- Hum... nunca ouvi falar.
E todos, argentinos, chilenos, porto-riquenhos e mexicanos cantaram em alto e bom tom o refrão da canção. Logo depois um deles virou pra mim e perguntou:
- Come on, brasileiro! Are you latin or not?
- E aí brasileiro! você é latino ou não?
Mas um dia descobri algo em comum. Um fenômeno que uniu a América Latina nos anos 80 e continua até hoje. Enquanto trocávamos personagens e cultura, lembrei de um sujeito, um comediante mexicano que é rei na América Latina e muito conhecido da brasileirada:
- Ok, in Brazil we love Chaves.
- Ok, no Brasil nós amamos o Chaves.
- What is that?
- O que é isso?
- Ahh... you guys must know. The TV show that has the music: "Que bonita sua roupa, que roupinha mucho loca".
- Ahh... vocês devem conhecer. O programa de TV que tem a música: "Que bonita sua roupa, que roupinha mucho loca".
De repente todos reconheceram a melodia e começaram a cantar bem alto:

"Que bonita vecindad, que bonita vecindad, es la vecindad del Chavo, no valdrá medio centavo, pero es linda de verdad."

- El Chavo!! Si, por supuesto!

Mas, mesmo com toda essa distância que separa a América Latina do Brasil, estava lá sentado no carro de um chileno, cruzando as estradas de um país distante e conversando em inglês com meu próprio vizinho.
Nesse momento percebi que tinha alguma coisa errada. Parei para pensar em toda a situação. Virei para Rodrigo e disse:
- Uevon! Yo vou aprender a hablar em espanhol.
Ele abriu sua garrafa de Fanta, deu um gole e disse:
- Shut the fuck up, brasileiro!
- Cala a boca, brasileiro!

17 Janeiro 2007

Quarta Temporada: O parceiro chileno

Quando saímos da casa em Hereford St., cruzamos a rua e pegamos um outro chileno chamado Coco, ele iria conosco tentar o mesmo emprego na nursery e ajudar a rachar a gasolina. Já conhecia Coco das festas da chilenada, mas nunca tinha conversado com ele pessoalmente. Não demorou para descobrir que ele é do tipo fresquinho, daqueles que causam problemas em qualquer viagem - ao contrário de Rodrigo, que apesar de ter passado 8 meses em Christchurch, tem uma alma um tanto roots.
Nelson fica a 425 km de Christchurch, foram necessárias mais de 5 horas de viagem cruzando a Ilha Sul ao lado de belas paisagens: ovelhas, montanhas e mais ovelhas. O Honda velho de Rodrigo até que agüentou bem o tranco.
Dentro do veículo Coco não parava de falar de uma francesa que ele conhecera em Christchurch.
- She is awesome, we were fucking and I asked her to speak in french with me... So horny, man!
- Ela é demais, a gente estava trepando e eu pedi pra ela falar comigo em francês... Muito tesão, cara!

No caminho já saquei que o garoto iria pôr tudo a perder por causa da francesa... tinha certeza! Ele era do tipinho que estava começando a viver agora, recém saíra de uma fazenda no interior do Chile, fora estudar agrobussines em Santiago e, um ano depois, estava na Nova Zelândia patrocinado pela familia. Coco não come de tudo, preza o conforto, usa roupas de marca e recebe dinheiro do pai, fazendeiro... não, ele não era o companheiro de viagem ideal. Não que seja má pessoa, só é muito, com o perdão da palavra: cabação. E nada como uma francesa para enloquecer um cabação desses.
Mas o Honda de Rodrigo continuou comendo quilômetros em direção ao norte. Os dois chilenos falavam na maior parte do tempo em espanhol. Quando cheguei na casa em Hereford St., espanhol para mim era como grego, não entendia nada! Se você pensa que espanhol é parecido com português, pense de novo... tudo bem que são línguas irmãs e se você escutar um espanhol falando bem devagar voce vai entender algumas coisas. O problema é: eles não falam devagar! Mas é incrível como depois de alguns meses seu ouvido se acostuma com o idioma. Confesso que nunca pensei em aprender, nunca me esforcei nem quebrei a cabeça... foi como ouvir aqueles canadenses no backpack em Queenstown; um dia, sem mais nem menos, as palavras começaram a fazer sentido. Não demorou para começar a falar também; claro que aquele portunhol mui picareta, mas melhor do que nada.

Cruzamos a última fronteira de Cantebury e adentramos a região de Marlborough. A paisagem muda drasticamente nesse ponto, as cadeias de montanhas dão lugar a uma região mais plana, cheia de fazendas, vineyards e ovelhas... milhares de ovelhas! A regiao de Marlborough no topo da ilha sul é conhecida por suas tradicionais vineyards e por fabricar os melhores vinhos do país. Suas duas principais cidades são Nelson e Blenhein, esta última lar da segunda maior colônia de brasileiros no país.
Chegamos em Nelson em baixo de chuva, adentramos o centro e procuramos por um backpack, achamos um baratinho, 15 dólares, mas não tinha estacionamento e Rodrigo não queria deixar o carro na rua.
Se tivéssemos um nível de amizade maior, com certeza diria:
- Fuck off, who'll want to still this shit old crap.
- Vai se fuder, quem vai querer roubar essa merda caindo aos pedaços?
Mas estávamos recém nos conhecendo, e não sabia que nível de relação ele tinha com aquela lata velha.
Acabamos no Holiday Park, bem afastado do centro.
Os Holiday Parks na Nova Zelândia são os lares de uma modalidade de viajantes que ainda não conhecia: os caravaneiros. Geralmente eles viajam em caravans, pagam por um lugar para estacionar nos Holiday Parks, tomam banho, usam a cozinha e dormem no próprio veículo... Como não viajávamos de caravan tivemos que alugar um quartinho: 20 dólares each.
Dormimos bem, o quarto ficava dentro de uma caixa metálica parecida com um contêiner, mas até que era confortável. No dia seguinte fomos conhecer a cidade. Andamos um pouco pelo centro e, por fim, Rodrigo disse que precisava ligar para o sujeito da nursery.
Paramos num orelhão e ele discou:
- May I speak with Joe?... Sorry? ... He is not there? ... He is in Auckland? ... When does he come back? ... in 3 days??
- Posso falar com o Joe?... Desculpe? ... Ele não está? ... Ele está em Auckland? ... Quando ele volta? ... em três dias??
Fiquei olhando para a cena sem entender direito e, quando ele desligou, disse:

- But... You said to me that you had an interview with the guy today.
- Mas você disse pra mim que tinha uma entrevista com o cara hoje.
- No, I said that I had the contact.
- Não, eu disse que tinha o contato.

Se tivéssemos um certo nível de intimidade, diria:
- For FUCK SAKE, man! How can you cross the whole contry and only after you make the damn phone call?
- PUTA QUE PARIU, cara! Como você cruza o país inteiro e só depois faz a droga do telefonema?
Mas não disse nada.
Fomos comer. No caminho decidimos o que fazer. Optamos por esperar o sujeito chegar na segunda-feira, mas Coco começou a colocar empecilhos:
- I think I'll not work if they offer me less than 13 per hour.
- Acho que eu não vou trabalhar se eles oferecerem menos do que 13 por hora.

E Rodrigo foi entrando na dele:
- Yes, It must be more than 13 per hour, otherwise we go to another place.
- Sim, deve ser mais de 13 por hora, caso contrário a gente vai pra outro lugar.
- You two are crazy? Off course they'll not pay us more than 13 per hour... !! We are fucking latins! Hellooo!!! What's the fucking point to come here if you two lazy bastards don't want to work?
- Vocês dois estão loucos? Claro que eles não vão nos pagar mais do que 13 por hora... !! Somos latinos, caralho! Alôoooo!!! Qual o sentido de vir até aqui se vagabundos como vocês não querem trabalhar?
Claro que a frase acima eu teria dito se tivesse um nível maior de intimidade... Acabei não dizendo nada, fiquei quieto... só observava aqueles dois chilenos perdidos liderarem a caravana rumo ao abismo..

Choveu os diabos nos três dias que ficamos em Nelson. Nosso pequeno contêiner, que por hora chamávamos de lar, tremia a noite com a tempestade. Mas na manhã do segundo dia o sol deu as caras. Resolvemos ir para Abel Tasman, um parque nacional perto de Pickton. O lugar é lindo. Fizemos um passeio de lancha, gastamos o que não podíamos gastar, visitamos algumas praias, Coco desenhou o nome de sua francesa na areia, tirou foto, eu esculpi uma anônima nua na areia e, por fim, pegamos uma baita chuva durante a tarde. Chegamos ensopados, cheios de areia, fedidos e famintos.

As noites durante o tempo que ficamos em Nelson eram bem monótonas. Geralmente conhecíamos outros viajantes na cozinha e trocávamos idéia para passar o tempo. Na primeira noite conheci um grupo de americanos. Entrei na cozinha e eles estavam ouvindo Mano Chao. Uma das americanas virou pra mim e disse:
- Hey, sorry for this music. We don't know who put it.
- Ei, desculpe pela música. A gente não sabe quem colocou.
Dei um sorriso sem graça. Claro que a música não era deles. Estupidos yankees!
- Acctualy, I like. It's Mano Chao, well-known in South America.
- Na verdade, eu gosto. É Mano Chao, muito conhecido na América do Sul.
- Who?
- Quem ?
- Mano Chao.
- Mano Chao.
- I never heard about it.
- Nunca ouvi falar.
- Where did you guys come from?
- De onde vocês vieram?
- Colorado.
Se existe uma coisa que odeio nos americanos é que eles são as únicas pessoas no mundo que, quando indagados de onde vêm, respondem com um estado. Um forte indício de que consideram a possibilidade de virem de qualquer outro lugar do mundo, que não o amado USA, impensável. Eles sempre, mas SEMPRE mesmo, respondem: I'm from Colorado, California, Texas, Tenesse... ahhh fuck off yankees!
- And you?
- E você?
Resolvi ver se o oposto colava:
- I'm from São Paulo.
- What?
- O quê?
- São Paulo, the biggest city in Brazil, the third in the world, 18 million people, bigger than New York, bigger than Washington, maybe bigger than Washington and New York together!
- São Paulo , a maior cidade no Brasil, a terceira no mundo, 18 milhões de pessoas, maior do que Nova York maior do que Washington, talvez maior do que Washington e Nova York juntas.

- Hum... ok! I never heard about it.
- Hum... ok! Nunca ouvi falar.

Os americanos viajavam em grupo. Eram duas mulheres e três caras. Os yankees, na maioria das vezes, viajam em grupo. Estavam jogando cartas e nem deram bola depois que disse que era do Brasil, continuei a cozinhar sozinho, só ouvindo a mais chata reclamar da música... Os outros se colocaram a pensar, acho que tentaram lembrar se Brasil era algum estado americano não muito representativo ou seria um desses países de terceiro mundo com doenças estranhas que fica abaixo da linha do equador...

No dia seguinte estava com Coco e Rodrigo na cozinha, e conhecemos um casal de suíços germânicos. Eles formavam um dos casais mais simpáticos que já vi. Ambos tinham 30 anos e estavam dando a volta ao mundo em uma viagem de 1 ano. Estiveram na América do Sul, mas não!... não passaram pelo Brasil.
O casal contou algumas aventuras no Chile para deleite de Rodrigo e Coco.

Uma coisa que tenho percebido nessa viagem é que ninguém está indo ao Brasil. É incrível o número de gente que vai ao Chile, Argentina, Bolivia; e assutadora a nulidade de turistas que passam pelo Brasil. Na verdade sá conheci uma: Ashlen, a irlandesa que morou comigo em Hereford St. Mas mesmo ela disse ter odiado:
- Brazil is terrible. It's full of "hutie mamas".
- O Brasil é terrível. É cheio de "hutie mamas".
Ela chama de "hutie mamas" os sujeitos que sabem dançar e tiram um barato com as gringas que não sabem. Ashlen disse que em nenhum outro país ela foi tão humilhada por "hutie mamas":
- There was one that stared at me all the time saying things like: "come on, gringa, you swing like an european". And then started to do the fucking samba like a crazy bastard.
- Tinha um que olhava pra mim o tempo todo dizendo coisas como: "vamos lá, gringa, você rebola como uma européia". E então começava a sambar que nem um louco.

Dei um sorriso envergonhado, e ela completou:
- And you brazilians think you can dance sooooo well. But for your information, I prefer one thousand times the argentinian's tango.
- E vocês brasileiros pensam que daçam tãoooo bem. Mas pra informação de vocês, eu prefiro mil vezes o tango argentino.
Aííííí, toma!!!

No último dia, para minha surpresa, conheci um casal de caravaneiros brasileiros. Eram cariocas aposentados: ele trabalhara para a Petrobras, e ela como professora do estado. Não lembro de seus nomes, mas foram bem simpáticos. Disseram não ter filhos e por isso viajavam o mundo todo.
- Sabe como é, né? não temos pra quem deixar.
A senhora lavava a louça e falava naquele tom que as tias do busão falam no Brasil. Me bateu uma saudade estranha ao ouvir aquela mulher falar; tinha até me esquecido das tias do busão.
- Ai o Brasil tá um horror! Tu sabe que mataram um turista português em Copacabana esses dias. Na luz do dia! Um horror! Não dá, não tem mais jeito. É uma vergonha. Aonde nós vamos parar meu filho? Me diz... em plena luz do dia. Antigamente a gente não ficava sabendo dessas coisas quando viajava, mas agora, com esse negócio de internet, só vem desgraça. Nem da vontade de voltar pro Brasil mais. Vergonhoso! E o incompetente do Lula não faz nada!

No dia seguinte teríamos a tão esperada entrevista. Coco já tinha desistido, disse que ia voltar para Christchurch de qualquer jeito, mesmo se ganhasse 20 dólares por hora:
- I didn't like this city, there are no commodities, too small for me.
- Não gostei desta cidade, não tem muita opção, muito pequena pra mim.
(Nelson tem 46 mil habitantes, de fato não é grande, mas porra... tinha cinema! Deu vontade de mandar esse sujeito para Cromwell, passar um temporada no deserto)
Coco estava com as malas prontas quando Rodrigo ligou para a nursery perguntando quanto pagavam:
- What? 11 dolars ? No, thank you very much, we are not interested!
- O quê? 11 dólares? Não, muito obrigado, nós não estamos interessados!
Se eu tivesse mais intimidade teria dit... não, peraí... o que diabos esse chileno acabou de fazer?
- Are you fucking crazy, man? You give up a job like this? Are you nuts?
- Porra, cara! você está louco? Desiste de um emprego assim? Pirou?
- No, man, relax. It is not a good money. We can find better things.
- Não, cara, relaxa. Não é uma grana boa. A gente pode achar coisas melhores.

Coco estava esfuziante, voltaria para Christchurch rever sua francesa.
Entramos no carro para dirigir até o Holiday Park. Estava sentado no banco da frente de mau humor, quando ouvi Coco discar seu celular:
- Hello, my french girl! I have a good new for you... I'm coming back to Christchurch... Anh? Pardon?... No, no, the job wasn't not good, it didn't pay well... What? No... I decided that here would not be a good place, Christchurch has more commodities, I can have a better life there... But anyway... are you happy?...
- Oi, minha francesa! Tenho uma boa notícia pra você... Estou voltando para Christchurch... Anh? Perdão?... Não, não, o emprego não era bom, não pagava bem... O quê? Não... Decidi que aqui não seria um bom lugar, Christchurch tem mais opções, eu posso ter uma vida melhor lá... Mas enfim...você está feliz?
(longo silêncio)
No, no, but I'm not coming back because of you... Really... I swear... But why do you say that?... Don't you want me to come back?
Não, não, mas não estou voltando por sua causa... Sério...Eu juro... Mas por que você diz isso? Não quer que eu volte?
(novamente longo silêncio, pelo retrovisor vi sua cara se metamorfosear dos sorrisos apaixonados para o semblante dos que possuem um coração partido...)
Anyway, I'm not coming back because of you, don't misunderstand me, please!
De qualquer forma, não estou voltando por sua causa, não me entenda mal, por favor!
Ele desligou o telefone e ficou olhando atônito para a janela.
Apesar de ainda estar puto com a situação não pude deixar de me divertir vendo a cena...
Respirei aliviado:
... e Deus criou as francesas!

13 Janeiro 2007

Interlúdio

Trabalhei por um bom tempo no Robert Harris Café, conheci um bocado de gente na cidade, juntei uma graninha, paguei minha multa e saí de Christchurch.
Às vezes tenho a impressão de que falhei com o blog, deixei os acontecimentos correrem mais rápidos do que minha gana de escrever. Foram tantas as coisas que se passaram nesse último mês que nem sei por onde começar. Os personagens se multiplicaram na cidade grande, não terei tempo de escrever sobre todas as figuras que conheci em Christchurch, gostaria muito, mas algumas histórias infelizmente vão se perder no vácuo dos acontecimentos.
Nesses últimos dias pensei seriamente em comprar um laptop. Seria uma ótima ferramenta. Às vezes é difícil sentar num cybercafé e escrever com aquele relóginho do lado mostrando quantos dólares vão abandonar sua carteira para entrar na registradora do chinês que come a porra do noodle fazendo aquele barulho insuportável.
Confesso até que procurei por boas oportunidades e teria dinheiro para investir num laptop usado. Durante um tempo visitei algumas lojas de second-hand, dei alguns lances em sites de leilão... mas não. Sempre tenho aquele sentimento de: não faça isso!
Não sei como seria esse blog caso tivesse comprado o laptop, os leitores mais atentos sabem que desde que cheguei na Nova Zelândia tudo que almejei comprar foi o computador. Escrevi isso num dos primeiros posts, quando ainda estava em Queenstown. Mas o acaso foi cruel: primeiro uma pedra no rim adiou os planos, segundo uma opção desastrada por um carro me tomou tudo o que eu tinha.
O lance do carro foi algo que ainda não superei por completo, foi um baque muito grande nos meus planos. Sentar num cybercafé para escrever depois daquilo é algo totalmente deprimente... é uma dor pensar que se tivesse feito a escolha certa poderia estar em casa de pijama, escrevendo na minha cama, ouvindo música, fumando um cigarro. Estava tudo acertado: compraria o carro, viria para a cidade grande, venderia, arrumaria um emprego, arrumaria um laptop, escreveria diariamente no meu blog, postaria fotos todos os dias, faria uma espécie de reportagem sobre a Nova Zelândia, publicaria em alguma revista (provavelmente na Ocas), voltaria pro Brasil e beberia com meus amigos... mas em vez disso gasto meu dinheiro para escrever sobre meus infortúnios numa espécie de terapia ocupacional virtual que não vai me levar a lugar nenhum.
Eu tinha um plano, tinha um projeto... estee blog era algo que eu queria muito fazer, algo que eu pensava diariamente antes de sair do Brasil, mas nunca, nem nos meus piores pesadelos, imaginei que preencheria essas páginas com tantas histórias absurdas. Gostaria de poder contar sobre a cultura maori, hábitos locais, passeios, gastronomia, vida noturna, esse tipo de coisa. Não esperava virar um personagem de uma ficção tragicômica. Às vezes desço a barra de rolagem no blog e me pego pensando... puta que pariu, quanta coisa! Mas ao mesmo tempo sinto que ainda não consegui fazer o que eu queria fazer. Sei que tem um bocado de gente que acompanha as histórias, imagino que anteriormente deveriam ser bem mais, mas a maioria desencanou de me ver apanhar no exterior, ficaram esperando por um final feliz que nunca veio e talvez nunca virá.
O fato é que, de certa maneira, estee blog, por mais torto, incompleto e sádico que seja, talvez vá me servir de alguma coisa no futuro, já que um dia infelizmente esta experiência vai acabar, e por mais medo que eu tenha de continuar me dando mal, esse medo não é nada perto da tristeza de que um dia tudo isso vai acabar.

Fim da Terceira Temporada: Caminhos e Rumos

Já dizia o filósofo Gide: O grande problema de ter que escolher um caminho entre 100 é que você vai ter que conviver com a perda dos outros 99. Essa viagem é exatamente isso, a cada momento centenas de novas portas se abrem e você tem que escolher uma, geralmente é assim, na lata, sem muito tempo para pensar. Cada vez que tenho que tomar uma grande decisão passo horas trancado no quarto pensando. Não adianta muito, quanto mais você pensa pior é. O fato é que você nunca vai poder dizer como seria. Por mais intrincado e complexo que seja seu jogo de previsão, ele nunca vai representar a realidade. Você nunca vai saber o próximo movimento do destino...
Quando saí do Café tinha esse plano de mais uma vez pedir carona e fazer alguns “Woofs” ao redor do país. Gostei da experiência de ser um “Woofer”, comer tomate seco e trabalhar 4 horinhas por dia. Mas o destino posicionou duas torres na minha frente... e eu poderia escolher qual das duas iria tomar.
A primeira torre vestia botas pretas e bombachas. Francisca estava de partida para o Sul. Iria trabalhar em Cromwell. Ela iria com Lorena, uma outra chilena, e me convidou para fazer parte da trupe. A proposta era boa, trabalhar por mais algum tempo nas lavouras, juntar uma grana e depois viajar pela West Coast.
Rodrigo era a outra peça do tabuleiro. Ele tinha recém sido mandado embora de seu trabalho em Christchurch e estava a fim de se mandar para Nelson e tentar outro emprego. Ele trabalhava numa Nursery, uma espécie de estufa de flores, e ganhava um ótimo salário de 13 dólares por hora. Ele viajaria com Coco, um outro chileno, e me convidara para integrar a caravana.

Fui para o quarto refletir: se eu for sozinho vou ter liberdade total, poderei conhecer mais gente, comer tomate seco e viajar o país todo de carona. Por outro lado estou cansado de viajar sozinho, preciso de uma parceria e o fato de virar um "woofeiro" me fará voltar para o Brasil sem um puto no bolso. Já a segunda opção era tentadora... em todos os sentidos! Francisca era um mulherão e era uma viajante experiente... muito provavelmente eu não passaria aperto se selássemos a parceria. Por outro lado ela queria por que queria ir para o Sul... e porra... Cromwell não é exatamente o tipo de lugar que você quer visitar de novo, especialmente depois de ser jogado pra fora de um carro, ficar sem casa e perder todas suas economias num acidente desgracento. Por último Rodrigo era um sujeito boa praça, engraçado e não parecia do tipo que me traria problemas. Ele tinha um esquema em Nelson para trabalhar numa nursery e estava disposto a me incluir nele. Por outro lado ele era um viajante inexperiente, passara oito meses em Christchurch vivendo na mesma casa e trabalhando no mesmo emprego. E sei lá... isso me assustava um pouco.
Tomar esse tipo de decisão é foda. Não é algo que você possa correr atrás depois, é irreversível e vai influir em toda sua viagem e talvez em toda sua vida. Parei, pensei com a cabeça de cima e, por fim, escolhi Rodrigo.

No último dia fizemos uma festinha de despedida. Não foi lá grande coisa, só alguns amigos, algumas cervejas e nada mais; era uma quarta-feira e não podíamos abusar muito. Mas todo mundo que eu queria foi, menos Dune que não pôde. Greg deu as caras por alguns minutos e foi embora, e Pita chegou cedo trazendo uma garrafa de vinho. Estava apreensivo, não sabia se Aliesha viria, tinha ligado para ela mas seu celular estava desligado.
Deixei recado:

Hello , where are you? I'm leaving tomorrow and we have unfinished business to deal. Come to my house tonight.
Oi, onde você está? Estou partindo amanhã e nós temos negócios não resolvidos para tratar. Passe em casa à noite.

Eu e Pita bebemos um pouco na cozinha. Como sempre ela perguntou se eu tinha comida... mostrei meu armário quase vazio:
- Man, you never have food!
- Cara, você nunca tem comida!
Mas tinha dois noodles e duas latas de atum. Fizemos uma espécie de sopa e comemos com o vinho, servido em copos de plástico.


Podíamos ouvir as risadas na sala, mas estava melhor na cozinha. Ela perguntou se eu tinha um diário. Peguei meu caderno de anotações no quarto e ela pegou o dela. Começamos a trocar pensamentos escritos, eu em português, ela em espanhol. Li algumas passagens sobre mulheres e ela deu risada:
- Man, you are obsessed about it
- Cara, você é obcecado com isso.
Estava muito bom o papo. Nos divertimos por horas e eu até esqueci que Aliesha não dera as caras.
Poderia escrever aqui um tratado sobre a amizade, de como fora gostosa aquela noite com minha amiga Pita e que, mesmo sem fazer sexo em Christchurch, estava muito feliz. Mas, nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, vejo aquela imagem misteriosa tomar forma através do vidro da cozinha. Aliesha... ela viera! O sorriso de Pita desapareceu na hora enquanto o meu ficou mais largo. Fechei meu caderninho e corri para abrir a porta.
Demos um grande beijo e a puxei para o quarto...
- Come on baby... we don't have much time.
- Vem cá gata...nós não temos muito tempo.
No caminho disse baixinho para Pita:
- Hey, buddy! Thanks for everthing! Sorry to leave you, but there is something I have to do before I go. See you tomoorow!
- Ei, parceira! Obrigado por tudo. Desculpa deixar você, mas tem algo que eu preciso fazer antes de ir. Te vejo amanhã.
Ela sorriu e foi para a sala conversar com o resto da turma.

No dia seguinte acordei com Francisco batendo na porta:
- Come on, Thiaguinho, Rodrigo is waiting for you.
- Vamos, Thiaguinho, Rodrigo está esperando por você.
Tinha esquecido de colocar o alarme. Levantei correndo e coloquei todas minhas roupas dentro da mochila... após três meses na cidade estava com quase o mesmo montante de roupas que chegara. Aliesha ficou na cama e corri para pegar minhas coisas pela casa. Comi uma torrada, escovei os dentes e Francisco passou por mim de olhos arregalados:

- Thiaguinho... I went in in your room! What is that you have in your bed?
- Thiaguinho...Eu fui no seu quarto! O que é aquilo que você tem na cama?
Apenas sorri sem graça.
- Thiaguinho, Thiaguinho... she is gorgeous!
- Thiaguinho, Thiaguinho... Ela é dahora!
Sorri de novo
- Oh, my god, I'm so happy for you!
- Oh, meu deus, estou tão feliz por você!
E então ele me abraçou quase chorando de felicidade.
Foi então que Pita saiu de um dos quartos e passou em direção ao banheiro. Francisco arregalou mais ainda os olhos:
- What she is doing here?
- O que ela está fazendo aqui?
- She sleeps here?
- Ela dorme aqui?
Ele estava um pouco confuso agora... por mais que tentasse desmentir que não comera a chilena, depois que ele nos viu no puff juntos, não teve como.
- But, but...
- Mas, mas...
Então ele sorriu como se tivesse matado a charada e me deu outro abraço:
- Ahhh, Thiaguinho, Thiaguinho, you fuck two girls in your last night!! You are my hero.
- Ahhh, Thiaguinho, Thiaguinho, você come duas garotas na sua última noite!! Você é meu herói.


Mas não teria tempo de desfazer o mal entendido. Rodrigo já estava do lado de fora me esperando impacientemente.
Pita saiu do banheiro, dei um forte abraço nela enquanto Francisco sorria por trás e fazia gestos obcenos.
- See you my friend! You are an extraordinary girl.
- Até a próxima minha amiga! Você é uma garota extraordinária.
Depois Francisco chegou para mim baixinho e disse:
- Hey, man, you’re gonna let the two girls here in the house?
- Ei, cara, você vai deixar as duas garotas aqui na casa?
- Yes, what can I do?
- Sim, o que eu posso fazer?
- Uhuuu... You mind if, you know... I try to fuck them?
- Uhuuu... Se importa se, você sabe...Eu tentar comer elas?
Botei a mão no ombro dele:
- Man... good luck!
- Cara... boa sorte!
Coloquei minha mochila no carro, abri a janela, balancei as mãos dando tchau para Francisco e Pita. Rodrigo deu a partida no seu Honda 78.
O carro roncou, engasgou e morreu enquanto eu ainda balançava o braço do lado de fora.
Saímos, olhamos o motor, resolvemos empurrar o carro.
O motor fez um barulho estranho: pac pac pum, e finalmente pegou.

De longe, antes de virarmos a esquina e sumirmos, vi Pita tirar nervosa as mãos de Francisco de seus ombros.

12 Janeiro 2007

Últimos dias em Christchurch

Não posso dizer exatamente como as coisas se desenrolaram na cidade, foi uma passagem um tanto quanto mágica. Sei que o que vai ficar para o futuro, quando começar a resumir minha viagem em poucas palavras, será o fato de ter chegado de carona, sem dinheiro, sem amigos, sem nada e ter conseguido me reerguer. Mas naquele momento, enquanto aproveitava os últimos dias na cidade, posso dizer que se reerguer financeiramente foi o de menos... o grande problema tinha sido recuperar minha moral.
Quando cheguei, no início de setembro, não tinha a menor idéia do que me esperava, não tinha a mínima noção de onde iria terminar. Christchurch passou de pesadelo para ponto alto da minha viagem. Nunca fiquei tão apaixonado por uma cidade como estou agora. Amo cada canto, cada esquina, cada Pub, cada chinês daquele lugar.

Gardens


Acordei cedo, era hora de aproveitar. Sem trabalho, sem correria, sem frustração. Passei no Vivaci, tomei um café, li o The Press e depois andei pelo centro. O lugar estava magnífico. Turistas de todos lugares do mundo andavam de boca aberta em frente à catedral. Um garoto tocava gaita de fole preenchendo o local com música. Alguns viajantes checavam seus mapas com suas mochilas gigantes nas costas. Mais à frente, perto da estátua central, duas garotas faziam uma apresentação de polca sobre um palco de madeira; o barulho do sapateado se misturava ao da gaita.
Andei até o Fountain Souvlaki. Dune repousava os cotovelos no balcão ouvindo Fat Freddys Drop .

- Hey, man! Where are you up to?
- E aí cara! Indo pra onde?
- Just hanging around. My last days in town
- Dando umas voltas. Meus últimos dias na cidade.

Conversamos um pouco. Ele me fez um souvlaki de falafel e comprei uma Ginger Beer.
- What a beatiful day!
- Que dia bonito!
- Yes, man. Don't tell me. I'd like to swap place with you.
- Sim, cara. Nem me fale. Queria trocar de lugar com você.
- Yes, I know how you feel
- Sim, sei como se sente.

Saí do Souvlaki e fui até o Art Center. Todos os domingos vários turistas se amontoam na entrada para checar a feirinha de artesanato. Atravessei a multidão e cheguei no corredor culinário. Várias barraquinhas com comidas típicas de todos lugares do mundo. Pessoas, fumaça e odores se misturavam. Sobre os trailers era possível ver as placas indicando a procedência da comida: Thailand, Greece, China, Japan, Turkey, Korea, Morocco.
No primeiro pátio do Art Center, onde as últimas barraquinhas da feirinha se entrelaçavam, um grupinho de músicos tocava músicas típicas. Ao lado do palco improvisado, turistas deitavam com suas pernas brancas em um canteiro ensolarado.
O Art Center é um complexo com dezenas de prédios em estilo colonial onde é possível ver diversas exposições, do lado de fora você caminha por corredores abertos bem esverdeados e floridos e pode entrar e sair de qualquer salão sem pagar nada.
Num dos pátios centrais uma bandinha com músicos octogenários tocava músicas populares em seus instrumentos metálicos. Uma dezena de turistas, novamente deitados sobre a grama ou sentados sobre as mesinhas de madeira, aplaudiram quando os velhinhos terminam de tocar Summer Nights, tema do filme “Os Embalos De Sábado À Noite”
Bati algumas fotos e parti para o Gardens. O Gardens é o principal parque da cidade, e não é como o Ibirapuera em São Paulo, não... o Gardens ... putz... o Gardens é o Gardens! Na entrada uma grama verde como um tapete de criptonita se estende até onde sua vista alcança. Casais repousavam enquanto crianças corriam livres pelo gramado. Algumas árvores sacudiam com o vento fresco da primavera, que passava refrescando o sol quente do fim de tarde. O ar é limpo, mas tão limpo que parece mel percorrendo seus pulmões.
À frente um rio rodeia o parque. Novamente turistas e locais aproveitam a tarde de domingo para deitar às suas margens e tirar uma soneca... alguns optam por uma boa leitura. Dentro do rio vários caiaques remam sobre uma infinidade de peixes e ao lado de patos que bóiam despreocupados sobre a água azul. Resolvi sentar um pouco. Dormi por alguns minutos. Acordei com o doce som da gaita de fole... provavelmente o garoto da praça tinha vindo tentar um dinheiro no parque.
No horizonte o Sol começava a se pôr, cobrindo o distante céu neozelandês com um vibrante laranja.
Um pôr do Sol indescritível.
É...definitivamente caí de amores por Christchurch.

No dia seguinte tinha combinado de ir à praia com Pita. Era o penúltimo dia na cidade. Fui ao local marcado e ela estava me esperando junto com outra garota. A chilena nos apresentou; seu nome era Aliesha, uma kiwi de 23 anos. Pegamos o ônibus para a Summer Beach. No caminho conversei um pouco com a kiwi, descobri que ela era chefe de cozinha no restaurante onde Pita trabalhava e tinha um ótimo gosto musical. Contei que havia percorrido alguns bares de jazz na noite anterior com meu amigo Dune:
- Did you go to the Green?
- Você foi no Green?
- Yes, it's great!
- Sim, é ótimo!
O Green é um barzinho de blues bem escondido na cidade, não tem nada desses bares grandes freqüentados pela massa de estrangeiros. Conheci diversos lugarzinhos como esse através de Dune e Greg, meus dois amigos e anfitriões kiwis. Aliesha ficou impressionada de eu, um turista brasileiro, conhecer lugares tão típicos da moçadinha PIMBA* de Christchurch. Mas o fato é que a ojeriza que criei de lugares como o Shooters me fez correr atrás de outras opções como o Green, Twisted Hop e Mickye Finns. Claro que o fato de eu ser um PIMBA incorrigível também ajudou.
Não sei por quê, mas a kiwi gostou de mim. Ela era incrível, tinha um dos sorrisos mais belos que já vi na vida e era tão fácil abri-lo que não economizei nas piadas; para desespero de Pita que algumas vezes cobria a cara de vergonha.
Mas o tempo passou, chegamos em Summer Beach e caminhamos os três na beira da praia. Tiramos algumas fotos sobre as pedras e dentro da Cave Rock. Logo depois tomamos um café, comemos um souvlaki (não tão bom quanto o do Fountain) e pegamos o ônibus de volta para a cidade.
Na volta Aliesha sentou do meu lado. De vez em quando cruzávamos olhares, ela sorria, eu sorria de volta. Pita sentou no banco da frente e não olhava muito para trás, pois sabia que estava rolando algo ali. Do nada a kiwi pediu para eu cantar uma música em português.
Pensei um pouco...
...mas só um pouco:

...”Olha que coisa mais linda mais cheia de graça, é ela a menina que vem e que passa, num doce balanço a caminho do mar...”

Ela sorriu:
- I know this song!!! E começou a cantarolar a melodia: pa para pa pa para pa pa...

Nos olhamos por algum tempo, e, sem perceber, minutos depois estávamos de mãos dadas. Quando Pita virou para perguntar alguma coisa, estávamos no meio do beijo...

Podia ter cantado qualquer coisa... poderia ter cantado Claudinho e Buchecha, Bonde do Tigrão ou Negritude Júnior... Talvez o resultado fosse o mesmo, nunca vou saber. Mas depois, segundos após aquele beijo, quando ela apoiou sua cabeça no meu ombro e, olhando pela janela do ônibus, cantarolou sorridente: pa para pa pa para, tive um sentimento até então muito distante durante toda minha viagem, algo que sempre tivera mas que perdera durante meses de derrota e humilhação em território estrangeiro...
...pela primeira vez senti orgulho de ser brasileiro...
...e só um pensamento cruzou minha mente:

Tom, meu camarada, muito obrigado!

E o ônibus deslizou pelo litoral ao som de:
pa para pa pa para pa pa para pa pa para pa pa...

PIMBA – Pseudo-Intelectual Metido à Besta

07 Janeiro 2007

Um último sopro

No Café não tirava lá grande coisa, mas após dois meses consegui dar uma reerguida, pagar a multa do acidente e juntar um troco para emergências (lide: rim).
No entanto, algo ainda me incomodava, só não sabia dizer exatamente o quê.
Numa segunda-feira qualquer, antes de ir para o serviço, passei no cyber para checar uns e-mails.
Uma mensagem estranha pairava na minha caixa de entrada:

If you could save 200, 000 people by killing Valentino, would you do it?There is a thing in the nose of the man beside you. It is always there. It never falls.
Se você pudesse salvar 200.000 pessoas matando o Valentino, você faria isso? Há uma coisa no nariz do cara ao seu lado. Está sempre lá. Jamais cai.

Não identifiquei o remetente. Mas aquilo ficou na minha cabeça durante o dia inteiro.

As coisas no serviço estavam um saco. No começo é excitante, você aprende um monte, fica empolgado com a nova profissão, quer mostrar serviço, corre pra cima e pra baixo. No entanto, chega uma hora em que a rotina começa a te corroer. E ver todo dia Misses Richardson e as senhoras do Ballentines não é algo que você espera após meses vivendo no limite.
A rotina é sempre matadora... quando ela chega não tem como sufocar o mau funcionário. Mas no meu caso parece que é pior... e não é de propósito, juro! Odeio ter esse defeito... terrível defeito! Quando perco o interesse começo a me distrair facilmente, me perco em pensamentos, viajo para outro lugar e faço cagadas e mais cagadas.
Richard vinha com o dedinho em pé dizendo:
- Thiago, what's going on with you?
- Thiago, o que está acontecendo com você?
E eu não sabia dizer. Não queria decepcionar Richard e Paul, eles me ajudaram, acreditaram em mim e, mesmo me pagando um salário mínimo, seria muita sacanagem se começasse a boicotar o Café.
- Sorry, Richard, I'm just daydreaming today.
- Desculpe, Richard, ando desligado hoje.
Mas a coisa começou a se repetir, esquecia os talheres, não colocava os números nas mesas, dava o troco errado, confundia os pedidos, derrubava pratos.
Lutei contra o foda-se: não ligue o foda-se! era meu mantra diário. Não tinha por que, os chefes eram legais e as broncas sempre justas. Seria muito sacana se ligasse o foda-se.

Quando fui contratado no Café, Richard disse que precisava de alguém por pelo menos seis meses, que era um posição de longo prazo:
- We'll spend a lot of time trainning you. You have to stay with us for at least six months.
- Nós gastaremos bastante tempo treinando você. Você precisa ficar conosco por pelo menos seis meses.
- Ok.
Nunca que ia ficar seis meses, mas concordei e comecei a pensar na desculpa que iria usar. Pensei em matar alguém da família e dizer que precisava ir ao velório, mas um chinês ex-funcionário filho-da-puta já tinha pensado nisso antes. Ele matou a própria mãe e disse que precisava voltar à China para o enterro. Meus primeiros dois dias foram seus últimos dois de trabalho. Conversamos um pouco logo que cheguei no Café:
- So, you'll stay in my place.
- Então, você vai ficar no meu lugar.
- Yes, I think so. Why are you leaving?
- Sim, eu acho. Por que você está saindo?
- My mother died. I need to go to the funeral.
- Minha mãe morreu. Preciso ir ao funeral.
- Really?! How sad! But how long you've been here in the Café?
- Sério?! Que triste! Mas há quanto tempo você está aqui no Café?
- Just a month.
- Só um mês.

Olhei para ele. Ele olhou de volta. Continuei a encará-lo sem dizer nada e ele soltou um sorriso furtivo. Motherfucker, I got you!!!!Você não sorri quando sua mãe morre... Tava na cara que era uma desculpa esfarrapada. E tava na cara que Richard e Paul sabiam disso. Ele acabara com minha desculpa, ou provara ser muito fraca. Não teria cara-de-pau de usar a mesma, ainda mais depois que o vi na praça comendo souvlakis num dia ensolarado de domingo... três semanas após a morte de sua querida mãe.
E pra piorar Richard e Paul eram muito gente finas. Às vezes queria que eles fossem um pouco como Karen, a-chefe-mais-filha-da-puta-que-ja-tive-na-vida, sei lá, seria mais fácil me desligar e sair chutando a porta. Pensava diariamente em como sairia do Café, mas estava preso a questão dos seis meses, e isso definitivamente me torturava.
Junto a isso tinha o problema do visto. Paul me deu toda a papelada para fazer a variação de condição. Fui na imigração e eles disseram que precisavam de mais um documento. Voltei ao Café, Paul me deu o tal documento. Voltei pra imigração e eles pediram outro... Muito pacientemente Paul arrumou outro papel. Mais uma tentativa e, de novo, ficou faltando coisa. Bem, então fiz o que qualquer um faria: no caminho de volta para o Café pensei... AH! QUE SE FODA! Não voltei mais na imigração, fiquei com meu visto de Cromwell trabalhando no Café durante todo o tempo.
E nada aconteceu. Resolvera o problema.

No dia seguinte novamente outro e-mail misterioso na minha caixa de entrada:

You'll walk forever, and never find the truth.It is like the dangling snot of someone you care not for. There, annoying, unhelpful.It never falls. It never falls.
Você andará para sempre, e nunca encontrará a verdade. É como o catarro balançando de alguém que você não se importa. Lá, incomodando, inútil. Jamais cai. Jamais cai.
Fechei o Gmail intrigado e fui trabalhar.

No Café existia uma rusga entre Pita e Natasha. As duas garotas se odiavam!
- O que essa vaca ignorante quer?
Dizia Pita para mim com seu sotaque hispânico.
Natasha, no entanto, queria derrubar Pita aparentemente sem motivo. Com o passar do tempo comecei a perceber varias maldades da kiwi traiçoeira. Parecia coisa de novela da Globo. Natasha mentia sobre fatos, ocultava evidências, demonstrava equívocos e fazia comentários maldosos para os chefes. Eu ficava quieto, para mim ela não fedia nem cheirava, era só uma kiwi tonta que não sabia onde ficava meu país.
Mas, como diriam os americanos: é na guerra alheia que estão as melhores oportunidades. Se queria ter um motivo para pedir as contas ele estava bem na minha frente, tinha 22 anos, usava um piercing na língua e uma tatuagem feia esparramada num braço gordo. Tomei as dores de Pita e comecei a desmentir Natasha em frente aos chefes. Certa vez a peguei dizendo que um amigo da chilena tinha ido ao Café bêbado perguntando por ela:
- What? Are you crazy? The guy was completely sober... why are you saying he was drunk?
- O quê? Você está louca? O cara estava completamente sóbrio...por que você está dizendo que ele estava bêbado?
E de fato o cara estava sóbrio, não sei da onde ela tirou que o sujeito estava bêbado.
Bastaram apenas 2 dias para que a guerra entre Natasha e Pita cessasse...
...eu era o novo alvo.

Naquele mesmo dia que recebi o segundo e-mail, sai do serviço e andei pela praça central. Parei em frente à Catedral, sentei num banco para pensar no que fazer... engraçado como nunca sei o que quero mas sempre sei o que não quero.
De longe avistei um sujeito que passava com sua jaqueta xadrez e gorro preto.
- Greg!!
Ele balançou a cabeça em reconhecimento e caminhou até mim.
- Hello, Thiaguinho. How are you?
- Oi, Thiaguinho. Como você está?
O dia estava bonito, eram umas 6 da tarde e o sol brilhava forte no céu em clara demonstração de que ia se demorar a recolher.
- I just send an e-mail for you yesterday, Thiaguinho.
- Mandei um e-mail pra você ontem, Thiaguinho.
Incrível como Greg consegue pronunciar bem o inho... é um dos poucos kiwis que diz corretamente meu nome.
- So were you!
- Então era você!
- Yes... I thought you would know it was me.
- Sim...pensei que você saberia que era eu.
- Actually, I imagined.
- Na verdade, eu imaginei.
Dois turistas japoneses tiravam fotos em frente à Catedral. O primeiro subiu os degraus e fez a pose enquanto o segundo segurava a câmera. Depois trocaram: o segundo fez exatamente a mesma pose do primeiro, mesmo sorriso estampado, mesma posição de braços, mesma abertura de pernas... felizmente vestiam camisetas distintas, caso contrário teriam grande dificuldade para se identificarem mais tarde.
- What you mean with your e-mails, Greg?
- O que você quer dizer com seus e-mails, Greg?
- Lots of things.
- Muitas coisas.
Ficamos mais um pouco ali e depois caminhamos pelo centro, passamos pelo rio que cerca a cidade e Greg começou a me dar uma aula sobre Christchurch. Todo prédio que passávamos tinha uma história, toda estátua ele sabia o nome, para toda praça havia um porquê. Paramos em uma livraria e ele me indicou alguns livros de escritores neozelandeses, passamos na vídeo-locadora e ele me mostrou vários filmes:
- You have to see those ones: While Rider, Goodbye Pork Pie and Once were Warriors.
- Você tem que ver aqueles: While Rider, Goodbye Pork Pie e A Alma dos Guerreiros.
Por fim passamos num pub chamado Twisted Hop, que fica numa pequena vielinha mais afastada do centro. O lugar tem um estilo cult, onde os estudantes de cinema e artes cênicas vão passar horas bebendo e falando mal das leis de incentivo cultural neozelandesas. Ele pediu duas twisted ankes. Pegamos as cervejas e sentamos do lado de fora... na calçada.
O sol do fim da tarde já caia por trás dos prédios, sua luz cobria a lateral de uma construção antiga toda feita de tijolinhos. Um laranja intenso se estendia em frente aos nossos olhos. Com o tempo as sombras foram comendo: tijolinho por tijolinho até não restar quase nada.
Um copo de cerveja bastou para nos deixar ébrios, estávamos famintos. Permanecemos sentados sem falar nada. Podíamos ouvir de leve a algaravia de sons do fim de tarde, carros, idiomas, vento, sinos da Catedral, um saxofone distante. Olhei para o lado e Greg se apoiava em suas duas mãos deixando as pernas esticadas em direção à rua; percebi que estava na mesma posição. Ele tinha as calças toda rasgada, sua jaqueta toda suja e os tênis com um imenso rombo nas laterais. Sua pele era curtida do sol e com algumas manchas.
Uma corrente de vento passou pela viela apagando a última chama de calor.
Mais nenhum tijolinho na parede.
Greg tirou um potinho de humus da mochila, um pão velho do bolso da jaqueta e começou a comer.
Eu peguei meu Port Royal, enrolei um cigarro e fumei ouvindo aquelas notas de sax que caíam na viela como bolhas de sabão...

Um último sopro no instrumento, uma última tragada no cigarro, uma última mordida no pão.

No dia seguinte deixei todas as incertezas de lado e pedi as contas no Café.

03 Janeiro 2007

O sujeito mais mané da Nova Zelândia

Meu quarto na casa em Hereford St. tem duas camas, uma de casal e outra de solteiro minúscula. Quando cheguei, o canadense já estava dormindo na grande e pelas regras internacionais da convenção de viajantes e backpackers: quem chega primeiro escolhe. Não que eu me importe, desde o começo da viagem estou dormindo nos piores lugares possíveis. No entanto, foi muito bom dormir na cama grande logo que o canadense se mandou para a Austrália... mas durou pouco.
Emilio, o argentino, me disse um dia:
- Hey, Thiago, I'm moving to your room, I already talked to Robin, it'll be cheap to me.
- Ei, Thiago, estou me mudando para o seu quarto, eu já falei com a Robin, será mais barato pra mim.
- Ok, no problem.
Emilio, porém, tinha sofrido um acidente enquanto esquiava em Queenstown, quebrando uma perna. No dia que ele mudou para o quarto, perguntei.
- Do you want the big bed?
- Você quer a cama grande?
- Yes, if you don't mind.
- Sim, se você não se importar.
Ok, sem problemas, afinal o cara tinha quebrado a perna, iria ser difícil pra ele dormir naquela cama minúscula. Abri mão sem problemas.

Nesse meio tempo muitos moradores chegaram e saíram. Ignacio e Hassim saíram. Caroline, Liza e Francisca chegaram. A casa estava balanceada, metade homem, metade mulher. Fato que animou bastante The Legend e Francisco.
Caroline era francesa, Liza, irlandesa, e Francisca, outra chilena. The Legend partiu com tudo para cima da irlandesa, a mais bonitinha, e levou. Francisco investiu pesado na francesa e também levou. Eu não fiz nada, fiquei na minha e, claro, não levei nada..
- Hey, man, and the chilean? perguntou The Legend.
- Ei, cara, e a chilena?
O fato é que estava de saco cheio de levar foras. As mulheres na Nova Zelândia jogaram minha moral no lixo, pisaram na minha dignidade e cuspiram na minha auto-estima. Não, dessa vez não tomaria outro fora porque não tentaria nada.
Francisca era do tipo viajante aventureira. Ela viera de Blenhein depois da temporada de prunning nas vineyards. A chica mandava muito bem no português, tinha passado quase 10 anos no Brasil e morado numa colônia brasileira no Iraque (quando adolescente seu pai trabalhava numa empreiteira brasileira que ajudou na reconstrução do país após a guerra do Golfo). Ela fumava Port Royal, um tabaco neozelandês que todo mundo fuma... digo, todo mundo do sexo masculino, já que as mulheres geralmente compram cigarros feitos. Francisca era do tipo mulherão; passava longe do gênero adolescente, tinha 30 anos recém completados e algumas cicatrizes de um acidente de carro na perna esquerda e na testa. Seu estilo envolvia botas pretas e calças largas que lembravam uma bombacha. As calças, estranhamente, davam destaque as suas nádegas generosas fazendo-as saltar em montes curvosos através do tecido fino, principalmente quando arqueava sua perna direita sobre algum degrau qualquer; em geral para enrolar seus cigarros, nesse momento podia-se ver a extensão de suas coxas roliças terminarem nas curvas de suas ancas formando assim um arco voluptuoso onde às vezes ela repousava as mãos a fim de conferir se a textura de suas carnes continuavam a mesma . Não que eu tenha prestado muita atenção nela, mas sempre a via enrolando cigarros e fumando com seus óculos escuros, peitos fartos e cabelos ao vento. Devo confessar: a chilena tinha estilo!
E ela sempre vinha falar comigo. Mas tinha certeza que isso tinha a ver com o fato de eu falar português... ela só queria praticar a língua.

Nesse meio tempo Emilio, o argentino que dormia comigo, comunicou sua partida. Ele também iria para Austrália. Foi durante sua festa de despedida, enquanto estava encostado na porta da cozinha bebendo minha cerveja e olhando as palhaçadas de alguns chilenos, que Francisca chegou para mim e disse:
- Thiago, tudo bem se eu mudar para o seu quarto? Já falei com Robin e pra mim vai ser mais barato se mudar pra lá.
Tomei um gole da cerveja, olhei para os lados para ver se alguém tinha ouvido, e respondi:
- Sim, sim, sem problemas.
Contei o fato ao The Legend, tínhamos ido comer um lanche no Burguer King naquela mesma noite e ele começou a bater palmas rindo de alegria:
- Uhuu! Congratulations, Thiaguinho! You’re gonna FUCK!
- Uhuu! Parabéns, Thiaguinho! Você vai trepar!
- No, no man, it doesn't mean anything.
- Não, não, cara, não quer dizer nada.
- Come on! Be happy, man, you’re gonna fuck!!!
- Que isso! Ânimo, cara, você vai trepar!!!
Naquela mesma noite encontrei Emilio no quarto. Conversamos um pouco.
- So, finally you'll sleep in the big bed.
- Então, finalmente você vai dormir na cama grande.
- Yeah, but I think Francisca will move in.
- Yeah, mas acho que a Francisca vai mudar pra cá.
- Really?
- Yes.
- Great, get the big bed and don't let her sleep here without you.
- Ótimo, fique com a cama grande e não deixe ela dormir aqui sem você.
- Yes, for sure.
- Sim, claro.
- Hey, man, my last night in New Zealand. You see these condoms?
- Ei, cara, minha última noite na Nova Zelândia. Vê essas camisinhas?
- Yes.
- I brought from Argentina... I didn't use any, look the date. Fucking New Zealand!
- Eu trouxe da Argentina...não usei nenhuma, olha a data. Porra de Nova Zelândia!
Naquela mesma noite, após a festa de despedida, saímos com Pita e seus amigos; muitos franceses, alguns kiwis e uma inglesa. Essa última estava muito bêbada... todos estávamos, mas a inglesa beirava o coma. Na rua ela se pendurou em mim e no argentino e não conseguia nem andar, ora se agarrava em um, ora em outro. Um dos dois ia ter que fazer o sacrifício de pegar a inglesa naquela noite. E pela cara e determinação do argentino teríamos que disputar aquele tropicante ser.
No meio do caminho encontramos uns amigos árabes de Pita, paramos para conversar e a inglesa se abraçou em mim, ajeitou meu boné, me fez uma elogio qualquer e me deu um beijo na boca. Uou... pensei: chupa argentina!!! Mas que nada, logo depois o tal do árabe perguntou quem tinha fogo, tirei meu isqueiro do bolso e caminhei até ele. Me distraí dois segundos... dois míseros segundos para acender um maldito cigarro e ela se agarrou no pescoço do argentino e se entregou completamente. Virei com o isqueiro na mão ainda aceso e olhei chocado para a acena. Como pode?
Mais tarde Pita me contou que a inglesa era noiva e sempre fazia isso quando ficava bêbada, mas o argentino não estava nem aí, estava contentíssimo no dia seguinte porque tinha transado e se mandou para a Austrália com um baita sorriso no rosto.

No dia seguinte Francisca se mudou para meu quarto. Cheguei do serviço e encontrei todas suas malas em cima da cama de casal. Ela chegou depois e disse:
- Thiago, em que cama você vai dormir?
- Bem, na verdade eu dormia na cama pequena quando o canadense estava aqui... e bem, é, depois eu deixei o Emilio dormir por causa da sua perna e agora bem, agora, pensando bem, acho... acredito que seja justo se eu dormir aqui agora. Isso é, claro, se você concordar, senão, não sei, o que você acha? Falei muito rápido? Desculpa, quer que eu repita?
- Não, não precisa.
Ela olhou para a cama pequena e fez uma cara feia.
- Bom, eu posso dormir no chão, então.
- Mas a cama não é tão ruim assim.
Ela sentou, apalpou, pensou.
- É, prefiro dormir no chão.
Caralho! Nunca que eu ia deixar ela dormir no chão. Pensei, disse que ia tomar um banho e depois a gente decidiria. O que fazer? Estava lavando a cabeça e matutando: bom, deixá-la dormir no chão é uma puta selvageria, mas por outro lado se não o fizer vou ser mais uma vez passado para trás e vou ter que ficar dormindo naquela merda de cama por mais um tempão pagando a mesma coisa que ela. No entanto se eu deixá-la dormir na cama grande posso vir a ter alguma chance de sexo no futuro, mas por outro lado isso é algo arriscado já que gentileza não quer dizer porra nenhuma para certas mulheres hoje em dia. Negar a cama grande vai me trazer conforto, mas ganharei uma provável antipatia. O que fazer? De repente uma idéia.
Desliguei o chuveiro, me sequei rapidamente e entrei no quarto ainda molhado:
- Olha, estava pensando. A cama é grande, acho que tem espaço para nós dois.
- Eu estava pensando a mesma coisa.
- Sério... ?
- Sim!
- T-tem c-certeza? Olha que eu sou perigoso. (ra ra ra)
- Não tem problema eu me enrolo no meu colchonete.
Deitamos os dois. Um para cada lado. Ela colocou um CD, Smiths, deixamos a luz do abajur acesa, bem fraquinha e conversamos um pouco. Ela estava simpática, mexia no cabelo, sorria e dava vários sinais... Mas o que fazer? Sei lá, não é todo dia que você fica numa cama de casal com uma chilena gostosíssima na situação de flatmate.
- Thiago, você tá com sono?
- Não, e você?
- Também não.
- Pois é.
- O que você quer fazer?
Putz... é agora. Mas o que dizer? Deveria ter dito algo do tipo: Quero fazer sexo com você como um animal, te partir no meio, te pegar de jeito, te fazer mulher!
Mas em vez disso, com medo de ser indelicado ou encarar mais uma vez a rejeição, consegui apenas dizer:
- Bom, tenho um baralho na mochila... quer jogar cartas?
- Ok.
E, de fato, jogamos cartas por um bom tempo. Shit Head. Até que foi bom... fazia tempo que não jogava esse jogo. Depois viramos cada um para seu lado e dormimos.
No dia seguinte The Legend não podia acreditar:
- What? You played cards with her????
- O quê? Você jogou baralho com ela????
- Yes.
- Strip poker?
- Fuck, I should’ve thought about this.
- Porra, devia ter pensado nisso.
- For fuck sake, man!
- Mas que porra, cara!

27 Dezembro 2006

Eu e Pita

Meus dias de folga no Café são toda quarta e quinta. Pita folga nas segundas e terças. No entanto ela trabalha em outro restaurante à noite, e tem folgas as quartas e quintas-feiras. Geralmente são nesses dois dias, quando tenho folga no Café e ela tem folga no restaurante, que saímos para fazer alguma coisa. Ela passa em casa após o serviço, geralmente chega com uns muffins ou sanduíches, comemos tudo, fumamos um baseado e vamos pra rua achar o que fazer.
Sempre que passamos por uma das esquinas da Hereford St., uma que tem uma casa grande com um bonito jardim, ela pega uma flor e prende no cabelo. Ela tenta me dar uma, mas nunca aceito, acho meio estranho vê-la com aquela decoração hippie andando nas ruas de Christchurch, mas nunca disse nada. Às vezes passamos na Liquor Store, compramos umas cervejas e vamos para minha casa ou para a dela. Outras vamos para o Mickie Finns jogar conversa fora.
A chilena é demais, gosto de conversar com ela, tem um bom senso de humor e não é do tipo que liga muito para aparência. A mulher perfeita bebe, fuma, fala besteira.
Mas não... nada aconteceu.
No começo bem que tentei, mas não rolou. Rodrigo, um dos chilenos, me disse que eu cruzei a linha:
- You cannot be so close to the girls in Chile. You crossed the line, man. She has you like a friend now.
- Você não pode ficar tão perto das garotas no Chile. Você cruzou a linha, cara. Ela tem você como um amigo agora.
Não sei se é verdade. O fato é que depois de um tempo desencanei. Não é minha culpa se ela não quer aproveitar nossos dias de folga de uma maneira mais física. Mas se pensar bem até que foi melhor assim. Conheci vários amigos dela, amizades que ela construiu e compartilhou comigo sem problema nenhum. Certa vez fumamos ganja com um grupo de franceses e... juro... foi uma das coisas mais bizarras e engraçadas que fizemos. Isso fora algumas figuras como um irlandês que fala um pouco de português com sotaque de Angola, um Italiano, comissário de bordo com trejeitos gays e um chefe de cozinha, árabe de Omã.
Nossas saídas durante a semana irritavam Francisco e The Legend.
- Man, are you fucking this chilean or not?
- Cara, você está comendo essa chilena ou não?
- No, I'm not
- Não, não estou.
- For fuck sake, how is it possible? You two are always together.
- Mas que porra, como é possível? Vocês dois estão sempre juntos.
- I don't know, man... Really, I don't know. I try, I swear!
- Não sei, cara...Sério, não sei. Eu tento, eu juro!
Teve um dia que bebemos demais e dormimos na sala, os dois juntos em cima do pufe. Na manhã seguinte acordei com Francisco me cutucando e falando baixinho para não acordar a chilena:
- Very Good, Thiaguinho! Congratulations.
- Muito bem, Thiaguinho! Parabéns.
Depois desse dia não teve como desmentir o fato de que eu havia comido a chilena, todo mundo na casa acorda cedo na quinta-feira e todo mundo nos viu em cima do puff sob as cobertas.
Mas não... não rolou. Tentei! Abracei ela durante a noite, dei beijinhos no pescoço... mas nada... Ela não quis.
The Legend não se conformava:
- Fuck, man! She`s lesbian, I'm sure she`s lesbian... how is it possible?
- Porra, cara! Ela é lésbica, tenho certeza que ela é lésbica...como é possível?
O fato é que gostava muito de Pita, poderia ter saído bem mais com o pessoal da casa, mas sempre optava por sair com a chilena. Pagava um preço caro por isso, às vezes tinha que ver Francisco, um chileno de um metro e meio, chegar com turistas bêbadas dos Night Clubs e contar suas aventuras sexuais no dia seguinte.
Mas no fundo quem se importa... a imagem de Pita com aquela flor na cabeça e aquele baseado nas mãos vai fica marcada na minha memória muito mais do que qualquer garota bêbada que viesse a encontrar nas baladinhas de Christchurch.

25 Dezembro 2006

The Legend

O fluxo de habitantes na casa é imenso, vários chegaram, vários saíram. Entre as principais ausências está Porto Rico, que viajou para Blenhein. Entre os principais recém-chegados está Juan… mais conhecido como The Legend.
Não vou ter tempo de escrever sobre todos que passaram pela casa em Hereford St., mas com certeza tenho que falar sobre esse cara. Ele chegou numa tarde qualquer, Robin, a corretora, tinha dito que um brasileiro ia mudar para a casa. Pensei, puta-que-pariu, mas é bem tontinha, do tipo que confunde Brasil com Argentina (vocês não tem idéia como isso acontece no exterior), e o argentino chegou faceiro, fez amizade rapidamente e começou a dormir no quarto que fica ao lado da TV room.
Juan trabalha como porteiro no Copthorne, a mesma rede de Hotéis que trabalhei em Queenstown. Seu turno é à noite, entra às 4 da tarde e termina lá pelas 10 da noite. Eu e Emilio costumávamos ver TV até tarde. Nas duas primeiras vezes que ele passou por nós acompanhado, não dissemos nada. Mas na terceira nos entreolhamos:
- Fuck, this guy is good!
- Porra, esse cara é bom!
E o the Legend nao é good, ele é fucking good! Ele foi apelidado de Dom Juan pelas garotas da casa, mas os caras preferem chamá-lo de The Legend; pra ficar com tantas garotas na Nova Zelândia só mesmo sendo uma lenda.
Mas o sujeito é um barato, às vezes o encontro na rua indo para a academia com sua camisetinha regata, no fim de semana se arruma todo, passa perfume, veste boas roupas, investe pesado no visual e como é simpático o filho-da-puta!
Não demorou para sua fama se espalhar pela casa.
Não que o Don Juan seja criterioso nas suas conquistas, na maioria das vezes aparece com cada baranga na casa. Um dia entrou com uma kiwi horrível, feia, gorda e acabada, olhamos para ele, e quando ela passou, ele disse baixinho:
- Relax, is just for fuck.
- Relaxa, é só pra comer.
Outra paixão do The Legend é a roleta. Ele tem uns cupons do Hotel que dão direito a refeições grátis no cassino da cidade. Fui um dia jantar com ele e Rodrigo, comi um baita sanduíche de carneiro e bebi uma Guinnes de graça, estava feliz da vida na cadeira e Don Juan anunciou:
- Ok, lets go to the roulette!
- Ok, vamos para a roleta!
Ele começou apostando 10 dólares, ganhou, perdeu, botou mais dez, depois mais 50, depois 100 dólares. Olhei admirado, como pode, ele vai perder tudo.
- Hey, man, let’s move… you are losing you money.
- Ei, cara, vamos... você está perdendo seu dinheiro.
- Relax, guys. Watch and learn
- Relaxem...assistam e aprendam.
E ele colocou mais 100 dólares e começou a recuperar o dinheiro. No fim saiu do cassino com 50 dólares a mais do que entrou… isso sem contar a janta que comemos de graça.
Ele seria uma espécie de James Bond latino, é bem seguro e comedor, mas tem aquele jeitão que só quem é da América Latina tem: bem bagaceiro, como diria minha vó. Outro dia começou a correr atrás de Julie, a irlandesa, balançando um pepino entre as pernas.
Já Francisco, um dos chilenos, é uma versão do The Legend que não deu certo. Ele é baixinho e falante, mas não pega ninguém. É um barato ir com os dois para a balada. Eles vão pelas ruas gritando palavras em espanhol para las chicas.
- Señoritas, dáme uma mamada!
E depois viram pra mim e dizem:
- They love when we do this, spanish is fucking horny.
- Elas amam quando a gente faz isso, espanhol dá tesão pra caralho.

20 Dezembro 2006

Full Moon Party

Encontrei Hassim na cozinha antes de ir trabalhar naquela sexta-feira. Conversamos um pouco, perguntei coisas sobre a Arábia Saudita, sobre como era o dia-a-dia dos árabes, se tinham coca-cola, se comiam no Macdonald’s, se ele já ouvira falar sobre a MTV. Descobri que Hassim é um saudita bem ocidental, bom... pelo menos tenta ser. Diz que não segue os preceitos do alcorão, que não é nenhum fanático religioso e que seu pai não é dono de nenhuma refinaria de petróleo nos Emirados Árabes. No entanto, ele é o mais diferente na casa; o que vem de uma cultura mais longínqua e desconhecida. Sinto que Hassim tem uma dificuldade grande para se enturmar com o pessoal. É sua primeira vez no exterior como a maioria dos habitantes da casa, porém, de todos, ele é o que realmente mudou de planeta. De vez em quando ele leva alguns amigos sauditas para a casa, eles são todos iguais, bem diferentes de nós. Por exemplo, quando conversam com você olham no interior dos seus olhos e continuam olhando por um bom tempo como se fossem roubar sua alma ou te hipnotizar, falam devagar, pausadamente, e sorriem com os olhos ainda fixos nos seus, são bem educados e a maioria tem um quê de Omar Charif em Lawrence da Arábia.

Quando voltei do serviço encontrei Emilio, Julie, Rodrigo e Francisco conversando com um italiano, uma japonesa e um kiwi na entrada dos fundos. Na maioria das vezes encontro gente nova naquela área, geralmente são amigos de amigos de conhecidos que vem parar ali e ficam horas proseando. O clima naquela área é muito bom, quando a noite vai caindo a gente acende algumas velas para iluminar o local e segue batendo papo noite adentro, Emilio às vezes prepara um chimarrão, mas só eu e ele bebemos, o resto não gosta e as irlandesas só olham assustadas. A temperatura durante a noite não é sempre fria, com a chegada da primavera tivemos várias noites mornas e relaxantes. No entanto naquele fim de tarde o clima era outro.
O italiano se apresentou com seu forte sotaque e volume vocal acima da média:

- Hello, my name is Andreas. I'm from Italy. How are you?
Eles anunciaram que naquela noite teríamos uma grande festa no alojamento.
Andreas nos ofereceu uma carona até o Pack 'n Save para comprarmos bebidas. Ele era amigo de Emilio, o argentino, os dois trabalharam juntos em um restaurante um tempo atrás. O italiano viaja a Nova Zelândia com sua vã. Ele segue de cidade em cidade dormindo no seu veículo. Muita gente faz isso na Nova Zelândia, principalmente os europeus. Em Christchurch é possível ver diversas vãs bem ao estilinho hippie, com cortininhas nas janelas, símbolos pintados à mão do lado de fora e, provavelmente, um saquinho de ganja no porta-luvas. É um dos estilos de viajantes da Nova Zelândia... um dia faço um post para descrever todos que já encontrei.
No caminho o italiano começou a falar espanhol com Emílio.
- Do you speak spanish?
- Yes, yes... I speak spanish.
É muito engraçado o jeito que ele fala, bem estereótipo de italiano, sempre gritando e gesticulando com as mãos. Andreas morou 5 anos em Ibiza, na Espanha, trabalhava de garçom na ilha e aprendeu a falar espanhol lá.
Compramos as bebida e voltamos para casa.
Jaime, o porto-riquenho, colocou o estéreo na cozinha. Várias músicas latinas rolaram no aparelho. Nisso começou a chegar dezenas de chilenos na casa... vários deles. O tempo passou e todos ficaram bêbados, a festa estava cheia. Lotada!
As irlandesas dançavam no pátio, queriam aprender todas as danças típicas de todos os países, chamavam um por um e tiravam para dançar. Rodrigo tentava ensinar espanhol para um casal de kiwis muito bêbados e eu tentava paquerar uma mexicana que não falava nada de inglês.
Eu era o único brasileiro na casa. Tem qualquer coisa de estranho em ser o único representante de uma nacionalidade num lugar cheio de gente do mundo inteiro, você se sente um embaixador, um representante nacional. Todo mundo vinha me perguntar coisas sobre o Brasil e eu podia mentir o quanto quisesse, falar as maiores barbaridades e não teria mais ninguém para desmentir. Mas até que eu me comportei, falei sobre os problemas brasileiros, dei um panorama político, discursei sobre as mazelas sociais e me dei conta de que do grupinho de 5 ouvintes não me restara nenhum.
Nisso Hassim chega todo tímido na casa. Acho que ninguém havia informado a ele sobre a festa. O pobre saudita olhou para aquela casa em ferveção e tentou se enturmar, andava de um lado para o outro, se encostava numa rodinha, deslizava para outra, andava em círculos. Resolvi oferecer uma cerveja para ele.
- Thank you!
O italiano falava alto, dançava bêbado com uma das irlandesas e repetia:
- Full moon, baby, full moon party!
- Lua Cheia, baby, festa da lua cheia!
A lua estava redonda no céu. No início da festa era uma imensa bola iluminada do lado direito, com o passar do tempo chegou no centro, pronta para cair de novo no horizonte. Nessa hora todos os latinos cantava e dançavam para alegria de alguns europeus, que olhavam tudo aquilo admirados, como se fossem jornalistas da National Geographic.
Foi então que Jaime olhou para mim e começou a ensaiar uns passes de capoeira, eu, muito bêbado, entrei na brincadeira. Nisso um filho-da-puta grita:
- Hey, come on, everybody, the brazilian will play capoeira with Jaime.
- Ei, vem todo mundo, o brasileiro vai jogar capoeira com o Jaime.
A festa parou, todo mundo correu para ver o brasileiro e o porto-riquenho jogar capoeira, tiraram o som e começaram a bater palmas. Engoli em seco… o que fazer? Jaime continuava com seu gingado, e todo mundo batia palma esperando eu fazer alguma coisa. Parei, pensei… caralho, nunca joguei capoeira na vida… puta-que-pariu que vergonha. Levantei a perna num movimento desastrado e acertei o porto riquenho na cabeça. Ele ficou zonzo por alguns segundos e depois começou a rir. Todo mundo abandonou a roda, desapontado.
Jaime é a alegria das duas irlandesas, ele é tudo o que duas européias jovens e loucas por novas experiências gostariam de ver numa viagem. Ele é o latino doido, está sempre se pendurando nos postes, dançando salsa, falando besteira, fumando maconha e tentando comer as garotas. Mas o sujeito é muito gente fina, me lembra um pouco o Renato Aragão. Disse isso pra ele um dia e ele se apelidou de Renato Aragão (claro que ele nunca ouviu falar do trapalhão, só achou o nome engraçado e começou a usar).
Em certo momento ele chegou para mim.
- Hey, Thiaguinho, let’s smoke.
- Ei, Thiaguinho, vamos fumar.
O quarto dele fica do lado da cozinha e é o segundo fumódromo da casa, mas é somente para o produto natural, nada de nicotina ou alcatrão. Entramos no quarto eu, ele, Ignácio e uma garota chilena. Chapamos, conversamos, demos risadas e nem notamos uma presença estranha no quarto. Foi meio surreal, mas olhei para o lado e exclamei:
- Hassim!
Ele estava encostado na parede observando tudo desde o começo. Os outros três também não tinham notado a presença do saudita e ficaram surpresos em vê-lo.
Jaime disse:
- Do you wanna smoke?
- Quer fumar?
- Yes.
- Sim.
Nos entreolhamos os quatro.
- Have you ever smoked before?
- Você já fumou antes?
- No.
- Não.
A garota chilena falou, preocupada:
- So, just a little bit because is very strong.
- Então, só um pouco porque é muito forte.
E Hassim provou pela primeira vez a ganja neozelandesa.
Minutos depois ele estava dançando com Francisco do lado de fora tentando cantar em espanhol, tirou sua jaqueta azul, abriu três botões da sua camisa e era um perfeito latino na multidão.
Todos estavam cantando bem alto e animadamente, Jaime me chamou de novo e perguntou se eu não sabia alguma música em português… pensei por alguns segundos e comecei:
Ô ô ô Barbosa, essa curva é perigosa.
Cantei duas vezes sozinho e na terceira todo mundo pulava e cantava animadamente minha música preferida de carnaval com uma mistura de sotaques incrível.

Foi muito bacana essa festa da lua cheia. Claro que tivemos várias outras, todo fim de semana. Não vou ter tempo de escrever sobre todas, mas por essa já da pra ter uma idéia de como me diverti na cidade de Christchurch.

Quanto a Hassim, ele finalmente se enturmou com o pessoal.
Comentei o caso com Mostafa um dia quando passei para comer um souvlaki. Ele exclamou:
- He did that in the Ramadan?
- Ele fez isso no Ramadã?
O Ramadã tinha começado no início de Outubro. Mostafa também fuma ganja, mas não durante o Ramadã. Expliquei que Hassim não era religioso, que não seguia os preceitos do alcorão.
- He can say this here, Alejandro! Ask him if he can do this in Saudi Arabia.
- Ele pode dizer isso aqui, Alejandro! Pergunte se ele pode fazer isso na Arábia Saudita.
Mas no fundo entendo Hassim. Não que eu vá criticar sua religião, pelo contrário, acho que a premissa do Ramada é uma das coisas mais nobres que existem. Como Mostafa me explicou um dia:
- Alejandro, you cannot eat during the Ramadan because we are everybody humans, and if you are rich and I’m poor, we feel the same. Same felling, Alejandro, it doesn't metter how much money you have, it doesn't metter how much food you can buy. You’ll be hungry like me.
- Alejandro, você não pode comer durante o Ramadã porque somos todos humanos, e se você é rico e eu sou pobre, nós sentimos o mesmo. Mesmo sentimento, Alejandro, não importa o tanto de dinheiro que você tem, não importa o tanto de comida que você pode comprar. Você ficará com fome que nem eu.

Mas se parar para pensar, naquela noite não eram chilenos, brasileiros, italianos, irlandeses, mexicanos, holandeses ou sauditas que se divertiam sob aquele céu estrelado e aquela lua redonda e enorme. Não! Quem prestar atenção verá apenas jovens de culturas e línguas diversas tentando se entender, tentando ter algo, tentando chegar a um lugar comum sem guerra, sem violência, sem preconceito.

Same felling, Alejandro.

17 Dezembro 2006

Greg...

Teve um momento em que tudo deu errado. A casa tinha caído, estava sozinho num backpack, 14 mil quilômetros longe de casa, sem dinheiro, sem amigos, sem perspectivas. Tinha recém tomado um fora de uma brasileira, sido recusado em diversas entrevistas de emprego e passado diversas noites com fome. Estava derrotado, desanimado e triste.
Ainda nessa época costumava andar sozinho pelo centro de Christchurch. Jovens vestiam suas roupas de balada e iam curtir a noite na cidade, grupinhos de adolescentes passavam rindo e eu sentava só num banco de praça e me punha a ver o movimento; sempre com a mesma roupa: minha velha jaqueta, meu boné verde e minhas calças ainda sujas das terras da vineyard.
Foi num desses dias de solidão que vi de longe uma figura familiar; um sujeito trajando sua jaqueta xadres surrada, calças com joelhos rasgados e seu gorro preto na cabeça.
- Greg!! Exclamei.
O sujeito se virou assustado e me reconheceu de imediato.
- Thiaguinho... what are you doing here?
- Thiaguinho...o que você está fazendo aqui?
- I got out of the vineyards.
- Saí das vineyards
Ele ainda estava um tanto surpreso ao me ver, mas sentou no mesmo banco que eu e começamos a conversar.
- How you're doing?
- Como você está?
- Pretty well. What a nice surprise see you here.
- Muito Bem. Que surpresa ver você aqui.
Era uma noite de sábado, sentamos naquele banco e conversamos por cerca de 4 horas. Contei toda minha trajetória, que saíra de Cromwell, que pegara uma carona, que chegara em Christchurch, que estava procurando emprego, que tomara um fora de uma brasileira e que minha vida era uma merda.
Para quem não se lembra, Greg, mais conhecido como Hellboy, é o misterioso sujeito que conheci em Cromwell... Estranho como sempre o encontro nos piores momentos.
- Don't worry Thiaguinho, we're just to people who listened too much good music, two existentialists drifters in a crazy world.
- Não se preocupe, Thiaguinho, nós somos apenas pessoas que ouviram muitas músicas boas, dois vagabundos existencialistas num mundo louco.

Por fim contei que escrevera sobre ele no meu blog, que o descrevera como meu lado religioso, e que sua figura era um mistério para todos na vineyard:
- You are a fucking mistery, everybody has a theory about you. Smurf, for example, she thinks you are a guy in the witness protection service.
- Você é um puta mistério, todo mundo tem uma teoria sobre você. Smurf, por exemplo, acha que você é um cara no serviço de proteção à testemunha.

Ele riu bastante com essa.
- You know, I was thinking that you started to be more religious after the accident. It's just a bad experience, you don't need to try to find an explanation for everything.
- Sabe, fiquei pensando que você começou a ser mais religioso depois do acidente. É apenas uma experiência ruim, você não precisa tentar achar uma explicação pra tudo.
Nesse momento um sujeito, testemunha de Jeová, veio tentar converter os dois pobres mendigos que sentavam sem perspectivas naquele velho banco no centro da cidade.
- Sorry, don't waste yout time with us, disse Greg
- Desculpe, não gaste seu tempo com a gente.
Quando o sujeito, depois de ainda insistir um pouco, foi finalmente embora, Greg virou pra mim e disse:
- You see, he tries desperately to find an explanation for his existence... so he just exists to justify himself with something else.
- Vê, ele tenta desperadamente encontrar uma explicação para a sua existência...assim ele apenas existe para justificar ele mesmo com mais alguma coisa.
Alguns minutos de silêncio.
E então ele se levantou e partiu.

13 Dezembro 2006

LÍNGUA

Outro dia me peguei lembrando do primeiro backpack que fiquei na Nova Zelândia, o Pinewood. Na época escrevi que sentava na sala tentando entender o que os canadenses diziam. Hoje, mais de 8 meses depois, posso dizer que não passo mais aperto com o inglês, falo com qualquer um e tenho várias amizades que construí através do idioma. É engraçado, mas o processo de aprendizagem fora da escola é algo que merece, no mínimo, um post.

A parte mais difícil é entender. Você precisa calibrar seu ouvido para o idioma, eu nunca havia estudado inglês antes, só alguns meses no básico da Wizard e aquelas aulas horríveis que eles dão nas escolas públicas. No entanto considerava que após tantos anos assistindo filmes legendados e repetindo frases célebres do cinema (como: Are you talking to me?) fosse o bastante para me dar um nível mais que necessário para começar. Que nada, é uma merda, e a vida real não tem legendas... no início é desesperador, você não sabe o que fazer, lembro que me trancava no quarto em Queenstown e passava horas tentando traduzir textos, estudando, escrevendo, mas quando meu flatmate inglês chegava, eu perdia o rumo, não conseguia ter um diálogo, perguntava "what" umas mil vezes e ele desistia de tentar se explicar.
Mas o tempo passou e hoje entendo tudo. Consigo ver TV e saber o que o que estão falando, não preciso pedir para ninguém falar devagar ou repetir frases, pego um jornal e consigo entender tudo. De certa maneira tenho orgulho desse meu curso de inglês, não digo do cursinho que fiz em Queentown, não, esse foi só um mês e não me ensinou nada, minha grande prova foi a Nova Zelândia: o curso de inglês mais roots de todos os tempos. Uma sala de aula onde você tem que se virar ou morrer.
Mas, mesmo ou por causa de todas essas reviravoltas em minha viagem, posso garantir que, quando falo, meu inglês é de dar dó. É como se eu fosse Al Paccino em Scarface, um emigrante cubano que aprendeu inglês nas ruas. Sempre exagero nos palavrões, de cada 5 palavras que falo duas são "fuck", uma é "motherfucker" e outra é "fuck" de novo. Falo tudo errado, não tenho as regras de gramática na minha cabeça e deixo algumas senhoras do café de cabelo em pé.
Outro dia estava processando um pedido na registradora quando apertei um botão errado:
- Fuck sake!!!
- Que Porra!!!
A senhora me olhou com uns olhos arregalados, bem assustada. Me deu o dinheiro e foi sentar quase em estado de choque. Mas o que fazer? Não é minha culpa, já passei por várias dessas situações, mas não consigo aprender. Adquiri um inglês de marginal, convivi muito com outros imigrantes e perdi o controle. Não que isso seja de todo mal, às vezes é bom para dar o tom. Quando você esta fazendo uma reclamação, por exemplo, com três "fucks" você consegue resolver seu problema.
Outra coisa é o sotaque, com o tempo você aprende que não precisa exagerar na pronúncia para os outros entenderem, e melhor, com o tempo descobre que os nativos de língua inglesa simplesmente adoram um sotaque... principalmente as garotas.

Sobre sotaques

A questão do sotaque é algo que também merece uma reflexão. Primeiro que é impossível fugir dele, falar inglês como segunda língua é como vestir uma roupa típica do país de onde vem. Algo que denuncia sua origem e não pode ser descolado de você. O fato é que todas as nacionalidades que encontrei estão bem à vontade com essas roupas, menos os brasileiros.
Os franceses adoram seus próprios "rr" e biquinhos que usam pra falar inglês. Conheci um amigo de Pita que se recusava a usar a palavra "sorry" de maneira correta:
- Sorri, I'm french, this is my accent.
- Sorri, sou francês, esse é o meu sotaque.
Os hispânicos se acham "calientes", falam alto e exageram nos "tt" como "tchoes" (shoes) e "espanitchi" (espanish). Eles não estão nem aí, gostam do próprio sotaque e fazem questão de usá-lo. Os orientais, principalmente os chineses, têm problemas com os "ll" e "rr": "tomolow" (tomorrow), "dola" (dollar), tem um sotaque horrível que muitos não entendem, mas, mesmo assim, não têm vergonha de falar. Isso fora os italianos, árabes, tailandeses, russos, croatas, húngaros e outros tantos que falam bem à vontade.
E assim vai, todos tem uma particularidade que é reconhecível no inglês, é impossível escapar disso se você esta a menos e 5 anos no exterior e ainda mantém algum contato em sua língua nativa. No entanto o brasileiro não aceita isso, tem vergonha de falar inglês e acha o próprio sotaque horrível. O que é uma grande besteira.
Confesso que no começo tinha certa aversão a ouvir brasileiro falando inglês. Mais tarde descobri que isso se dá pelo fato de nosso sotaque ter sido destruído por bandas como Mamonas Assassinas e Reginaldo Rossi. Pois é, o sotaque brasileiro é isso mesmo: "biutiful, is veri goodi, I'm noti dogui no". A questão é... nosso sotaque é feio ou só foi ridicularizado?
O brasileiro tem essa coisa de rir do companheiro quando este tenta falar inglês, eu e meu irmão nos acabávamos em risos jocosos quando meu pai tentava falar alguma coisa em inglês:
- Não é "milqui" pai, é milk! Dizia meu irmão.
A questão é... Who cares? Os gringos entendem quando falamos "milqui", eles estão preparados para todos os tipos de sotaques e sabem do esforço que fazemos para aprender a língua deles. Não conheço um que tenha feito críticas ao inglês de um não-nativo. Eles sempre, mas sempre mesmo, dizem a seguinte frase quando você começa uma conversa alertando-o sobre seu inglês precário:
- Don't worry, I bet your english is better than my portuguese.
- Não se preocupe, aposto que seu inglês é melhor que o meu português.
O brasileiro é, portanto, vítima do seu próprio preconceito. E posso garantir que a situação aqui no exterior é de dar dó. Somos sempre visto como os sujeitos que não falam inglês e toda vez que me apresento como brasileiro sei que logo depois vem a frase:
- Really? your english is very good for a brazilian.
- Sério? seu inglês é muito bom para um brasileiro.
A questão é... eu abro a boca, os outros não! Pra que querer ter uma pronúncia britânica ou "yankee" se você é brasileiro? Conheci um brasuca que falava exatamente como um americano, copiava direitinho os "ars" nos finais das palavras e se orgulhava disso. Pra quê? Isso sim é vergonhoso. Pra que copiar um sotaque se quando perguntarem da onde vens você vai ter que dizer: Brasil!
Acho que está na hora do brasileiro se assumir. Nessa minha viagem o que mais senti falta foi de uma identidade nacional, algo que represente o Brasil. Há algum tempo atrás tínhamos a Bossa Nova, outro dia estava ouvindo um CD de uma chilena com músicas onde Tom Jobim e outros mestres cantavam em inglês... porra, nosso sotaque é magnífico! É o mesmo "I'm noti dogui no", mas em ritmo de Bossa Nova é brilhante. Um sotaque cheio de ginga, cheio de samba, leve e gostoso. No entanto, para os gringos em geral, principalmente os mais novos, não temos um sotaque muito definido. Quem fala bem tenta copiar americanos ou britânicos e quem fala pouco não fala nada de vergonha. Nossa cultura não é divulgada, os brasileiros não fazem amigos ao redor do mundo, não aprendem nada, não ensinam nada, não trocam nada. São uns maricas que quando abrem a boca é pra falar besteira sobre violência, assalto, roubo, tráfico de drogas e outros problemas que enfrentamos no Brasil. Tudo bem alertar o mundo sobre nossas mazelas, mas que o façamos com um contexto, que expliquemos a situação, não simplesmente dizer coisas do tipo:
- Don't go to Brazil, it’s too dangerous!
- Não vá para o Brasil, é muito perigoso!
Vocês não fazem idéia de como ouço isso por aqui. Brasileiros que jogam no lixo todo esforço para conseguirmos turistas, toda batalha de um setor, todo sangue e suor de trabalhadores honestos que fazem de tudo para promover um bom tempo aos turistas. Antes de vir para o exterior achava que os brasileiros aqui eram heróis, eram aventureiros que cruzavam mares para buscar novas experiências e divulgar o nome do Brasil pelo mundo. Besteira! Grande parte dos problemas que enfrentamos no nosso país se deve a esses filhos-da-puta que estão aqui, imaginem quantos turistas não perdemos por causa desses ignorantes.
A Nova Zelândia é como uma grande conferência, uma mesa da ONU, um portão de embarque de um aeroporto internacional e todos estão trocando idéias, todos estão conversando, todos investindo no futuro, falando bem de seus países, aprendendo coisas novas, abrindo portas. Menos os brasileiros, que são um grupinho em excursão, assustados com o mundo, presos aos seus próprios preconceitos, isolados no fundo do portão de embarque e rindo dos companheiros que tentam ir pra frente.

08 Dezembro 2006

Mrs. Richardson

Ela sempre adentra o café com seus passinhos lentos e pausados, vestindo seu tailleur xadrez e bolsinha pendurada no antebraço. Mrs. Richardson é a cliente mais regular entre todos os clientes regulares. Mas quando digo que ela é regular não quero dizer que ela vem todo dia ao café. Não! Mrs. Richardson não vem todo dia, ela vem TODA HORA!
Pelo menos umas três vezes ao dia vemos essa distinta senhora adentrar o recinto, ela se posiciona em frente à estufa de salgados, estende seu dedinho magro e enrugado, olha para quem quer que esteja para atendê-la e diz:
- Two ham sandwiches, please.
- Dois sanduíches de presunto, por favor.
Logo depois ela se dirige ao caixa e completa:
- And a pot of tea, please.
- E uma jarra de chá, por favor.
É sempre a mesma coisa, todo dia o mesmo pedido. Pita não entende o porquê dela pedir:
- For fuck sake, she doesn’t need to ask, why she has to ask? She just need to go to the till and pay.
- Mas que porra, ela não precisa pedir, por que ela tem que pedir? Só precisa ir no caixa e pagar.
Mrs. Richardson não gosta de tomar seu chá no cup, ela prefere beber na mug, se você pega a xícara, ela só diz:
- Nope.
E aponta para a canequinha que fica ao lado. O pote de chá também tem que ser numa jarra especial, se você pegar a jarra errada, vai ouvir o mesmo:
- Nope.
Mrs. Richardson pega a bandeja com seu chá e seus sanduíches e senta na mesma mesa. Todo dia na mesma mesa! Um dia ela estava ocupada e Mrs. Richardson fez uma cara feia, sentou à mesa do lado, esperou até os clientes saírem e pulou para sua mesa.
Sempre quietinha e sorridente, ela segue bebendo seu chá e comendo seu sanduíche de presunto sem importunar ninguém. É como se fosse uma decoração no café, sempre no mesmo lugar, não importa que horas você passe no café, as chances de encontrar Mrs. Richardson são de 90%.
Outro dia, perto do fechamento, conversei com ela enquanto varria o chão. Perguntei se ela gostava de cinema:
- Yes, I like.
- Sim, eu gosto.
- What is your favorite movie?
- Qual seu filme preferido?
- The Dam Busters
- "Labaredas do Inferno"
- Ah, do you like war movies?
- Ah, você gosta de filmes de guerra?
- Some of them
- Alguns deles
Ela contou que morava numa cidade na West Coast, que ia muito ao cinema por lá e que se mudou para Christchurch com seu falecido marido. Fez uma cara triste quando falou do falecido…
…não tive coragem de perguntar do que ele morreu.

Sobras
Todo dia quando fechávamos o café jogávamos um monte de comida no lixo. Isso me deprimia e me enervava ao mesmo tempo. Primeiro que sou brasileiro, no meu país tem gente passando fome, e segundo que eu sou um brasileiro no exterior e EU passo fome às vezes. Após alguns dias no café, quando já tinha uma moralzinha com a chefia, pedi para levar a comida para casa.
Passei a encher sacolas e mais sacolas com muffins, friands, rapps, sandwiches e sair feliz da vida pela rua dando comida pros meus amigos. Fiz amizade com um etiopiano da faxina e de vez em quando dou uns sanduíches pra ele, sempre passo no Mostafa e deixo uns muffins , quando chego em casa sou recebido com festa pelos meus flatmates; Francisco sempre saí pela casa gritando:
- Free food, free food, come on everybody, free food.
- Comida de graça, comida de graça, vem todo mundo, comida de graça.
Um dia Natasha me viu dando comida para o etiopiano:
- Never do this again! Otherwise they will start to come here and ask for food.
- Não faça isso de novo. Senão eles vão começar a vir aqui e pedir comida.
- Come on, he is from Ethiopia! He' s just poor, he’s not a fucking dog.
- Que isso, ele é da Etiópia! Ele só é pobre, não é um cachorro.
Os kiwis não entendem certas coisas.

05 Dezembro 2006

About Cappuccinos

Meu novo estilo de vida é acordar, me locomover pela bagunça do quarto, achar meu uniforme, tomar um banho, me vestir, passar pelo Star Café, beber um Long Black, comer um muffin, ler o The Press e ir para o Robert Harris Café trabalhar. Geralmente entro no serviço às 11 da manha, exceto nos finais de semana, quando entro lá pelas 9.
A cidade de Christchurch está cheia de cafés, tem para os mais diversos estilos, os meus preferidos são o Vivaci, que fica na Hereford St., e tem um ar meio parisiense, e o Star, que fica perto de casa, tambem na Hereford St., só que bem mais barato que o Vivaci e sem estilo nenhum.
Já o Robert Harris Café é bem do tipinho posh burguesinho, caro pra burro. Como funcionário posso comer qualquer coisa pela metade do preço e beber cafés de graça na hora do meu intervalo. Trabalho todo dia pensando nesse intervalo. Quando ele chega, vou a cozinha checar se tem alguma comida de graça, geralmente sobra do dia anterior, se não tem vou até a vitrine e escolho bem minha refeição. A salada é divina, eles chamam de Marinate Vegetable e servem num pratinho minúsculo por três dólares. Eu pago 1,50 e sirvo num pratão. Fora isso gosto de comer a batata recheada e a torta de salmão. Às vezes opto pelo sanduíche de aspargos ou pelo muffin de tomates secos… o de espinafre com cream cheese também é uma delícia. De sobremesa às vezes pego um blueberry friend ou um pedaço da torta de maça. Isso quando eles não fazem o bolo de floresta negra, humm esse é muito bom também. Ah tem também umas fatias de torta de limão que são fenomenais. De café experimentei todos, o meu preferido é o flat white, sem muita espuma e com um shot extra de café. Mas o mocaccino também é muito bom. E eles fazem aqui na Nova Zelândia um tal de chai thai latte, não sei se temos isso no Brasil, mas o lance é incrível: é uma espécie de chá que pode ser apimentado ou no sabor de baunilha e vem misturado com leite cremoso. Por um bom tempo fiquei no chai latte, mas depois passei a tomar green tea ou, durante o fim de semana depois das festas, um long black, tudo isso intercalado com o flat white
…virei um viciado em café.

Os clientes
Diferente dos clientes do souvlakis, os do Robert Harris Café são um saco. Geralmente são kiwis burgueses ou turistas endinheirados. Entre os regulares estão as senhoras do Ballantines, uma loja chique que fica bem em frente ao café. Elas vêm todo dia com suas roupinhas emperequetadas e sentam como finas senhoras da monarquia inglesa.
- I would like a cappuccino, please.
- Um cappuccino, por favor.
- Smal, medium or Large?
- Pequeno, médio ou grande?
- The same as every day.
- O mesmo de sempre.

Elas querem que eu lembre o que elas tomam, querem que eu saiba seus nomes, querem que eu leve o café de joelhos. Eu e Pita não estamos nem aí. Às vezes tenho certeza que Richard se arrependeu um pouco com nossa contratação. Olho para Pita de longe e quando um cliente chega para olhar a cabineta ela põe o braço em cima do balcão e perguta:
- What do you want?
- O que você quer?
Como se fosse uma garçonete de rodoviária.
Eu também cometo alguns erros, processo tudo na registradora e pergunto:
- What else?
- Que mais?
Quando Jo me ouviu fazendo essa pergunta veio ao meu encontro nervosa.
- Never ask "what else"… the correct is “anything else, sir?”
- Nunca pergunte "que mais"...o correto é "algo mais, senhor?"
De vez em quando vão alguns clientes bacanas, outro dia conversei com um maestro britânico. Disse que era brasileiro e ele me fez diversas perguntas sobre Tom Jobim, um de seus grandes ídolos. Teve um grego que tambémm foi bem legal, trovamos sobre souvlakis e ele me deu três dólares de gorjeta (Natasha pegou o dinheiro da minha mão e disse que ia colocar na caixinha dos funcionários para dividirmos depois).
Mas na maioria os clientes são como as mocinhas do Ballantines… fucking boring.

O trabalho
Sou contratado como café assistant. Basicamente é fazer cafés, servir no caixa, limpar mesas, levar pedidos da cozinha. Coisas básicas. O café é bem agitado às vezes, certos dias não temos nem tempo de respirar, tamanha a correria, todo mundo vai de um lado para o outro, as pessoas se esbarram, deixam cair pratos, se xingam. No entanto, certos dias o local é calmo como um cemitério. Geralmente nesses dias trabalho com Anne, já que na segunda-feira e terça-feira Pita está de folga; a minha é na quarta e na quinta. Anne é um porre. Fico com ela na parte da frente e não conversamos um segundo. Ela está sempre procurando o que fazer. Odeio procurar o que fazer. Às vezes encosto no balcão e só observo ela arrumar as garrafas na geladeira, ajeitar os guardanapos no balcão, passar pela quinta vez um pano nas janelas… não entendo isso. Se não tem nada para fazer não faça! Vem cá, vamos conversar, me conta mais sobre seu país, o que tem feito, o que tá achando da Nova Zelândia, o que vai fazer hoje à noite?
Às vezes Jo sai da cozinha, me ve encostado no balcão e diz:
- Don’t stay there, go find something to do.
- Não fique aí, vai achar alguma coisa pra fazer.
Nesse momento sei que Anne deve sentir um prazer especial, mas que se foda, não to nem aí, e tenho certeza que Jo também não está nem aí. O trabalho dos chefes é nos fazer trabalhar, e o nosso trabalho é procurar não trabalhar… o capitalismo sempre foi assim e sempre vai ser, é inexorável, essa é a regra básica, pra que serviriam os chefes se todos os funcionários fossem como Anne?
Pessoas como Anne só atrasam e complicam o processo.

30 Novembro 2006

Robert Harris Café

Richard é gay, percebi na entrevista em menos de meio segundo de conversa. No entanto só descobri mais tarde que ele era casado com Paul. Os dois, juntos, são donos do esnobe café que fica dentro do Food Court na Colombo St.
Jo é a gerente; Natasha, a supervisora; Ruth, a cozinheira; Leo, o lavador de pratos; e eu, Anne e Pita, os piões pra toda obra.

Mas vou falar mais sobre cada um deles.

Richard e Paul
Durante o fim de semana, quando costumo entrar mais cedo, Richard e Paul já estão na cozinha de aventalzinho, preparando os primeiros quitutes do dia, ouvindo Elton John. Richard às vezes canta no seu melhor agudo, abrindo os braços e cruzando as perninhas como se estivesse entrando num palco, no entanto ele parece sempre se lembrar de que, no fundo, é um britânico e encerra subtamente a coreografia grandiosa para apenas mexer um pouco os ombrinhos discretamente.
Já Paul tem um estilo mais gay classudo. Ele usa uns óculos sérios, tem uma barriga de tenor italiano e deve ser uns 10 anos mais velhos que Richard. Vê-lo com seu aventalzinho me lembra aquelas figuras antigas retratadas em quadros renascentistas. Ao contrário de Richard, ele é kiwi. Não sei bem a história dos dois, mas parece que se conheceram na inglaterra, se apaixonaram, mudaram para a Nova Zelândia e casaram.
Ambos são gente fina, não os vejo muito, mais durante o fim de semana, e, apesar de serem os chefes, são boas pessoas. Alegres e divertidos.

Jo
Ela é gordinha (uso o eufemismo gordinha, mas na verdade ela não é baixinha, é uma gorda alta) recém-chegada na casa dos 50, usa uns óculos pequeninos na ponta do nariz e tem uma risada engraçada e gostosa; do tipo que eles colocam em seriados americanos para dar o tom. Jo é do tipinho ágil, se move com maestria pelo café e, apesar do tamanho, não esbarra em ninguém - ao contrário de mim que sou um desastrado incorrigível. Não foram poucas as vezes que a vi no chão deitada, tentando concertar algo na cozinha ou em cima de uma cadeira procurando algo na prateleira. Quando o café fica agitado ela subitamente aparece na sua frente, dá uma instrução e, como num passe de dança, dá meia volta e desaparece. Ela parece ser a única pessoa no café que entende minhas piadas - ou, pelo menos, finge entender. Me olha por cima dos óculos e faz seu hahaha que percorre o café, banhando cada canto.

Natasha
Quando a vejo fazendo café, de perfil, parece que estou olhando para aquelas gárgulas de construções antigas. Baixinha, gordinha e queixuda, Natasha é do tipinho adolescente gótica, rebelde e acefalada. Ela tem 22 anos, mas parece que tem 11; não teria nada contra ela se não fosse minha chefe, algo que realmente me tira do sério, já que não dá pra simplesmente ignorar. Ainda mais quando a sujeita chega pra você e pergunta algo do tipo:
- Sorry, I don’t want to look stupid, but in what continent is Brazil?
- Desculpe, não quero parecer estúpida, mas em qual continente é o Brasil?
Ela é o estereótipo da pior face dos kiwis. Um dia chegou para mim e Pita e mostrou uma foto da sua filha.
- Oh, you have a daughter?!?
- Oh, você tem uma filha?!?
- Yes, she would've been the fourth if I hadn't done three abortions.
- Sim, ela teria sido a quarta se eu não tivesse feito três abortos.
Três abortos! Tudo bem que na Nova Zelândia é legalizado, mas precisa fazer três? O que mais doeu foi o fato dela dizer isso como quem diz: pô, comprei três sorvetes hoje... falou assim, na primeira conversa que tivemos, sem pudor nenhum.

Ruth
A maioria dos chefes de cozinha ao redor do mundo são pretenciosos, vaidosos, ególatras e arrogantes.
Ruth é exatamente como a maioria.

Leo
O lavador de pratos mais rápido da região de Cantembury, é como você pode chamar Leo. Esse chinês é dedicado ao extremo, é como se fosse um escravinho na cozinha: sua às bicas na pia e ainda ajuda na preparação das comidas. Às vezes quando vou aos fundos levar uns pratos sujos, vejo Ruth dando ordens ao pobre chinês, que corre desorientado tentando entender o inglês da chefe: Leo, take this; Leo, take that; No, Leo, not this; No, Leo, not this too.
Às vezes dou uma mão com as louças, tento conversar, mas ele não é muito de papo. So dou uns tapinhas nas costas dele e digo: Leozinho! Leozinho! Ele não entende nada... até explicaria o que significa o “inho”, mas ele nunca perguntou. Só me olha sem dizer nada e balança a cabeça como se eu fosse louco.

Anne
19 aninhos, narizinho pontudinho, corpinho de princesa, rostinho de anjo e pele de neném. Essa francesa é a coisa mais nojenta que já vi na vida.
Anne nasceu na Nova Caledônia, uma ilha de território francês que fica na Polinésia, perto da Nova Zelândia. Ela está no país há 3 anos e diz ter esquecido seu francês. Tentei trocar umas palavras com ela na sua língua, mas ela só me olhou por cima e disse:
- Sorry, I don’t like to speak french.
- Desculpe, não gosto de falar francês.
Eu e Pita ficamos admirados às vezes: como pode uma criaturazinha dessas?
Ela tem aquele ar esnobe, não conversa com ninguém que não seja do alto escalão e nunca, nunca nem sequer olha no seu rosto. Às vezes me faz sentir invisível.

Pita
Pita foi uma das primeiras pessoas que conheci no café e quando fomos apresentados foi como se Deus riscasse um fósforo nos céus. Essa chilena é demais. Criamos uma amizade muito bacana, do tipo que se estende por toda a vida. Ela fala um pouco de português, disse que viveu no Brasil por alguns meses e toda hora chega pra mim com aquele sotaque estranho, falando:
- Vamo trabalha menino!
Ela é minha amiga hippie, estamos na mesma sintonia, no mesmo tipo de viagem, partilhamos das mesmas idéias. Um dia de manhã ela chegou pra mim e disse:
- Olha só Thiaguinho
E levantou a barra da calça revelando uma meia de cada cor.
Dei risada e disse:
- Mira, mira, señorita.
E levantei a minha calça mostrando que também vestia uma meia diferente da outra.
Estamos sempre comendo as sobras dos clientes. Eles costumam deixar imensos pedaços de bolo ou metades inteiras de muffins. Quando temos que fazer milk shake ou frapê, costumamos colocar bem mais do que o necessário para podermos beber o restinho.Vamos para a cozinha e engolimos tudo na frente de Leo, que olha abismado, só balançando a cabeça, inconformado.
Viramos melhores amigos no café, ela é a única pessoa que converso e vice-versa. Os outros funcionários não entendem nosso jeito latino de ser. Estamos sempre jogando coisas um no outro, falando besteiras em português e se tocando.
Anne só olha por cima de seu narizinho pontudinho sem entender nada. Deve pensar com seus botões: mon dieu, quel barbares.

28 Novembro 2006

Conseqüências...

No dia seguinte acordei com meu celular tocando:
- Hey, Diago, it’s Bob from motel.
- Ei, Diago, é o Bob do motel.
- Hi, Bob.
Minha voz estava assustadoramente rouca.
- So…will you not come to work today?
- Então...você não vem trabalhar hoje?

Estava com uma puta ressaca.
- No, sorry, I’m sick.
- Não, desculpe, estou doente.
- We need you!
- Nós precisamos de você!
- I’m sick!
- Estou doente!
- Diago, we really need you, we trust you, you should've called us before if you were sick.
- Diago, nós realmente precisamos de você, nós confiamos em você, você deveria ter ligado antes se estava doente.
Estava de saco cheio, não agüentava mais trabalhar naquela merda de motel. Não tinha mais saco, queria me divertir, queria sair, beber, ir pra festas, conhecer garotas. Foda-se, não quero mais trabalhar de housekeeper!
- Ok, ok, Bob, I’m on my way.
- Ok, ok, Bob, estou indo.
Mesmo para uma merda de serviço como esse no motel você precisa de um nível de comprometimento que eu não posso dar, algo que vai de encontro a tudo o que eu sou.
E Bob nunca perdoou o fato de eu ter pensado em faltar.
- I’m very disappointed with you, Diago, I trusted you, I gave you the job.
- Estou muito decepcionado com você, Diago, confiei em você, te dei o emprego.

Pensei em pedir as contas, mas... Não!… minha conta bancária ainda estava com três dígitos abaixo da metade do caminho para quatro.
Trabalhei como um zumbi, demorei duas horas para arrumar uma cama e não conseguia passar o aspirador no chão de tão cansado.
- Diago, if you continue like this you’re done!
- Diago, se você continuar assim você já era!
Saí do Motel e fui direto para o restaurante de Kamal. Era domingo e aos domingos eu trabalhava para ele. Logo para ele...
Quebrei dois pratos, demorei duas horas para cortar uma caixa com peitos de frango e quase dormi na pia com louça suja. No fim da jornada Kamal me chamou e disse:
- If you work like this again you’re done!
- Se você trabalhar assim de novo você já era!
O fato é que não agüentava mais, tinha ido a milhões de entrevistas e nada. Não conseguia achar um emprego decente no qual pudesse manter uma rotina de trabalho e receber razoavelmente bem por isso. Precisava de um porre! E não me arrependo dele.

No dia seguinte, novamente, acordo com meu celular:
- Hello, Thiago, it’s Richard from Robert Harris Café. I’m with your résumé, can you come today for an interview?
- Alô, Thiago, é o Richard do Robert Harris Café. Estou com seu currículo, você pode vir hoje para uma entrevista?
Pensei por um momento. Pra quê? Eu iria perder mais um dia de trabalho, iria trabalhar de graça mais uma vez, iria me frustrar de novo, ter pesadelos à noite, me achar o pior dos seres humanos... Que se foda Christchurch, que se foda a Nova Zelândia, foda-se todo mundo, vou voltar para o Brasil, vou voltar para meu povo, vou me escrever no Catho e achar um bom emprego como jornalista no Brasil. Não vou nessa merda de entrevista!
- Yes, I can go today, at what time?
- Sim, eu posso ir hoje, que horas?
- Four o’clock. Is it ok for you?
- Quatro horas. Está ok pra você?
- Yeah, great.


Assim que desliguei o telefone Bob me liga :
- Diago, you don’t need to come today.
- Diago, você não precisa vir hoje.
- Why?
- Por quê?
- We don’t need you for a while.
- Não precisamos de você por um tempo.
Com certeza era uma maneira de me punir por ontem.
Grande merda... Virei para o lado e dormi mais um pouquinho.
Fui até o Fountain, escrevi um bilhete e coloquei na porta.

Sorry, Mostafa, I cannot work today at the afternoon, it’s ok if I go at night?
Desculpe, Mostafa, não posso trabalhar hoje à tarde, tudo bem se eu for à noite?

Quando me virei, vi Mostafa chegando.
- Alejandro!?!? Que passa?
- I just came to say that I have an interview today.
- Vim pra dizer que eu tenho uma entrevista hoje.
Nesse ponto já estava amigo de Mostafa, já tinha dito que estava atrás de outro emprego e ele me aconselhou:
- Good, Alejandro, very good. You have to work a lot, work in two or three places. Save your money and go to London.
- Bom, Alejandro, muito bom. Você precisa trabalhar muito, trabalhe em dois ou três lugares. Guarde seu dinheiro e vá para Londres.
Ele não ficou bravo quando falei da entrevista, só perguntou onde era:
- A place called Robert Harris, here in the Colombo St.
- Um lugar chamado Robert Harris, aqui na rua Colombo.
- Very good Alejandro! Café is good, you know, it’s easy, just serve the coffee, beautiful ladies first, ugly after, invite your friends, give free coffees. It’s easy, you will like.
- Muito bom Alejandro! Café é bom, sabe, é fácil, apenas sirva o café, mulheres bonitas primeiro, feias depois, convide seus amigos, dê café de graça. É fácil, você vai gostar.

O problema foi que Kamal chegou logo depois e viu o bilhete.
Ele chamou Mostafa de canto e os dois falaram em árabe.
Depois de alguns minutos Mostafa se aproxima e diz:
- You know, Alejandro, you are a nice guy, but I think we’ll not need you for a while… it’s been very quiet these days.
- Sabe, Alejandro, você é um cara legal, mas eu acho que nós não vamos precisar de você por enquanto... tem sido bem calmo esses dias.
- Come on! You fired me?
- Como! Você me despediu?
- No, no, you can come back in the summer.
- Não, não, você pode voltar no verão.
- Fuck, it’s because of Kamal? I knew it.
- Porra, é por causa do Kamal? Sabia.
- Relax, Alejandro, it’s not personal.
- Relaxa, Alejandro, não é pessoal.

Perdi dois empregos num só dia!

Voltei para casa e pensei, pensei e pensei.
Vou voltar para o Brasil, chega, cansei, não dá pra continuar assim. Estava decidido, estava convencido, estava conformado.
Mas iria na entrevista só para desencargo de consciência... no entanto iria pra não passar, coloquei um boné, minhas calças jeans surradas, jaqueta de couro e um chiclete na boca. É isso, ou me aceitam assim ou já era... home sweet home.
Fui!
Por algum estranho motivo, algo que nunca vou entender, algo além da minha compreensão e que vai de encontro a qualquer razão e normalidade...
CONSEGUI!

24 Novembro 2006

Nova casa, novos amigos.

A nova casa na Hereford St. é bem grande - velha, escura e suja - mas é bem grande. Ela não tem entrada pela frente, só uma porta do lado direito e outra nos fundos, que utilizo sempre, já que não uso nunca minhas chaves. A porta dos fundos está quase sempre aberta e dá direto para a primeira cozinha. Toda aquela área é considerada a primeira área social da casa e fumódromo: tem um sofazinho, duas poltronas e uma mesinha do lado de fora; sempre tem alguém fumando ou conversando ali. Passando pela cozinha você cai num corredor gigante que te leva para todos os dormitórios, siga por esse corredor, vire a primeira à direita e você encontrará a segunda cozinha logo em frente ao primeiro banheiro, continue seguindo e você vai passar pelo segundo banheiro um pouco antes de finalmente chegar na sala, que é onde fica a segunda área social da casa.
Os quartos estão espalhados pela casa, o primeiro fica do lado da primeira cozinha e é o pior da casa, ja que recebe todo barulho do fumódromo. Outros 5 quartos estão distribuídos ao longo do corredor e o último fica depois da sala, o segundo pior, já que também recebe todo barulho da segunda área social, só que sem a fumaça dos fumantes.
O meu quarto fica no corredor em frente ao segundo banheiro... uma boa localização.
Durante um bom tempo não conheci meu novo flatmate. Ele chegava depois que eu ia dormir e eu acordava antes dele levantar. Só sabia que seu nome era Jack e era canadense.
No entanto, a casa estava cheia, morava com mais outras 8 pessoas.
No começo foi difícil me enturmar, eles ja tinham seu grupinho, estavam bem entrosados, e eu passava a maior parte do tempo fora da casa. Demorei para pegar os nomes e as nacionalidades de todos.
Jaime é porto-riquenho; Rodrigo, Francisco e Ignácio são chilenos; Julie e Ashlen são irlandesas; Emílio é argentino e Hassim, saudita.
Nenhum brasileiro!
Resolvi fazer um esforço e me enturmar na primeira sexta-feira que passei na casa. Puxei assunto, tentei bater papo, mas eles não estavam muito abertos. Ficavam no grupinho deles e não davam muita trela. Não que tenham sido grosseiros nem nada, só não se mostravam muito interessados em conversar. Eles foram para a sala beber, botaram um som, trouxeram algumas caixas de cerveja e conversaram. Eu não tinha cerveja, mas fui também, sentei no sofá e esperei alguém me oferecer uma. Nada! Esfreguei a cabeça pensativo...
Tive uma ideia.
Olhei para os latinos e disse no meu melhor portunhol:
- Hey, chicos, que tal un baseado?
- Qué?
- Marijuana.
- Uh! Mui bueno, chico.
Fui até meu quarto e peguei o presente que François me deu minutos antes de partir de Cromwell. Enrolei um fininho e dividi com meus novos flatmates latinos.
- Mui Bueno amiguinho! Mui Bueno!
Ficamos todos chapados e começamos a falar a mesma língua.
- Hey, amiguinho, cuál de las chicas preferes? perguntou Francisco, o chileno, apontando as duas irlandesas que fumavam um cigarro na janela.
- Yo no sei.
- Cómo no sabe amiguinho? mira las señoritas... cuál de las señoritas quieres?
- Yo posso escolher?
- Sí sí... diga.
- Yo pienso que la de cabelo vermelho.
- Ahhh, amiguinho. Estamos echado el ojo nesta. Tú eres un nuevo concurrente.
Logo depois Francisco pegou um ursinho de pelúcia e começou a fazer alguns gestos sexuais com o animal a fim de entreter as mocinhas. Elas riam como loucas.
Me senti mais aceito após a roda de fumaça. Ganja definitivamente é um produto indispensável a todos road runners ou neobeatniks.
Emílio, o argentino, finalmente me ofereceu uma cerveja e todos mostraram mais interesse pela minha pessoa. Mais tarde descobri que a barreira inicial era pelo fato de ser brasileiro. Nós não somos bem vistos mesmo pelos nossos hermanos.
Continuamos a beber noite adentro quando Hassim, o saudita, chegou.
Não tinha conhecido Hassim ainda, mas quando o vi entrar por aquela porta, tive certeza de que o sujeito não pertencia aquele lugar. Ele usava uma jaquetinha azul comportada, tinha o cabelinho todo arrumadinho e portava uns óculos sérios. Ele olhou para o povo todo bêbado e soltou um “hello” cheio de vergonha. A festa parou por alguns segundos, as risadas cessaram e o silêncio pairou sobre a sala até que, por fim, Hassim disse:
- Well, I go to sleep, good night.
- Good night, Hassim. Todos responderam em coro.

The other day

No dia seguinte conheci meu novo flatmate. Cheguei da rua lá pelas 7 da noite e encontrei Jack sentado na sala já bêbado. Os chilenos me apresentaram o sujeito.
- Hey, Thiago, this is Jack, the guy that sleeps with you.
- Ei, Thiago, esse é o Jack, o cara que dorme com você.

Eles estavam indo para uma festa na casa ao lado e insistiram para que eu e Jack fôssemos juntos.
- Fuck, man, it`ll be only chileans there.
- Porra, cara, só vai ter chilenos lá.
Chegando lá entendi o motivo da reclamação. Só tinha chilenos e eles só falavam em espanhol. Acabei conversando só com Jack, e ele estava bêbado e eu não.
- Man, let’s go to the town...
- Cara, vamos pra cidade...

Saímos da festa e fomos para o Sulivans, um pub irlandês que vendia jugs por 12 dólares.
O Sulivans é demais. O lugar lembra um pouco o Finnegan's em São Paulo, só que menor. No palco uma banda tocava músicas típicas irlandesas enquanto turistas e locais pisoteavam o chão de madeira cantando em alto e bom tom.
Fiquei um pouco bêbado no Sulivans, e Jack incrementou seu nível alcoólico para bêbado nível 2.
O canadense estava louco para pegar uma garota:
- Man, I have to confess: I’m going tomorrow to Australia and I definitely need a girl tonight. I don’t belive I’m going to leave New Zealand without fuck!
- Cara, eu preciso confessar: eu estou indo amanhã pra Austrália e eu definitivamente preciso de uma garota hoje à noite. Eu não acredito que eu vou deixar a Nova Zelândia sem trepar!

Não sabia que ele iria embora no dia seguinte. Mas me compadeci com a situação e fiz uma promessa que não tinha a menor idéia de como iria cumprir:
- Relax, man! We’ll find a girl tonight! I promess.
- Relaxa, cara! Vamos encontrar uma garota hoje à noite! Eu prometo.

Olhei em volta e me dei conta que prometi demais. Como em todo pub, balada e lugar na Nova Zelândia a estatística do local era algo em torno de 100 homens para meia garota.
- Ok, let’s move.
Saímos do Sulivans e fomos para o Shooters. Odeio o Shooters, mas infelizmente era o local onde poderíamos ter alguma sorte. Bebemos mais umas cervejas, olhamos em volta e nada!
- Ok, let’s move.
Nessa altura já estávamos muito breacos, bêbados nível 5 - alcancei Jack no Shooters após duas pints de Export Gold. Não tínhamos a menor ideia de onde andávamos na rua e passamos na frente dum tal de Blues Bar - um bar de não turistas que odeiam turistas.
Na porta duas maoris quarentonas fumavam do lado de fora, ao lado de dois caras com jaqueta de couro e um segurança mal-encarado. Jack passou batido, mas eu resolvi parar e pedir um cigarro.
Uma das maoris abriu um sorriso, passou a mão no meu rosto e disse:
- Off course I have a cigarrete for you, baby.
- Claro que eu tenho um cigarro pra você, gato.
Ela colocou o cigarro na boca, acendeu, tragou olhando nos meus olhos e colocou na minha boca.
- Enjoy, baby.

Olhei para Jack e ele já estava longe. Agradeci o cigarro, corri, alcancei o canadense e disse:
- Man, if you want to fuck tonight, come with me!
- Cara, se você quiser trepar hoje, vem comigo!

Entramos no bar. No palco uma bandinha de blues, com senhores na faixa dos 80 anos vestindo jaquetas de couro sobre camisas xadrez, dava o tom. No bar uma garçonete manca servia as bebidas e, sentados nas mesas, dezenas de kiwis gordos vestindo jaquetas de couro e barbas longas seguravam seus canecos de cerveja. Todo mundo vestia jaqueta de couro naquele bar, até mesmo algumas mulheres e a barwoman manca. Por sorte, acaso ou conveniência, estava vestindo a minha. Queria não ter todos os dentes na boca ou uma cicatriz gigante no rosto para ficar mais à vontade, mas por hora a jaqueta e meu cabelo grande eram um bom disfarce; talvez nunca descobrissem que eu era turista. Ao contrário do canadense que mais parecia um... bem um canadense em férias no lugar errado.
Mas Jack adorou o local:
- Man!!! This is fucking perfect.
- Cara!!! Isso aqui é perfeito pra caralho.
Não demorou para ele achar seu alvo: Linda, uma kiwi na casa dos 50, que dançava mais bêbada que o Romário em despedida de solteiro.
Eu mapeei o local e pousei os olhos em três coreanos sentados numa mesa: um homem e duas mulheres. Era estranho, eles não estavam muito integrados ao local, voce não espera ver coreanos nesse tipo de ambiente; quando olhava em volta só conseguia ver o trio na mesa e Jack tentando pegar Linda na pista de dança, o resto era somente sombra.
Resolvi sentar, observar o estranho trio e descobrir qual das duas estava disponível. O sujeito tinha meio estilinho mafioso da yakusa, e as duas coeranas que o acompanhavam eram horríveis senhoras na casa dos 40... mas... who cares?
Enquanto isso, na pista, Linda se abraçou no canadense, mas não foi devido a nenhuma paixão incontrolável ou vontade extrema de se entregar, o fez porque mal se agüentava em pé de tão bêbada.
Jack arrastou Linda para a mesa onde eu estava sentado. Tentamos conversar um pouco, mas não dava.
O trio coreano se levantou para dançar. O sujeito abraçou a mais velha, deixando a outra senhora livre na pista. Muito educadamente a tirei para bailar e não demorou para descobri que ela era bem safada, se agarrou no meu pescoço e se esfregou toda em mim.
Mas sempre quando a esmola é demais a porra do santo sempre desconfia!
Como de costume a coreana só queria fazer ciúme no outro sujeito... e a tática funcionou.
O coreano me pegou pelo pescoço e as duas mulheres correram para separar. Foi só um princípio, uma faísca, uma rusga. Nao reagi nem nada. Eu até poderia, não precisava nem bater no sujeito, só ameaçar. Com certeza ia ter apoio dos outros neozelandeses, é claro que eles iriam ajudar o sujeito com jaqueta de couro em vez do coreano mafioso.
Mas a culpa não era dele. Ele era só um homem desesperado nas mãos de duas mulheres interesseiras, num país onde elas mandam. Dei um passo para trás e só balancei a cabeça.
Mulheres... iguais até na Coréia.
Enquato isso na mesa Jack passava a mão descaradamente em Linda, mas nada de beijo. Ele agia com volúpia e cobiça, passava as cantadas mais violentas, do tipo:
- Hey baby, what kind of music do you like?
- Ei gata, que tipo de música você curte?
- Metallica.
- I have a whole collection of Metallica in my flat, let’s go there to see?
- Eu tenho uma coleção inteira do Metallica no meu flat, vamos lá ver?
Eu juro que ele disse isso!
Nisso um outro kiwi se aproxima e diz:
- Hey, guys, what the fuck are you doing? This lady has a boyfriend.
- Ei, caras, que porra vocês estão fazendo? Essa senhora tem namorado.
Engolimos em seco e Jack tirou devagarzinho a mão esquerda da coxa de Linda.
Pensamos por um segundo no tipo de cara que namoraria Linda.
- A-and is he here now? Perguntou o canadense.
- E-e ele está aqui agora?
- Yes, man! It’s better you get out now before he wakes up.
- Sim, cara! É melhor vocês saírem agora antes que ele acorde.

E o sujeito apontou um homem gordo, feio e barbudo deitado no sofá, caído de bêbado com um caneco de cerveja vazio nas mãos.
- Hey, Jack, sorry for disturbing your date, man, but I think it’s better we get out.
- Ei, Jack, desculpe eu interromper seu encontro, cara, mas acho que é melhor a gente sair.

Jack se levantou e, antes de partir, virou para Linda e deu seu último tiro.
- Hey, baby, I’m leaving New Zealand today. If you want to have sex with two young and beautiful men please go to 243 Hereford St. now. I’ll be waiting for you. I’m sure it’ll be much better than spend the night with this fucking loser. I’m serious, we can make you go to the moon, baby. We are young and full of vitality, for sure you’ll never have this opportunity again! Think, Linda! Think about it!
- Ei, gata, eu estou deixando a Nova Zelândia hoje. Se você quiser fazer sexo com dois homens jovens e bonitos por favor vá para rua Hereford, 243, agora. Eu estarei esperando por você. Tenho certeza que será muito melhor do que passar a noite com esse bosta. Tô falando sério, nós podemos fazer você ir pra lua, gata. Somos jovens e cheios de vitalidade, com certeza você nunca mais vai ter uma oportunidade como esta. Pense, Linda! Pense a respeito!
Ele estava quase implorando.

Voltamos para casa e Jack sentou no murinho em frente a casa.
- I’ll wait for Linda.
- Vou esperar pela Linda.
- Come on man, she will never come. Let’s get in.
- Qual é cara, ela nunca vai aparecer. Vamos entrar.
- No, I feel she is coming.
- Não, eu sinto que ela está vindo.
Mas ela não apareceu. E após algumas horas Jack entrou no quarto e desabafou:
- Shit, man! No fucking sex in New Zealand!
- Merda, cara! Nada de sexo na Nova Zelândia!
No dia seguinte ele partiu, foi embora para a Austrália e eu nunca conhecerei a versão sóbria de Jack, o canadense.

20 Novembro 2006

About Souvlakis

Enrolar Souvlakis é uma arte. Primeiro você coloca o recheio na chapa, pode ser carne de vaca, carneiro ou frango, os dois primeiros você deixa grelhar somente alguns minutos, põe, escuta aquele barulho frisante do contato da carne fria com o ferro quente e já joga o pão na outra chapa; não é bem um pão, é uma massa em forma de pizza um pouco menor que um disco de vinil, mas eles chamam de pão, ou bread. Já com o frango é um pouco diferente, você precisa deixar grelhar mais tempo, colocar o pão só depois de alguns minutos e tem que cortar a carne em pequenos pedacinhos com a espátula enquanto o ferro quente arde o frango e seu antebraço. Feito essa primeira parte você segura o pão com a mão esquerda, sobre duas camadas de papel manteiga, e sente sua mão queimar em fogo, mas como diria Mostafa: "You have to stand, hold it like a man!" (Você precisa agüentar, segure que nem homem!) . Depois disso você espalha húmus como se fosse manteiga e despeja a carne da frigideira sobre o pão. É importante segurar com propriedade, já que é nesse momento que o souvlaki começará a tomar forma. Com sua mão direita você espalha os outros ingredientes sobre o pão, primeiro um pouco de alface e cenoura, depois red onions e tabule e, por fim, duas colheres de molho de tomate temperado de um lado e outras duas de tzaki, um iogurte especial feito com temperos secretos marroquinos, do outro. Pronto, nesse momento você tem o souvlaki quase pronto, ele esta aberto sobre sua mão esquerda, lembre-se de fixar o pão com segurança; qualquer movimento nesse estágio pode ser fatal. Agora vem a parte mais difícil: posicione o pão no canto superior esquerdo deixando um quarto na parte inferior e dois quartos a sua direita, com um movimento rápido feche o pão enrolando-o no papel formando um cone, em questão de segundos você precisa fazer a dobrinha na parte inferior a fim de evitar o vazamento de molho, dobre e segure com o dedinho da mão esquerda. Agora pegue um envelope e faça outra camada de contenção com uma dobra dupla ao fundo, pegue dois guardanapos e enrole na parte exterior, um pouco de tabule no topo para enfeitar, um garfinho de plástico enfiado no recheio e… voilá! Seu souvlaki está pronto senhor.

Dune
No meu primeiro dia de trabalho no centro conheci Dune, um kiwi que cobre o turno da tarde. Ele iria me ensinar a enrolar o famoso souvlaki - basicamente a equipe da corporação do souvlaki é: Mostafa, marroquino e chefe do barzinho no centro; Kamal, marroquino e dono do restaurante em Ricarton Rd.; Mohamed, marroquino e funcionário no restaurante de Kamal e Dune, kiwi e funcionário de Mostafa no centro. Até agora não entendi direito o meu papel na empresa, Mostafa me contratou mais como um quebra-galho, se precisassem de ajuda em Ricarton Rd. eu iria para lá, se estivesse agitado no centro eu apareceria para dar uma mão. No entanto, na minha primeira semana, trabalharia de tarde com Dune. Ganharia bem menos é claro, somente 7 dólares a hora, mas também não trabalhava nada, só ficava conversando com meu colega de trabalho, escutando música e comendo souvlaki… não tinha muito o que fazer durante a tarde.
Dune é um sujeito gente fina, do tipo tranqüilão, que fala sorrindo e não curte aparecer muito. Ele nasceu em Dunidan, mas veio para Christchurch quando completou 19 anos, 3 anos atrás. Na Nova Zelândia é quase uma obrigação sair de casa após os 18 anos. Muitos jovens escolhem outra cidade, a maioria acaba indo para o exterior, Austrália principalmente, o restante migra para cidades grandes como Christchurch.
O dia-a-dia na lanchonete era bem sossegado, às vezes íamos para fora e observávamos os turistas na praça, tomávamos uma ginger beer, escutávamos Fat Freddies Drop e trocávamos informações sobre nossos países. Dune é maconheiro de primeira, tem um adesivo colado na cozinha com uma foto de um barbudo no meio de uma plantação de cannabis com os dizeres:
Men criated the alcohol
Os homens criaram o álcool
God created Ganja
Deus criou a ganja
Which one will you trust?
Em qual você vai acreditar?
Ele não é de festa ou badalação, está à procura de uma vida simples e desprendida. Uma tarde ele confessou que estudara design gráfico e trabalhara por um tempo numa empresa fazendo logotipos.
- I gave up. There wasn't any space to be creative there.
- Eu desisti. Não tinha nenhum espaço para ser criativo lá.
Dune está no Fountain Souvlaki há mais de 2 anos, não que ele não consiga arrumar coisa melhor, ele não quer arrumar coisa melhor.
- Why should I look for a very good job if what I earn here is enough?
- Por que eu deveria procurar por um emprego muito bom se o que eu ganho aqui é suficiente?

Tem qualquer coisa de socialista na Nova Zelândia. A condição que as pessoas vivem aqui é tudo o que os brasileiros gostaria de ter um dia. Não existe muita diferença social, se você trabalha como atendente numa lanchonete você consegue bancar seu estilo de vida, pode morar numa casa bacana, sair fim de semana e comer bem… você não tem dinheiro sobrando no final do mês, não consegue fazer uma poupança nem viver de juros, mas a maioria parece não estar muito interessada nesse tipo de capitalismo.

People come here to New Zealand and think they can get lots of money. Here is not a place to earn money. I see my country like a place to understand the real meaning of life, to see that you don't need lots of money to have a good live.
Pessoas vêm para a Nova Zelândia e acham que conseguirão muito dinheiro. Aqui não é um lugar para ganhar dinheiro. Eu vejo meu país como um lugar para entender o real sentido da vida, para perceber que não se precisa de muito dinheiro para ter uma vida boa.


Mostafa
Às vezes ficava até mais tarde para ajudar Mostafa no turno da noite. Ele é um sujeito muito gente fina apesar de só me chamar de Alejandro. Não sei da onde ele tirou esse nome, mas ele não me chama de outra maneira:
- Hey Alejandro, take a container of lettuce for me.
- Ei Alejandro, pega um contêiner de alface pra mim.
- Why Alejandro?
- Por que Alejandro?
- I don't know, just do what I order you.
- Não sei, apenas faça o que eu te mando.
Ele tem um estilo muito mafioso, fala com as mãos abertas balançando na frente do corpo e tem aquele sotaque árabe com ritmo siciliano. Às vezes ele chega pra mim, abre bem os olhos, se posiciona na minha frente, abre as mãos e quando você pensa que ele vai te dar uma bronca animal ou te agredir fisicamente, ele pergunta:
- Alejandro…do you want a coffee?
- Alejandro...você quer um café?

Mostafa viveu quinze anos em Londres, tentou ir para a França, mas teve seu visto negado.
- Fucking frenchs, they didn’t want me there, fuck off. I decided to go to London. You know I'm a qualified chef, I can work in lots of restaurants. Alejandro, you need to go to London, you can make a good money there. It's not like this country. But I tell you Alejandro, in London you don't have life. In New Zealand you can go to parks, you see the sun, you have beaches, mountains, nature… It's like Morocco you know. Morocco is a good country. Good weather. That’s why the fucking americans want to go to my country. The best weather in the world. You know, it's dry, it's not like in South America. In your country Alejandro, Brazil, it's hot, but it's moist, you sweat a lot. In Morocco is really hot, but really hot and you can wear a heavy jacket and you never sweat.
Malditos franceses, eles não me quiseram lá, foda-se. Eu decidi ir pra Londres. Sabe, eu sou um chefe de cozinha qualificado, eu posso trabalhar em vários restaurantes. Alejandro, você precisa ir para Londres, você pode fazer um bom dinheiro lá. Não é como esse país. Mas eu te digo Alejandro, em Londres você não tem vida. Na Nova Zelândia você pode ir a parques, você vê o sol, você tem praias, montanhas, natureza... É como Marrocos, sabe. Marrocos é um bom país. Tempo agradável. Por isso os malditos americanos querem ir para o meu país. O melhor tempo no mundo. Sabe, é seco, não é como na América do Sul. No seu país Alejandro, Brasil, é quente, mas é úmido, você sua muito. Em Marrocos é realmente quente, mas realmente quente e você pode usar uma jaqueta pesada sem suar.

Às vezes, no entanto, ele se estressa. Mas é sem motivo, se eu me confundo pra dar o troco ou faço alguma besteira ele perde a paciência imediatamente. Ele me chama de canto e pergunta:
- Hey, what are you doing?
- Ei, o que você está fazendo?
- But...
- Mas...
- Hey man, don't come to me saying “but”, what the fuck are you doing Alejandro?
- Ei cara, nem vem pra mim dizendo “but”, que porra você está fazendo Alejandro?
Às vezes ele está tão ligado no que estou fazendo que acaba fazendo besteira ele mesmo, deixa cair o recheio ou faz um souvlaki errado.
- Alejandro, you know, the kiwis are crazy, don’t stay in their front if they are using the card. Go to do something else, they think you are looking their code. Just pass the card and pretend that you are doing something else.
- Alejandro, sabe, os kiwis são loucos, não fique na frente deles se eles estiverem usando o cartão. Vá fazer outra coisa, eles pensam que você está olhando o código deles. Só passe o cartão e finja que você está fazendo outra coisa.

Outro dia ele me levou para os fundos para me dar algumas instruções… abriu a geladeira e tirou vários contêineres pra fora:
- Ok, pay attention Alejandro. When you open the container you have to feel the smell. If it smells bad, throw it away. Don't even ask me Alejandro, don't ask anybody, just put in the rubbish. You know Alejandro, the fucking kiwis are not like us, arabs, you, brazilians, we eat spoiled food, we eat lots of spoiled food, we can even eat poison and we don't die. If the kiwis eat just a little bit of spoiled food they die… understand me? They die Alejandro. And if they die I'm fucked up!
- Ok, preste atenção Alejandro. Quando você abrir o contêiner, você tem que sentir o cheiro. Se cheirar mal, jogue fora. Nem me pergunte Alejandro, não pergunte pra ninguém, apenas jogue no lixo. Sabe Alejandro, os kiwis não são como nós, árabes, vocês, brasileiros, nós comemos comida estragada, nós comemos muita comida estragada, nós podemos até comer veneno e não morremos. Mas se os kiwis comerem só um pouco de comida estragada, eles morrem...me entende? Eles morrem Alejandro. E se eles morrem eu me fodo.

Mostafa não para de falar um minuto, está sempre falando sobre política, clima, viagem.

What the fuck Americans are doing in my country? You know Alejandro, you are from South America, you must hate the americans almost like me. Tell me Alejandro, tell me, what the fuck they are doing in our countries? That's what every muslim ask every day. The fucking yankees want me to dress like them, to eat like them, to act like them. Fuck off! We don't have any guns, they have planes, bombs, army, money. They go to my country and put a puppet in the place of my king. I don't want that guy there, he doesn't represent me, fuck off, I don't want him there. What would you do? tell me Alejandro? What the fuck can you do? And after they call us terrorists. Somebody must do something, the Al Qaeda decided to face the americans, how can I not support them? We don't have fucking guns. Tell me, do you know how much cost a bomb? Do you have an idea of how much cost a fucking bomb? Thousands and thousands of dollars, we just bought an airplane ticket and attacked them. Do you know how much cost an airplane ticket? NOTHING Alejandro… nothing.
Que porra os americanos estão fazendo no meu país? Sabe Alejandro, você é da América do Sul, você deve odiar os americanos quase como eu. Me diz Alejandro, me diz, que porra eles estão fazendo em nossos países? Isso é o que cada muçulmano pergunta todo dia. Os malditos ianques querem que eu me vista como eles, que eu coma como eles, que eu aja como eles. Ô caralho! Não temos nenhuma arma, eles têm aviões, bombas, exército, dinheiro. Eles vão para o meu país e colocam uma marionete no lugar de um rei. Eu não quero aquele cara lá, ele não me representa, porra, eu não quero ele lá. O que você faria? Me diz Alejandro? Que porra você pode fazer? E depois eles nos chamam de terroristas. Alguém tem que fazer alguma coisa, a Al Qaeda decidiu enfrentar os americanos, como eu não vou apoiá-los? Nem temos armas. Me diz, você sabe quanto custa uma bomba? Você faz idéia de quanto custa a porra duma bomba? Milhares e milhares de dólares, nós só compramos uma passagem de avião e os atacamos. Você sabe quanto custa uma passagem de avião? NADA Alejandro...nada.

17 Novembro 2006

Um lar

A casa em Nursery Rd. era péssima! De todos os erros nos primeiros dias em Christchurch, ficar naquela casa foi o maior.
Após o teste malsucedido no café, voltei para casa e capotei na cama. Não demorou para sentir o cheiro de mofo da cortina impregnar nas minhas narinas.
Acordei doente no dia seguinte.
Dormi mais dois dias naquela casa, não cruzei nenhuma vez com meus flatmates. Minto, para falar a verdade, eu encontrei um kiwi gordo na cozinha um dia quando cheguei. Ele estava de pijama e só disse:
- Hello! Nice to meet you. I go to bed now.
- Oi! Prazer em conhecê-lo. Eu vou pra cama agora.
Olhei o relógio: 9 da noite. Não! Definitivamente não poderia continuar ali.
Liguei para Robin e disse que sem condição de ficar na casa. Ela me disse que tinha um quarto vago por 90 dólares na Hereford St. Disse que era grande e que eu iria dividir com um canadense. Pensei: "Hum, Hereford St, canadense, acho que já vi essa casa". E era exatamente a mesma casa que ela me mostrara antes.
"Filha da puta", pensei.
Estava cansado, estava doente, estava esgotado, estava sem opções, estava no mato sem cachorro, estava fudido e mal pago e, principalmente, estava de saco cheio de só me fuder. Queria virar para ela e dizer: Fuck you! You know I don't want this fucking house. Mas em vez disso apenas disse:
- Ok… I take the room.
- Ok... Eu fico com o quarto.
A primeira vez que ela me mostrou a casa tinha tido uma terrível má impressão, mas depois de uma segunda olhada acabei confirmando que a casa era de fato uma merda. Mas por outro lado era perto do centro, não ia ter que andar 30 minutos depois do serviço no frio. E depois, quando as coisas se ajeitassem, poderia arrumar outro lar.
Decidi ficar com a casa para não ter que ir para a rua de novo. Robin já estava quase sem paciência, ela soltou varias indiretas do tipo:
- I already did too much for you Diago, if you don't like this house, I'm afraid I can't help you anymore.
- Eu já fiz muito por você Diago, se você não gostar desta casa, temo não poder ajudá-lo mais.

Era pegar ou largar.
Mas, devo confessar, mudar para Hereford St. foi a melhor coisa que fiz desde que cheguei em Christchurch. Sem querer acabei caindo numa casa super divertida e fiz diversos amigos ao longo da minha estadia.
É estranho, mas as coisas começam a se ajeitar das formas mais estranhas possíveis.

11 Novembro 2006

Segunda-feira

Estava frio do lado de fora, dentro da cozinha até que estava ok, um cheiro forte de tempero marroquino, mas dava pra ficar só de camiseta. Estava longe de casa, em Ricarton Rd., um subúrbio nas imediações de Christchurch. Kamal me colocou para lavar algumas louças, antes disso já tinha cortado uma pilha de frangos e carregado umas caixas. Mas foi ali, naquela pia cheia de panelas sujas, que meu telefone tocou:
- Hi, It’s Roxelle from Café Club. You let your résumé with us yesterday. Can you come for a test tomorrow?
- Olá, é a Roxelle do Café Club. Você deixou seu currículo com a gente ontem. Você pode vir fazer um teste amanhã?
- Yes, for sure!
- Sim, claro!
- Ok, be here at 2 pm and bring a black trousers and a black shoes.
- Ok, esteja aqui às 2 horas e traga calça e sapatos pretos.

Desde que chegara em Christchurch tive essa idéia fixa de trabalhar num café. Quando cheguei na cidade, peguei o papelzinho que Lindley, minha ex-chefe na vineyard, havia me dado e fui direto falar com Sandra, sua irmã que tinha um café na cidade. Ela foi muito simpática, me deu um cappuccino e um muffin de graça e confiou algumas dicas que se dá aos recém-chegados na cidade.
Perguntei se ela tinha emprego no café e ela balançou a cabeça:
- But there is lots of cafés in town. For sure you can find something.
- Mas tem vários cafés na cidade. Com certeza você vai encontrar alguma coisa.
Pedi para ela me dar algumas aulas e me ensinar o oficio de barista.
- Off course, come on in. I'll teach you.
- Claro, vem aqui. Eu te ensino.
Não foi nada muito profundo, já que os dois cafés que tentei fazer ficaram horríveis, acabei sujando todo balcão e quase quebrei sua máquina de expresso após um movimento desastrado. Mas, mesmo assim, as lições relâmpagos foram o bastante para que o nome de Sandra entrasse no meu currículo como: barista teacher.
Existem milhares de cafés em Christchurch, eles fazem parte do cotidiano e estilo de vida da cidade. Deixei currículo em todos… um tinha que dar certo!
Entrei no Café Club numa tarde de quinta-feira, o lugar é do tipinho esnobe, onde os turistas mais ricos vão gastar quantias absurdas para beber o mesmo café que se bebe no chinês da esquina.
Entrei e pedi pra falar com a gerente.
Roxelle ficou empolgada e por algum motivo achou que eu era francês; fato que não desmenti nem confirmei durante algum tempo. Ela deu uma olhada no meu currículo, viu o nome de Sandra e ficou mais empolgada.
- So you have experience in cafés?
- Então você tem experiência em cafés?
- Just a little bit.
- Só um pouco.
Ela disse que ia conversar com a outra dona e me ligaria no dia seguinte. Até aí nada demais, a maioria dos lugares que você entra para pedir emprego é a mesma coisa. Eles sempre se mostram simpáticos, dizem que vão te telefonar no dia seguinte e nada.
Tudo balela.
Mas Roxelle de fato me ligou.

De volta ao restaurante de Kamal as coisas não foram de todo mal. Quando cheguei, ele me apresentou Mohamed, outro marroquino que trabalhava com ele, um sujeito baixinho, troncudo e fanático por rúgbi. Os dois não tiveram muito tempo de me ensinar nada, o local estava cheio de clientes e ambos muito ocupados para sequer notarem minha presença. Fiquei no fundo da cozinha sem ter muito o que fazer. Os dois nem notaram quando eu atendi o celular.
Perto das 10 da noite, Kamal se aproxima, estende um maço com notas de 20 dólares e diz:
- Thank you very much. You can start to work with us. I need you here in the weekends, during the week you can go to Mostafa`s restaurant.
- Muito Obrigado. Você pode começar a trabalhar conosco. Eu preciso de você aqui nos fins de semana, durante a semana você pode ir para o restaurante do Mostafa.

No entanto, além de procurar emprego, ainda estava procurando casa. Dois dias antes daquela segunda-feira agitada, Robin, a mesma corretora que me mostrara aquele flat em Hereford St., me liga.
- Hi, Diago, It ‘s Robin from Urban Rooms. I’m calling you to say that I have a good house in Nursery Rd. You may like that one.
- Oi, Diago, é a Robin do “Urban Rooms”. Estou ligando para dizer que eu tenho uma casa boa na estrada Nursery. Você talvez goste dessa.

Com o tempo descobri que não tinha muitas opções, provavelmente acabaria fechando negócio com Robin, primeiro porque ela tinha as casa mais próximas do centro, segundo porque ela não cobrava bond (a média dos bonds em Christchurch é de 300 dólares) e terceiro porque ela era muito simpática e prestativa.
- Ok, Robin, I can take a look.
- Ok, Robin, eu posso dar uma olhada.

Na hora a casa me pareceu bacana, eu dormiria num quartinho pequeno e bem ajeitadinho. Decidi que iria me mudar para lá:
- Do you want some help with your move?
- Você quer alguma ajuda com sua mudança?
- Yes, yes. It'd be great.
- Sim, sim. Seria ótimo.
- Ok. I'm free on Monday morning. It's ok for you?
- Ok. Eu estou livre na segunda de manhã. Tudo bem pra você?
- Actually I have to work, but I can call and say that I have to move in.
- Na verdade eu tenho que trabalhar, mas eu passo ligar e dizer que preciso fazer minha mudança.
- Ok, so shall I pick you up at 11 o'clock?
- Ok, então pego você às 11 horas?
- Perfect.
- Perfeito.
Liguei para Bob no Motel e expliquei a situação.
- Ok, Diago, no worries. See you on Tuesday.
- Ok, Diago, sem problema. Vejo você na terça-feira.

Só precisava ligar para Mostafa, pois o teste no café era no mesmo horário que trabalharia para ele. No entanto não era bom faltar já no segundo dia e faltar para ir fazer um teste num outro emprego é pior ainda.
Precisava ter uma ótima desculpa…
Não achei uma ótima, mas investi tudo numa bem porcaria.
Fui pessoalmente durante aquela noite de domingo para falar com Mostafa. Botei minhas piores roupas, coloquei um boné na cabeça e sujei um pouco a cara. Chegando lá, tirei o boné em sinal de respeito e o segurei entre minhas mãos cruzadas.
- Hi Mostafa, you know, I`m sorry to ask this, but I'm not felling very well. Cof cof… I know it’s not very good. I just started now, today was my first day… but I'm having a very hard time in the city. I think I need to rest tomorrow.
- Oi, Mostafa, você sabe, sinto muito em pedir isso, mas eu não estou me sentindo bem. Cof cof...Eu sei que não é muito bom, eu acabei de começar, hoje foi meu primeiro dia....mas eu estou passando por um momento difícil na cidade. Eu acho que eu preciso descansar amanhã.
- Oh shit?!?! What did you eat, what did you eat? Did you eat a souvlaki today?
- Oh merda?!?! O que você comeu, o que você comeu? Você comeu um souvlaki hoje?
- No, no. It’s just my throat. Nothing else.
- Não, não. É só minha garganta. Nada mais.
- Ok, You don't need to come tomorrow. It’s just a training anyway, you can come whenever you want, when you feel better.
- Ok, você não precisa vir amanhã. É só um treino mesmo, você pode vir quando quiser, quando se sentir melhor.

Pronto, tudo armado para aquela segunda-feira. Acordaria, tomaria um belo café da manha, iria comprar calças e sapatos pretos no brechó, voltaria para o backpack, pegaria minhas coisas, deixaria no meu novo flat, trocaria de roupa, iria para a cidade, comeria algo, iria para o meu teste e, por fim, dormiria empregado como o mais novo funcionário do Café Club na minha nova casa. Não tinha como dar errado, não tinha como dar errado… definitivamente não tinha!

Acordei atrasado, meu celular não tocou, mas não tão atrasado que pusesse tudo a perder. Fui até a cozinha com o estômago roncando de fome. Cadê a comida? Olhei por toda as prateleiras procurando a sacola com meu nome. Nada!
Fui até a recepção:

- Excuse me, but I think somebody stole my food.
- Com licença, mas eu acho que alguém roubou minha comida.
- Sorry, but we don't take responsibility for the food in the kitchen.
- Desculpe, mas nós não nos responsabilizamos pela comida deixada na cozinha.
- Are you kidding me?
- Você está brincando comigo?
- No, we have a board in the kitchen saying that.
- Não, nós temos um aviso na cozinha dizendo isso.
- You must be kidding me. Come on! How can you not take responsibly for the other people food? I just bought this food yesterday… more than 20 fucking dollars!
- Você deve estar brincando comigo. Não é possível! Como vocês não se responsabilizam pela comida dos outros? Eu comprei a comida ontem... mais de 20 doláres, porra.
- I'm sorry
- Eu sinto muito.
- Go to hell!!!
- Vai pro inferno!!!
Sai puto da vida e procurei por um algum lugar que vendesse comida barata. Acabei comendo num desses mercadozinhos chineses 24 horas… uma torta e um chocolate com leite: 6,50 dólares e eu ainda estava com fome.
Logo depois fui para o second-hand shop procurar a calça e o sapato. Tarefa dura, passei um bom tempo até achar uma calça que me servisse mais ou menos. Achei uma, mas precisava fazer a barra. Onde fazer isso? Como pedir por isso? Por que não trouxe minha mãe junto?
Voltei para o backpack, peguei todas minhas coisas e desci para esperar por Robin. Ela foi pontual e me levou para o flat na Nursery Rd. Não tinha percebido da primeira vez, mas puta que pariu, o flat é longe pra caralho.
- Yes, it’s not so close; 30 minutes walking.
- Sim, não é muito perto; 30 minutos andando.
Tudo bem, 30 minutinhos não é nada. Tinha outras prioridades no momento.
- Robin, do you know a place where I can do the “barra” in my trousers?
- Robin, você sabe um lugar que eu possa fazer a “barra” da minha calça?
- Sorry, what did you say?
- Desculpe, o que você disse?
- Sorry, I don't know the name in English, but is that thing you do in the end of your trousers, you have to cut and fold and sew… if you know what I mean.
- Desculpe, eu não seu o nome em inglês, mas é aquela coisa que você faz no fim da sua calça, você tem que cortar e dobrar e costurar... se você me entende.
- Sorry, I'm not understanding you.
- Desculpe, eu não estou entendendo você.

Após alguns minutos nessa conversa de doido ela finalmente acabou entendendo.
- Ohh yes, yes! I know a good place to do this. I can take you there after.
- Ohh sim, sim! Eu sei um bom lugar pra fazer isso. Posso te levar lá depois.

Deixei minhas coisas na nova casa e Robin me deu uma carona até a lavanderia de uma amiga.
Olhei no relógio: 12h40min, a entrevista era em 1 hora e vinte minutos.
Robin se despediu e falou:
- Diago, you don't mind if I let you here, do you? I have lots of things to do.
- Diago, você não se importa se eu deixar você aqui, se importa? Eu tenho várias coisas pra fazer.
- No, It’s ok, thank you very much for your help.
- Não, tá ok, muito obrigado pela sua ajuda.
A costureira não demorou muito tempo para fazer a barra, foi bem simpática e me fez um desconto quando falei que estava indo para uma entrevista de emprego.
- Good luck with your test.
- Boa sorte com seu teste.
Ok, tudo pronto, só precisava comer alguma coisa, ir para casa, trocar de roupa e ir para a entrevista.
Saí da lavanderia e um raio rompeu nos céus.
Não foi uma chuva que começou a cair, foi um dilúvio.
Fiquei alguns segundos embaixo da cobertura da lavanderia. O que fazer? O lugar era afastado do centro, uns 10 minutos andando. Olhei em volta para procurar por um táxi, nada. Peguei meu celular, talvez se ligasse para Christine ela pudesse me ajudar, ou quem sabe mandar um táxi ali para me pegar.
Meu celular morreu nas minhas mãos… sem bateria.
Abri a carteira… nem um centavo!
- PUTA QUE PARIU!!!!
Gritei de raiva no meio da rua, mas ninguém ouviu porque o barulho da chuva era alto demais.
Entrei de novo na lavanderia e pedi uma sacola plástica, coloquei o sapato e a calça ali.
Foda-se, vou correndo.
Cheguei no centro todo molhado, entrei no Burger King e um funcionário da limpeza me olhou com desprezo.
Pedi um lanche enorme que estava na foto, devorei em segundos, fui até a Colombo St., peguei um táxi…
Cheguei em casa.
A chuva parou.
Olhei o relógio: 13h20min.
Não tomei banho, só troquei de roupa. Vesti os sapatos e saí.
Meu pé doía com o sapato do brechó. Andei, andei e andei. Puta que pariu, essa casa é longe pra CARALHO!
Olhei no relógio: 13h50min.
Resolvi correr.
Cheguei no centro: 13h58min.
Com os dois minutos que restavam entrei no KFC, bem ao lado do café, e fui no banheiro para lavar o rosto e tirar o suor.
Caminhei com as pernas doloridas até o café.
Adentrei o recinto, ajeitei o cabelo e olhei para um relógio na parede cujo ponteiro, num rápido movimento, marcou: 14h00min.
Roxelle me cumprimentou, me deu uma camiseta do Café e me colocou na cozinha.
Fiz tudo direitinho, não derrubei nada, não quebrei nenhum copo, não estraguei nenhum sanduíche, lavei minhas mãos antes de pegar na comida, fui simpático com todo mundo, trabalhei com afinco e dignidade. E, como não poderia deixar de ser…
...mais uma vez…
NÃO CONSEGUI!

07 Novembro 2006

Uma outra corda para se segurar

Na sexta-feira, após a fatídica balada em Christchurch, voltei para o backpack, após mais uma tarde de derrota na árdua tarefa de arrumar um emprego. Capotei na cama e senti meu estômago roncar.
Lembrei que não comera nada durante o dia inteiro.
Eram umas nove da noite e não tinha comida na cozinha. Resolvi calçar meus tênis e voltar pra rua.
Baixei no centro e procurei pelo sujinho da cidade.
Não existem sujinhos em Christchurch.
A coisa mais parecida que achei foi uma lanchonetezinha minúscula que vendia souvlakis por 6 dólares.
Lá dentro encontrei um homem com um avental, um pano sujo nos ombros e os braços arqueados esperando por clientes.
- Hi!
- Hello, a souvlaki, please.
- For sure, chicken, lamb or beef?
O sujeito tinha um forte sotaque árabe.
- Chicken, please.
Paguei e sentei numa das mesas para esperar.
Enquanto preparava a comida o sujeito puxou assunto.
- How was your day?
- Not bad.
- Are you on holiday in the city?
- No… looking for a job.
- You look for a job?
- Yes.
- Where are you from?
- Brazil.
- Ah! You're a brazilian?
- Yes.
- I'm from Morroco. My name is Mostafa.
- Nice to meet you Mostafa.
- So, you speak portuguese?
- Yes! Good skills, not everyone knows that.
- I had a lot of brazilian friends when I lived in London.
- Cool. And you speak french in Morroco?
- Yes, and Arabic.
- Je parle un peut le français.
- Oui ce bien, ou tu appris parle le français?
- Au Brésil.
- Et pourquoi tu le appris?
- Je ne sais pas.
Alguns minutos de silêncio.
- So, what kind of job you’re looking for?
- Anything
- Do you know how to do souvlakis?
- No, but if you teach me I can do.
- We maybe need someone to work during the summer.
- Only in the summer?
- Yes, but if you want we can start now, you come to learn how to do Souvlakis and work part time, about 4 hours per day, then after you do full time, ask for an increase in your wages… you know, like every place in New Zealand.
- It sounds good.
- I just need to speak with Kamal, my partner, he is coming in a few minutes. You know we have the business together, and he takes care of the staff… you know, he hires people.
- Ok, no worries, I can wait.
Alguns minutes depois chega Kamal, outro marroquino gigante, grande, gordo e com um bonezinho desses de basebol na cabeça.
Os dois começam a falar em árabe.
Kamal me olhava pensativo.
Depois de um tempo ele se dirige pra mim:
- Ok, do you have a work permit?
- Yes.
- Do you have bank account?
- Yes.
- Do you have tax number?
- Yes.
- Do you have experience?
- Yes.
- Where did you work before?
- In an Indian restaurant in Wanaka.
- What did you do there?
- I was a dish washer.
- For how long?
- About a month (mentira, não foram nem 3 dias).
- Ok. You can start in my restaurant on Sunday, but it is just a test. If you like and if we like, you can stay.
Mostafa vira pra mim e fala:
- Yes, you know, this bar here is to busy, we need someone with experience. You can make your training there and after you come here.
- Ok, but where is your restaurant?
- It’s near the Ricarton Road University. I'll write the address for you.
- Ok, I can go.
- Ok, see you Sunday!
- Bye.
- Bye.
E foi assim que eu consegui meu segundo emprego em Christchurch.

05 Novembro 2006

Sobre vistos e trabalhos

Ok. Esse é um post para você que quer vir para cá. Se você pensa em vir conhecer e passar férias, a Nova Zelândia é um lugar excelente. O país possui os melhores cenários e as paisagens mais lindas em que já pus os olhos. Vale muito a pena vir passear se você for um viajante rico, com alto poder aquisitivo e disposto e esbanjar sua grana em resorts caros e hotéis cinco estrelas. Mas como a maioria dos leitores desse blog não são pessoas que se enquadram no topo da pirâmide social brasileira, aí vai uma importante dica pra você que pensa em vir para a Nova Zelândia trabalhar e fazer uma grana.
A dica é: NÃO VENHA!
Primeiro por que os brasileiros são um dos únicos na América Latina que não possuem o work holiday. Até os argentinos e os chilenos possuem, mas nós, brasileiros, não! O work holiday é um visto que te dá direito de ficar no país por um ano trabalhando nos mais diferentes lugares possíveis. Você tem seguro saúde incluso, pode usar os hospitais públicos, tem liberdade para mudar de emprego quando quiser e tem melhores salários e cargos à disposição.
Os brasileiros se encaixam em outro tipo de visto, o chamado work permit. Não é fácil obter o work permit na Nova Zelândia, primeiro porque os empregadores sempre optam pelos estrangeiros que possuem o work holiday, e segundo que se uma empresa te fornece o work permit, ela não pode te mandar embora sem ter que pagar uma multa astronômica e, fora isso, a companhia acaba vinculando o nome a um passaporte brasileiro… o que nem sempre é uma boa idéia.
No entanto, a colônia tupiniquim descobriu que em Queenstown é mais fácil obter o permit, pois em 2002 as leis para obtenção de vistos foram afrouxadas na cidade a fim de atrair mais trabalhadores para o local. Não demorou para a notícia se espalhar, e, hoje, quatro anos depois, os brasileiros representam 5% da população da cidade.
Outra maneira de trabalhar legalmente é partir para o ciclo rural. O governo da Nova Zelândia também afrouxou as regras nesse ramo e em todo país é possível encontrar um brasileiro trabalhando na roça.
Por isso só há duas maneiras de trabalhar na Nova Zelândia: a primeira é ir para Queenstown e achar um emprego de housekeeper e a segunda é ir para o campo e cortar galho, ordenhar vaca ou tosar ovelha.
Se você está disposto a isso: ótimo! Mas é preciso saber que os salários por aqui são uma merda. É claro que não tão merdas como no Brasil. Mas em se tratando de point imigracional, a Nova Zelândia perde feio para países da Europa e até para África do Sul. Por isso eu digo, se você vai fazer um investimento e não uma viagem, não venha para cá!
Aqui em Christchurch é bem difícil encontrar brasileiros. A cidade não é tão aberta a trabalhadores do terceiro mundo e o work permit aqui é algo praticamente impossível de conseguir. Descobri isso depois de chegar. Tudo bem que tenho o permit que consegui em Queenstown, mas descobri que ele não é de grande utilidade, já que para fazer a variação de condição, preciso achar um empregador disposto a entrar no complicado processo. Bob, o dono do hotel, não tem a menor idéia do rolo que é trocar de visto, mas como ele não me perguntou nada, também não disse nada. Ele só quis saber se eu tinha o visto de trabalho, mas como não especificou qual tipo de visto, eu apenas respondi:
- Yes!
O fato é que teoricamente não poderia nunca trabalhar nesse esquema com Bob. Para um empregador contratar um brasileiro, ele precisa dar mais de 30 horas semanais e bancar o visto ou a variação de condição.
Tá complicado né? Ok, vou explicar de outra maneira.
Se você é brasileiro e conseguiu arrumar um emprego na Nova Zelândia, a empresa deve dar entrada com um monte de papelada e te fornecer o work permit. Na verdade a empresa só preenche uns papéis e alguns formulários. Quem deve ir no Imigration Center é você. Chegando lá você paga uma taxa, dependendo do período em que for ficar, o preço sai em torno de 200 a 300 dólares.
Ok, você arrumou o emprego, ganhou o visto e começou a trabalhar. O que acontece se você resolver mudar de serviço? Se você for um argentino ou um europeu a resposta é: nada! Mas se você for um brasileiro, as coisas não são tão simples assim. Primeiro você teoricamente fica na ilegalidade até arrumar outro emprego, já que no passaporte as condições são bem claras e dizem que aquele visto só é valido para aquela empresa e durante aquele tempo. Se você tiver sorte de arrumar outro emprego, a empresa deve dar entrada novamente em um monte de papelada e você deve pagar pela variação de condição: 60 dólares!
Entendeu agora onde estou enfiado?
É por isso que digo: se vier para Nova Zelândia, fique nas colônias brasileiras. Sair delas só significa uma coisa: suicídio!

04 Novembro 2006

A primeira balada em Christchurch

Não sei como esqueci de escrever sobre isso! Mas tem mais uma do Valentino que veio a refletir aqui em Christchurch. Na hora não foi lá essas coisas, mas quando cheguei na cidade grande a ficha caiu.
Naquela fatídica noite em que ele me expulsou do seu carro, Valentino ficou na casa de Michelle, nossa amiga em comum, que nos apresentou. O filho da puta não falou nada sobre a briga e nem falou que tinha me botado pra fora do carro. Michelle, então, muito inocentemente, deu para ele algumas roupas que eu deixara com ela.
- Tem como você entregar isso pro Thiago?
Eram minhas melhores roupas. Tinha deixado em Queenstown para usar quando fosse para as baladas. Não ia precisar delas em Cromwell.
Não preciso nem dizer que nunca mais as vi!
É por isso que pensei duas vezes antes de ir para a balada naquela noite de quinta-feira. Era minha segunda semana na cidade e ainda estava atolado na merda até o pescoço.
Mas a Camila tinha me chamado, tinha insistido, tinha implorado. E eu não consigo resistir aos pedidos de uma garota. E sei lá, ela era interessante e estava me convidando para ir de casalzinho para a balada. Mesmo com minha aura pessimista resolvi pagar pra ver. Pagar não, já que as baladas em Christchurch são de graça.
Acabei indo com minha blusa rasgada, velha e suja que trabalhara por dois meses nas vineyards (acreditem: minha melhor roupa).
Quando a encontrei, minha primeira decepção: estava usando salto alto! Se uma mulher que tem quase a mesma altura que você aparece de salto alto para um encontro é por que ela não te dá a mínima.
A segunda decepção foi quando ela insistiu para irmos ao Shoothers, uma balada podre, bem ao estilo Vila Olímpia.
- Mas eu queria ir no Boogie Nights.
O Boogie Nights é uma outra balada, mais ao estilo anos 70, com músicas antigas e galera descolada. Como eu sei disso? Pela propagando no rádio.
- Tá, mas vamos entrar aqui só pra você dar uma olhada.
Ficamos umas duas horas na fila, e eu já estava tendo calafrios com o ambiente. Camila estava espetacular, vestira roupas de grife, estava bem maquiada e estonteantemente perfumada. Eu ao lado dela parecia um garoto de rua pedindo esmola. Nunca ia passar por namorado ou qualquer coisa parecida. E os outros caras fizeram questão de me provar isso. Já na fila eles começaram a paquerá-la.
-Hey, baby, you are fucking hot tonight!
Quando entramos, me posicionei ao lado dela cheio de vergonha. Não demorou para um kiwi desses bem cafajeste se aproximar, entrar bem no meio e começar a xavecá-la. Eu não consegui ouvir o que ele falou, só vi que colocou o rosto bem pertinho do dela e deve ter dito as maiores barbaridades do mundo. Ela só sorria, não tinha a menor idéia do que o sujeito estava falando.
Camila resolveu ir para a área aberta de fumantes acender um cigarro. Eu a segui. O que mais podia fazer?
Lá fora mais um outro kiwi chato veio paquerá-la.
Eu ficava admirado. Como pode esses caras? Será que sou tão ridículo assim? Será que nem por um segundo eles podem ter pensado que ela estava comigo? Onde está o respeito? Que mundo é esse?
Ele começou a falar com ela no mesmo estilo que o cara de antes. Ela, por sua vez, não respondia nada, só sorria sem graça. Após alguns segundos ele olha para mim:
- You guys are from overseas?
Dei um suspiro:
- Yes.
Ele descobriu que só podia conversar comigo, já que Camila não conseguia manter uma conversa.
- Is she your girlfriend?
Ahhh finalmente alguém teve o bom senso de perguntar:
- No, she isn't.
Ele fez uma cara de assustado e perguntou:
- Are you gay mate?
Fiquei quieto.
Mas ele insistiu na conversa, estava bem bêbado e falava com aquele bafo de cerveja na minha cara. Ele perguntou se estávamos gostando do país, se eu já tinha feito algum esporte radical.
- Yes, it’s a beautiful country. No, I didn't have the opportunity to go in an adventure tour.
- Why not?
Falou isso com uma cara de espanto. Não ia explicar para ele todas as condições sociais que envolvem as pessoas do terceiro mundo, principalmente da América Latina. Ele tampouco parecia ser do tipo que entendia a frase "I don't have money" por isso só fiquei quieto.
- Are you afraid? Come on man!
E começou a imitar uma galinha, olhando para Camila, a fim de a divertir e me humilhar. Ela até deu umas risadas, mas relevei pelo fato dela não ter a menor noção do que estava rindo.
Por fim ela entrou novamente dizendo que ia ao banheiro. Esperei um pouco do lado de fora e o kiwi chato continuava na minha.
Resolvi entrar também e encontrei Camila conversando com alguns brasileiros. Ela me viu e veio ao meu encontro:
- É meu ex-namorado que está aqui, que coincidência né?
Coincidência o caralho! Era por isso que ela tinha insistido tanto para ir naquela balada de merda. Perguntei se haveria alguma chance de trocarmos de balada mais tarde.
- Se você quiser ir pode ir. Eu vou ficar aqui.
Fiquei puto da vida. De imediato entendi tudo o que se passava. Ela só me chamara pra ir naquela balada porque estava com vergonha de ir sozinha. Ela tinha se queimado com todos os brasileiros da colôniazinha e estava doida para voltar a viver entre eles.
No momento que encontrou a turminha, ela foi pra cima descaradamente de um deles… um bobão que dançava em cima da mesa, torto de bêbado:
- Ah, olha ali o fulano, que demais, ele tá dançando em cima da mesa.
E foi em direção ao sujeito.
Caminhei enfurecido em direção à saída. Iria embora! Chega, era o fim, muita humilhação para um dia.
No caminho encontrei o kiwi bêbado que estava conversando antes.
- Hey man! Do you want to meet some girls?
Inocentemente respondi:
- Sure
E ele chamou as duas garotas mais feias da festa.
Ele fez de sacanagem, só pode ter sido de sacanagem! Filho da puta!
-So, this is Jeny, and this is Emily
Cumprimentei as garotas e conversamos um pouco enquanto o kiwi saiu de fininho. Ele ainda sorriu pra mim por trás das meninas fazendo aquele gesto universal de "vai lá, garoto!"
Estava muito puto!
Nisso uma delas vira pra mim e diz:
- Can you buy us a drink?
Não era possível. Não estava acreditando que estava ouvindo aquilo:
- S-sorry... what did you say?
- I asked if you can buy us a drink.
E então eu explodi
- What the fuck are you talking about? Do you have any idea of what you are asking me? Look to me girl, look to my clothes, look to my accent, look to my face! I'm from the third fucking world! I`m brazilian, we come here to clean your fucking shit. Don't come to me and ask for a goddamnit drink. I won’t pay you a drink! I have no fucking money to pay you anything. You!!! Can you hear me? YOU should pay me a fucking drink!
(Que porra você está falando? Você tem idéia do que está me pedindo? Olha pra mim garota, olha pras minhas roupas, olha pro meu sotaque, olha pra minha cara! Eu sou do terceiro mundo, caralho! Eu sou brasileiro, a gente vem aqui limpar a merda de vocês, porra. Não me venha pedir pra pagar a merda dum drinque. Não vou pagar! Não tenho dinheiro pra te pagar porra nenhuma. Você!!! Tá me ouvindo? VOCÊ deveria me pagar a porra dum drinque!)
Quando terminei de falar a última palavra, ainda respirando com dificuldade, a música terminou. Elas me olharam durante aqueles míseros segundos até que o próximo hip hop escroto começasse.
Uma delas deu uma tragada e estendeu o cigarro que fumava em minha direção:
- Do you want to smoke?
- YES!! Thanks.
Acabei aquela bituca e saí. Estava puto, mas não entreguei os pontos. Iria para o Boogie Nights sozinho… que se foda!
Na porta o segurança me olha de cima para baixo e diz:
- Hey mate! You cannot get in with these shoes.
Voltei enfurecido para o backpack. Chegando lá não consegui abrir a porta.
O quarto não tinha tranca, mas Tommy colocou um armário pra bloquear a entrada e, de dentro, gritou:
- Hey mate. Just a minute. I'm finishing something in the room.
Após alguns minutos uma loira sai do quarto, e ele me recebe sem camisa, todo suado e com um sorriso no rosto:
- Thanks mate. I owe you one!
Dei um sorriso sem graça e fui dormir.

31 Outubro 2006

Ei,mãe, estou no exterior!

Camila me deu uma força no começo. Ela me mostrou os principais lugares da cidade, me levou para o supermercado e me deu alguns cigarros. Quando trocávamos mensagens pelo celular, ela sempre dizia que me ajudaria quando eu chegasse na cidade. No entanto, às vezes tenho a impressão que ela está bem mais fudida do que eu, e, no fim das contas, acabei ajudando mais a ela do que ela me ajudou.
Camila veio para Christchurch porque tinha alguns amigos que trabalhavam numa fábrica de pizzas. No entanto, o serviço é ilegal, ela não ganhou visto e trabalha a seis meses sem garantia nenhuma. Tudo bem que sempre ganhou o salário direitinho e, ao longo desse tempo todo, conseguiu juntar uma graninha razoável, mas por outro lado ela teve que pagar uma fortuna para renovar seu visto de visitante e, caso seja pega trabalhando na fábrica, é deportada e nunca mais pode viajar para o exterior.
Além de me indicar o supermercado mais barato da cidade não tinha muita coisa que ela pudesse fazer por mim.
Às vezes penso que minha viagem está sendo uma merda, mas quando vejo pessoas como Camila, tenho certeza de que tem sempre um que está pior. Ela esta há seis meses em Christchurch, não fala nada de inglês, vive só com o pessoalzinho da sua cidade (Lajeado - RS), não conhece o museu, não conhece a biblioteca, nunca foi no cinema, não freqüenta teatro, mal vai pra balada e não entende nada do que vê na TV. Enfim, não tem vida.
A maioria dos brasileiros que vem para a Nova Zelândia tem o mesmo perfil de Camila: vem pela grana e pela fama. É estranho, mas a maioria dos que encontrei por aqui tem uma postura de superstar, todos limpam privadas e comem cocô, mas sempre mantém a postura de um vencedor. Imagino que eles devem se vangloriar pelo fato de estarem no exterior, provavelmente ligam para suas famílias e contam maravilhas sobre a vida aqui fora, devem mandar fotos em montes nevados, fazendo joinha e com um sorriso de rei nos rostos. Não sei porque, mas, de todos os estrangeiros, os brasileiros são os únicos que parecem estar mais interessados em se mostrar do que em ver o que é mostrado. Eles não querem aprender inglês, não querem mergulhar numa nova cultura, não querem refletir sobre o que essa experiência vai lhes trazer. Não! eles vêm para mandar essas fotos idiotas em montes nevados e se perder em pensamentos do tipo: fulano deve estar morrendo de inveja agora.
Se você é brasileiro já deve ter ouvido com certeza alguma história de alguém (amigo, familiar ou conhecido de conhecido) que foi para o exterior e voltou com milhões, trocou de carro e comprou casa própria. Pois não se iluda com essas histórias! Os brasileiros no exterior são como ratos, como piratas que andam em bando e saqueiam a economia de outros países a fim de poder provar aos seus que são capazes de trocar de carro. Grande merda que você está no exterior! Qual a vantagem disso se você vai voltar com a mesma cabeça e os mesmos preconceitos? Vale a pena perder alguns anos da sua vida para se aparecer aos amigos quando voltar? É isso que me irrita nos brasileiros na Nova Zelândia… São um bando de egoístas, ególatras e vaidosos do caralho!
Mas Camila parecia ser uma boa pessoa, dizia estar de saco cheio do pessoal de Lajeado e jurava querer conhecer gente nova. Eu, por minha vez, prometi que iria ajudá-la, que ia ensinar inglês, que íamos fazer novos amigos, que ela não precisava depender de brasileiro nenhum, que tudo ia melhorar.
Mas certos brasileiros nunca mudam.

28 Outubro 2006

Cotidiano

Se existe uma coisa que o ser humano não consegue escapar é da rotina. Mesmo com a vida de cabeça pra baixo ainda conseguia identificar um fiapo dela nos meus primeiros dias sozinho na cidade grande. Acordava, trabalhava e procurava emprego durante a tarde.
Durante essa primeira semana em que morei no Charlies B's e trabalhei no motel na Colombo Street, descobri que a vida na cidade pode ser bem mais solitária do que no campo. Camila trabalhava direto e eu não tinha mais ninguém para conversar durante todas as 24 horas do meu dia. No Motel o trabalho era bem individual, mal via minhas colegas de trabalho: fazia os quartos sozinhos e ligava o rádio na Solid Gold (uma espécie de Kiss FM da Oceania). À tarde entrava nos lugares e sempre repetia a mesma frase:
- I'm looking for a job.
Os dias pareciam ser todos iguais, acho que pelo fato de eu vestir sempre a mesma roupa: minha jaqueta de couro e minhas calças jeans com manchas de terra. Às vezes sentava num banco de praça e olhava os turistas, milhares deles de todas as partes do mundo. Você acaba descobrindo que as alemães sempre viajam em dupla, os franceses sozinhos, os orientais em bandos e os latinos em gangues. O que você faz depois dessa descoberta é uma coisa que ainda não descobri.
Virei um garoto de rua, saía do serviço e não voltava pro backpack até o sol se pôr. De vez em quando até voltava à tarde para bater um ranguinho rápido, já que nunca comia na rua - não existem yakisobas de 3 reais, cachorros quentes de 1,50 e churrasquinho grego de 50 centavos na Nova Zelândia, mas existe o pack'n save, que é um super mercado no qual você empacota suas próprias compras (acho que eles revertem a grana economizada com os empacotadores e fazem os produtos mais baratos). Comprava umas frutas e noodles pra deixar de pit stop depois.
Outra descoberta importante é a de que é muito mais radical viajar para um país de primeiro mundo sem dinheiro do que passar uma temporada no terceiro mundo com seu American Express Card. É uma merda viajar sem grana, você não pode fazer nada, pegar um ônibus fica difícil e você passa na frente de algumas vitrines de comida e tem aquela sensação horrível de não poder comprar.
Acho que durante um tempo eu virei uma espécie de figura lendária no centro de Christchurch. Sabe aqueles mendigos que você sempre vê no centro e fazem parte do cotidiano da cidade? Pois bem, era eu. Acho que em alguma loja, lanchonete ou bar alguém deve ter reparado naquele sujeito que passava o dia na rua com aquela jaqueta vagabunda, aquelas calças quase caindo e aquela mochila toda suja nas costas. Um sujeito que com certeza não tinha dinheiro pra cortar aquele cabelo enorme e feio. Até imagino a cena, dois sujeitos de aventais na hora do intervalo, e um cutuca o outro:
- Hey mate, look that guy again. What the hell he is looking for?

26 Outubro 2006

Charlies B's

Christine me deu uma carona naquela manhã de segunda-feira. Senti que ela ficou bem triste com minha partida. Durante a semana em que fiquei lá conversamos durante horas e mais horas, era um papo agradável, bem divertido e interessante. Também fiquei com um certo peso em ter que abandoná-la, mas tinha que continuar minha viagem, não poderia perder meu tempo pintando janelas e cortando grama… Não! Tinha banheiros para limpar.
Escolhi um backpack perto do centro chamado Charlies B's. Paguei 126 dólares para ficar uma semana em um quarto duplo, o preço era o de um quarto coletivo para 8, mas eles não tinham mais vagas e a mocinha da recepção me ofereceu esse pelo mesmo preço… é claro que com a seguinte ressalva:
- The room is cheap because there is no lock in the door. It's broke! Is that all right for you?
Aceitei! Grande merda que não tinha tranca a porta. Não tinha nada para ser roubado mesmo. Se roubassem minha mochila pelo menos ia ter uma desculpa para não pagar minha multa.
Chegando no quarto, encontrei um cara deitado na cama lendo "Cold Blood"
- Hey man! How are you doing? My name is Tomy from Ireland*
- Hi! Nice to meet you! Thiago from Brazil.
- Sorry
- Thiago!! T-H-I-A-G-O
- Ah, ok, Nice to meet you Diago
O Charlies B's tinha tudo para ser um lugar bacana. Na verdade é um lugar bacana, só que não gostei de ficar ali. O backpack foi construído num antigo prédio estilo colonial, e é muito style! Tem 4 andares e centenas de quartos espalhados. Do lado de fora tem até uma daquelas escadinhas que você vê nos filmes americanos, especialmente nos de ação, do tipo que os mocinhos sobem correndo se esquivando dos tiros dos bandidos. Pelos corredores você encontra vários turistas dos mais diferentes cantos do mundo. No primeiro andar tem uma salinha com televisão, uma cozinha, um salão com computadores, outro salão com mesas para comer e mais outro com jogos tipo pimbolin e ping-pong. Os banheiros são coletivos, bem ao estilo rodoviária. Uma merda! principalmente se você esqueceu seu chinelo em Cromwell. E tem também o quarto onde fiquei, que como não poderia deixar de ser… também é uma merda! Mas tirando o banheiro e o dormitório, até que seria divertido ficar ali, principalmente se estivesse com amigos.
Durante o tempo que fiquei no Charlies não fiz muitas amizades. Mal via o irlandês que morava comigo e os outros viajantes não eram muito abertos, sempre viajavam em grupo e não faziam muita questão de se misturar. Pra falar a verdade conversei umas duas vezes com um inglês que também viajava sozinho e cozinhava sempre no mesmo horário que eu. Seu nome era Lee, tinha esse nome estranho, mas era bem inglês, fisicamente e acentualmente falando. Ele estava na Nova Zelândia procurando emprego, mas estava decepcionado com os salários.
- This fucking country is a shit to get money!
Respirei fundo e concordei com a cabeça!
Ele me deu algumas dicas, disse que eu precisava ir pra Londres, que tem emprego de monte por lá, que o salário é bom, que eu não ia me arrepender e, por fim, me deu seu e-mail dizendo:
- Go to London and send me an e-mail… I can find a job for you! You have to get out this fucking country, it's not good for you.
Fiquei quieto, nem disse que tivera o visto negado pra Inglaterra. Não sei o porquê, mas sempre quando o faço, recebo algumas reações negativas, como se eu não fosse uma boa pessoa, fosse um marginal ou um terrorista. Sempre opto por esconder aquele carimbo no meu passaporte. Uma cicatriz que vou levar pelo resto da vida… ou pelo menos enquanto não tirar outro passaporte.
* Correção feita pelo leitor Douglas Miura.

22 Outubro 2006

Meios períodos que não se encaixam

Tentei rezar um dia. Não sou muito bom. Não sei como pedir as coisas, tenho medo, vergonha, sei lá. Tenho medo de parecer agressivo, do tipo: ou o senhor me dá isso ou vai ter hein! E vergonha pelo fato de ter que pedir, não gosto de pedir… só peço cigarros e olhe lá. Acabei fazendo uma prece curta agradecendo primeiramente por tudo o que estou passando (sei que é um absurdo, mas também não queria começar parecendo ingrato) e pedindo para arrumar um emprego na cidade, de preferência num local cheio de mulheres.
Descobri que o principal problema não é parecer agressivo ou ingrato, mas sim pedir as coisas com falta de precisão. Acabei arrumando um emprego na cidade, mas como não tinha especificado o tipo acabei caindo no ramo de house kepping novamente. E de fato o lugar era cheio de mulheres… todas com mais de 60 anos.
Tudo aconteceu numa segunda-feira. Tinha trabalhado oito horas no domingo e Christine me deu a segunda-feira livre para ir a cidade procurar por algo. Liguei pra Camila e fomos juntos. Deixei currículo em todos lugares possíveis e inimagináveis e, quando já estávamos quase indo embora, resolvi entrar num desses motelzinhos pequenos e sem futuro para uma ultima tentativa.
- Hi! I'm looking for a job!
Na recepção estava um kiwi de meia idade, alto, um tanto vesgo e com umas orelhinhas engraçadas.
- Ok, we need someone to do the cleaning. Do you have any experience?
- No! (aonde quer que eu vá sempre escondo a maldita experiência naquele hotel em Queenstown, me dá calafrios só de pensar que alguém pode ligar para Karen, a chefe-mais-filha-da-puta-que-já-tive-na-vida, pedindo referências minhas)
- Ok, no worries. Can you come tomorrow?
- Er… sure, off course.
Chegando em casa contei a novidade para Christine. Ela ficou contente, mas seu sorriso diminuiu alguns centímetros quando disse que trabalharia de manhã.
Na verdade minha intenção era continuar vivendo ali, economizar no aluguel, trabalhar meio período na cidade, outro período à tarde, levantar um dinheirinho e continuar comendo tomates secos. Era impraticável me atirar no centro somente com aquele emprego. Primeiro porque era só meio período, segundo porque não tinha dinheiro para pagar por um flat e terceiro porque não tinha conseguido sentir ainda qual era a da cidade.
Fiz esse esquema por três dias, no quarto Christine chegou pra mim e disse:
- Look, I'm not hassling you, but for me it’s not working. I need someone here in the morning.
You have to choose between your job in the city or your job here.

Pronto, o destino posicionou seu cavalo. Agora era minha vez de jogar. Decisões, malditas decisões. Toda hora tendo que tomá-las.
Ir para a cidade ou esperar mais um pouco? O que fazer?

…Decidi arriscar.

Durante o tempo que passei na Nova Zelândia descobri que os kiwis são muito corretos. No geral são bem simpáticos, mas possuem uma ética interna que ainda não entendo muito bem. É um misto de egoísmo com praticidade. Do tipo: o que é certo é certo! No Brasil sempre existe uma terceira via, sempre dá pra escapar, o jeitinho sempre funciona. Aqui é impraticável, por mais mansa que seja sua fala você nunca vai amolecer o coração de um kiwi. E eu confesso que tentei! Tentei com a policial que me deu a multa, tentei com a dona da garagem que rebocou meu carro, tentei com a atendente do hospital, tentei com o mecânico e tentei com Christine. Eu chorei para todos, contei com detalhes dramáticos minha historia e implorei por ajuda. E, em todas às vezes, sempre ouvi:
- Sorry, but there's nothing I can do.
Não estou querendo dizer com isso que Christine me expulsou de sua casa. Não é isso. O fato é que se não funciona pra ela não funciona pra ela. O que diabos tenho a ver com seus problemas.
Trabalhei oito horas numa quinta-feira, pedi folga no serviço que recém arrumara e saí na quinta para caçar um teto.
A primeira coisa a se fazer é dar uma olhada nos notice boards, percorri uma dezena de backpacks, cyber cafés e bares, depois disso comprei um jornal e listei as melhores ofertas, em seguida fui até a Internet e fiz diversas buscas em sites e, por último, chequei a lista telefônica. Após um dia inteiro de intenso trabalho listei as melhores opções numa folha de papel, fiz um rol de lugares cujo preço e localização fossem bons.
Cheguei a conclusão que tinha a incrível marca de 1 item na minha lista.
Era um tal de Urbans Rooms, achei o local na lista telefônica, na verdade nunca teria tido a idéia de procurar ali, mas havia mandado uma mensagem para um flat interessante que achara num notice board de um café e o sujeito me respondeu:

Sorry, it's not available any more. Try the urbans rooms!

Respondi:

What is that, do you have the telephone?

Alguns minutos depois meu celular apita:

Come on! Look in the phone book your lazy bastard.

Fui até o local, Hareford street, bem perto do centro. Chegando lá Robin (uma jovem kiwi) estava me esperando. Por fora já vi que o flat não era grande coisa, mas quando entrei tive certeza de que o lugar era uma merda! Ela me apresentou dois chilenos e um canadense que viviam ali e me mostrou meu quarto.
- Ok, this is the room. It's 100 dollars per week including power, telephone and sky tv.
Uma porcaria o quarto! Fedia mofo, todo sujo, tudo velho, tudo podre.
Agradeci e disse que ia pensar.
Haha! No way! Pensar o caralho!

Situação: tinha arrumado um lugar para dormir que tinha tomate seco disponível na dispensa, tudo bem que tinha que trabalhar 4 horinhas por dia, mas era um serviço não muito pesado e até agradável diria. Logo depois arrumei um emprego na cidade, não era grande coisa, na real era um cocô, mas era um emprego, e eu: um desempregado que trabalhava por comida. No entanto os dois eram incompatíveis. Fiz minha escolha: troquei a praia, os tomates secos, a vida saudável, as caminhadas na floresta e as conversas animadas com Christine por algumas horas de trabalho em banheiros sujos de um motel vagabundo no centro da cidade.
No entanto não tinha um teto no centro, nem tinha previsão para tê-lo. Continuava com os mesmos 400 dólares no bolso e não conhecia ninguém à parte da brasileira do aeroporto.
O que fazer?
Fui para onde todos que não tem onde ficar vão. Botei minha mochila nas costas e baixei num backpack.

18 Outubro 2006

Sopa de abóbora, pão integral, tomates secos e mais algumas coisinhas que não tenho a menor idéia do que sejam

Quando cheguei em Christchurch me encontrei com Camila na praça central. Ela estava igual, exatamente como eu me lembrava do aeroporto. Já eu deveria estar bem diferente. Ela não me reconheceu de imediato e pude ver uma fagulha de decepção nos seus olhos quando o fez. Você não fica 3 meses na roça, comendo pão com atum e permanece o mesmo.
Comemos um lanche no Mcdonald's. Eu que escolhi o lugar, não sou muito fã de Mcdonald's, mas precisava comer um Big Mac. Era minha reintegração a sociedade. Minha volta ao capitalismo.
Logo depois mandei uma mensagem para Christine.

Hello! I`m in Christchurch now. Can you take me in the Macdonald's at Colombo Street?

Christine McCurdy era a dona da casa que eu trabalharia nos próximos dias. Quando ainda estava em Cromwell revirara o guia do WWOOF para encontrar o local mais perto da cidade. A casa de Christine ficava em South New Brigton, um subúrbio de Christchurch, não muito perto, mas também não muito longe. Liguei pra ela e deixamos tudo acertado, ela viria me pegar no centro assim que eu chegasse.
Quando entrei no carro ela fez uma cara feia quando disse que estava jantando no Mcdonald's.
- Did you eat that?
Ela deu uma carona para Camila até a casa dela e depois fomos direto para South New Brigthon.
Christine é uma pessoa extraordinária. Uma senhora na casa dos quarenta, baixinha e bem falante. Ela vive sozinha e trabalha três vezes por semana no ministério da saúde em Christchurch. Separada e mãe de 2 filhos (um está no Japão e outro cursa faculdade em outra cidade), ela aproveita a vida a sua maneira. Tem 5 gatos velhos na casa e um cachorro meio estranho e engraçado chamado Jack. Muito curiosa, ela vive perguntando coisas sobre o Brasil, sentava na hora do jantar e me fazia trocentas milhões de questões.
Resolvi abrir o jogo para ela e contei o real propósito de estar lá.
- I'll look for a job in the city.
Contei que capotei meu carro, que perdera tudo o que tinha, que viajava sem dinheiro, que era um homeless, que não tinha onde cair morto e, por fim, que não era vegetariano.
Ela foi bacana, disse que eu poderia trabalhar oito horas num dia e tirar o outro de folga, que eu poderia usar seu telefone para fazer contatos e que compraria um frango para eu comer.
Meu primeiro serviço fora pintar uma janela. Ela me deu umas tintas, lixas e perguntou se eu já tinha feito isso alguma vez na vida. Respondi que não, mas que tinha um tio que era um grande pintor no Brasil.
- So, you used to help him?
- No, just looked.
Ela me deu algumas instruções básicas, colocou um rádio para mim do lado de fora e me deixou sozinho. Fiz um bom serviço, confesso que estava com medo de quebrar algum vidro ou cair da escada e quebrar uma perna. Mas dessa vez deu tudo certo. Demorei alguns dias para terminar tudo, mas ela ficou bem contente com o resultado.
- Oh Diago (a maioria dos kiwis pronunciam meu nome assim)!! It`s beautiful!
Durante o tempo em que fiquei lá tive um estilo de vida bem diferente. Aprendi que vegetarianos não são tão patéticos quanto eu imaginava e descobri que eles comem muito melhor que a maioria dos carnívoros. Eu, por exemplo, posso dizer com segurança que nunca comi tão bem durante toda viagem como na casa de Christine. Tudo bem que ela me comprou o tal frango, mas nem precisava, a variedade de comidas que ela fazia era infinita. De manhã comia quatro torradas com mel e tomava um copo de café. No lanche uma banana, pão integral com uns negócios verdes que não tinha a menor idéia do que eram e um copo de chá. No almoço sempre algo bem diferente como sopa de abóbora ou salada com mais algumas coisas que também nunca vira na vida. O cardápio às vezes incluía coisas finas como tomate seco e azeitonas, e eu tinha permissão de abrir a dispensa e comer o que quisesse. E eu, de fato, usufruía desse direito. Fazia uns sanduíches enormes e atolava de tomate seco e outras coisas que pareciam ser caras.
Os trabalhos e a comida me fizeram sentir bem. Renovei minhas energias. Senti meu corpo funcionar melhor e recuperei uns 3 pontinhos na barrinha de vida.
À tarde costumava fazer caminhadas na beira da praia ou na floresta. Às vezes Christine ia comigo e levava Jack, o cachorro estranho, na coleira. Foi um período bacana, aprendi bastante sobre a vida simples. Por alguns dias esqueci minhas preocupações, melhorei meu inglês e me preparei para o que estava por vir.

16 Outubro 2006

Jogando contra o destino

Antes de sair de Cromwell tracei um plano que não tinha como dar errado. François me deu a mota de que existe na Nova Zelândia um programa chamado WWOOF que é um lance meio hippie no qual você trabalha em troca de acomodação e comida. A maioria dos freqüentadores são vegetarianos com camisetas do Greenpeace, que separam o lixo e lêem sobre o aquecimento global. Não sou desse tipo, mas se contar o estado que cheguei em Christchurch, passaria até por testemunha de Jeová para ganhar rango e teto.
Outra parte do plano consistia em ter uma pessoa de confiança na cidade. Escolhi Camila, a garota do aeroporto. A primeira vez que trocamos e-mails foi quando eu ainda estava em Queenstown; na época mandara um e-mail com uma foto que tirara dela no aeroporto. Depois disso trocamos telefone, nos adicionamos no orkut, msn e acabamos selando a amizade virtualmente.
Era isso. Os dois pilares que me ajudariam a recomeçar. Quando peguei aquela carona na manhã de sexta-feira, não tinha mais que 400 dólares, e esses 400 dólares não incluíam a multa (a policial me deu um prazo de 2 meses para pagar) e a conta no hospital cujo prazo já estourou há muito tempo.
Precisava ter um plano e ele tinha que ser perfeito!
E claro que, como não poderia deixar de ser, deu tudo errado!
Mas o plano era bom! Me orgulho dele. Se as coisas não foram como planejei é por que o destino joga violentamente contra mim.
É como se fosse um grande jogo de xadrez. Um dia você acorda e as coisas parecem dar certo, no outro vai dormir com a certeza de que esta tudo errado. Cada dia é uma rodada diferente. Cada pessoa é uma porta nova, cada segundo é uma oportunidade, cada pensamento uma estratégia. Viajar sozinho tem dessas coisas. Você fica nu e cru diante do mundo. Seu melhor conselheiro é você mesmo, você aprende a ouvir sua voz interior e prestar atenção em todas as alternativas. Às vezes você beira a loucura, começa a achar conexões malucas, não entende o funcionamento do acaso e faz analogias idiotas do tipo: se eu acertar esse papelzinho no lixo a uma distância de 8 metros é por que o destino quer que eu abandone a cidade e vá para Fiji só com a roupa do corpo… ou: se o ônibus passar em menos de 5 minutos é por que o meu destino hoje é comer macarrão em vez de arroz.
No entanto não sou tão mau jogador de xadrez assim - era o terceiro no ranking de Cromwell. O foda é que meu oponente joga pesado, ele trapaceia às vezes. Se a porra do destino comeu meus cavalos, minhas torres, meus bispos e minha rainha, pode crer que ainda tenho meu rei. E se ele conseguiu virar o jogo após minha brilhante jogada, pode ter certeza que pelo menos umas três peças eu tomei dele.

14 Outubro 2006

Terceira Temporada - On the Road

Os primeiros minutos são bacanas. Sozinho ali com aquela placa na mão sua adrenalina corre e você se sente realmente vivo, capaz de tudo. É como se estivesse num filme, fosse um personagem de ficção, um beatnik, um sem destino. O problema é que são só nos três primeiros minutos… é uma merda, mas a vida real não tem edição. Não que demore uma eternidade para conseguir uma carona na Nova Zelândia, mas é que após esses três minutos toda aquela excitação se transforma em tédio.
Andei de um lado para o outro por uns 40 minutos. Parava, chutava uma pedra, voltava, esticava os braços, as pernas, fazia exercícios com os ombros. E nada de carro.
Durante todo tempo que esperei devem ter passado somente uns 4, mas todos acenavam dizendo que iam para outra cidade. Já tinham me dito que dificilmente alguém iria para Christchurch dali, eram mais de 5 horas de viagem, uma distância bem considerável para alguém pegar um desconhecido assim na estrada.
Foi então que um caminhão gigante encostou alguns metros à frente. Peguei minhas malas e fiz a corridinha básica.
- Where you going mate?
Mostrei a placa
- I`m not going to Christchurch, but I can drop you in Ashburn. I think you can get another lift from there.
Bruce é um velho kiwi desses de interior, usava um shorts, uma camiseta xadrez e fazia um movimento engraçado com a boca enquanto dirigia, como se estivesse mascando um chiclete imaginário. Tentei puxar assunto, perguntei seu nome, o que fazia, essas coisas que se perguntam quando se pega uma carona com alguém que você nunca viu na vida.
- My name is Bruce. I work transporting water tanks. You see this big truck fella. It`s for the water tanks! huge water tanks. Very big. You`de be surprise if you see one of them.
Tentei conduzir o assunto, mas todas minhas tentativas caiam sobre os tais water tanks. Ele tinha aquele sotaque puxado do pessoal do interior, bem difícil de entender. Algumas palavras vinham seguidas de perdigotos que voavam sobre o volante. Não sei porque, mas Bruce era pra mim uma mistura de um pirata (desses típicos que você vê em filmes) com um integrante da família buscapé.
- You see, there are lots of kinds of water tanks. I transport the biggest ones. Very big boy. You don`t see very often trucks like this. I`m a very skilled driver.
Disse para ele que era do Brasil, que estava viajando na Nova Zelândia, que batera meu carro duas semanas antes, que trabalhara dois meses nas vineyards de Cromwell:
- Did you work in the vineyards boy?
- Yes
- What a hell! So you’ve probably already seen a water tank!
Acabei dormindo. Não que não me interesse por water tanks, mas é que estava muito cansado do dia anterior.
Acordei com uma freada brusca. Tenho certeza que foi de propósito, já que nem tinha aberto os olhos direito, e Bruce começou a me acelerar pra sair do caminhão.
- It`s here boy! You go to that road and probably will get a ride to Christchurch.
Eu estava bêbado de sono, ainda zonzo do cochilo, mas ele não quis muito saber, começou a empurrar minhas malas e se despedia enquanto isso:
- Take care boy. Nice to meet you. See ya. Take your bag. Hold on. Take your jacket. Ok! See you.
Esfreguei meus olhos e dei uma olhada para saber onde estava. Pela primeira vez desde que chegara na Nova Zelândia podia sentir o clima de uma cidade grande. Não que Ashburn seja uma dessas metrópoles, mas para quem passou os últimos meses em cidades com uma media de 10 mil habitantes, algumas centenas de milhares a mais já fazem a diferença.
A avenida principal era bem movimentada. Tinha perdido o costume e demorei um bom tempo para tomar coragem a atravessar. Escolhi um local apropriado, olhei em volta, desci a mochila e levantei novamente o dedão.
Dessa vez foram só uns 20 minutos:
- Hi there! I`m not going to Christchurch, but I can drop you in the right road. This place is not good to take a lift.
Era uma kiwi de uns 20 anos com um cachorro gigante no banco de trás. Ela dirigiu por apenas alguns minutos e me deixou na saída da cidade. Se despediu com um simpático:
- Good luck.
Novamente levantei o dedão e um outro carro parou. Dessa vez era um garoto, um jovem kiwi chamado Tom. Ele morava em Ashburn e estava indo para Christchurch devido a uma grande rave de iria rolar no fim de semana.
Apesar do duvidoso gosto por raves, ele ouvia Rolling Stones no seu CD player. Conversamos um pouco sobre música. Contei que tinha ido no show dos Stones em Copacabana e ele ficou admirado. Não foi lá essa admiração, mas foi o bastante para eu dar um sorriso orgulhoso, balançar a cabeça e dizer:
- Yeah men!
Finalmente chegamos em Christchurch. Tom me deixou no centro, bem na frente de um backpack. Meu plano inicial era deixar minhas coisas no guarda volume e dar uma olhada na cidade. Mas a merda do backpack não tinha guarda-volumes.
Andei sem destino com todas minhas malas até achar a Cathedral, o ponto de referência da cidade. Sentei num banco na praça central, respirei fundo. Pensei em comer alguma coisa, mas não. Abri a mochila e mordi uma maçã.
Depois de alguns segundos recebo uma mensagem no celular:

Ta e ae? Já chegou?
Respondi:
Já, tô aqui!

11 Outubro 2006

Flashback

Aeroporto de Auckland, 15 de Abril de 2006.

Há dois anos fiz uma viagem para o nordeste de ônibus. Foram quase 50 horas cruzando o sertão pela 105. Pensei então que encarar 12 horas de avião para a Nova Zelândia fosse ser mamão com açúcar. O problema é que aviões não fazem paradas, e a classe econômica é feita especialmente para você sentir dor e se penalizar por ser pobre. É como uma recado das companhias: ok, nós levamos você seu pé rapado, mas você vai sofrer por isso.
Cheguei destruído no aeroporto de Auckland. Como se não bastasse teria que pegar outro avião para Queenstown. Algumas horas antes de sofrer nos ares, havia esperado 10 horas no aeroporto de Buenos Aires só para fazer a conexão.
Conversei um pouco com uma brasileira, mas ela parecia muito assustada para trocar mais que uma ou duas palavras. Ela ia fazer intercâmbio em Auckland, mas não abriu muito o jogo, só ficava lá roendo as unhas com um bichinho de pelúcia no colo. Talvez estivesse só seguindo os conselhos de sua mãe que, muito provavelmente, a alertou sobre pessoas que poderiam colocar drogas na sua mala ou veneno na sua comida. Não a culpo por isso, mães são assim mesmo.
Quando embarquei, já no avião, sentei ao lado de uma australiana. Tentei novamente puxar assunto, mas dessa vez fora eu o culpado de não ter conseguido ir muito longe.
- Hi
- Hi
- blablabalbalba
- sorry
- blablablababa where you from?
- Ah!… Brazil
- Cool! Nice to meet you blablablablablab
- Thanks
- blablablablablablab
- sorry
- blablablablabla
Ela desistiu. Não se dirigiu para mim nenhuma vez mais durante toda viagem. Fiquei com uma ponta de vergonha pela minha ignorância, mas não podia fazer nada por enquanto.
O que eu não sabia é que naquele mesmo avião, exatamente um assento atrás de mim, viajava uma brasileira que se divertia com a situação.
Quando chegamos em Auckland de madrugada caminhei por entre um corredor de vidros até chegar perto de três policiais com cães farejadores. Os animais chegaram bem perto e deram uma cafungada.
O policial olhou pra mim:
- blablabla go!
Entendi que era para eu seguir indo. Cheguei no guichê da imigração. Ela carimbou meu passaporte e me deixou entrar. No outro salão, após pegar minhas malas, um outro oficial chega para mim e pede meu passaporte. Ele olha, analisa, passa o dedo, testa a tinta e, por fim, me manda ir para uma fila onde um monte de brasileiros aguardavam ansiosos para terem suas malas reviradas.
Esperei na fila. O clima era um tanto pesado, ninguém falava com ninguém. Todos ficavam ali em pé olhando os "homens da lei" desarrumarem toda bagagem que passamos horas para arrumar.
Nessa situação alguns segundos bastam para você traçar um perfil psicológico dos que estão na sua frente. Eram três oficiais: um maori gordo e forte com cara feia, um kiwi grande sorridente e outro mais parrudo e mal-humorado. Esse último parecia ser o pior; abriu a mala de um brasileiro e começou a atirar tudo na mesa. Todos na fila ficaram assustados com o jeito que o cara fazia isso, mas ele continuou revirando tudo até encontrar um ursinho de pelúcia rosa. Pegou o animal, olhou para o brasileiro e soltou um:
- What a hell mate!
E atirou longe o animal.
Nunca vou esquecer aquele olhar embaraçado e cheio de vergonha com que o pobre brasileiro encarou o pessoal da fila. Nessa hora eu agradeci a Deus por não ter deixado nenhuma namorada frescurenta no Brasil, do tipinho que me fizesse levar um bichinho daqueles na bagagem.
Foi então que me dei conta de que esquecera minha jaqueta com carteira e tudo no primeiro guichê. Meu primeiro caso de esquecimento em território estrangeiro já no aeroporto. Olhei para trás e disse para uma garota que estava em pé.
- Look my bags, please?
- Anh?
- I need go take my jaquet, can you look?
Disse com um monte de gestos e linguagem corporal que era impossível não entender.
Corri por entre os corredores rezando para minhas coisas estarem lá. Foi quando uma dezena de policiais correram pra cima de mim aos gritos:
- Hey STOOOOP!
Eles corriam violentamente e por alguns segundos pensei que iam pular sobre mim e procurar por alguma bomba ou algo do tipo.
- No no, sorry. Just go take my jaquet.
- blbalablablabla You can`t ballbbalbla run here blblablalba
- Ok, ok sorry! sorry!
Eles me escoltaram até o local. A jaqueta estava lá e eles a tomaram da minha mão e reviraram todos os bolsos. Não acharam nada e disseram:
- ok, you can go.
Voltei para a fila e o guarda que ia revirar minhas coisas, justamente o kiwi mais mal encarado, perguntou.
- blbbalbal Why bblabalb run?
- Take my jaquet.
- You can not blablabla
Depois de ouvir um sermão ele abriu toda minha mala, tirou tudo pra fora. Nada de muito comprometedor, um guia da Nova Zelândia, um dicionário, um livro em português (a metamorfose de Kafka) e algumas roupas velhas.
Ele abriu minha carteira, viu o montante mínimo necessário, contou tudo, perguntou se eu tinha cartão de credito. Mostrei meu cartão. Mostrei a carta da escola, mostrei tudo.
- You gonna work here?
- No, no.
- Sure
- Yes, yes. Sure.
- Ok lbalablabbla
- What?
Ele fez um gesto dizendo que eu poderia empacotar todas minhas coisas.
E foi assim que entrei na Nova Zelândia. Não posso dizer que me senti o mais bem-vindo dos seres humanos, mas de qualquer forma, enquanto andava em direção a saída, rumo ao desconhecido, a caminho da minha primeira experiência em solo estrangeiro comecei a me sentir cheio de vida. Um misto de felicidade e excitação. Podia ouvir sininhos e uma música dessas de filmes enquanto me dirigia ao portão que parecia estar sendo iluminado por alguma luz divina.
E foi então que um monte de oficiais veio correndo para cima de mim como da ultima vez.
- What a HELL are you doing mate?
- Ah?? What? Sorry
Eles apontaram nervosos para o outro lado do salão.
- The exit is in the other side!

Saí e tentei descobrir como faria para pegar o avião para Queenstown. Perguntei para alguns senhores que estavam num balcão de informações. Eles foram bem pacientes e me indicaram o caminho. O problema é eu que não entendia direito. Descobri que o melhor jeito para descobrir aonde ir era seguir os braços. Perguntava aonde saia o avião para Queenstown e seguia na mesma direção em que levantavam o braço. Perguntei várias vezes e cheguei ao local.
Despachei minhas malas, dei uma olhada nos jornais da banca e sentei num banco para esperar por mais 4 horas. Após alguns minutos vejo entrar a garota que tinha olhado minhas malas na fila da imigração. Ela vira pra mim e diz:
- Você é brasileiro né?
- Como você sabe?
- Vi você no avião tentando conversar com a australiana.
Ela iria pegar o avião para Christchurch. Conversamos um pouco e tomamos um café. O avião dela sairia algumas horas antes do meu.
Depois de alguns minutos nos despedimos, ela anotou o e-mail num pedaço de papel, me deu um abraço, um beijo e embarcou.
Na hora pensei em largar aquele papelzinho ali. Como diria meu amigo Vinicius: Lembre-se do filme Clube da Luta: amizades de avião são descartáveis. Além do mais, ficaria em Queenstown, estudaria numa escola bacana, trabalharia num lugar legal, conheceria várias menininhas do mundo inteiro, iria para várias baladas, ficaria rico e, se passasse em Christchurch, seria só para gastar meus milhões de dólares.
Coloquei o papel no lixo e virei as costas. Olhei em volta para achar meu portão de embarque. Pedi informação no balcão, segui a direção do braço da atendente que indicava o mesmo caminho que tinha percorrido.
Dei meia volta.
Andei.
Parei um pouco.
Caminhei em direção a lata de lixo.
Estendi meu braço.
Peguei o bendito papelzinho…

09 Outubro 2006

Últimas horas em Cromwell

Smurf foi uma das poucas pessoas que ficaram tristes com minha partida. Somente ela e Lindley me abraçaram e desejaram boa sorte ao fim do meu último dia de trabalho. Geralmente quando alguém sai para outra cidade ou para outro emprego eles fazem alguma cerimôniazinha especial, uma seção de apertos de mão, alguns abraços, tapinhas nas costas, votos de felicidades… Comigo foi meio diferente. Quando Smurf gritou "finish your plant" encerrando mais uma entre outras tantas quintas-feiras, todos entraram no carro e partiram como se fosse mais um dia normal. Eu, por minha vez, caminhei lentamente admirando cada vinha e pensando que, muito provavelmente, nunca mais andaria por ali de novo. Todos sabiam que era meu último dia, mas eu não era o perfeito exemplo de cara popular naquela vineyard.
Smurf me deu uma carona até em casa, ela sempre me levava quando Shon e Josy saíam mais cedo (e eles quase sempre saíam mais cedo). Um pouco antes Lindley, a chefe, me abraçou e me deu o telefone de sua irmã.
- When you arrive in Chrischurch go to her café. She`ll give you a free coffee and a free muffin.
Peguei o papel e guardei; pelo menos já descolara um rango na nova cidade.
Smurf me deixou em casa e disse:
- I`ll come back later to smoke one with you guys.
Quando entrei, encontrei François arrumando a casa. Dei uma mão, já que segundo o contrato o local tinha que estar bem limpo para entregarmos no dia seguinte. Claro que esse bem limpo pode ser interpretado de várias formas, mas no geral acho que fizemos um bom serviço.
Tomei meu banho e encontrei Smurf já sentada com o francês fazendo bolinhas no bong.
Depois chegaram Shon e Josy.
O que veio a seguir foram momentos inesquecíveis da nossa última noite em Cromwell. Praticamente todos os freqüentadores da casa apareceram: Meg e seu namorado, Jacques Chapinhon, Sanji, Peter.
Eu, no entanto, estava um pouco apavorado. No dia seguinte iria sozinho para outra cidade, sem dinheiro, sem casa, sem amigos e sem meio de transporte. Fumava com o olhar perdido, pensando no que me esperava. Como seria minha vida? Quais seriam os problemas dessa vez? Quem conheceria? Onde ficaria? O que comeria?
Foi então que Shon voltou do carro com uma fita nas mãos
- I have something for you, Thiaguinho.
E colocou no aparelho um tape do Bob Dylan.

Once upon a time you dressed so fine
You threw the bums a dime in your prime, didn't you?

Agradeci a gentileza. O israelense sabia que eu curtia Bob Dylan. Durante a noite inteira aquele tape rodou. Sempre que o "cleck" indicando o fim da fita soava, eu ou Shon íamos lá virar de lado. Bob Dylan foi a trilha sonora do nosso último dia.
Ouvi aquela gaita, dei um sorriso e fiquei mais confortável com a boa música. Voltei a refletir com meus botões. Como cheguei nessa situação? Como passei de um garoto classe média, formado, com casa, comida e bons amigos, diretamente para beatnik do outro lado do mundo.

How does it feel
How does it feel
To be without a home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

O que fazer? Pra onde ir? Em que acreditar?.

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?

O som da gaita rasgava no estéreo. As pessoas conversavam animadamente e eu só conseguia segurar uma cerveja quase virando no meu colo.

How many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?

E agora? O que fazer?

The answer, my friend, is blowin' in the wind.
The answer is blowin' in the wind.

Resolvi ir fazer minha malas.
Entrei no meu quarto três por quatro e olhei para minhas roupas velhas. Não tinha muito o que arrumar. Não comprara nada de útil nos últimos meses, só tinha uma calca suja de terra e uma jaqueta que nem o mais pobre mendigo da praça da Sé usaria. Sentei no chão e descobri que tinha mais contas do que roupas. Comecei a abrir os bolsos da mochila e descobri um terço que minha amiga Rita me deu. Coloquei a multa do acidente ali. Pensei em rezar um pouquinho… mas não. Só relembrei minha amiga e tentei esquecer minha aflição.
Nesse meio tempo escuto uma voz nova na sala. Super Model chegara com suas roupas apertadas de ginástica.
Ela foi me procurar no quarto.

She takes just like a woman, yes, she does

- E ae mocinho? Vai mesmo?
- Pois é!
Conversamos um pouquinho. Fazia tempo que não falávamos, éramos bem amigos no começo, mas com o passar do tempo ela acabou indo para a turminha do Valentino.
- Vim cortar o cabelo do François. Quer que eu corte o seu?
- Não, obrigado, vou deixar crescer.

She makes love just like a woman, yes, she does


Ela foi para sala enquanto eu terminava de arrumar as coisas. Decidi separar minha bagagem. Não levaria tudo comigo, deixaria uma mala com o Professor. Era melhor, estava indo para um lugar novo que não tinha a menor idéia de como seria, não queria passar o mesmo sufoco que passei em Queenstown quando tive que procurar backpack com uma mochila nas costas e uma mala nas mãos. Não, dessa vez levaria só minha velha e boa mochila de guerra, com poucas roupas e dois pares de cuecas e meias (você perde um monte de peso quando descobre que pode lavar suas roupas de baixo enquanto toma banho).
Nesse meio tempo Shon vinha toda hora pra me trazer alguma coisa:
- You can take this. I don`t need.
Peguei tudo que ele me deu. Não é todo dia que você ganha roupas israelitas de graça.
Pedi para Jacques me dar uma carona até a casa do professor.
Já era umas nove da noite e ele acordou com a cara amassada do travesseiro para atender a porta.
- Man, man. Isso são horas?
Deixei minha mala com ele, demos um forte abraço:
- Fica em paz professor. Valeu por tudo!
-Boa sorte man. Veja bem o que tá fazendo.
Voltamos para casa, e super Model estava sentada fumando ganja e bebendo uma cerveja.
- Mas você não ia cortar o cabelo do François?
- Eu vou!
Olhei para o Francês e perguntei:
- Are you sure?
- Not